APEGOS E DESAPEGOS

Por Jo Mistinguett

 

 

Esse processo é constante. Aqui tudo sempre pode ser alguma coisa ou outra. Pode ser nada também. O silêncio e o vazio dizem muito.

 

O barulho é constante, tem até uma janela dupla. Deixa qualquer um maluco. 14 anos ouvindo esse mesmo som. E cada vez mais ele aumenta. É tipo um ruído constante, que nunca para.

 

Tudo vai apodrecendo, morrendo aos poucos. Aumentando aos poucos, mas pode ser secando aos poucos. Cada segundo é um processo. Agora já mudou de novo.

 

O estímulo anda com a vida e a morte. Mais com a morte. O apocalipse acontece desde que o mundo existe. É impossível não falar sobre ele. Tudo é apocalipse.

 

A parede mofa, a banana apodrece, o cocô do gato fede. É melhor a corrente de ar que se faz quando abre todas as janelas. Só que quando abre a janela, o barulho entra. Tem que sempre escolher entre o ar fresco ou o silêncio. A parede fica preta de fuligem. Todo dia tem que limpar alguma coisa.

 

Apegos e desapegos, insônia. Não há mais medo, e sim blindagens. Um corpo conformado por blindagens.

 

A velha de 85 anos já não sabe mais quando é o próprio aniversário. O velho de 73 anos mal consegue levantar da cama. A criança que era um bebê já diz frases completas. E o chorão que foi plantado, virou árvore. Será que ainda existe? O gato morreu. Dois gatos morreram.

 

A segunda filha tem o olho que mudou de cor por causa de um acidente. A terceira filha mal se vê. O filho caçula tem pensamentos capitalistas e quer o gozo que o dinheiro pode proporcionar. Os outros que deveriam estar velhos morreram antes de envelhecer.

 

Ainda tem gavetas vazias e um espaço desocupado.

 

O sangue fraco perde rubor. Não pode mais sangrar. Nem sabe por onde sangra. O zumbido no ouvido fica mais forte e se mistura com o barulho que vem de fora. Do lado esquerdo o zumbido é mais alto, e as vezes não se ouve o que falam. O barulho de fora pode ser bom porque camufla o zumbido. Mas daí é uma barulheira constante. Pelo menos entra o ar fresco quando não faz muito frio. Quando tá muito frio a janela fecha e só se ouve o zumbido dentro da cabeça. Do lado esquerdo. Sempre o esquerdo.

 

O lado esquerdo sempre foi o lado preferido. É refinado, delicado, emotivo.

 

 

 

 

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