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Cabaret Macchina: mecanismo poético selvagem

Por Luciano Schmidt
Fotografias de Humberto Araújo

Praça Rui Barbosa, centríssimo de Curitiba. São quase 21h de uma noite quente-fria de começo de outono, e uma atração do Festival de Teatro traz para a rua um grande grupo de pessoas. Elas esperam pelo que não sabem em frente à sede da Rua da Cidadania Matriz. Luzes de palco estão montadas ao lado dos portões, com caixas de equipamentos cênicos e técnicos concentrados que fazem os últimos ajustes.

Sem aviso, uma figura elegante surge e o grupo começa a tomar forma à sua volta. Ela monopoliza a atenção com um vestido negro e um ultrajante chapéu em formato de meia lua. Repentinamente vai em direção a um púlpito de rodinhas e, ao badalar do sino da Igreja que faz parte do cenário da praça, começa uma leitura bizarra. Palavras que não são palavras, um idioma desconhecido e hipnótico soa por lábios precisos. Apesar da falta de sentido dos sons, é evidente que a figura sacerdotal lê cada palavra diligentemente. Sentindo o efeito de um mecanismo verbal desconhecido, estamos agora sob a influência do Cabaret Macchina.

A liturgia continua enquanto o elenco transpassa a multidão até se alinhar próximo ao púlpito, com seus corpos rígidos cobertos de roupas esdrúxulas. As penas e meias arrastão do cabaré tradicional contrastam com peças gritantes, acessórios excessivos, pedaços de objetos quebrados, maquiagens pesadas e botas reluzentes. Peças de figurinos clássicos em choque com a indumentária urbana. Lanternas viram iluminação cênica de mão. Alguém começa a falar. A multidão está desorientada, não sabe para onde olhar, gente subindo nos canteiros e bancos da praça para tentar conseguir uma perspectiva melhor. Mal sabia o público que a desorientação seria uma constante nessa noite.

Repentinamente a infantaria surreal começa uma marcha, que abre caminho pelo público e atravessa a praça, guiando olhares ansiosos por um palco que não tem as limitações convencionais. Aliás, nessa peça, nada há de convencional. Os limites físicos entre os atores e a platéia não existem. Os limiares entre personagens e intérpretes são tênues. Atropelando as ruínas da quarta parede, a tropa volta num movimento imprevisível e toma conta do terreno elevado de um canteiro, onde as pessoas tinham subido para tentar enxergar melhor. Mas para. Parou. É importante estabelecer aqui e agora que não posso ter a pretensão de escrever sobre esse espetáculo de maneira exata, numa apresentação linear dos eventos que transcorreram. É preciso estabelecer o local e dar uma noção de como as coisas começaram, mas um relato crônico de cada ato não é possível de ser traçado.

Enquanto a multidão se ajeita para prestar atenção na ação que começou às suas costas, a cena acaba sem aviso. O espectador incauto então percebe o movimento incerto das pessoas à sua volta e tenta se posicionar novamente para capturar uma cena que agora acontece à sua esquerda. Mas uma personagem passa ao seu lado falando e chama sua atenção para o outro lado. Mais uma cena acaba e o incauto, que antes estava na primeira fileira, agora não consegue ver nada enquanto a ação se desenrola em outro canto. A cada transição, a luta pela sobrevivência recomeça na tentativa de se posicionar bem na hierarquia caótica das cabeças e estaturas que se cercam.

Heiner Müller brota com força das gargantas selváticas, transfigurado pela pós-modernidade em manifestações poéticas e situações absurdas. O anjo do desespero abre suas asas de plástico para distribuir o prazer e o tormento dos corpos. Jasão e seus argonautas são evocados e rechaçados, Medeia e Eurípedes e Hamlet e Deleuze e Guattari e Homero e Hakim Bey são elementos de uma mitologia bastarda que ganha vida no Cabaret Macchina. Revolta e apatia, privilégio e brutalidade, sexo e consumo são temas retratados por mecanismos dramáticos em transformação ininterrupta, com canções repentinas entre monólogos e diálogos tão mordazes quanto engraçados.

Uma personagem relata a guerra que começou com um protesto contra as normas de trânsito. O conflito entre o Estado e os revoltosos escala violentamente com a tomada de prédios públicos e execuções de agentes, até que o interlocutor, sem sabermos direito como ou quando, se transforma na base de dados que sangra de seu pedestal, alimentando um sistema autofágico que sobrevive mesmo após o levante.

Excitados pela tragédia, os portões da Rua da Cidadania Matriz se abrem e o público segue o elenco, que marcha para a escuridão. A estrutura do local é composta por blocos de pequenas lojas, conformados como quadras entre pequenas ruas e vielas dentro de um enorme galpão. À noite as lojas ficam fechadas como caixas metálicas, enquanto grandes vidraças e grades sob um teto altíssimo dão uma atmosfera fabril a esse segundo momento da peça. Após a chegada da platéia no centro da Matriz, um ator canta uma ópera irreverente e apresenta cada integrante do elenco. Mas não é o fim, longe disso. Como dito, não há nada convencional aqui. Cada um entra em cena e toma sua posição em frente a algum instrumento, microfone ou objeto inusitado. É nesse momento que surgem os convidados especiais, Karina Buhr e Max B.O. Contrastando o figurino apocalíptico do elenco, os dois estão vestidos com trajes típicos nordestinos. Todos tocam em conjunto uma música estranha e envolvente, com uma estética industrial acentuada pelo uso de um serrote, uma placa de metal, um galão de água, cadeiras de ferro e outros objetos. Criam uma cacofonia nervosa que é harmonizada por uma maestrina de muletas.

Mal acaba esse interstício musical e a desorientação assalta o público novamente. A partir de agora, parece que tudo se acelera e as memórias se amalgamam. De repente uma música começa, ela vem se aproximando pelas ruelas da Matriz e um carro – literalmente um carro – abre caminho e para no meio da multidão, que logo tenta tomar uma nova forma para ver a flutuação de Ofélia. Uma cena angustiante e cômica satiriza o próprio universo da produção teatral, na figura de uma autoritária e confusa diretora de cena que comanda ações desconexas com o auxílio inútil de uma assistente. Karina e Max mandam um repente afiado sobre um pescador e os dominamentos do criador. As personagens desfilam pelo caos. Um banco de praça aparece no meio da multidão, entre os espólios humanos de uma revolução. Então Karina volta, agora com os cabelos insurretos e a voz armada que a consagrou. Sobre a base do tambor que toca, ela canta uma elegia às selváticas da companhia e do mundo. Elenco e equipe técnica se reúnem ao redor do banco sob uma luz rosada, encarando o público com olhares intensos enquanto a cantora conclui o espetáculo energicamente.

Essa peça é uma máquina de guerra. Uma constante desterritorialização das referências, uma liquidação das certezas sólidas e sórdidas que tutelam a vida nas cidades. A equipe da Selvática Ações Artísticas consagra sua trajetória transgressora com uma peça de teor altamente explosivo. Sob o caos fragmentado da poesia, pulsa uma afirmação política e destemida. O livreto do espetáculo, que em si é um trabalho gráfico excepcional, nos diz quem são: “Artistas que vivem o risco de não dissociar vida de sonho.” Risco que se mostra cada vez mais real no teatro da crueldade que é o Brasil em pleno 2018. Contrariando a caretice gélida da suposta república de Curitiba, a trupe ocupa os espaços públicos da cidade com um manifesto pela liberdade em todos os seus sentidos. Após as duas apresentações do Festival, em que contou com seus convidados especiais, a peça vai a outros bairros para chegar a um público cada vez mais diverso. Agora a guerrilha cultural penetra as veredas da selva urbana, num necessário confronto ao maquinário mental pestilento que sustenta o sistema vigente. Como o anjo de Müller, a máquina-selvática parece dizer:

“Minha esperança é o último suspiro.
Minha esperança é a primeira batalha.”

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Luciano Schmidt é formando em jornalismo pela PUC-PR.

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Projeto Macumba – Para além das poéticas cênicas, concepções estéticas, linguagem e do troféu Gralha Azul

Por Thiago Inácio

 

O dever de um artista pelo menos com a minha preocupação é o de refletir os tempos.
Eu acho que é verdade para pintores, escultores, poetas, músicos, no que me diz respeito,
é a escolha deles, mas eu escolhi refletir os tempos e as situações nas quais eu me encontro,
pra mim é o meu dever e nesse tempo crucial em nossas vidas, quando tudo
é tão desesperador, quando todo dia é uma questão de sobrevivência,
eu acho que é impossível você não se envolver […]
como você pode ser um artista e não refletir os tempos?
(Nina Simone)

 

A quem se presta a arte? Qual é o papel do artista? A Companhia Transitória, desde sua fundação, se prestou a mesclar e a transitar entre discussões e inquietações artísticas provocativas que pudessem de alguma forma refletir sobre nossos tempos. De lá para cá, nos aventuramos em questões de gênero, sobre violência e assassinatos, fizemos um ensaio fotográfico sobre a invisibilização do ser humano transformado em números, passando por relações familiares, pelo vazio existencial, até chegarmos nas questões ligadas à negritude.

Encontrar um caminho possível de linguagem, poéticas cênicas, concepção estética vem sendo uma busca dentro das proposições artísticas do grupo. O princípio de trabalho é a procura de parcerias com profissionais da área para a troca de experiências, ideias, conceitos e práticas relacionadas ao fazer teatral. A companhia subverte a lógica tradicional, onde a figura do diretor convida os artistas para sua criação, e realiza o caminho inverso, onde convida o diretor e os artistas que se encaixam com a proposta dos seus projetos artísticos de acordo com a temática pesquisada.

Outro foco de pesquisa do grupo é o estudo, a exploração e a ocupação do espaço cênico, levando em conta as relações entre espaço/ator/espectador. O grupo trabalha a partir de processos colaborativos, nos quais articula uma horizontalidade das funções dos profissionais envolvidos sem, com isso, eliminar as especificidades da área de cada um. A pesquisa se estende também para a relação com o espaço (mundo) interno e externo; o alerta máximo para a compreensão da ação; a valorização do corpo como ferramenta tão importante quanto o espaço na aventura do intérprete; e, por fim, a importância do não saber para criar, do caos para organizar e a importância da atitude permanente de jogo, sendo esses alguns dos temas perseguidos por todos num clima de mútua provocação.

Como deixar de ensaiar o “teatrinho de escola” e realizar uma proposição artística que comunique, dialogue com o público e de fato contribua para a sociedade com o discurso dessa obra de arte? Foi quando paramos de nos preocupar com o “fazer” artístico em si e nos voltamos para “quem” estávamos fazendo que encontramos nossa identidade.

O espetáculo “Macumba: Uma gira sobre poder”, com direção de Fernanda Júlia, encenadora do NATA – Núcleo AfroBrasileiro de Teatro de Alagoinhas, foi contemplado pelo Bolsa Funarte de Fomento aos Artistas e Produtores Negros 2014, na categoria de Artes Integradas, e também com o 4º Prêmio Expressões Culturais Afro BrasileirasPrêmio Afro 2017, na categoria Artes Cênicas.  A peça estreou em Curitiba, na Sociedade Operária Beneficente 13 de Maio, clube fundado por negros libertos no final do século XIX e de grande contribuição ao movimento de identidade negra em Curitiba, sendo o segundo clube mais antigo do país.

O espetáculo fez temporada de 12 e julho a 04 de agosto de 2016 fora do “métier” habitual do edifício teatral convencional e dos dias tradicionais, realizando apresentações de terça à quinta-feira. Voltado ao público negro e à comunidade periférica e de movimentos sociais, o trabalho teve 80% de sua bilheteria gratuita, fazendo com que a comunidade viesse até o centro para prestigiar a produção. Tamanha a repercussão, o espetáculo foi selecionado pela curadoria de Guilherme Weber (Sutil Cia) e Márcio Abreu (Companhia Brasileira de Teatro) para integrar a programação da Mostra Oficial do Festival de Teatro de Curitiba 2017, demonstrando que as curadorias estão ficando cada vez mais antenadas no que o teatro quer e precisa refletir: os nossos tempos! No entanto, no panorama brasileiro, ainda é nítido que a programação com espetáculos que abordam a temática da negritude ou que contenham artistas negros em suas grades de programação é muito tímida, haja vista a polêmica envolvendo a programação do FIT-BH – Festival Internacional de Teatro, Palco & Rua de Belo Horizonte, em 2016, onde entre as 70 atrações não havia nenhuma que contemplasse o teatro negro. Daí a importância do negro ocupar cada vez mais os espaços midiáticos, em curadorias, crítica, como mediadores de cultura etc..

É difícil produzir arte? E quando falamos de arte negra? Um processo artístico de ação afirmativa, em meio a nossa até então vigente e frágil democracia, é algo de extrema importância que ultrapassa o fazer artístico e entra no campo da representatividade. A dificuldade dos produtores e artistas negros e o escasso protagonismo das negras e negros permeia vários setores da sociedade, e não é diferente dentro das manifestações artísticas. Nesse contexto, a ausência do negro significa também a indiferença e exclusão da cultura negra em meio à majoritária produção artística de pensamento e olhar eurocentrado que é produzida em Curitiba.

A exemplo do Festival de Teatro de Curitiba, outras mostras se demonstram preocupadas em refletir os nossos tempos, abandonando velhos formatos. Um exemplo disso é a Mostra Cenas Breves (2017), que deu conta em sua grade de programação de abranger um leque de opções de representatividade muito contundente com a atual conjuntura. Podemos citar também a Mostra Novos Repertórios (2017), que convidou o espetáculo “Macumba: Uma gira sobre poder” para fazer parte de sua programação após uma revisão da curadoria, 100% branca, sobre a ausência do teatro e artista negro em sua grade.

O trabalho da Companhia Transitória era um dentre outras opções de artistas negros refletindo sobre a negritude, e aqui se faz necessário registrar os nomes da nossa cena, como: Geisa Costa, Isidoro Diniz, Simone Magalhães, Cleo Cavalcantty, Aline Fuá, Bea Gerolin, Carla Torres, Janine Mathias, Pretícia Jerônimo, Pri Pontes, Leonardo Cruz, Brenda Santos, Kátia Drumond, Inês Drumond, Dermeval Silva, Iria Braga, Michele Mara, Marcel Szymanski, Loara Gonçalves, Matheus Moura, Taciane Vieira, Ronald Pinheiro, Gilmar Rodrigues, Cássia Damaceno, Cássia Gomes, Pedro Ramires, Sol do Rosário, Dayane Paixão, Geraldo Magela, Marcyo Luz, Frank Souza, Dekka Santos, Mariane Filomeno, Aline Alexandre, Stênio Soares, Gabriela Reis, Constânia Matos Netto, Tulio Borges, Kariny Martins, Helmann Padilha, André Daniel Guarani-Kaiowá, Washington Silveira, Nelson Sebastião, Waltel Branco, Saul Trumpet, Tiaguera Nunes, Kanêga Santos, Lu Soares, Adriano Carvalhaes, Miriane Figueira. Esses nomes destacam um breve levantamento realizado em post via Facebook, no dia 09 de junho de 2017, buscando um mapeamento mais próximo possível da realidade da cena artística negra da cidade.

A construção do espetáculo “Macumba: Uma gira sobre poder” congregou uma conjunção de acontecimentos. O primeiro deles foi a mudança na trajetória artística da companhia, voltando-se para questões ligadas à negritude ao compreender as dificuldades e situações de invisibilidade da comunidade negra curitibana, o que originou o PROJETO MACUMBA, de 2013 (ano de concepção do projeto) até 2016 (ano da estreia do espetáculo), pesquisando no cenário artístico da cidade ações que visavam fortalecer não só a discussão, mas também a arte negra em Curitiba e estender para além da capital o fortalecimento deste discurso.

O projeto configurou-se como uma ação afirmativa e buscou dar voz e visibilidade aos artistas negros para que ocorresse uma constante troca e se fizesse visível esta capacidade transformadora e de combate incansável contra o racismo e pelo reconhecimento dos valores das culturas negras na sociedade brasileira contemporânea, demonstrando o empoderamento da mulher e do homem negro como pontos positivos. Levar ao público as manifestações dessa cultura em diferentes vertentes artísticas foi e é, para nós, mais do que um interesse, mas uma necessidade, haja vista a pouca visibilidade do teatro negro na cidade – e não por falta de artistas negros, como mencionado anteriormente.

Hoje celebramos este espetáculo como um projeto perene e de importância ímpar para nossa cidade, estado e país. Mas nada disso seria possível sem os artistas e profissionais que deste projeto fizeram e fazem parte. São profissionais que acreditaram e embarcaram sem medo, com o coração aberto, e se entregaram de corpo e de alma a um ideal, a um pensamento, a um discurso, a um posicionamento. A começar pela diretora e dramaturga do espetáculo e o assistente de direção, Fernanda Júlia e Dominique Faislon, que se deslocaram da Bahia para enfrentar um inverno curitibano e realizar esse intercâmbio entre nordeste e sul.

Fernanda Júlia é Yakekerê (mãe pequena) do Ilê Axé Oyá L´adê Inan na cidade de Alagoinhas, bacharel em Direção Teatral da Escola de Teatro da UFBA, mestre em Artes Cênicas pelo Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas – PPGAC – UFBA, com a dissertação “Ancestralidade em cena: Candomblé e Teatro na formação de uma encenadora”. É diretora fundadora do NATA – Núcleo Afro brasileiro de Teatro de Alagoinhas, fundado em 17 de outubro de 1998, na cidade de Alagoinhas (Bahia), e também é dramaturga, educadora e pesquisadora da cultura africana no Brasil com ênfase nas religiões de matriz africana o Candomblé e atualmente doutoranda da UFBA.

Fernanda Júlia foi mais que uma diretora artística e dramaturga neste processo – foi uma mentora, guru, uma divindade ancestral que soube costurar todos os desejos, anseios, medos e inseguranças de um grupo com personalidades tão diferentes, com uma negritude que precisava ser externada artisticamente. E como trabalha a partir do teatro ritual, nos proporcionou todas as técnicas trabalhadas em seu grupo, como os rituais instauradores, ativação do movimento ancestral e o poeirão cênico, ao mesmo tempo em que colocava em prática sua dissertação de mestrado. A vivência dos rituais instauradores do fogo, da terra, do ar e da água foram nosso pedido de permissão às divindades para a construção do espetáculo.

Fernanda soube ouvir o que o trabalho pedia – no caso, o que Exu orientou –, e a resposta estava no que o próprio grupo gostaria de expressar. Ela teve a sensibilidade e compreendeu que essa obra de arte tinha muito mais a dizer para a cidade do que imaginávamos. As discussões de processo sempre nos levavam a entender que a dimensão deste trabalho e a responsabilidade eram muito maiores do que concebíamos em um primeiro momento. Porém, nada disso seria possível sem a comunhão e a entrega das atrizes Flávia Imirene e Tatiana Dias e do ator Gide Ferreira, além deste que vos escreve, Thiago Inácio.

Elenco (da esquerda para a direita): Thiago Inácio, Tatiana Dias, Gide Ferreira e Flávia Imirene – Macumba: Uma gira sobre poder – Questões ligadas a negritude

Trouxemos para o processo questões para além do artístico – éramos artistas com nossas dores e cicatrizes expostas em sala de ensaio, provocados pela direção, o que trouxe um texto que estava entalado em nossos âmagos. Pois o racismo é estrutural e está presente em nossa sociedade, e ser negro é mais do que a melanina em minha pele ou o meu cabelo, é o empoderamento de ambos. É resistência. É um ato político. São todas as marcas ancestrais que habitam em mim. Em todos os preconceitos sofridos. Foi a partir deste espetáculo que resgatei a minha ancestralidade que permeia minha trajetória como artista negro, pai de santo, mestre sala e toda a herança cultural que a mim pertence e faz a história do nosso país.

Ainda no que tange a equipe e a construção do processo, a música permeia todo o trabalho. Uma das características do teatro negro, trazidos por Fernanda Júlia, é que não se desassocia o que é teatro, o que é texto, o que é dança e o que é música. Tudo faz parte de uma coisa só, e para que isso pudesse acontecer os músicos desse projeto foram fundamentais. Em um espetáculo da magnitude do Macumba e a falta de um orçamento ideal, os integrantes deste projeto se desdobraram para além das suas funções – a produtora virou musicista e entrou em cena, o produtor executivo virou diretor musical, e junto ao percussionista se formou o coração que pulsa o espetáculo. Assim foi com os artistas Clarissa Oliveira, Erick Herculano, Matheus Santos e a nossa “Macumba Band” que contou com o respaldo de Dominique para a sua organização e execução. E para que tudo isso pudesse ter uma harmonia que também se transformasse em texto, tivemos algumas alternâncias na composição musical do espetáculo onde três das músicas que compõem o trabalho tiveram composição do ator Gide Ferreira. Essa grande orquestra nos rendeu o Troféu Gralha Azul 2016/2017 de melhor composição musical, além da indicação de melhor espetáculo.

Banda – Macumba: Uma gira sobre poder – Gide Ferreira (flauta); Erick Herculano (guitarra); Matheus Santos (percussão centro) e Clarissa Oliveira (percussão).

Este projeto é um divisor de águas em nossas histórias. É um marco histórico na produção cultural curitibana e brasileira. Este espetáculo é apenas o pontapé inicial para o realce da importância da cultura afro-brasileira dentro do contexto sulista, onde não é tão difundida. Com colonização majoritariamente europeia, a região Sul tem uma grande dívida de reparação no que diz respeito a essa cultura; prova disso é o fato do Dia da Consciência Negra não ser feriado por aqui como acontece em estados como Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo.

Apresentar o espetáculo em Curitiba, litoral e interior do Paraná foi uma forma de contribuir com o histórico cultural do povo negro na região. Entender as primeiras manifestações culturais afro-brasileiras na região sul é a melhor forma de aproximar essa cultura da grande população. De acordo com pesquisas do IBGE, 23% da população de Curitiba é composta por negros, que carregam consigo seu histórico, compondo o panorama cultural da cidade. Assim como os povos de origem europeia celebram e buscam suas bases colonizatórias, o Projeto Macumba tem por intuito a busca da ancestralidade, da afirmação e da representatividade e ocupação de espaços midiáticos relevantes, firmando a importância de visibilidade da negritude na sociedade e na arte  para refletir sobre esses tempos.

Making Of do espetáculo: Macumba Uma gira sobre poder:

Macumba: Uma gira sobre poder – 4º Prêmio Expressões Culturais Afro-Brasileiras – Prêmio Afro:

 

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Thiago Inácio possui formação acadêmica em Bacharelado em Comunicação Social – Jornalismo pelas Faculdades Integradas do Brasil – Unibrasil (2006) e em Artes Cênicas – Bacharelado em Interpretação pela Faculdade de Artes do Paraná – FAP (2010). Realizou o curso de Especialização em Políticas e Gestão Cultural da Universidade de Girona (Espanha) e Itaú Cultural em São Paulo no ano de 2014/2015. É integrante-fundador da Companhia Transitória de Curitiba. Em produção cultural faz parte da equipe do Festival de Teatro de Curitiba desde 2004, sendo responsável pela criação e curadoria da Mostra Coletivo de Pequenos Conteúdos em seis edições (2009 a 2014). Também foi produtor da Mostra Baiana, no Fringe, em 2013 e 2014. Já trabalhou com os diretores teatrais Fernanda Júlia, Amauri Ernani, Ana Paula Frazão, Edson Bueno, Giorgia Conceição, Laércio Rufa, Luciana Schwinden, Márcio Mattana, Nadja Naira, Sueli Araújo, Mariana Zanette, Dimis Jean Sores entre outros. Foi produtor de um dos mais antigos grupos de teatro de Curitiba: o Grupo Delírio de Teatro do diretor Edson Bueno. Prestou serviços a Fundação Teatro Guaíra junto ao setor de produção sob a coordenação do produtor Áldice Lopes. Desenvolve trabalho de gestão de projetos culturais junto a Parnaxx LTDA responsável pelo Festival de Teatro de Curitiba. Pela Caixa Cultural foi produtor local do espetáculo teatral “A Tecelã” do grupo a Caixa do Elefante na Caixa Curitiba em 2012. Foi produtor executivo do projeto de música “Cante com o Peixonauta” em 2013/2014 na circulação da Caixa Cultural etapa Salvador e Fortaleza e diretor de palco do espetáculo de dança “Borbulho” da Chamecki & Lerner Cia de Dança na circulação da Caixa Cultural em 2013 e 2014 nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza. Realizou a produção local da exposição “Brinquedos feitos à mão – Coleção Saluá Chequer” na Caixa Cultural Curitiba em 2014. Foi Delegado Setorial da Área de Teatro nas consultas públicas da implementação do Sistema Municipal de Cultura de Curitiba no processo de adequação ao Sistema Nacional de Cultura e gestor de projetos para a Fundação Cultural de Curitiba – Instituição Pública de Cultura. Em 2015 foi parecerista técnico da área de Artes Cênicas (Teatro – Dança – Ações de capacitação e treinamento de pessoal) para análise de projetos da lei Rouanet do Ministério da Cultura. Produziu em 2016 o show de abertura do Festival de Teatro de Curitiba com a artista Maria Bethânia na apresentação do trabalho “Bethânia e as Palavras” e também os espetáculos da Mostra Oficial no espaço Teatro Ópera de Arame. Em 2017, ainda pela Mostra Oficial de Teatro de Curitiba, foi o produtor do espaço Auditório Salvador de Ferrante – Guairinha. Foi o proponente do Projeto Macumba, projeto de Artes Integradas contemplado com o Bolsa Funarte de Fomento ao Artista e Produtores Negros 2014 que originou o espetáculo “Macumba: Uma gira sobre poder” também contemplado com o 4º Prêmio Expressões Culturais Afro-Brasileiras – Prêmio Afro, prêmio nacional que valoriza a cultura afro brasileira.
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desenhar com garras o que não se pode com as mãos

por Janaina Matter 

 

não sei desenhar

 

se soubesse faria aqui um desenho

 

seria algo mais ou menos assim:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

mas não sei desenhar para dar ideia do que seria, como seria

 

talvez por isso eu só desenhe com gestos, com palavras, com trajetórias

se desenho é sobre luz e sombra sobre o que é teatro?

sobre luz e sombra

sobre o que se vê e o que não se vê

sobre presença

sobre ausência

estar imóvel ou movimentar

desenhar no espaço, ainda que seja um ponto, imóvel, que move por dentro e ninguém vê

 

com o tempo descobri a dimensão do investimento energético que se demanda de uma atriz para caminhar de um ponto a outro com consciência absoluta de toda e cada parte do percurso, no momento presente…

 

falhei quase todas as vezes, se não todas

 

é na busca é na busca que está a magia é no trajeto no processo no caminho não na chegada digo e repito para mim mesma querendo aceitar que o resultado é consequência e nada mais e como fazer o processo presente como abraçar todo o trajeto e repetir todos os dias a sua magia parte dela toda ela um respiro que seja de inteireza uma única fagulha do que despertou tudo isso e ainda assim agarrar cada dia diferente o mesmo ímpeto criativo e fazê-lo presente de novo em cada instante renovar ressignificar brincar manipular como se fosse todo meu e como se soubesse o que fazer com isso todo dia como se soubesse do início como se soubesse do fim como se do medo pudesse dar conta como se da angústia pudesse extrair calma e deleite como se da incerteza brotasse coragem como se de fato estivesse no corpo a resposta para tudo que há como se todas e todos que estão ali quisessem ouvir pudessem ouvir como se todas e todos que estão aqui quisessem ouvir pudessem ouvir como se eu quisesse ouvir pudesse ouvir

 

 

 

 

 

meus ouvidos estão tampados há quase um ano.

Não tampados realmente, mas tem um zunido constante, que percebo quando me deito para dormir, quando os sons já não se ocupam de me distrair do zunido, constante. É certo que durante o dia todo ele está a zunir, mas eu não escuto. Não escuto o que se passa dentro do meu próprio ouvido. O que eu não quero ouvir, não posso ouvir

 

 

É sobre escuta, teatro

 

 

 

 

 

 

É uma revolta não violenta

Me falou Eugenio Barba numa residência artística recente que fiz com ele e Julia Varley, uma enorme atriz

Desses encontros que mudam algo, não sei o que ainda, mas mudam

 

não acredito em violência e isso não é suficiente para que eu não seja agressiva…           às vezes

 

 

não acredito em discursos e isso não é suficiente para eu não estar aqui colocando em palavras o que não pode ser desenhado

como se explica o tigre senão com sua imagem?

E há os que não veem

Como se toca o tigre senão o doparem?

 

 

Sobre o que? Sobre o que eu quero falar?

Quero falar?

Sob o que?

Posso falar?

Um processo é sobre ter questões e estou cheia delas. Em todos os sentidos cheia delas

A mulher escreve a partir de um ponto de vista pessoal me disse a Julia Varley, e por isso o que ela escreve não é recebido com a mesma seriedade, não tem no seu texto aquela suposta qualidade universal que tem os textos dos homens, já que são homens e assim sendo representam a universalidade do ser humano, que é, em penúltima instância, “o homem”. Penúltima porque em última…

 

Ser atriz não é ser ator

Ser atriz é ser caos

 

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Janaina Matter é atriz e diretora artística da Súbita Companhia de Teatro. Formada em Psicologia pela UTP/PR em 2002 e em atuação e direção pelos Cursos Livres de Teatro Pé no Palco. É cofundadora da Súbita Companhia, na qual atuou em todos os espetáculos.  Desde 2009 se dedica ao estudo da fisicalidade em cena e dramaturgia do gesto. Tem formação nos treinamentos Viewpoints, Suzuki e Composição de Cena, sob orientação de Anne Bogart e os integrantes da SITI Company (Nova York/EUA).  Em 2015 participará do treinamento intensivo com Tadashi Suzuki e a SCOT Company em Toga, Japão. Ministra oficinas e cursos de aprimoramento para pré-profissionais e profissionais do teatro e desenvolve pesquisa de orientação e direção de atores vinculada ao projeto Plataforma – núcleo permanente de pesquisa da Súbita Companhia, que acolhe artistas interessados em pesquisa cênica e treinamentos. Em 2014 compôs a Comissão Julgadora do Troféu Gralha Azul, 35ª edição em Curitiba, PR. Os espetáculos mais recentes criados pela Companhia incluem “Câmera Escura” (2014), “Extraordinário Cotidiano” e “Amores Difíceis” (2013), “Porque não estou onde você está”, pelo qual foi indicada ao Troféu Gralha Azul de melhor atriz em 2012. É também pesquisadora de interpretação para cinema e já integrou elenco de diversos curta-metragens, sendo os mais recentes “Coração de Congelador”, direção de Carol Winter 2014 e “Coração Magoado”, direção de Juliana Sanson em 2012.

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Notas e processos de criação

por Vivaldo Vieira Neto

“Não há solução porque não há problema.”

Marcel Duchamp

 

Este texto procura apontar algumas questões referentes ao processo que venho vasculhando há algum tempo referente à concepção e criação em estética. Não é de forma alguma um texto que se pretende ser exato, muito longe disso, são algumas pequenas notas, exemplificações ora fenomenológica, ora empírica. São anotações que vamos deixando pelo caminho, notas que vão se acumulando pelos cantos e que nos fazem pensar nesse processo criativo, de como enxergamos o mundo, nos processos de transformação de problemas de ordem objetiva em questões subjetivas. Para exemplificar certas questões, no presente texto, muitas vezes temos que recorrer há pobreza das metáforas, é inevitável essa fuga para podermos materializar certas ideias e pensamentos. Não vejo outro caminho senão recorrer à estética e nas suas inter-relações política e social.

Criar é se perder. É se permitir ao fracasso e às vezes ao êxito. Para Deleuze o ato de criação não se dá pelo prazer, mas pela necessidade. Necessidade de subjetivação do mundo, de expressão, de materialização de pensamentos em estética. E de onde surge essa necessidade? Talvez pela inquietação e observação, o olhar atento ao que nos circunda, quando certas questões nos parecem insólitas, desconexas, quando o mundo se torna insuportável; criamos. É a tomada de uma consciência, consciência está aprisionada a um corpo, atravessado por um mundo, corpo este moldado por uma sociedade e pela cultura, um corpo que se torna uma película entre minha consciência e o mundo. Corpo nômade que sempre deve ser questionado e por vezes superado, é através dessa inter-relação consciência-corpo-mundo onde a subjetivação se dá, por esses espaços vazios entre a observação e o pensamento, são fagulhas, insights, onde a busca por algo, quase nunca sabemos o que é, se faz necessário.

A produção em arte é um exercício da liberdade, tanto como a liberdade de pensamento como uma postura diante da sociedade, é se permitir a experimentação, principalmente das linguagens. E como construir esse processo criativo dentro dessas linguagens? Pensando nesses processos de criação, de como sair de uma ordem objetiva para uma abstração da ideia cheguei a um processo de criação, não é de forma alguma um método e nem uma regra, mas uma forma de como visualizo, imagino.

A primeira imagem que me ocorreu foi uma ideia de embaçamento; uma forma de deslocar o objeto, de não ter muita certeza do que está sendo visto, certa dúvida com relação ao que está sendo colocado, algo um pouco distante onde os contornos se diluem. Mas essa ideia de embaçamento ainda estava muito ligada apenas à visão, ainda não dava conta de todo o processo. A segunda imagem foi uma ideia de escurecimento; como se noite tomasse conta do mundo, onde o objeto é apenas um vulto, são necessários outros sentidos pra nos localizarmos diante do pensamento, a distância entre o observador e o objeto se constrói de outra forma, é preciso mais cuidado ao se deslocar para não esbarrarmos, a visão é um mero acaso, outros sentidos são necessários, nos perdemos no espaço, tudo se torna inseguro, insólito. Mas ainda não era isso, o processo de criação é ainda mais abrangente; foi quando me venho uma terceira ideia, a ideia de afundamento.

É como se pulássemos de um penhasco em direção ao mar, nos afundássemos nesse meio aquoso, saíssemos de nosso habitat natural. Quando o corpo é envolto por esse líquido, a visão se torna turva, o som é algo distante, a pele experimenta em toda sua extensão o meio onde está inserida, o chão é uma utopia, é preciso se movimentar para sobreviver, o gosto se torna amargo e o ar um privilégio. É preciso voltar à superfície para respirar, o ato criador seria esse limiar entre a sobrevivência e o afundamento, a tomada da consciência por um instante no meio desse caos, em busca de uma ilha mais próxima e o esforço para alcança-la, como as linguagens é preciso conhecê-las, explora-las, chegar até suas bordas para que seja possível visualizar outras ilhas/linguagens e se jogar ao mar novamente, fazer a travessia, num processo constante de luta, resistência. Segundo Malraux; a arte é a única coisa que resiste à morte. Trazendo essas ideias para o campo da estética; seria como se tirássemos o objeto de seu contexto original, um exercício de deslocamento, como se trouxéssemos a superfície novos significados e leituras possíveis, o título dado como uma forma de dúvida com relação ao que está sendo exposto, um constante questionamento, uma mão dupla, algo que vem e vai incessantemente criando um atrito entre o objeto e o público, é desses atritos que o pensamento se desloca para outras formas de como vemos as coisas. É nesse processo constante de conhecimento e exploração que tomamos o arquipélago, é estarmos isolados nessas ilhas, mas almejando o continente.

Independência ou sorte _ 2017

Pintura sobre tela sobre prédio em fase de restruturação_ Alfaiataria

A fabulosa rádio Tramontina_2017

Trabalho em parceria com Elenize Dezgeniski _ Alfaiataria

Adestramento _ 2014

 

Irmãos Siameses _ 2015

 

Campanha eleitoral _ 2016

Registro: Tuca Kawai

 

Fase de crescimento _ 2015

Check up _ 2003

 

Apropriação indébita _ 2014

Este vídeo é o registro de uma performance, a partir da apropriação da ideia do vídeo “Eat” de Andy Warhol. Sendo que está lata de sopa Campbell’s fora furtada por mim na Rede de Supermercados Mercadorama, por isto o título: Apropriação Indébita. O vídeo é o resultado final desse conjunto operacional: apropriação/furto + preformance + vídeo. Gostaria de aproveitar este espaço para agradecer, desde já, a Rede de Supermercados Mercadorama por este “patrocínio” e pelo “apoio as artes”.

Aulas de inglês _ 2015

 

Cinema de utilidade pública _ 2015

Site specific _ SESI Arte Contemporânea

Série: Queima de estoque _ 2017

 

 

Fila de espera _ 2016

 

Terapia de casal _ 2017

Sites:

https://vivaldovieiraneto.wordpress.com/

https://spamdirecionado.wordpress.com/

https://radiotramontina.wordpress.com/

Vivaldo Vieira Neto

Formado em escultura pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Com interesse no estudo das linguagens,  nas suas inter-relações e hibridismos.  Sua pesquisa atual “O corpo mediado por coisas e outras meios” busca investigar o lugar da performance e nas suas relações com o meio e espaço através de fotografias, instalações,  vídeos e ações performativas.

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FRIDA, YO SOY LA DESINTEGRACIÓN

Por Brenda Sodré

 

 

Foto: Elenize Dezgeniski.

 

 

não há como saber algo tão bem quanto a realidade do espelho, por isso frida se pinta nos outros.

colorida, vários coques pela cabeça, amarras e ferros nas pernas, com a felicidade de uma criança, frida é puxada pela coleira por uma dominatrix zapatista (stela fischer), alguém ganha uma monocelha aqui, outra ali. alguém ganha uma monocelha e um beijo na cabeça. ela olha bem dentro do olho da gente. alguém ganha uma monocelha e um beijo no colo. a dominatrix a puxa mais rápido. alguém ganha uma monocelha e um beijo demorado na boca. que sorte. eu não estou entre os alguéns de monocelha, olho-no-olho, beijo na cabeça, no colo, na boca. queria tanto.

não há o fim de frida kahlo, uma frida jamais se cala com porquês, blablablás, e afins.

no teatro, vários ruídos, um céu azul turbulento que insiste em ficar me causa vertigem, uma mulher de burca preta (leticia olivares) nos dá as costas.

é a voz de donald trump que diz coisas nos alto-falantes. por entre o público, a frida punk de violeta luna ressurge segurando uma tesoura que parece ser cirúrgica, toca duas vezes a cabeça de uma garota para que ela abra espaço. eu preciso me movimentar também porque estou em frente à garota que foi tocada duas vezes na cabeça pela tesoura e eu não consigo mais voltar ao lugar de antes, fico imóvel. sim, parece que ela tem o poder de arrombar o ar com sua presença vulcânica. um fenômeno que nunca vi antes. estou presa no meu corpo, não tenho coragem de me movimentar, no entanto, várias coisas se bagunçam dentro e tenho a sensação de que é crime tirar os olhos dela.

 

 

Foto: Elenize Dezgeniski.

 

 

frida e a dominatrix chegam no palco e se aproximam da mulher de burca até despirem-na. suas costas gritam que nenhum ser humano é ilegal, mas ninguém sabia. algumas pessoas ainda não sabem mesmo depois de. um medo toma meu corpo.

não há o fim de frida kahlo, uma frida não se cala com capitalismos, misoginias, fundamentalismos, xenofobias e genocídios.

frida enfia a tesoura na língua, mete no nariz e ameaça romper o septo, puxa os cílios postiços, come e dá de comer. alguns rostos da plateia se entortam. ela troca de tesoura e começa a proclamar o caos, poda suas unhas uma a uma loucamente. uma unha voa no meu olho. que sorte.

a pélvis que dança cospe uma carne abjeta por entre as pernas. frida a devora. quer? ninguém aceita. ela insiste e oferece de novo e de novo e de novo. ninguém aceita. ninguém quer comer um pedaço de frida kahlo. ela tira os grampos-pregos do cabelo e limpa os dentes e com um deles espeta a carne. oferece para a plateia a oportunidade de perfurar a mesma carne que antes ela ofereceu como banquete. com exceção de uma pessoa, todo mundo aceita. eis que me acontece algo estranho: ela olha para mim e me convida. eu fico em sua frente, não entendo mais nada, sua presença me atormenta, era pra eu pegar um prego de sua perna e enfiar na carne como todos os outros, ao invés disso, eu sento no palco ao lado dela e balanço as pernas como ela balançava. ela ri e me dá um espeto (nesse momento, todos sabiam que eu havia entendido os sinais dela de maneira torta, eu era a única sem saber). eu enfio com força o prego na carne. ela arregala rapidamente os olhos e os fecha bem apertados. na hora eu me encolho toda, percebi a atrocidade que havia feito. ensaiei não espetar caso ela me notasse e resolvesse me chamar, ensaiei dizer coisas no ouvido dela sobre como eu seria incapaz de feri-la e de ferir o que saísse dela. mas eu não cumpri. eu sentei ao lado dela, balancei minhas pernas, olhei em seus olhos e escolhi perfurar a carne que seu corpo expeliu. eu volto ao meu lugar e ela prossegue com seu jantar autofágico, toma uma tequila e passa para o público compartilhar. tira a parte de cima da roupa colorida e veste um colete de metal apertado com várias lanças apontando para fora. ela convida uma moça da plateia, olha bem dentro do olho, elas se beijam ardidamente, apesar das lanças. apesar de.

não há o fim de frida kahlo, uma frida jamais se cala com acidentes de trens, pregos, lanças, ataduras, talas.

 

 

Foto: Elenize Dezgeniski.

 

 

com a confiança de quem tudo pode, frida kahlo violeta luna manipula uma seringa. ameaça enfiar nos olhos, oferece novamente para quem quiser injetar o líquido vermelho em seu corpo, ninguém aceita. ela para ao lado de um homem de terno, muito bem vestido e o intimida. ele não é ninguém perto dela, ninguém. e ali mesmo, injeta em sua coxa algo que eu não sei dizer o que é. frida devora uma garrafa de água com a violência dos tornados. vai se desmanchando, tira os grampos, desfaz os coques, tira a roupa, desfaz as amarras. estende pelo teatro um rolo de papel higiênico com o rosto do donald trump estampado. ela abre os braços e eles pegam fogo. qualquer movimento que ela faz ela pode fazer, nada acontece além dela. ela pode tudo, absolutamente tudo. seus braços abertos pegam fogo. um cristo mulher latina em chamas que eu escolho acreditar. sua saia vira um manto, esconderijo. ela agradece, plena, parada, vulcânica. e educada que é, limpa o teatro que sujou durante a cena com a bandeirinha vermelha e azul com 50 estrelas que conhecemos tão bem.

não há o fim de frida kahlo, uma frida jamais se cala com homens laranjas que agarram mulheres pela buceta, bandeiras, american way of life e afins.

no paradoja, horas depois, onde acontecia a festa de abertura do festival ruído encena, antes que eu pudesse proferir qualquer palavra, violeta luna com seus longos cabelos pretos lisos e seus olhos de rapina me vê e diz: foi muito engraçado, você foi a menina que sentou ao meu lado e balançou as perninhas.

 

 

Foto: Elenize Dezgeniski.

 

 

brenda sodré é áries com ascendente em sagitário, nasceu de cabelo vermelho e com uma hemorragia na cabeça. sua antepassada é a bomba, o projétil, o estilhaço. não sabe outro idioma senão o do fogo e do estalo. está se formando em artes cênicas na faculdade de artes do paraná. é atroz e performer, sua pesquisa atravessa questões de gênero, feminismo e tecnologia.

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existência temporária continuada em curitiba: mostra cena breve

Por Greice Barros

Este material foi apresentado por Greice Barros durante a sua participação no encontro “Espaços contextuais temporários: quais narrativas para quais potências?”, realizado dia 28 de setembro, na Companhia Brasileira de Teatro, em Curitiba, durante o Festival Internacional Ruído EnCena 2017. 

Obrigada pelo convite, por esse espaço essa experiência

Eu sou a Greice, nascida e criada em Curitiba.

A cidade sorriso, só que não!

Eu junto com a Marcia e a Sueli inventamos a Mostra Cena Breve Curitiba – a linguagem dos grupos de teatro

Indo pra décima edição em breve!!! (dedos cruzados) → cor verde = sorte

Vou tentar… com essas palavras e com a minha presença aqui agora com vocês, vou tentar compartilhar as tantas coisas, os tantos atravessamentos de tantas coisas, tantas que nos passam.

Acho maravilhoso se criar um espaço para se “falar sobre o que nos passa”. Toda essa/essas coisas que nos passam, a nós que habitamos esse tempo espaço com nossas diferenças e desejos.

Às vezes me passa

Às vezes em mim atravessa.

Bom…

ESPAÇOS CONTEXTUAIS TEMPORÁRIOS:

QUAIS NARRATIVAS PARA QUAIS POTÊNCIAS?

Pergunta… Questão…Questã…pra compartilharmos…

(Pausa curta) → cor vermelha = atenção

desafios, conexões, fruição, discussão e visibilidade

formas éticas e estéticas

relação arte mundo

hoje, agora

público

convivência

trânsito

foram as palavras que temporariamente tocaram, soaram, provocaram…

criaram Imagens…

chegamos aqui.

E o que nos passa.

Nós, nesse momento eu, mas

nós três: As três.

Somos AS e

Espada!!!

Mostra-A.

O que nos passa?!!

(Pausa curta) → cor vermelha = atenção

O que É a Mostra

e

O que ela pode ser…

O que é a Mostra Cena Breve?!!

O que a Mostra é

O que ela pode será…

(ritmo ao falar quase sem pausas) → cor roxo = acelerado + prazer ao falar

Ideologia

experiência,

sensibilidade,

produção,

parceria,

curadoria,

encontro,

troca sensível,

grupos novos,

grupos convidados, grupos que se fizeram, grupos que se desfizeram,

coletivos,

agrupamentos,

ajuntamentos,

promiscuidade artística,

A mostra como identidade irrequieta que quer fazer vibrar!!!!!

Lugar/Ação

PAUSA, PAUSA, PAUSA, PAUSA – conto nos dedos

(com pequenas pausas, entre cada PAUSA) → cor vermelha = atenção

A Mostra

Amostra.

Contrapartidas, prestação de contas, retorno de mídia, aprovação, desaprovação. Ganha não Ganha. Ganha?? Quem ganha, quem ganha…ganha?!

NÃO!!!

Comprovação de legitimidade, justificativa e objetivo.

Plano de ação e resultados a serem alcançados!!!

E aí… Cagamos Ou não Cagamos? eis a questão.

Do que se abre mão para sentar-se a mesa para assinar o contrato?? Patrocínio Incentivo Logomarca Apoio Institucional Cota de Convites Chancela.

Cancela.

(volta o ritmo de fala) → cor azul = acelerado

Planilhas orçamentárias e logísticas.

Cronogramas.

Projetos, projetos, projetos, projetos, projetooooooossssss

Produção como criação, como ação propositiva, ato.

produção executiva, direção de produção, produção artística, produção ação de formação, produção oficinas, produção técnica, produção festas…

produção e afeto, produção e partilha!

Desierarquizar as hierarquias

Desburocratização!!!!

Formação, atualização, arejamentos das ideias…

Arejamento de práticas.

O tempo…

Tempo histórico, cronológico e sensível.

A continuidade como resistência e como potência,

sem ser refém de tempo algum.

Inclusive do tempo que vem!!

Cumplicidade

Parcerias pra por a mão na massa!

Público,

novos públicos!!

Ações para ativação, formação, encantamento de novas públicos

Desafio, Experimento, Fragmento, Obra

15 minutos

Espaço temporário

da CENA

do teatro

do tempo/espaço temporário

(Pausa – bebe água) → cor laranja = prazer

Espaços temporários criam intensidade de presenças diversas

num tempo espaço único.

Proporcionar e vivenciar esse espaço/tempo.

Ser algo vivo pulsante por esses encontros

é diferente de somente oferecer uma programação exemplar com espetáculos ótimos?! Será?!

Como criar esse espaço aberto a errância?!

Criar e manter esse espaço, essa existência temporária é um ato político.

existência temporária continuada em curitiba, mostra cena breve curitiba.

Fotografias: acervo Mostra Cena Breve/ Elenize Dezgeniski / Lídia Ueta/ Patricia Lion

 

 

Greice Barros é atriz e produtora cultural. Suas criações como intérprete estão ligadas ao teatro e ao audiovisual, em sua maioria, com a performance e estudos sobre corpo e voz. Integra a CiaSenhas de Teatro. É sócia fundadora da Núcleo Produções Cultura e Desenvolvimento. Idealiza e desenvolve projetos como produtora e gestora cultural, interessando-se por políticas públicas pra cultura, manutenção de projetos culturais de continuidade, ações de formação e pesquisa em produção e produção como criação.

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Escrita-roubo sobre autobiografias roubadas

Por Fernanda Ricci

 

 

Foto: Lauro Borges.

 

 

[cochicho]

Curitiba, 14 de setembro de 2017.

 

Eu sou Fernanda, e a instrução de leitura é: leia cochichando.

Cochichando, Juliana me instrui: só podemos falar assim. Me convidou a subir ao piso de cima do Teatro Novelas Curitibanas.

Ao entrar na sala, me deparo com quatro microfones dispostos um em cada canto da sala, com almofadas em volta. Há duas filas de cadeiras frente a frente. À meia luz, recebo o convite de conversar pertinho, cochichado em um microfone. Nós, agora podemos abrir bilhetinhos e conversar sobre nossos medos, contar a história de quando derrubamos algo, de quando alguma coisa deu errado ou sobre a última vez que mentimos. Ou sobre qualquer coisa que tenha a ver com irregularidades. E quando uso a palavra irregularidades, eu estou roubando, porque sou residente da Mostra Emergente e Caio, diretor do espetáculo, me pediu perguntas que tenham a ver com irregularidades.

Juliana senta para conversar comigo e Lorenzo. Nos conta sobre a última coisa que tinha dado errado para ela, havia sido pela manhã. Tinha saído para se depilar e acabou perdendo o horário de ir buscar os remédios de seu pai. Suas pernas ainda estariam grudentas de cera. Ela nos contou que havia lavado, usado esponja e arranhado, mas a cera ainda estava lá. Eu sei que ceras são uma merda para sair da pele. Segundo roubo da escrita: no dia anterior Juliana havia saído do teatro para comprar as meias sugeridas pela Walkiria Talkie Nômade, Bianca, e buscar os remédios de seu pai.

Me peguei olhando para suas pernas a procura de cera e pensando se, ontem, algo havia dado errado com os remédios. Se eu não fizesse a residência, eu acreditaria nessa história?

Eu e Lorenzo começamos a falar dos possíveis erros dos engenheiros. Adicionamos uma outra questão: qual seu grande sonho de infância?

– Ser atriz. E eu sou atriz hoje. E o seu?

– Ser músico. E eu sou músico hoje.

Sorrisos.

[blimmm]

Juliana organiza o espaço. Pega todas as bolsas espalhadas entre chão e cadeiras, carregada e desajeitada, pega um programa da Mostra Emergente e coloca sobre outro programa que estava em frente a Ricardo. Coloca cada bolsa em cima de uma cadeira, organizadas por cor e modelo. Encontra um novo programa, junta aos outros. Achamos graça, chamei isso de cabideiro andante. Termina de organizar as bolsas. Ao terminar essa ação, estamos confortáveis, alguns de nós deitados no chão.

[blimmm]

Juliana para de cochichar [pare de ler cochichando], se apresenta. Diz que pode nos mostrar seu Ritornelo, seu Belchior e “estar bruxona”. Ela disse Belchior? Eu já não tenho certeza se disse. Não espera nossa resposta, sai mostrando. Se movimenta pelo espaço debilmente, em câmera lenta, se arrasta pelo chão, pelas paredes, se enfia em cantos, emite sons, faz bruxaria, transpira. Não há nada de débil. Nós? Transitamos em sentar, deitar, revirar, sorrir, exprimir atenção, estar, perceber a duração desse momento. Terceiro roubo da escrita: em minha última conversa com Caio, ele disse que Juliana nunca disse Belchior. Caio diz que Juliana diz: Ritornelo, tudo em seu devido lugar, encosto, hoje eu tô bruxona.

[blimmm]

Se dirige a Caio que manda imprimir algo. A página sai em branco. Juliana rapidamente coloca a folha para imprimir novamente.

 

Porque coisas dão errado, Caio?

Essa era a minha pergunta para você.

 

Juliana pega o notebook, para, o encara. Me atento para a sua respiração, para as gotas de suor que escorrem pelo seu rosto, nos cabelos grudados na testa, os pingos caindo no notebook, nos seus dedos molhados tocando as teclas e o touchpad. Seus olhos fixos na tela vão e voltam descendo. Fico curiosa: o que ela lê repetidamente?

Devolve o notebook a Caio e inicia novamente sua partitura ritornelo-nãobelchior-hojetôbruxona ao mesmo tempo que nos conta uma[s] história[s]. E agora a concretude de seus gestos não acontece mais no espaço de sua bruxaria, mas sim nos espaços de nossas histórias compartilhadas. Caio, esse DJ malandrinho, ouviu tudo, mixou e colou nossas histórias todas. A banalidade de contar qual foi a última coisa que você derrubou se mescla nos nossos erros, mentiras, a irregularidade que é existir, nos encontros fortuitos, no nonsense e humor. Nos deparamos com as nossas fragilidades e vulnerabilidades, com a certeza de que alguém ouviu nossos cochichos no microfone – sim, desde início era um pacto, mas perdemos algo? Quem mais nos escuta por aí?

Engenheiros que eram ruins em planejar prédios por não contarem que amam o garoto da faculdade e por isso decidem estudar massagem enquanto mentem para mãe sobre café e, os prédios balançam. Grupo Nômade e seus desejos de troca, as fragilidades da cena, as estratégias de criação de um espetáculo em que atriz e diretor moram em cidades diferentes, as estratégias de ensaio, as viagens Curitiba-Brasília, a troca via walkie-talkie entre Curitiba-Brasília-Canadá, o improviso, lidar com o imprevisto e com as coisas que dão errado. A insistência de um sonho.

Transitamos pela profundidade do banal que somos. Eu gostaria de não ter perdido a hora hoje, gostaria que minha mãe não tivesse ficado falando falando falando enquanto eu tentava terminar esse relato, gostaria de ter impresso esse texto em papel vegetal, escolhido melhor algumas palavras, refletido mais sobre algumas questões, mas algumas coisas dão errado. As irregularidades estão por aí, desde o pneu da minha bicicleta que fura, a luz que acaba e faz minha namorada ter que descer 16 andares pela escada ou a impressora que não funciona, até o retrocesso desse país tropical e abençoado por Deus?

Juliana se dirige à porta. Sai. Larga aberta. Guilherme ascende uma luz em direção a porta. Textos. Iluminados pela gambiarra de Marcela. Impressos em papel vegetal. Pendurados pela gambiarra de Caio. Todos com a cidade de Curitiba?, data. “Eu sou Juliana…”.

Penso sobre as conversas que inspiraram esses textos. Penso nas pessoas.

Desço as escadas, encontro novamente Lorenzo. Foi um prazer o conhecer. Vou para casa, e tudo ainda reverbera.

 

 

Foto: Lauro Borges.

 

 

Fernanda Ricci finaliza sua graduação em Artes Cênicas na Faculdade de Artes do Paraná. Nunca é vista usando calça jeans e nem sutiã. Pisciana que não gosta do que prende, saracuuuteia suculenta-explosiva n[u]as Poéticas e Políticas da Corpa Feminista, sobre o recorte de gênero, sexualidade, violência e suas possíveis mesclas.

 

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Eu sou um crash test dummy

Por Marina Viana 

 

 

Este texto foi lido por Marina Viana durante a sua participação no encontro “O que quer dizer independência?”, realizado na Companhia Brasileira de Teatro, em Curitiba, durante o Festival Internacional Ruído EnCena 2017.

 

 

Foto: Elenize Dezgeniski.

 

 

Começa no útero, abaixo da linha do equador. Revolve de furacão e enchente carregando quem não tem o que carregar, passa pela mão do hemisfério norte separando, apontando condenando o que a cabeça tampada por um lenço uma camisa um gorro de esqui performa de braços erguidos no ar. Derrubar monumentos, queimar carros explodir bancos. O sexo escorre por todas as fronterias imaginárias da polis, o suor do sul, o sangue do sul as especiarias do leste, o pacífico gelado o norte barbarizado. A baderna que adentra o espaço, com pés no chão de bailarina. Era pra falar de espaço. Espaço, coisa e corpo. O copo de café, copo vazio, cheio de ar. Vazio daquilo que no ar do copo ocupa o lugar. Ocupa. Tira gente põe represa. Adeus! ó choça do monte!… Adeus! palmeiras da fonte!… Adeus! amores… Adeus! Um homem vivendo dentro da baleia. O cu é logo ali. Este nosso sítio. E eu, menos estrangeiro no lugar que no momento, sigo mais sozinho caminhando contra o vento e meto o meu grelo na geopolítica… Eu podia ficar aqui pra sempre, no alto dessa montanha arranha céu, estrada de minas pedregosa, braços abertos sobre a Guanabara e o grelo na geopolítica! Dedico todo o meu fígado a América do Sul. Patchamama te veo tan triste. Errante navegante. Quem jamais te esqueceria.

Eu sou um crash test dummy.

E também dama do cerrado sem patrocínio nem vergonha na cara, indigna das alterosas co-criadora do teatro fanzine que faz um excelente mojito. Autodeboche narcísico, escracho melancólico e permanente diante do espelho. Na contracorrente de um movimento que eu ajudei a fundar, porque como boa caetana que sou, eu também estive lá. Hoje eu ando avulsa. Mas a rede ainda existe. Sigo com meus empreendimentos independentes. A cidade está cheia deles. Graças à deusa. Novos baianos te podem curtir numa boa.

Não sei quem sou. Mas estou bem. Já esta provado o que só é possível no estrago que dá acelerar na frente, entrar em choque com o tempo e voar na inércia dos acontecimentos.

Por tanto não sou vanguarda. Sou boneca de teste. E não que eu seja um boneco manipulável, sem opinião ou atitudes próprias. A fada azul me deu vida. Ainda não sei se sou a mentira ou a verdade do cerrado, o fato é que meu nariz não cresceu mais do que o de Barbra Streisand.

Mas essa onda avulsa, não sei pra onde vai, nem por que. Os tempos são ruins, 2016 foi um ano ruim, eu não estava lá, mas me contaram.

Mas uma hora eu descubro o caminho de novo. As armas chegarão amanhã e ninguém vai me impedir de cantar Don’t smoke in bed deitada num piano de cauda.

E mesmo avulsa eu vou seguindo por que a rede ainda existe.

Lá em casa tinha um baú. Um baú gigante de madeira escrito Grupo Galpão e embaixo um número de telefone que nem tinha ainda o 3 antes dele. Um baú bem velho que virou um desastre, mas representava, ali, mofando com a chuva e o tempo, cheio de resto de peças antigas e de empreendimentos passados. Repleto de bichos, fungos e representações coletivas de um mundo em decadência, entre o que é solido, se desmancha no ar e vira água no fim. Vira líquido. Vira solidão. Foi assim que eu perdi um grupo de teatro na chuva.

Mas mesmo avulsa e molhada eu vou seguindo porque a rede existe.

Eu nasci ontem demais, mas de vez em quando dava por mim, to velha. Que bom. Não parei. Eu sô fominha eu não me poupo eu não me pouco. Tô aqui tomando fôlego. Por que tudo é vontade de continuar. Tanta saudade preservada dentro de um baú de prata dentro de mim.

A rede existe.

Uma rede que funcionou nos últimos anos a revelia do sistema, confundindo a mídia, que não sabia se portar diante de tanta coisa fora das caixinhas conhecidas, a revelia também das leis de incentivo fiscal, uma rede sem dinheiro.

Continuamos pobres.

Não tenho uma utopia de viver como outros grupos. Acho que já tive um dia. Não serei Galpão. A instituição. Só o tesão que aqueles artistas despertaram em mim lá pros idos de noventa e que está aqui até hoje. Serei só tesão.

Anarquizei meus sonhos. Um dia entendo o que isso quer dizer.

Ricardo Nolasco matou o teatro da ultima vez que estive aqui. Saímos do templo e em cortejo enterramos o monumento, da casa burguesa. Talvez tenha sido isso. Não foi a primeira vez que matei o teatro com alguém. Talvez por isso me sinta expulsa.

Os deuses do teatro foram expulsos de todos os teatros.

Eu botei o grupo de teatro no paredão.

Acho que eu sequestrei por muito tempo o grupo de teatro, hoje eu tô liberando esse refém num terreno baldio, vou olhar pra câmera, suspirar e seguir meu caminho ao som de Smile do Chaplin. Aquele egocêntrico.

Hoje sigo avulsa, mas a rede existe, o bando existe.

 

 

Foto: Elenize Dezgeniski.

 

 

 

Marina Viana é atriz, dramaturga e diretora teatral graduada no curso de Artes Cênicas da UFMG com habilitações em Licenciatura e Bacharelado em Interpretação Teatral desde 2005. É integrante dos grupos: Mayombe Grupo de Teatro, Teatro 171, Cia Primeira Campainha, e é colaboradora de vários outros coletivos da cidade de Belo Horizonte (MG). Tem uma banda, já publicou zines, realiza prêmios e faz cabarés. Posou como modelo vivo na Escola de Belas Artes pra ajudar no orçamento da casa. Atriz e modelo. Escreve manifestos e plagicombina canções alheias.

 

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retrrrrópica

Por Brenda Sodré

 

 

Foto: Cayo Vieira.

 

 

sono, 17 de setembro, domingo, 20h, casa hoffmann, retrópica. saí do churrasco onde estava levemente entorpecida para assistir uma peça porque precisava assistir para fazer uma crítica. peguei uma carona com juliana fenker. era eu, a travesti agnes que eu namoro, juliana motorista e no local encontramos bruna, a iaé. então fui comprar o ingresso e putz não trouxe o comprovante de estudante ah você é da fap? sim ah ok então pode pagar meia.

no hall, várias pessoas famosíssimas como a noite de paris. antes de decidir publicar esse texto, eu citava os nomes das pessoas famosíssimas, agora eu tenho medo.

o fato é que há uma escadaria que se sobe e se aperta juntinho no mezanino. e lá está ela.

uma mulher gigante veste preto e glitter. mas há corpo à mostra. seios. colo quente, respiração, olho-água, corpo-fogo, ventre vivo. suas mãos seguram ovos e fazem magia.

eu pisco os olhos e ela se desmancha, ela se desmancha ao som de palavras que ecoam mantras ao fundo que dizem a vagina é uma ferida tropical; o mar latino, fossa aberta da humanidade; nós amamos o algoz, nosso gozo vem com surra; o imigrante é o sonho canibal; onde a mesa é branca, a esperança e magia só podem ser negras; a unicidade da rebeldia terá pulso de mulher. num dia negra, no outro travesti.

agora uma mulher dourada quebra ovos. rebola. bate o pé. bate o pé. bate o pé. recusa ficar parada, então bate o pé, barulha. grita. ri. vem bem perto. bate o pé ao lado do pé do outro. ao lado do meu pé. ao lado do pé das pessoas famosíssimas. é um pé que bate agora e depois. um pé que não sabe fazer outra coisa senão bater e bater é dançar.

esse é o momento em que eu digo que pensei em começar a crítica dizendo que a mari paula é uma estrela que brilha brilha brilha, só que eu não comecei assim. ou comecei. e a crítica só começa agora. você decide. o fato é que mari paula vem de longe, facão na mão, zoiuda, pra matar os mal/mau (nesse caso serve os dois) do mundo. mulher que corta vestida de fagulhas. as mãos mornas que manuseiam delicados ovos é a mesma que segura a lâmina da bruta faca. facão na mão, pé no chão. corta batatas. meudeusdocéuvocêvaicortarodedomeninacuidadocomissoaí! as batatas se juntam aos ovos quebrados no início, e aos temperos que caem em chuva lá do alto da mão morna da estrela mari paula que brilha e manuseia ovos e facões. não sei ao certo, mas acho que isso se chama tortilha, minha vó faz.

uma mulher de pernas abertas mastiga batatas e ovos com a boca cheia. algumas batatas e ovos grudam no canto da boca. outras batatas e ovos caem ao chão, não sem antes tocar o corpo vivo da mulher que está de pernas abertas mastigando batatas e ovos enquanto balbucia algo em espanhol que a minha falta de conhecimento não permite reconhecer. eu escuto antropofagia. eu escuto canibalismo. eu escuto narcotráfico. disso eu deduzo coisas, várias coisas bem deduzidas. nada muito diferente que as provas de idiomas que fiz na vida, entendo 3 palavras e tento inventar uma história pra elas.

 

Foto: Marcos Guiraud.

 

uma mulher troca de roupa. transita entre brasil e espanha, brasil e espanha. colônia, colonizador, colônia, colonizador. que? há um corpo que dança, um corpo que troca de roupa, que corta, que brilha, que presentifica. penso em algumas coisas enquanto a mulher gira-cai-insiste-levanta. há diferença no corpo-espanha e no corpo-brasil? a diferença está apenas nas vestimentas? a vestimenta é corpo? roupa é pele? há diferença no corpo de um povo colonizado e no corpo de um povo colonizador? se quer demarcar essas diferenças? o que é a américa latina? a antropofagia, o que é?

por várias vezes desaprendi a respirar. recupero o fôlego e ela está lá. ela gira, gira, gira, gira. troca de roupa novamente. ela está na espanha? troca de roupa. ainda está lá com outro look? quase nua. está no brasil? não sei muitas coisas, as linhas se borram todas. a isso se dá o nome antropofagia? esse borrão de subjetividades? essas subjetividades que se borram?

uma mulher cai. levanta e gira. cai. levanta e gira. cai, mete os cornos na mesa. a faca estava lá meudeusdocéumeninacuidadocomessafaca! cai, levanta e corta. grita. ri. brilha. gira ao redor das roupas e cai no meio das roupas, as roupas ou seriam peles? deslizam, andam. sujar é também um ato político, me disse uma vez biagio pecorelli. uma mulher-facão-na-bota sai.

e volta. facão também é microfone, ampliador de voz que mesmo sem emitir som diz coisas bem pensadas. aqui se dublam músicas que já não posso recordar. segurando o facão pela lâmina. mari paula é afiada, não teme o corte. ela é a própria vagina ferida tropical. fratura exposta, funda. rasgo.

estou digerindo. outra mulher está digerindo.

 

 

 

Foto: Cayo Vieira.

 

 

 

brenda sodré é áries com ascendente em sagitário, nasceu de cabelo vermelho e com uma hemorragia na cabeça. sua antepassada é a bomba, o projétil, o estilhaço. não sabe outro idioma senão o do fogo e do estalo. está se formando em artes cênicas na faculdade de artes do paraná. é atroz e performer, sua pesquisa atravessa questões de gênero, feminismo e tecnologia.

 

 

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Novas histórias, novos problemas

Por Thalita Sejanes

27 de setembro de 2017
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