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Notas e processos de criação

por Vivaldo Vieira Neto

“Não há solução porque não há problema.”

Marcel Duchamp

 

Este texto procura apontar algumas questões referentes ao processo que venho vasculhando há algum tempo referente à concepção e criação em estética. Não é de forma alguma um texto que se pretende ser exato, muito longe disso, são algumas pequenas notas, exemplificações ora fenomenológica, ora empírica. São anotações que vamos deixando pelo caminho, notas que vão se acumulando pelos cantos e que nos fazem pensar nesse processo criativo, de como enxergamos o mundo, nos processos de transformação de problemas de ordem objetiva em questões subjetivas. Para exemplificar certas questões, no presente texto, muitas vezes temos que recorrer há pobreza das metáforas, é inevitável essa fuga para podermos materializar certas ideias e pensamentos. Não vejo outro caminho senão recorrer à estética e nas suas inter-relações política e social.

Criar é se perder. É se permitir ao fracasso e às vezes ao êxito. Para Deleuze o ato de criação não se dá pelo prazer, mas pela necessidade. Necessidade de subjetivação do mundo, de expressão, de materialização de pensamentos em estética. E de onde surge essa necessidade? Talvez pela inquietação e observação, o olhar atento ao que nos circunda, quando certas questões nos parecem insólitas, desconexas, quando o mundo se torna insuportável; criamos. É a tomada de uma consciência, consciência está aprisionada a um corpo, atravessado por um mundo, corpo este moldado por uma sociedade e pela cultura, um corpo que se torna uma película entre minha consciência e o mundo. Corpo nômade que sempre deve ser questionado e por vezes superado, é através dessa inter-relação consciência-corpo-mundo onde a subjetivação se dá, por esses espaços vazios entre a observação e o pensamento, são fagulhas, insights, onde a busca por algo, quase nunca sabemos o que é, se faz necessário.

A produção em arte é um exercício da liberdade, tanto como a liberdade de pensamento como uma postura diante da sociedade, é se permitir a experimentação, principalmente das linguagens. E como construir esse processo criativo dentro dessas linguagens? Pensando nesses processos de criação, de como sair de uma ordem objetiva para uma abstração da ideia cheguei a um processo de criação, não é de forma alguma um método e nem uma regra, mas uma forma de como visualizo, imagino.

A primeira imagem que me ocorreu foi uma ideia de embaçamento; uma forma de deslocar o objeto, de não ter muita certeza do que está sendo visto, certa dúvida com relação ao que está sendo colocado, algo um pouco distante onde os contornos se diluem. Mas essa ideia de embaçamento ainda estava muito ligada apenas à visão, ainda não dava conta de todo o processo. A segunda imagem foi uma ideia de escurecimento; como se noite tomasse conta do mundo, onde o objeto é apenas um vulto, são necessários outros sentidos pra nos localizarmos diante do pensamento, a distância entre o observador e o objeto se constrói de outra forma, é preciso mais cuidado ao se deslocar para não esbarrarmos, a visão é um mero acaso, outros sentidos são necessários, nos perdemos no espaço, tudo se torna inseguro, insólito. Mas ainda não era isso, o processo de criação é ainda mais abrangente; foi quando me venho uma terceira ideia, a ideia de afundamento.

É como se pulássemos de um penhasco em direção ao mar, nos afundássemos nesse meio aquoso, saíssemos de nosso habitat natural. Quando o corpo é envolto por esse líquido, a visão se torna turva, o som é algo distante, a pele experimenta em toda sua extensão o meio onde está inserida, o chão é uma utopia, é preciso se movimentar para sobreviver, o gosto se torna amargo e o ar um privilégio. É preciso voltar à superfície para respirar, o ato criador seria esse limiar entre a sobrevivência e o afundamento, a tomada da consciência por um instante no meio desse caos, em busca de uma ilha mais próxima e o esforço para alcança-la, como as linguagens é preciso conhecê-las, explora-las, chegar até suas bordas para que seja possível visualizar outras ilhas/linguagens e se jogar ao mar novamente, fazer a travessia, num processo constante de luta, resistência. Segundo Malraux; a arte é a única coisa que resiste à morte. Trazendo essas ideias para o campo da estética; seria como se tirássemos o objeto de seu contexto original, um exercício de deslocamento, como se trouxéssemos a superfície novos significados e leituras possíveis, o título dado como uma forma de dúvida com relação ao que está sendo exposto, um constante questionamento, uma mão dupla, algo que vem e vai incessantemente criando um atrito entre o objeto e o público, é desses atritos que o pensamento se desloca para outras formas de como vemos as coisas. É nesse processo constante de conhecimento e exploração que tomamos o arquipélago, é estarmos isolados nessas ilhas, mas almejando o continente.

Independência ou sorte _ 2017

Pintura sobre tela sobre prédio em fase de restruturação_ Alfaiataria

A fabulosa rádio Tramontina_2017

Trabalho em parceria com Elenize Dezgeniski _ Alfaiataria

Adestramento _ 2014

 

Irmãos Siameses _ 2015

 

Campanha eleitoral _ 2016

Registro: Tuca Kawai

 

Fase de crescimento _ 2015

Check up _ 2003

 

Apropriação indébita _ 2014

Este vídeo é o registro de uma performance, a partir da apropriação da ideia do vídeo “Eat” de Andy Warhol. Sendo que está lata de sopa Campbell’s fora furtada por mim na Rede de Supermercados Mercadorama, por isto o título: Apropriação Indébita. O vídeo é o resultado final desse conjunto operacional: apropriação/furto + preformance + vídeo. Gostaria de aproveitar este espaço para agradecer, desde já, a Rede de Supermercados Mercadorama por este “patrocínio” e pelo “apoio as artes”.

Aulas de inglês _ 2015

 

Cinema de utilidade pública _ 2015

Site specific _ SESI Arte Contemporânea

Série: Queima de estoque _ 2017

 

 

Fila de espera _ 2016

 

Terapia de casal _ 2017

Sites:

https://vivaldovieiraneto.wordpress.com/

https://spamdirecionado.wordpress.com/

https://radiotramontina.wordpress.com/

Vivaldo Vieira Neto

Formado em escultura pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Com interesse no estudo das linguagens,  nas suas inter-relações e hibridismos.  Sua pesquisa atual “O corpo mediado por coisas e outras meios” busca investigar o lugar da performance e nas suas relações com o meio e espaço através de fotografias, instalações,  vídeos e ações performativas.

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FRIDA, YO SOY LA DESINTEGRACIÓN

Por Brenda Sodré

 

 

Foto: Elenize Dezgeniski.

 

 

não há como saber algo tão bem quanto a realidade do espelho, por isso frida se pinta nos outros.

colorida, vários coques pela cabeça, amarras e ferros nas pernas, com a felicidade de uma criança, frida é puxada pela coleira por uma dominatrix zapatista (stela fischer), alguém ganha uma monocelha aqui, outra ali. alguém ganha uma monocelha e um beijo na cabeça. ela olha bem dentro do olho da gente. alguém ganha uma monocelha e um beijo no colo. a dominatrix a puxa mais rápido. alguém ganha uma monocelha e um beijo demorado na boca. que sorte. eu não estou entre os alguéns de monocelha, olho-no-olho, beijo na cabeça, no colo, na boca. queria tanto.

não há o fim de frida kahlo, uma frida jamais se cala com porquês, blablablás, e afins.

no teatro, vários ruídos, um céu azul turbulento que insiste em ficar me causa vertigem, uma mulher de burca preta (leticia olivares) nos dá as costas.

é a voz de donald trump que diz coisas nos alto-falantes. por entre o público, a frida punk de violeta luna ressurge segurando uma tesoura que parece ser cirúrgica, toca duas vezes a cabeça de uma garota para que ela abra espaço. eu preciso me movimentar também porque estou em frente à garota que foi tocada duas vezes na cabeça pela tesoura e eu não consigo mais voltar ao lugar de antes, fico imóvel. sim, parece que ela tem o poder de arrombar o ar com sua presença vulcânica. um fenômeno que nunca vi antes. estou presa no meu corpo, não tenho coragem de me movimentar, no entanto, várias coisas se bagunçam dentro e tenho a sensação de que é crime tirar os olhos dela.

 

 

Foto: Elenize Dezgeniski.

 

 

frida e a dominatrix chegam no palco e se aproximam da mulher de burca até despirem-na. suas costas gritam que nenhum ser humano é ilegal, mas ninguém sabia. algumas pessoas ainda não sabem mesmo depois de. um medo toma meu corpo.

não há o fim de frida kahlo, uma frida não se cala com capitalismos, misoginias, fundamentalismos, xenofobias e genocídios.

frida enfia a tesoura na língua, mete no nariz e ameaça romper o septo, puxa os cílios postiços, come e dá de comer. alguns rostos da plateia se entortam. ela troca de tesoura e começa a proclamar o caos, poda suas unhas uma a uma loucamente. uma unha voa no meu olho. que sorte.

a pélvis que dança cospe uma carne abjeta por entre as pernas. frida a devora. quer? ninguém aceita. ela insiste e oferece de novo e de novo e de novo. ninguém aceita. ninguém quer comer um pedaço de frida kahlo. ela tira os grampos-pregos do cabelo e limpa os dentes e com um deles espeta a carne. oferece para a plateia a oportunidade de perfurar a mesma carne que antes ela ofereceu como banquete. com exceção de uma pessoa, todo mundo aceita. eis que me acontece algo estranho: ela olha para mim e me convida. eu fico em sua frente, não entendo mais nada, sua presença me atormenta, era pra eu pegar um prego de sua perna e enfiar na carne como todos os outros, ao invés disso, eu sento no palco ao lado dela e balanço as pernas como ela balançava. ela ri e me dá um espeto (nesse momento, todos sabiam que eu havia entendido os sinais dela de maneira torta, eu era a única sem saber). eu enfio com força o prego na carne. ela arregala rapidamente os olhos e os fecha bem apertados. na hora eu me encolho toda, percebi a atrocidade que havia feito. ensaiei não espetar caso ela me notasse e resolvesse me chamar, ensaiei dizer coisas no ouvido dela sobre como eu seria incapaz de feri-la e de ferir o que saísse dela. mas eu não cumpri. eu sentei ao lado dela, balancei minhas pernas, olhei em seus olhos e escolhi perfurar a carne que seu corpo expeliu. eu volto ao meu lugar e ela prossegue com seu jantar autofágico, toma uma tequila e passa para o público compartilhar. tira a parte de cima da roupa colorida e veste um colete de metal apertado com várias lanças apontando para fora. ela convida uma moça da plateia, olha bem dentro do olho, elas se beijam ardidamente, apesar das lanças. apesar de.

não há o fim de frida kahlo, uma frida jamais se cala com acidentes de trens, pregos, lanças, ataduras, talas.

 

 

Foto: Elenize Dezgeniski.

 

 

com a confiança de quem tudo pode, frida kahlo violeta luna manipula uma seringa. ameaça enfiar nos olhos, oferece novamente para quem quiser injetar o líquido vermelho em seu corpo, ninguém aceita. ela para ao lado de um homem de terno, muito bem vestido e o intimida. ele não é ninguém perto dela, ninguém. e ali mesmo, injeta em sua coxa algo que eu não sei dizer o que é. frida devora uma garrafa de água com a violência dos tornados. vai se desmanchando, tira os grampos, desfaz os coques, tira a roupa, desfaz as amarras. estende pelo teatro um rolo de papel higiênico com o rosto do donald trump estampado. ela abre os braços e eles pegam fogo. qualquer movimento que ela faz ela pode fazer, nada acontece além dela. ela pode tudo, absolutamente tudo. seus braços abertos pegam fogo. um cristo mulher latina em chamas que eu escolho acreditar. sua saia vira um manto, esconderijo. ela agradece, plena, parada, vulcânica. e educada que é, limpa o teatro que sujou durante a cena com a bandeirinha vermelha e azul com 50 estrelas que conhecemos tão bem.

não há o fim de frida kahlo, uma frida jamais se cala com homens laranjas que agarram mulheres pela buceta, bandeiras, american way of life e afins.

no paradoja, horas depois, onde acontecia a festa de abertura do festival ruído encena, antes que eu pudesse proferir qualquer palavra, violeta luna com seus longos cabelos pretos lisos e seus olhos de rapina me vê e diz: foi muito engraçado, você foi a menina que sentou ao meu lado e balançou as perninhas.

 

 

Foto: Elenize Dezgeniski.

 

 

brenda sodré é áries com ascendente em sagitário, nasceu de cabelo vermelho e com uma hemorragia na cabeça. sua antepassada é a bomba, o projétil, o estilhaço. não sabe outro idioma senão o do fogo e do estalo. está se formando em artes cênicas na faculdade de artes do paraná. é atroz e performer, sua pesquisa atravessa questões de gênero, feminismo e tecnologia.

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existência temporária continuada em curitiba: mostra cena breve

Por Greice Barros

Este material foi apresentado por Greice Barros durante a sua participação no encontro “Espaços contextuais temporários: quais narrativas para quais potências?”, realizado dia 28 de setembro, na Companhia Brasileira de Teatro, em Curitiba, durante o Festival Internacional Ruído EnCena 2017. 

Obrigada pelo convite, por esse espaço essa experiência

Eu sou a Greice, nascida e criada em Curitiba.

A cidade sorriso, só que não!

Eu junto com a Marcia e a Sueli inventamos a Mostra Cena Breve Curitiba – a linguagem dos grupos de teatro

Indo pra décima edição em breve!!! (dedos cruzados) → cor verde = sorte

Vou tentar… com essas palavras e com a minha presença aqui agora com vocês, vou tentar compartilhar as tantas coisas, os tantos atravessamentos de tantas coisas, tantas que nos passam.

Acho maravilhoso se criar um espaço para se “falar sobre o que nos passa”. Toda essa/essas coisas que nos passam, a nós que habitamos esse tempo espaço com nossas diferenças e desejos.

Às vezes me passa

Às vezes em mim atravessa.

Bom…

ESPAÇOS CONTEXTUAIS TEMPORÁRIOS:

QUAIS NARRATIVAS PARA QUAIS POTÊNCIAS?

Pergunta… Questão…Questã…pra compartilharmos…

(Pausa curta) → cor vermelha = atenção

desafios, conexões, fruição, discussão e visibilidade

formas éticas e estéticas

relação arte mundo

hoje, agora

público

convivência

trânsito

foram as palavras que temporariamente tocaram, soaram, provocaram…

criaram Imagens…

chegamos aqui.

E o que nos passa.

Nós, nesse momento eu, mas

nós três: As três.

Somos AS e

Espada!!!

Mostra-A.

O que nos passa?!!

(Pausa curta) → cor vermelha = atenção

O que É a Mostra

e

O que ela pode ser…

O que é a Mostra Cena Breve?!!

O que a Mostra é

O que ela pode será…

(ritmo ao falar quase sem pausas) → cor roxo = acelerado + prazer ao falar

Ideologia

experiência,

sensibilidade,

produção,

parceria,

curadoria,

encontro,

troca sensível,

grupos novos,

grupos convidados, grupos que se fizeram, grupos que se desfizeram,

coletivos,

agrupamentos,

ajuntamentos,

promiscuidade artística,

A mostra como identidade irrequieta que quer fazer vibrar!!!!!

Lugar/Ação

PAUSA, PAUSA, PAUSA, PAUSA – conto nos dedos

(com pequenas pausas, entre cada PAUSA) → cor vermelha = atenção

A Mostra

Amostra.

Contrapartidas, prestação de contas, retorno de mídia, aprovação, desaprovação. Ganha não Ganha. Ganha?? Quem ganha, quem ganha…ganha?!

NÃO!!!

Comprovação de legitimidade, justificativa e objetivo.

Plano de ação e resultados a serem alcançados!!!

E aí… Cagamos Ou não Cagamos? eis a questão.

Do que se abre mão para sentar-se a mesa para assinar o contrato?? Patrocínio Incentivo Logomarca Apoio Institucional Cota de Convites Chancela.

Cancela.

(volta o ritmo de fala) → cor azul = acelerado

Planilhas orçamentárias e logísticas.

Cronogramas.

Projetos, projetos, projetos, projetos, projetooooooossssss

Produção como criação, como ação propositiva, ato.

produção executiva, direção de produção, produção artística, produção ação de formação, produção oficinas, produção técnica, produção festas…

produção e afeto, produção e partilha!

Desierarquizar as hierarquias

Desburocratização!!!!

Formação, atualização, arejamentos das ideias…

Arejamento de práticas.

O tempo…

Tempo histórico, cronológico e sensível.

A continuidade como resistência e como potência,

sem ser refém de tempo algum.

Inclusive do tempo que vem!!

Cumplicidade

Parcerias pra por a mão na massa!

Público,

novos públicos!!

Ações para ativação, formação, encantamento de novas públicos

Desafio, Experimento, Fragmento, Obra

15 minutos

Espaço temporário

da CENA

do teatro

do tempo/espaço temporário

(Pausa – bebe água) → cor laranja = prazer

Espaços temporários criam intensidade de presenças diversas

num tempo espaço único.

Proporcionar e vivenciar esse espaço/tempo.

Ser algo vivo pulsante por esses encontros

é diferente de somente oferecer uma programação exemplar com espetáculos ótimos?! Será?!

Como criar esse espaço aberto a errância?!

Criar e manter esse espaço, essa existência temporária é um ato político.

existência temporária continuada em curitiba, mostra cena breve curitiba.

Fotografias: acervo Mostra Cena Breve/ Elenize Dezgeniski / Lídia Ueta/ Patricia Lion

 

 

Greice Barros é atriz e produtora cultural. Suas criações como intérprete estão ligadas ao teatro e ao audiovisual, em sua maioria, com a performance e estudos sobre corpo e voz. Integra a CiaSenhas de Teatro. É sócia fundadora da Núcleo Produções Cultura e Desenvolvimento. Idealiza e desenvolve projetos como produtora e gestora cultural, interessando-se por políticas públicas pra cultura, manutenção de projetos culturais de continuidade, ações de formação e pesquisa em produção e produção como criação.

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Escrita-roubo sobre autobiografias roubadas

Por Fernanda Ricci

 

 

Foto: Lauro Borges.

 

 

[cochicho]

Curitiba, 14 de setembro de 2017.

 

Eu sou Fernanda, e a instrução de leitura é: leia cochichando.

Cochichando, Juliana me instrui: só podemos falar assim. Me convidou a subir ao piso de cima do Teatro Novelas Curitibanas.

Ao entrar na sala, me deparo com quatro microfones dispostos um em cada canto da sala, com almofadas em volta. Há duas filas de cadeiras frente a frente. À meia luz, recebo o convite de conversar pertinho, cochichado em um microfone. Nós, agora podemos abrir bilhetinhos e conversar sobre nossos medos, contar a história de quando derrubamos algo, de quando alguma coisa deu errado ou sobre a última vez que mentimos. Ou sobre qualquer coisa que tenha a ver com irregularidades. E quando uso a palavra irregularidades, eu estou roubando, porque sou residente da Mostra Emergente e Caio, diretor do espetáculo, me pediu perguntas que tenham a ver com irregularidades.

Juliana senta para conversar comigo e Lorenzo. Nos conta sobre a última coisa que tinha dado errado para ela, havia sido pela manhã. Tinha saído para se depilar e acabou perdendo o horário de ir buscar os remédios de seu pai. Suas pernas ainda estariam grudentas de cera. Ela nos contou que havia lavado, usado esponja e arranhado, mas a cera ainda estava lá. Eu sei que ceras são uma merda para sair da pele. Segundo roubo da escrita: no dia anterior Juliana havia saído do teatro para comprar as meias sugeridas pela Walkiria Talkie Nômade, Bianca, e buscar os remédios de seu pai.

Me peguei olhando para suas pernas a procura de cera e pensando se, ontem, algo havia dado errado com os remédios. Se eu não fizesse a residência, eu acreditaria nessa história?

Eu e Lorenzo começamos a falar dos possíveis erros dos engenheiros. Adicionamos uma outra questão: qual seu grande sonho de infância?

– Ser atriz. E eu sou atriz hoje. E o seu?

– Ser músico. E eu sou músico hoje.

Sorrisos.

[blimmm]

Juliana organiza o espaço. Pega todas as bolsas espalhadas entre chão e cadeiras, carregada e desajeitada, pega um programa da Mostra Emergente e coloca sobre outro programa que estava em frente a Ricardo. Coloca cada bolsa em cima de uma cadeira, organizadas por cor e modelo. Encontra um novo programa, junta aos outros. Achamos graça, chamei isso de cabideiro andante. Termina de organizar as bolsas. Ao terminar essa ação, estamos confortáveis, alguns de nós deitados no chão.

[blimmm]

Juliana para de cochichar [pare de ler cochichando], se apresenta. Diz que pode nos mostrar seu Ritornelo, seu Belchior e “estar bruxona”. Ela disse Belchior? Eu já não tenho certeza se disse. Não espera nossa resposta, sai mostrando. Se movimenta pelo espaço debilmente, em câmera lenta, se arrasta pelo chão, pelas paredes, se enfia em cantos, emite sons, faz bruxaria, transpira. Não há nada de débil. Nós? Transitamos em sentar, deitar, revirar, sorrir, exprimir atenção, estar, perceber a duração desse momento. Terceiro roubo da escrita: em minha última conversa com Caio, ele disse que Juliana nunca disse Belchior. Caio diz que Juliana diz: Ritornelo, tudo em seu devido lugar, encosto, hoje eu tô bruxona.

[blimmm]

Se dirige a Caio que manda imprimir algo. A página sai em branco. Juliana rapidamente coloca a folha para imprimir novamente.

 

Porque coisas dão errado, Caio?

Essa era a minha pergunta para você.

 

Juliana pega o notebook, para, o encara. Me atento para a sua respiração, para as gotas de suor que escorrem pelo seu rosto, nos cabelos grudados na testa, os pingos caindo no notebook, nos seus dedos molhados tocando as teclas e o touchpad. Seus olhos fixos na tela vão e voltam descendo. Fico curiosa: o que ela lê repetidamente?

Devolve o notebook a Caio e inicia novamente sua partitura ritornelo-nãobelchior-hojetôbruxona ao mesmo tempo que nos conta uma[s] história[s]. E agora a concretude de seus gestos não acontece mais no espaço de sua bruxaria, mas sim nos espaços de nossas histórias compartilhadas. Caio, esse DJ malandrinho, ouviu tudo, mixou e colou nossas histórias todas. A banalidade de contar qual foi a última coisa que você derrubou se mescla nos nossos erros, mentiras, a irregularidade que é existir, nos encontros fortuitos, no nonsense e humor. Nos deparamos com as nossas fragilidades e vulnerabilidades, com a certeza de que alguém ouviu nossos cochichos no microfone – sim, desde início era um pacto, mas perdemos algo? Quem mais nos escuta por aí?

Engenheiros que eram ruins em planejar prédios por não contarem que amam o garoto da faculdade e por isso decidem estudar massagem enquanto mentem para mãe sobre café e, os prédios balançam. Grupo Nômade e seus desejos de troca, as fragilidades da cena, as estratégias de criação de um espetáculo em que atriz e diretor moram em cidades diferentes, as estratégias de ensaio, as viagens Curitiba-Brasília, a troca via walkie-talkie entre Curitiba-Brasília-Canadá, o improviso, lidar com o imprevisto e com as coisas que dão errado. A insistência de um sonho.

Transitamos pela profundidade do banal que somos. Eu gostaria de não ter perdido a hora hoje, gostaria que minha mãe não tivesse ficado falando falando falando enquanto eu tentava terminar esse relato, gostaria de ter impresso esse texto em papel vegetal, escolhido melhor algumas palavras, refletido mais sobre algumas questões, mas algumas coisas dão errado. As irregularidades estão por aí, desde o pneu da minha bicicleta que fura, a luz que acaba e faz minha namorada ter que descer 16 andares pela escada ou a impressora que não funciona, até o retrocesso desse país tropical e abençoado por Deus?

Juliana se dirige à porta. Sai. Larga aberta. Guilherme ascende uma luz em direção a porta. Textos. Iluminados pela gambiarra de Marcela. Impressos em papel vegetal. Pendurados pela gambiarra de Caio. Todos com a cidade de Curitiba?, data. “Eu sou Juliana…”.

Penso sobre as conversas que inspiraram esses textos. Penso nas pessoas.

Desço as escadas, encontro novamente Lorenzo. Foi um prazer o conhecer. Vou para casa, e tudo ainda reverbera.

 

 

Foto: Lauro Borges.

 

 

Fernanda Ricci finaliza sua graduação em Artes Cênicas na Faculdade de Artes do Paraná. Nunca é vista usando calça jeans e nem sutiã. Pisciana que não gosta do que prende, saracuuuteia suculenta-explosiva n[u]as Poéticas e Políticas da Corpa Feminista, sobre o recorte de gênero, sexualidade, violência e suas possíveis mesclas.

 

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Eu sou um crash test dummy

Por Marina Viana 

 

 

Este texto foi lido por Marina Viana durante a sua participação no encontro “O que quer dizer independência?”, realizado na Companhia Brasileira de Teatro, em Curitiba, durante o Festival Internacional Ruído EnCena 2017.

 

 

Foto: Elenize Dezgeniski.

 

 

Começa no útero, abaixo da linha do equador. Revolve de furacão e enchente carregando quem não tem o que carregar, passa pela mão do hemisfério norte separando, apontando condenando o que a cabeça tampada por um lenço uma camisa um gorro de esqui performa de braços erguidos no ar. Derrubar monumentos, queimar carros explodir bancos. O sexo escorre por todas as fronterias imaginárias da polis, o suor do sul, o sangue do sul as especiarias do leste, o pacífico gelado o norte barbarizado. A baderna que adentra o espaço, com pés no chão de bailarina. Era pra falar de espaço. Espaço, coisa e corpo. O copo de café, copo vazio, cheio de ar. Vazio daquilo que no ar do copo ocupa o lugar. Ocupa. Tira gente põe represa. Adeus! ó choça do monte!… Adeus! palmeiras da fonte!… Adeus! amores… Adeus! Um homem vivendo dentro da baleia. O cu é logo ali. Este nosso sítio. E eu, menos estrangeiro no lugar que no momento, sigo mais sozinho caminhando contra o vento e meto o meu grelo na geopolítica… Eu podia ficar aqui pra sempre, no alto dessa montanha arranha céu, estrada de minas pedregosa, braços abertos sobre a Guanabara e o grelo na geopolítica! Dedico todo o meu fígado a América do Sul. Patchamama te veo tan triste. Errante navegante. Quem jamais te esqueceria.

Eu sou um crash test dummy.

E também dama do cerrado sem patrocínio nem vergonha na cara, indigna das alterosas co-criadora do teatro fanzine que faz um excelente mojito. Autodeboche narcísico, escracho melancólico e permanente diante do espelho. Na contracorrente de um movimento que eu ajudei a fundar, porque como boa caetana que sou, eu também estive lá. Hoje eu ando avulsa. Mas a rede ainda existe. Sigo com meus empreendimentos independentes. A cidade está cheia deles. Graças à deusa. Novos baianos te podem curtir numa boa.

Não sei quem sou. Mas estou bem. Já esta provado o que só é possível no estrago que dá acelerar na frente, entrar em choque com o tempo e voar na inércia dos acontecimentos.

Por tanto não sou vanguarda. Sou boneca de teste. E não que eu seja um boneco manipulável, sem opinião ou atitudes próprias. A fada azul me deu vida. Ainda não sei se sou a mentira ou a verdade do cerrado, o fato é que meu nariz não cresceu mais do que o de Barbra Streisand.

Mas essa onda avulsa, não sei pra onde vai, nem por que. Os tempos são ruins, 2016 foi um ano ruim, eu não estava lá, mas me contaram.

Mas uma hora eu descubro o caminho de novo. As armas chegarão amanhã e ninguém vai me impedir de cantar Don’t smoke in bed deitada num piano de cauda.

E mesmo avulsa eu vou seguindo por que a rede ainda existe.

Lá em casa tinha um baú. Um baú gigante de madeira escrito Grupo Galpão e embaixo um número de telefone que nem tinha ainda o 3 antes dele. Um baú bem velho que virou um desastre, mas representava, ali, mofando com a chuva e o tempo, cheio de resto de peças antigas e de empreendimentos passados. Repleto de bichos, fungos e representações coletivas de um mundo em decadência, entre o que é solido, se desmancha no ar e vira água no fim. Vira líquido. Vira solidão. Foi assim que eu perdi um grupo de teatro na chuva.

Mas mesmo avulsa e molhada eu vou seguindo porque a rede existe.

Eu nasci ontem demais, mas de vez em quando dava por mim, to velha. Que bom. Não parei. Eu sô fominha eu não me poupo eu não me pouco. Tô aqui tomando fôlego. Por que tudo é vontade de continuar. Tanta saudade preservada dentro de um baú de prata dentro de mim.

A rede existe.

Uma rede que funcionou nos últimos anos a revelia do sistema, confundindo a mídia, que não sabia se portar diante de tanta coisa fora das caixinhas conhecidas, a revelia também das leis de incentivo fiscal, uma rede sem dinheiro.

Continuamos pobres.

Não tenho uma utopia de viver como outros grupos. Acho que já tive um dia. Não serei Galpão. A instituição. Só o tesão que aqueles artistas despertaram em mim lá pros idos de noventa e que está aqui até hoje. Serei só tesão.

Anarquizei meus sonhos. Um dia entendo o que isso quer dizer.

Ricardo Nolasco matou o teatro da ultima vez que estive aqui. Saímos do templo e em cortejo enterramos o monumento, da casa burguesa. Talvez tenha sido isso. Não foi a primeira vez que matei o teatro com alguém. Talvez por isso me sinta expulsa.

Os deuses do teatro foram expulsos de todos os teatros.

Eu botei o grupo de teatro no paredão.

Acho que eu sequestrei por muito tempo o grupo de teatro, hoje eu tô liberando esse refém num terreno baldio, vou olhar pra câmera, suspirar e seguir meu caminho ao som de Smile do Chaplin. Aquele egocêntrico.

Hoje sigo avulsa, mas a rede existe, o bando existe.

 

 

Foto: Elenize Dezgeniski.

 

 

 

Marina Viana é atriz, dramaturga e diretora teatral graduada no curso de Artes Cênicas da UFMG com habilitações em Licenciatura e Bacharelado em Interpretação Teatral desde 2005. É integrante dos grupos: Mayombe Grupo de Teatro, Teatro 171, Cia Primeira Campainha, e é colaboradora de vários outros coletivos da cidade de Belo Horizonte (MG). Tem uma banda, já publicou zines, realiza prêmios e faz cabarés. Posou como modelo vivo na Escola de Belas Artes pra ajudar no orçamento da casa. Atriz e modelo. Escreve manifestos e plagicombina canções alheias.

 

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retrrrrópica

Por Brenda Sodré

 

 

Foto: Cayo Vieira.

 

 

sono, 17 de setembro, domingo, 20h, casa hoffmann, retrópica. saí do churrasco onde estava levemente entorpecida para assistir uma peça porque precisava assistir para fazer uma crítica. peguei uma carona com juliana fenker. era eu, a travesti agnes que eu namoro, juliana motorista e no local encontramos bruna, a iaé. então fui comprar o ingresso e putz não trouxe o comprovante de estudante ah você é da fap? sim ah ok então pode pagar meia.

no hall, várias pessoas famosíssimas como a noite de paris. antes de decidir publicar esse texto, eu citava os nomes das pessoas famosíssimas, agora eu tenho medo.

o fato é que há uma escadaria que se sobe e se aperta juntinho no mezanino. e lá está ela.

uma mulher gigante veste preto e glitter. mas há corpo à mostra. seios. colo quente, respiração, olho-água, corpo-fogo, ventre vivo. suas mãos seguram ovos e fazem magia.

eu pisco os olhos e ela se desmancha, ela se desmancha ao som de palavras que ecoam mantras ao fundo que dizem a vagina é uma ferida tropical; o mar latino, fossa aberta da humanidade; nós amamos o algoz, nosso gozo vem com surra; o imigrante é o sonho canibal; onde a mesa é branca, a esperança e magia só podem ser negras; a unicidade da rebeldia terá pulso de mulher. num dia negra, no outro travesti.

agora uma mulher dourada quebra ovos. rebola. bate o pé. bate o pé. bate o pé. recusa ficar parada, então bate o pé, barulha. grita. ri. vem bem perto. bate o pé ao lado do pé do outro. ao lado do meu pé. ao lado do pé das pessoas famosíssimas. é um pé que bate agora e depois. um pé que não sabe fazer outra coisa senão bater e bater é dançar.

esse é o momento em que eu digo que pensei em começar a crítica dizendo que a mari paula é uma estrela que brilha brilha brilha, só que eu não comecei assim. ou comecei. e a crítica só começa agora. você decide. o fato é que mari paula vem de longe, facão na mão, zoiuda, pra matar os mal/mau (nesse caso serve os dois) do mundo. mulher que corta vestida de fagulhas. as mãos mornas que manuseiam delicados ovos é a mesma que segura a lâmina da bruta faca. facão na mão, pé no chão. corta batatas. meudeusdocéuvocêvaicortarodedomeninacuidadocomissoaí! as batatas se juntam aos ovos quebrados no início, e aos temperos que caem em chuva lá do alto da mão morna da estrela mari paula que brilha e manuseia ovos e facões. não sei ao certo, mas acho que isso se chama tortilha, minha vó faz.

uma mulher de pernas abertas mastiga batatas e ovos com a boca cheia. algumas batatas e ovos grudam no canto da boca. outras batatas e ovos caem ao chão, não sem antes tocar o corpo vivo da mulher que está de pernas abertas mastigando batatas e ovos enquanto balbucia algo em espanhol que a minha falta de conhecimento não permite reconhecer. eu escuto antropofagia. eu escuto canibalismo. eu escuto narcotráfico. disso eu deduzo coisas, várias coisas bem deduzidas. nada muito diferente que as provas de idiomas que fiz na vida, entendo 3 palavras e tento inventar uma história pra elas.

 

Foto: Marcos Guiraud.

 

uma mulher troca de roupa. transita entre brasil e espanha, brasil e espanha. colônia, colonizador, colônia, colonizador. que? há um corpo que dança, um corpo que troca de roupa, que corta, que brilha, que presentifica. penso em algumas coisas enquanto a mulher gira-cai-insiste-levanta. há diferença no corpo-espanha e no corpo-brasil? a diferença está apenas nas vestimentas? a vestimenta é corpo? roupa é pele? há diferença no corpo de um povo colonizado e no corpo de um povo colonizador? se quer demarcar essas diferenças? o que é a américa latina? a antropofagia, o que é?

por várias vezes desaprendi a respirar. recupero o fôlego e ela está lá. ela gira, gira, gira, gira. troca de roupa novamente. ela está na espanha? troca de roupa. ainda está lá com outro look? quase nua. está no brasil? não sei muitas coisas, as linhas se borram todas. a isso se dá o nome antropofagia? esse borrão de subjetividades? essas subjetividades que se borram?

uma mulher cai. levanta e gira. cai. levanta e gira. cai, mete os cornos na mesa. a faca estava lá meudeusdocéumeninacuidadocomessafaca! cai, levanta e corta. grita. ri. brilha. gira ao redor das roupas e cai no meio das roupas, as roupas ou seriam peles? deslizam, andam. sujar é também um ato político, me disse uma vez biagio pecorelli. uma mulher-facão-na-bota sai.

e volta. facão também é microfone, ampliador de voz que mesmo sem emitir som diz coisas bem pensadas. aqui se dublam músicas que já não posso recordar. segurando o facão pela lâmina. mari paula é afiada, não teme o corte. ela é a própria vagina ferida tropical. fratura exposta, funda. rasgo.

estou digerindo. outra mulher está digerindo.

 

 

 

Foto: Cayo Vieira.

 

 

 

brenda sodré é áries com ascendente em sagitário, nasceu de cabelo vermelho e com uma hemorragia na cabeça. sua antepassada é a bomba, o projétil, o estilhaço. não sabe outro idioma senão o do fogo e do estalo. está se formando em artes cênicas na faculdade de artes do paraná. é atroz e performer, sua pesquisa atravessa questões de gênero, feminismo e tecnologia.

 

 

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Novas histórias, novos problemas

Por Thalita Sejanes

27 de setembro de 2017
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APEGOS E DESAPEGOS

Por Jo Mistinguett

 

 

Esse processo é constante. Aqui tudo sempre pode ser alguma coisa ou outra. Pode ser nada também. O silêncio e o vazio dizem muito.

 

O barulho é constante, tem até uma janela dupla. Deixa qualquer um maluco. 14 anos ouvindo esse mesmo som. E cada vez mais ele aumenta. É tipo um ruído constante, que nunca para.

 

Tudo vai apodrecendo, morrendo aos poucos. Aumentando aos poucos, mas pode ser secando aos poucos. Cada segundo é um processo. Agora já mudou de novo.

 

O estímulo anda com a vida e a morte. Mais com a morte. O apocalipse acontece desde que o mundo existe. É impossível não falar sobre ele. Tudo é apocalipse.

 

A parede mofa, a banana apodrece, o cocô do gato fede. É melhor a corrente de ar que se faz quando abre todas as janelas. Só que quando abre a janela, o barulho entra. Tem que sempre escolher entre o ar fresco ou o silêncio. A parede fica preta de fuligem. Todo dia tem que limpar alguma coisa.

 

Apegos e desapegos, insônia. Não há mais medo, e sim blindagens. Um corpo conformado por blindagens.

 

A velha de 85 anos já não sabe mais quando é o próprio aniversário. O velho de 73 anos mal consegue levantar da cama. A criança que era um bebê já diz frases completas. E o chorão que foi plantado, virou árvore. Será que ainda existe? O gato morreu. Dois gatos morreram.

 

A segunda filha tem o olho que mudou de cor por causa de um acidente. A terceira filha mal se vê. O filho caçula tem pensamentos capitalistas e quer o gozo que o dinheiro pode proporcionar. Os outros que deveriam estar velhos morreram antes de envelhecer.

 

Ainda tem gavetas vazias e um espaço desocupado.

 

O sangue fraco perde rubor. Não pode mais sangrar. Nem sabe por onde sangra. O zumbido no ouvido fica mais forte e se mistura com o barulho que vem de fora. Do lado esquerdo o zumbido é mais alto, e as vezes não se ouve o que falam. O barulho de fora pode ser bom porque camufla o zumbido. Mas daí é uma barulheira constante. Pelo menos entra o ar fresco quando não faz muito frio. Quando tá muito frio a janela fecha e só se ouve o zumbido dentro da cabeça. Do lado esquerdo. Sempre o esquerdo.

 

O lado esquerdo sempre foi o lado preferido. É refinado, delicado, emotivo.

 

 

 

 

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Transmutações de Ideais e Destruição Generalizada

Por Nina Rosa Sá

 

 

 

O que é um processo? Como as questões chave de uma pesquisa se estabelecem ou reestabelecem ao longo dos anos? Como uma pesquisa se torna obsoleta e se transmuta em algo completamente diferente? O que é arte? O que é política? E como essas coisas se relacionam para que seja possível chegar nos resultados a que me proponho atingir hoje?

Bem, não quero escrever um texto incrivelmente longo, não quero aqui escrever uma espécie de Minha Vida na Arte. Decidi traçar um histórico rápido e falar sobre a influência do cinema no teatro que eu escolhi fazer. Decidi, há muito tempo, que me interessava nublar fronteiras, traçar paralelos entre arte e entretenimento. E de uns tempos pra cá, ao lançar o Projeto Z, venho pensando sobre como é importante hoje forjar um tipo de arte que também seja política. Propondo um outro viés artístico, separando as artes ao invés de integrá-las ou nublar seus limites. A tônica dominante do meu pensamento é a questão da representação e da representatividade. O foco da obra é sempre na mulher, preferencialmente na mulher lésbica e/ou bissexual.

Mas isso é algo que se desenha lentamente. E que só vai chegar ao seu ápice, como objetivo de construção em 2016/2017, com um projeto de teatro feito exclusivamente por mulheres e tratando de questões de mulheres, reunindo artistas que tenham algum tipo de envolvimento com o feminismo. Esse projeto desemboca na cena Que Bom que Você Entendeu que Eu Estou tão Perdida Quanto Você.

 

 

que bom que você entendeu que eu estou tão perdida quanto você_ Mostra Cena Breve 2017. Foto: Melito Junior.

 

E antes disso tem um desdobramento para um pensamento sobre séries televisivas, com um projeto ainda não realizado de websérie que se transforma em série de TV, Antes do Fim, escrita em 2016 e ainda sem previsão de realização. Aí já existe um exemplo claro de como as coisas se separam com o surgimento do Projeto Z. Existem agora artes distintas a serviço de uma mesma coisa política. Mas elas não se misturam mais. O projeto de Antes do Fim é exclusivamente audiovisual.

Mas primeiro o teatro.

Comecei com essa história de teatro em 2003, de um jeito meio por acidente, meio atípico, que não é o centro da questão, então melhor deixar essa anedota pra outro momento. No período que passei na faculdade e logo depois disso, enfiei o pé na história da busca pela fusão entre arte e entretenimento. Por dois segundos eu achei que a tecnologia salvaria a arte. E que a intersecção possível com entretenimento dependia dela. Bobagem. A arte em si é um tipo de tecnologia.

Passei anos tentando e testando. Eu desenvolvi um pouco essa linha de pensamento com a Companhia Provisória, que fundei junto com outros artistas em 2004 e durou até início de 2009. Uma pesquisa de interseccionalidade. O que é entretenimento e o que é arte? Existe a possibilidade de uma obra ser as duas coisas? Alguns críticos – vários deles – insistiam em chamar aquele negócio que eu ainda estava tentando entender de entretenimento. E sempre havia um tom irônico, algo que dizia que isso era menor. Eu entendo purismo, eu sou purista em vários aspectos. Mas não acredito que a gente possa ou deva categorizar as coisas que dizem respeito à arte assim.

O que eu quero dizer é: O Poderoso Chefão é um filme incrível, uma obra artística potente e também é entretenimento de alta qualidade. Estou usando esse exemplo porque é o tipo de filme com o qual a minha obra não se relaciona explicitamente e a gente pode seguir em frente sem que eu tenha que dizer “é óbvio que não estou me comparando ao Coppola”. Acredito que seja impossível dizer que grandes filmes como Taxi Driver, Apocalipse Now, Annie Hall, O Iluminado e vários outros não sejam grandes obras de entretenimento. Eu indago se é possível dizer que não são também arte. Para mim – que olho pra Evil Dead e tenho certeza absoluta que aquilo é arte, que tenho certeza que a trilogia zumbi do George Romero é arte – é impossível.

Eu entendo o que as pessoas querem dizer quando falam em “Cinema de Arte”. E isso normalmente se relaciona com as escolas europeias de cinema. E sendo uma pessoa que ama o Godard e considerando sua obra como uma grande referência pro tipo de trabalho que eu quero fazer, eu entendo e até acato. E se o que Godard – e Truffaut e Chabrol e Resnais e todos os outros – está fazendo é um tipo de arte que só pode ser categorizada como cinema de arte, será que ela não pode ser considerada entretenimento também? Olha, é possível que Adeus à Linguagem não possa mesmo, mas e Acossado? E o resto da galera? O tipo de filme que o Claude Chabrol fez tem várias camadas, mas poderiam ser considerados thrillers comuns se não houver vontade de olhar além. E o mesmo pode ser dito dos filmes do Truffaut. A forma pode ser considerada e olhada da maneira mais simples e singela possível. Pense em Os Incompreendidos como algo muito próximo de um tipo de cinema americano, que trata de amadurecimento. É possível olhar assim. Talvez o Godard seja o mais difícil de se enquadrar aqui, considerando a forma, pelas elipses e jump-cuts, pela necessidade de afastamento do público que não se vê nos outros dois cineastas citados, pelo menos tão explicitamente.

A minha questão, pensando no cinema e em todos esses grandes nomes, é: a gente pode diferenciar qualitativamente um Godard de um Kubrick? Um Scorsese de um Chabrol? Um Woody Allen de um Truffaut? Olha, tenho certeza que muita gente acredita que sim. Mas dentro do meu sistema de percepção e criação, eu considero impossível esse tipo de diferenciação. São grandes obras seminais de diretores essenciais e pertencem ao mais elevado pedestal do cinema. E ainda tem outra, como a discussão efetivamente é sobre teatro e essas quase mil palavras foram uma espécie de introdução a um tipo de pensamento artístico, eu sequer vou entrar no mérito do cinema oriental, porque seriam necessárias mais umas mil palavras pra fazer esse outro comparativo. E eu já fiz o comparativo acima da maneira mais superficial possível, pra que ninguém desista do texto porque ele é escabrosamente longo.

Mas e aí? Como é que tudo isso se relaciona com teatro?

 

 

Em Breve nos Cinemas_ Foto: Alice Rodrigues.

 

Primeiro porque é o pensamento por trás da coisa toda. É claro que cinema e teatro são coisas muito diferentes. Os meios de produção são inteiramente diversos. E também é claro que quando você tem algo que parte de um processo muito mais industrial e outro algo que parte de um processo mais artesanal, vai parecer que uma coisa está muito distante da outra. E não vou negar, estão mesmo. Mas o pensamento que funda as duas coisas, a sistematização crítica sobre a obra, isso é uma coisa próxima. E indo um pouco além, como no cinema é mais aceitável que arte e entretenimento andem de mãozinhas dadas, é mais fácil criar um tipo de pensamento para teatro que parta de uma lógica cinematográfica. Por exemplo, quando eu assisti A Vida é Cheia de Som e Fúria, do Felipe Hirsch, lá atrás, antes de tudo isso, antes de teatro existir como uma possibilidade pra mim. Foi um momento revelador, em que eu entendi que teatro pode ser aquilo, uma obra comovente, artística e completamente ligada ao entretenimento. Eu revi a peça anos depois, quando o teatro já era meu objeto de estudo e objetivo de vida, e continuei com a mesma impressão. A de que é possível criar algo relevante e divertido e bem feito. Arte que é entretenimento e vice-versa. Partindo desse pensamento, a influência do cinema nas coisas que eu estava pensando para teatro começou a se intensificar, culminando com a pesquisa que desenvolvi por alguns anos com o Teatro de Breque.

 

Em Breve nos Cinemas_ Foto: Marco Novack.

 

O auge dessa pesquisa foi o espetáculo Em Breve nos Cinemas (2012), a partir da obra de David Foster Wallace. Naquele espetáculo nós não apenas falávamos sobre cinema, não apenas trazíamos elementos de entretenimento, mas emprestávamos algo da linguagem, pra executar cenas de um filme que se construía ao vivo, diante da plateia, mediado pela projeção. O palco era dividido ao meio por uma parede. Do lado de trás desta parede pequenos cenários realistas eram montados e duas câmeras estáticas filmavam as cenas do filme. Essas cenas só eram vistas na projeção, com planos fechados, não mostrando as bordas do cenário. Mas o público podia ver a cena através de uma janela na parede do cenário, de maneira meio incômoda e recortada, mas que desvendava o que estava acontecendo ao vivo. Do lado da frente da parede o público via uma ficcionalização daquele ambiente de set de filmagem. Atores discutiam as cenas que ainda iam acontecer, ensaiavam textos, evidenciavam o processo de construção do filme. Um diretor explicava a estética. E ainda, numa terceira camada, os três atores falavam diretamente com o público – seja contando tudo que iria acontecer na peça, numa espécie de prólogo, seja fazendo uma explanação matemática, ou ainda num epílogo em que cada um deles dava sua opinião sobre o espetáculo, o filme ou a vida, logo antes que a parede que dividia o palco caísse pra revelar um grande nada, o fim niilista, a aniquilação (do personagem, do filme, do limite entre teatro e cinema).

Essa aniquilação era o ponto crucial do espetáculo. Ao aniquilar o sentido da intersecção a obra encontrava sua potência fundamental. Assumia-se teatro de novo. Rompia com os significados ou com a história construída. O final rompe com a ideia de que há uma estória a ser contada, com começo, meio e fim. Porém, para que se pudesse aniquilar algo, antes era necessário construir este algo. Todas as possibilidades de intersecção. Cenas que eram documentários inspirados nos filmes de Eduardo Coutinho. Cenas que eram trailers de algo que jamais seria visto, mas que dialogavam com a depressão da personagem. Cenas de um filme sobre um casal se despedaçando aos poucos. Cenas de um filme dentro de uma peça de teatro ou de uma peça de teatro dentro de um filme. Nos últimos vinte minutos nada disso importava mais. As cenas eram aniquiladas e substituídas pelo vazio de uma versão de música pop intercalada com a autópsia (real) de David Foster Wallace. Eu conto o final agora porque é extremamente provável que essa peça, esse acontecimento que era Em Breve nos Cinemas, não se repita. Então é importante.

 

 

Em Breve nos Cinemas_ Foto: Marco Novack.

 

Essa ideia de aniquilamento que surge nos minutos finais de Em Breve nos Cinemas, o compromisso com o nada e a destruição das intersecções artísticas, vai permear os caminhos e as guinadas que a minha proposta artística sofre. Ainda em parceria com o Teatro de Breque, em 2013, surge Um Carvalho, um texto sobre a ficcionalização do público, sobre improviso e sobre o desvendamento do trabalho do ator; e em 2016, o espetáculo A Maldita Raça Humana, aí sim um teatro assumidamente político, uma busca por um ato significativo realizado artisticamente. Juntas, estas duas peças representam uma guinada rumo à aniquilação de intersecções, ambas são puramente teatro, teatrais, ainda que diferentes entre si.

Como a intersecção é abandonada, o meu trabalho acaba se desdobrando e dividindo novamente em modalidades. E o Projeto Z nasce, então, como um selo cultural multiáreas, voltado tanto ao teatro, quanto à música e ao audiovisual, com proposta de expansão para outras áreas, como a literatura. Mas todas elas dissociadas umas das outras, ainda que, de certo modo, acabem se unindo dentro de um ideal político de construção artística.

O primeiro espetáculo do projeto é Para Ler Aos Trinta (2014), com uma equipe composta quase que exclusivamente por mulheres, com um texto que fala sobre questões femininas, ainda que não necessariamente atinja uma potência de discussão feminista. É uma peça de transição, em que o teatro é o mais importante e o sentido do entretenimento é deixado de lado em alguns momentos, para se atingir uma poética outra. Mas as projeções em vídeo ainda estão presentes e a apresentação dos créditos como em um filme também. Ela é transição porque ainda não é abandono, não consegue chegar por completo no aniquilamento. Mas é uma espécie de amadurecimento, uma primeira proposta de retorno ao teatro, de dialogar politicamente com o agora. E como primeira proposta ela falha em diversos lugares e tem sucesso em outros. Mas funciona por reencontrar o eixo de significação principal no trabalho das atrizes.

Em 2015 o projeto Qorpo Santo 3 Linguagens recebe aporte financeiro do edital Rumos Itaú. As três linguagens citadas são música, vídeo e teatro. A peça Amanhã Sou Outro, seguindo a linha do próprio dramaturgo, dialoga com o presente e as questões políticas do agora. Um agora pré-golpe, mas de manifestações de professores e do massacre de 29 de abril. Além disso, a questão LGBTQ+ é abordada, problematizando a maneira como o escritor havia tratado dela no século XIX, trazendo a discussão para uma esfera política, que naquele momento dialogava com a estética queer. Ao mesmo tempo a questão da mulher está presente, de maneira mais discreta, já que os esforços de representação acabaram se centrando mais nas figuras que compõe um casal gay. Ainda não era o ideal para mim, era necessário abordar as questões LGBTQ+ do ponto de vista da mulher. Porque se você parar pra pensar esse tipo de abordagem é mais difícil de encontrar, especialmente se retirada do lugar da piada, da punch line. E aqui eu já começo a pensar sobre televisão e cinema, mas voltaremos a isso na sequência.

 

 

Amanhã Sou Outro_ Projeto Qorpo Santo 3 Linguagens_ Foto: Rosano Mauro Jr.

 

A trilha sonora do projeto parte de letras do próprio QS, logo, o teor político está presente, e ainda há duas canções com letra de Leo Fressato, que explicitam este tom e novamente traz as questões para o nosso tempo. Os vídeos mostram o tom iconoclasta de QS, trazendo relações diretas com religião, dinheiro e a cidade de Curitiba. O projeto como um todo era uma tentativa de obra política, mas ainda caía na cilada da galhofa, do riso fácil para aliviar um assunto terrível, da quebra metalinguística. Como diria meu amigo Fábio Kinas, faltou “sair do jardim de infância”. E para que algo seja realmente relevante precisa muito amadurecimento. Preciso ainda. E pensando no quanto é necessário pensar a arte de outros modos, surgem dois projetos, completamente interligados, ao mesmo tempo em que são coisas distintas.

Primeiro, em 2015, logo após o fechamento do projeto Qorpo Santo, começa a ser desenvolvido o projeto de websérie Antes do Fim, uma obra audiovisual relativamente simples, mas focada no relacionamento entre duas mulheres. O projeto não consegue financiamento e fica engavetado até 2016, quando é selecionado para o Globolab, um edital da Rede Globo para webséries. No Rio de Janeiro o projeto continua a ser desenvolvido, com a colaboração de roteiristas, atores e diretores da Globo. Participa da final do concurso, mas não vence. E a partir daí começa a crescer como uma série de meia hora para televisão. Conforme cresce em tamanho cresce também na ideia de representação e representatividade. A proposta é de entretenimento, mas um tipo de entretenimento que trate de questões importantes, em que as pessoas – especialmente as muito jovens – possam se reconhecer, para que não se sintam invisibilizadas como eu e muito amigos e amigas nos sentimos quando éramos adolescentes. E isso dá início a um tipo de pesquisa bem específico, sobre estatísticas de representação da mulher LGBTQ na televisão. Os dados focam mais na televisão produzida nos Estados Unidos – até por se considerar o extenso volume de produção daquele país. E as estatísticas estão contra nós. O número de personagens lésbicas ou bissexuais despenca ano a ano. O índice preocupante só não é maior porque o número de personagens gays e transgêneros tem aumentado. Mas também, o número de personagens trans é tão ínfimo que não tinha como diminuir. E isso faz com que se tenha uma percepção um tanto cruel e divisiva sobre televisão. Os executivos ou grandes nomes da indústria são homens brancos, mas também há muitos gays entre eles, o que se converte numa questão bastante simples: quanto maior a representatividade maior a representação. E, bom, muitas mulheres estão falando isso há anos. A chave está na representatividade.

O que nos leva a 2017, ano em que todo o conceito de aniquilamento se radicaliza, com o projeto Que Bom que Você Entendeu que Eu Estou tão Perdida Quanto Você. Projeto de espetáculo longo, mas que aparece primeiro em uma cena de 15 minutos, tratando de um tema específico, completamente endereçado à comunidade artística que lotaria – e lotou – o Teatro José Maria Santos, na Mostra Cena Breve. Nesse recorte, que muito provavelmente sequer cabe no projeto de espetáculo longo, falávamos de um tipo de opressão exercida por um grupo de pessoas também oprimidas. Eram nosso melhores amigos gays com seus discursos misóginos de ódio ou nojo à buceta, uma representação do feminino. Eles sequer se davam conta. Não podem mais dizer que não se dão. Não podem nos trazer falsas simetrias do tipo “lésbicas dizem que tem nojo de pau e ninguém problematiza”. O pau é o herói da sociedade. Um pau pra ser enfiado dentro de nós, o pau metafórico. E pensamos em estupros reais, estupros coletivos, estupros que são exercício de poder e nada mais. E ao trazer o pau como nosso algoz estamos falando de uma sociedade falocêntrica e não do pau que faz parte da anatomia. E estamos falando que nossos amigos gays fazem parte desse sistema sem nem se dar conta – às vezes.

 

 

que bom que você entendeu que eu estou tão perdida quanto você_ Mostra Cena Breve 2017. Foto: Elenize Dezgeniski.

 

Ao mesmo tempo estamos falando das diversas esferas de agressão, das mais pesadas às mais cotidianas, que somos ensinadas a aceitar desde o forninho e da boneca Barbie. E não podemos mais suportar. E queremos estar entre nós mesmas e falar de um ponto de vista nosso, coletivo, ainda que plural. Assim, o projeto é idealizado, pensado e executado inteiramente por mulheres, uma equipe inteira de mulheres. Que passamos por tudo isso, das agressões mais pesadas, das quase últimas consequências, às mais leves, da não aceitação da nossa roupinha de Rambo e do carrinho no lugar da boneca. Mulheres que se compreendem, porque dividem à experiência de existir num mundo que as trata como cidadãs de segunda classe. Mulheres que são mães e encontram resistência dentro do próprio movimento feminista, mulheres que são bissexuais e tem sua sexualidade invalidada, mulheres lésbicas que são invisibilizadas. A agressão é permanente e se modifica em cada história nossa, mas ainda é a mesma raiz de agressão. E quando somos agredidas não podemos e nem devemos fazer piada ou tratar com leveza. Esse espetáculo é um grito gutural de “chega!” em que não há espaço para o humor. Começamos a entender isto.

Começamos a entender que humor é distração. Começamos a entender que precisamos sair dos nossos lugares de conforto e retirar os outros de seus lugares de conforto. Começamos a entender que precisamos falar com todas as mulheres, para além do nosso convívio. Começamos a entender que esse espetáculo atinge seu ápice quando descentralizado, quando democrático e inclusivo.

E quando um projeto parte de algo tão urgente é sintomático que o tom mude. O tom mudou, está mudado. Tudo mudou. O novo fazer teatral que o Projeto Z inaugura com esse projeto é radical, destruindo e reconstruindo tudo que veio antes.

 

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O Show do Apocalipse não é mais uma novidade para mim

Por Leonarda Glück
Fotos de Elenize Dezgeniski

Essa coisa de falar de processo não pode começar sem antes tentarmos “definir” juntos o que é processo, ou, nesse caso bem específico, o que é para mim um processo de criação artística. É raro eu escrever sobre isso mas vamos lá: para mim um processo é sempre a vazão de uma história que eu já não consigo mais conter, nem sempre com começo ou fim, já iniciada e em andamento, que desemboca em um texto, ou em cima de um palco, ou na rua, ou em produção imagética, impressa ou videográfica, ou demais localidades, físicas ou virtuais, onde ela possa ser apreciada por outrem. É um troço íntimo e ao mesmo tempo público, aberto, dividido, mas que muitas vezes é sozinha que me recolho com ele e que o levo para o meu travesseiro. Como eu gosto muito da palavra escrita, geralmente é por ela que inicio a maior parte dos meus processos, e isso se dá geralmente lendo, relendo e até mesmo escrevendo, mas nem sempre. Os insights surgem nos momentos mais inusitados, sem ordem ou organização qualquer, no meio do café da tarde, vagando pelas ruas, no banho, andando de bicicleta ou entrando no tribunal eleitoral. Para mim palavra e corpo, embora pertencentes a esferas relativamente distintas de expressão, são a mesmíssima coisa. Sempre considero um coração demasiado enganador aquele que tenta separá-los. Porque quando eu leio algo que me toca, é no corpo que se dá a reação, imediata, irrecorrível. O corpo não consegue escapar a uma reação assim tão sensorial como é para mim a palavra. Essa palavra para mim tão intramuscular, a um só tempo rapsódica e anárquica, erótica e mortífera, é meu campo maior de batalha semântica. Esse corpo para mim tão díspar, que dança sexo, desespero e guerra, é atração e repulsa em sua máxima potência em todo o meu exercício de escrita. É munida de ambos que eu caminho, é mergulhada até o último fio de cabelo nesse papinho de linguagem e de organismo vivo que eu sigo em frente. Às vezes a palavra é o movimento no vídeo também, e o corpo performance tangível. Em outras o corpo é música e a palavra imagem plasmada. Pois bem, foi o que me aconteceu com o Copi, esse dramaturgo argentino tão tomado de dialética e luta linguística, que me atraiu com esse texto que eu vi encenado pela primeira vez há dez anos atrás, em Curitiba, a primeira vez que o autor foi apresentado no Brasil. Ali eu pensei: “quero fazer esse texto!” e saindo dali eu fui atrás de tudo que dissesse respeito ao cara e sua obra. Comprei seu livro, descobri que era uma bichona louca maravilhosa, que desenhava além de escrever, que tinha dado um pé na América Latina e ido morar em Paris, e que por isso sua obra havia se tornado mais e mais intrincada. E que havia morrido de aids. Loretta Strong comeu o meu cérebro desde os primeiros instantes: quem diabos era essa mulher perdida no espaço tentando estabelecer diálogos insólitos com buracos negros existenciais enquanto era estuprada por ratos preocupados com a continuação de uma espécie tão malandra e torta? E como não fui eu mesma que escrevi isso?!! Fiquei fascinada e, após alguns anos falando sobre o assunto, ele voltou à tona. Foi em uma das reuniões na Casa Selvática que eu soltei que tinha interesse em montar esse texto, do jeito que fosse, com as condições que fossem, e que quem quisesse entrar comigo nessa estava convidado. Era, me parece claro agora, também uma maneira de homenagear a atriz Claudete Pereira Jorge, que todos amávamos muito e que faleceu há um ano atrás, nos deixando órfãos da magnífica voz que dez anos antes batizara de luz e cena o texto do autor no país. Uma vez mais era meu assunto predileto sendo levado à cena: uma mulher presa, oprimida, possivelmente manipulada, obrigada a fazer coisas que não deseja verdadeiramente, arrastada num redemoinho insano de visões de mundo que os outros se lhe interpõem. É a desgraça de cada dia da mulher, brasileira, latino-americana e universal, espetacularizada em sua própria existência sufocada no seio de uma sociedade doentia e sádica, mais interessada em explorá-la comercialmente do que em sua libertação. O que era para ser um monólogo, ou solo — como os artistas da dança preferem chamar — logo é interrompido por uma ideia que se abateu sobre mim quando eu voltava para casa um dia, altas horas da noite, dentro de um uber. O dia lotado de compromissos, fotos tanto para a próxima semana como para o próximo mês, tudo bem, vamos lá, decore as duas páginas e meia do texto que foi você mesma quem editou, tem também aquele teste para o filme daquele cara que está atrás de atrizes trans, o livro esgotou em alguns lugares mas as pessoas não param de pedir por ele, você não teria um aí para vender, por acaso? Escreva o release, veja se o maiô te serve, alguém te ligou para você se manifestar na tevê sobre artistas LGBTQIA atuais — militante compulsória em que o mundo te transformou — engula qualquer coisinha e lembre-se que, além de não ser preciso esperar o carnaval para ser vadia, o sexo está na cabeça e não necessariamente nos genitais, especifique as necessidades técnicas, para mim uma peruca só não adianta, tem que ser umas quatro logo duma vez, formando um bolo em cima da cabeça, os cabos dos teus três microfones vão precisar de mais de vinte metros cada um, como sempre, que horas teu voo sai, tem mensagem nova de jornalista (ou estudante de jornalismo, não sei o que é pior) nas tuas redes sociais a cada meia hora, todos querem uma entrevista contigo, que medo se a aeronave não conseguir frear na pistinha minúscula de Congonhas, tem mais duas mesas nos próximos meses, uma mais acadêmica e outra mais informal (que bom não precisar citar Foucault e Butler ao menos uma vez), uma amiga me disse que é possível que o mundo se acabe em print, parte da comunidade transexual já te enxerga como figura pública, querem saber a tua opinião sobre a Rússia, como não me tornar uma burocrata e ainda manter intumescido e úmido de vida meu grandioso grelo de arte? E aí, conseguiu decorar o texto?? Se tudo se acabar em print mesmo, será que no apocalipse irão passar as nossas mensagens inbox num telão? Na minha mente ligeira passam as imagens de todos os meus nudes sendo projetados, é a antecipação do inferno. Ah, agora tem essa entrada espetaculosa com a música da Nina Hagen, o clima vai ser bem drag boateira dos anos noventa, você vai ter um corpo de baile dançando com você e você tem que aprender a dublar em alemão. Tudo bem, você tira de letra, né? Claro que eu tiro, digo eu, nada mais fácil que o alemão, como sempre me fazendo de valentona. Não posso reclamar. E se tivesse também, no meio disso tudo, uma equipe jornalística de vídeo para entrevistar a Loretta depois que ela falar todas as loucuradas surrealistas dela? A cara do diretor é de dó, de novo a Léo com essas ideias, olhem o brilho insano nos olhos dela. Será que ela comeu? Talvez seja fome. Mas aí já não vai mais ser um monólogo, Léo. E qual o problema? No próprio texto do Copi as vozes são tantas que é possível que aquilo seja mais uma polifonia esquizofrênica do que um monólogo propriamente dito. E isso também está ótimo para você se você já fez a Valsa Nº6, do Nelson Rodrigues, não é mesmo? Na valsa ela também era esquizofrênica e nem viva estava. Nota mental: escrever o texto para a repórter da TV Rato falar, a televisão fictícia que irá entrevistar Loretta Strong, a única sobrevivente humana do apocalipse. É uma crítica à mídia? Vocês estão falando da espetacularização do fim? Sim, nós estamos transmitindo o Show do Apocalipse ao vivo e nele estaremos vestindo os nossos melhores estilistas. A verdade mesmo é que eu fiquei sozinha com os ratos: essa metáfora textual se aplica tão perfeitamente aos dias do Brasil de hoje que até me pergunto se Copi não era um pouco profeta. Se eu fosse a única mulher a sobreviver ao apocalipse e avistasse o Eduardo Cunha ao longe, sobrevivente também, como o belo exemplar de rato que ele é, será que eu teria coragem de deixá-lo me fecundar?!? É claro que seria uma completa nojeira, é claro que seria uma dramaturgia imunda. Então é claro também que algumas pessoas nesse mundo tenham interesse em pesquisar e criar sobre dramaturgias imundas e de transgressão, como é o caso do Copi e como é o meu próprio caso, pois cada vez mais eu sinto que estou escrevendo, versando e performando sobre a nojeira. A Hilda Hilst, de quem eu sou fã, em muitos de seus escritos, se referia a Deus como “O Grande Cara de Nojo” e eu acho isso muito significativo. Talvez toda a chamada Criação Divina, da qual nós todos somos parte (eu, você, o Copi e a Loretta), se refira mesmo ao nojo e à porcariada — a imundície como verdade lixosa — como um grande intestino explodido e espalhado. Quem iria duvidar? Resulta que, como o texto do Copi não foi utilizado na íntegra e também como nós enxertamos (eu sou a rainha do enxerto) outras coisas no contexto da Loretta, intitulamos a cena de “Betelgeuse”, que é o nome da estrela maior da constelação de Orion e que ao que tudo indica foi onde o satélite dela enroscou. Em inglês é também o nome do filme do Tim Burton de 1988, um dos ícones maiores da minha infância, que permeou todo esse processo de criação. Não está virando uma comédia rasgada demais? É um pastelão, um stand up caricato conceitual! Léo, você é a Dercy Gonçalves do futuro, me diz um amigo. Sim, meu querido, eu serei a grande vedete que abrirá as pernas para o futuro tecnológico. Contudo, tentarei sempre fugir da distopia, é bom que se diga. Também precisamos rir da desgraceira, sambar na catacumba das emoções, não podemos embarcar na nave plurissexual se não for pra dar risada também. O humor na cena é como um shot do melhor ecstasy no organismo: é gostoso e viciante, dá um prazer físico inenarrável. Tem vezes em que é melhor até do que chocolate ou sexo anal. Mas a gente tem que cuidar para não virar uma esculhambação xuxanística, tudo tem sua hora e vez. Eu quero muito que “Betelgeuse” vire peça, que entre cartaz, que faça o povo rir e que rode o país e o mundo. Vou comprar a alma de todos os meus parceiros de trabalho para isso. Talvez nem precise. A equipe gosta tanto de fazer o negócio que é possível sentirmos no ar essa alegria. A Casa Selvática, para mim misto da Factory do Warhol (numa versão tupiniquim subtropical) com os Dzi Croquettes da nova era, é um lugar bom para coisas assim florescerem, nós somos uma pequena multidão queer de figurinistas, roteiristas, diretores, produtores, cinegrafistas, modelos, professores, iluminadores, maquiadores, oficineiros, mães, escritores, pintores, atores, dançarinos, performers, cantores, guitarristas, sonoplastas, caracterizadores, tecladistas, artistas de dentro e de fora da cena, nós gostamos de criar para fazer parar, nem que seja por instantes, a dor do mundo. Às vezes nós a fazemos aumentar sem querer também, mas é como as coisas são. Não se pode ter tudo nessa vida. Eu sempre costumo dizer que o que eu estou fazendo nessa vida é apenas uma grande peça separada por capítulos, aqui e acolá. Amor, sexo, violência e poder serão sempre os meus temas do coração. A ascensão da mulher e a transexualidade são questões contemporâneas que vieram para se juntar a eles naquilo que eu tenho de mais essencial em mim, que é o desejo de produzir arte. Pesquisar sempre e observar sempre para criar sempre. Agora eu estou com uma ideia surgindo na minha cabecinha, com todo esse papo sobre fecundação que a Loretta Strong me deixou, que é de escrever um novo texto teatral para tratar da questão das crianças queer, quem as defende? Quem defende a criança viada?? Quem defenderá a criança travesti?!? Também o texto do Preciado sobre esse assunto me botou essa célula em funcionamento e eu não estou conseguindo me livrar dela. Junto com isso me chegam informações de países como a Finlândia e a Noruega, que tem desenvolvido políticas efetivas, além de comportamentais, para lidar com crianças que mostram desde muito cedo um descontentamento enorme com o sexo designado no momento do nascimento. Quero falar sobre isso agora. Está mexendo comigo. Penso que deve ser um monólogo novamente, mas a gente nunca sabe quando vai entrar um corpo de baile em cena, né? Acho que irá chamar-se “Baby Eva”, porque também tem a ver com o livro “A Paixão da Nova Eva”, da Angela Carter, em que um professor de inglês é transmutado em mulher por uma espécie de deusa da fertilidade, misto de mulher negra e máquina. Quem viver verá!

 

 

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