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O que podem nossos corpos?

 

 

Foto: Spencer Tunick.

 

Tem sido intenso pensar sobre a arte hoje, pensar e praticar este ofício de ser artista e docente em Curitiba neste ano de 2017. Sexta-feira (29-09), indo dar aula, abri o facebook e me deparei com discursos deturpados, superficiais e censuradores sobre a obra La Bête (O Bicho) do artista Wagner Schwartz, onde manipula uma réplica de plástico de uma das esculturas da série Bichos (1960), de Lygia Clark. O artista convida o público a manipular seu corpo, a obra se faz na relação participativa do público. Vale lembrar que, as obras da artista Lygia Clarck já problematizavam a relação entre os corpos, onde a artista desloca o foco de sua investigação da pintura e da escultura para o corpo e o envolvimento do outro como condição de realização da obra, como uma possibilidade de mobilizar os modos de percepção.

Ao mesmo tempo, em Curitiba, o Festival Ruído EnCena 2017  tira nossos sentidos do coma, mobiliza perguntas e reflexões. ” Um festival feito de perguntas: O que é fazer barulho? O que é fazer Ruído em Curitiba? O que é representatividade? O que é resistir? O que é existir no Brasil em 2017? O corpo é político? A política é corpo? Que caminhos estamos traçando?”  As perguntas são lançadas por eles e por elas nas zonas diversas que configuram o evento, geram ruídos nas nossas percepções.

Escrevo afetada pelas conversas que ecoam do festival Ruído EnCena, das últimas aulas que ministrei, dos últimos acontecimentos relacionados a censura de corpos nus em trabalhos artísticos.

O que podem nossos corpos? O que mais conseguimos enxergar?

Podemos ir além dos memes. Podemos perceber além das imagens legendadas.

A superioridade de uma visão objetivante, de um modo de ver o mundo por significações diretas e pré-estabelecidas são recorrentes nas instituições educacionais e, são altamente investidas nas redes sociais. O bombardeamento de imagens com legendas prontas gera reverberações nos nossos corpos, os quais não parecem passar ilesos de uma cultura midiática que contempla transmissão de informações via imagens, sem volume, sem tato, com significações dadas, sem precisar de muito tempo de apreciação.

A arte pode ir além. Convida seu corpo a deslocar, um deslocar no espaço que é também cognitivo. Um deslocamento que convida a aprender a redirecionar a atenção, a deslocar o uso excessivo deste olhar objetivante, que significa e fixa modos de ver e estar no mundo. A arte pode ir além das significações dadas, convoca o corpo a perceber não apenas pelos olhos, mas pela temperatura, cheiro e escuta, convoca a criação de outros sentidos.

A arte, na sua especificidade, pode abrir outros modos de ver, sentir e estar no mundo. E, a censura , no modo como acontece, dissemina o incômodo pautado, justamente, nos modos generalistas e esvaziados de lidar com as informações, modos empobrecidos de perceber o mundo, o outro e a outra. Revela a importância do nosso ofício, nós artistas e/ou docentes, de instigar corpos a ver além, evitando que o mundo se torne restrito a um modo de elaboração de opiniões pautadas em memes, discursos e modos de se relacionar empobrecidos e estanques. Olhos podem tocar, ouvidos e pele podem ver. A percepção pode ir além da representação imediatista, que associa imagens às significações prontas, codificadas.

Podemos inverter lógicas impregnadas nos modos de perceber o mundo. Tirar os sentidos do coma. Transformar o silenciamento em potência de criação de outros mundos.  Quando sentamos nosso corpo acomodamos nossa percepção. É hora de sair desse sedentarismo nos modos de existir. Desmecanizar a percepção. Criar lugares que disseminem dissonâncias diversas. Podemos com o que fazemos abalar modos enrijecidos de ver e viver o mundo, de ver e viver os corpos.

 

Podemos juntas ter mais fôlego. Ressoar.

 

Referências:

BAITELLO JR, Norval. A era da iconofagia: reflexões sobre a imagem, comunicação, mídia e cultura. São Paulo: Paulus, 2014.

LAPOUJADE, D. O corpo que não aguenta mais. In: Nietzsche e Deleuze: que pode o corpo. (Orgs.) Daniel Lins e Sylvio Gadelha. Rio de Janeiro: Relume Dumará, p. 81-90, 2002.

ROLNIK, Suely. Olhar cego. Entrevista com Humberto Godard. 2004

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insistir existir

Foto: Amaranta Krepschi

 

Dançar

(renata)

Curitiba. Rua Travessa da Lapa, nº46. Fevereiro, março, abril e maio de 2017. É sobre vida, dança e o tempo de estar para viver o tempo. Isso atormenta e faz pensar em como continuar atenta à possibilidade de dançar menos amortecida. A tormenta faz um convite. O Antônio fez o convite.

Eles dançam sozinhos no salão. Rodopiam desenhando um grande círculo no espaço. Quem entra reforça o traçado.

As pessoas entram e saem. O lugar é de estar no meio do caminho. Vidas paralelas que se cruzam, histórias de amor e um convite para dançar. Não foi só por acaso, mas pela necessidade de outro deslocamento, de uma abertura para a vida pulsar mais forte com o desconhecido.

Abre-se a porta. 16h15 aproximadamente. Desejo de um encontro inesperado.

Imagino. Intuo. Aceito o convite e danço. Ele me pergunta o que eu já perdi na vida para estar tão perdida aqui. Dançar é vivenciar a tensão do espaço que movemos juntos.  Não respondi a tempo, mas continuo atenta à sua pergunta.

A dança continua, agora, uma quase valsa. Os pés tateiam a velocidade, buscam partilhar o ritmo. Barriga com barriga. Seu mundo desfazendo o meu.

Dançar agora é a criação de movimento-vida que não se conforma com os registros instaurados. Inconformada; uma outra qualidade de corpo e de dança se inaugura. Dançar acompanhada opera na abertura de portas, entro sem saber aonde vai dar, danço para não caber. Portas para entrar e sair. Um abrir que continuamente faz e desfaz o corpo. Quanto mais vou, mais portas para abrir.

Na porta, com luzes vermelhas está escrito: SAÍDA. É aqui, a saída possível para dançar agora.

 

(amaranta)

chegada em lisboa, 01 de julho de 2012

suzana dança em meio a obras da mouraria, ali onde os tratores passam levantando um poeirão de quem arranca o chão existente para colocar escadas com degraus de alturas mais calculadas. torna-se plena região desértica. as obras já duram meses. corpo  acumula partículas de lisboa pelos fios de cabelo. carrega em si a aridez de ver a frente das casas invadidas e dificultadas em acessos sem que tenham dito sim, não ou talvez.

o caminho principal para adentrar o bairro da mouraria em lisboa se dá por um corredor com uma guitarra portuguesa esculpida em pedra a esquerda. mais adiante uma peixaria, chão de pedras, algumas casitas e chega-se ao largo da severa. um ano atrás, estivemos nele com valentina a habitar a janela do terceiro andar por meses a fio num predinho branco residencial,  dança de pés, cabelos, pele, mãos e o estendal. participávamos lá de baixo, com nossos chapéus de chuva, sentados no chão, em banquetas, no meio, nas laterais, nos cantos. qual não foi o susto ao deparar-me com o largo todo reformado, lisboa está em obras, lugares singulares transformando-se em boulevares. o largo  avança sobre as coisas com uma estabilidade em chão liso, sem as irregularidades de outrora, árvores plantadas simetricamente  em canteiros delimitados, quatro bancos de madeira dispostos dois a dois, ao lado e em frente, sugerindo o centro do largo como o que será olhado. nós continuamos sentados no chão, nos bancos, a frente ainda é o prédio onde vive dona piedade, onde dançou valentina ano passado, onde alex projetou um vídeo numa noite dessas  do festival. o largo continua em obras e no meio a britadeiras, poeira, caminhões e trabalhadores que passam, insistimos. 

 

 Amor

(amaranta)

becos e botecos, todas aquelas vozes, uma multidão de putas e travestis e os três.  descendo a baixa chiado, atravessando vitrines, aquela vitrine de pilhas, relógios despertadores e rádios diretamente na china na qual fizeram uma pausa, respirando juntos, durando. terreno de indianos, chineses, coreanos, africanos, ela, ele, ele. negros em túnicas douradas falam em língua outra  e não entendem. a vitrine sussurra estão juntos,  estão juntos,  não estarão. descerão a rua e acabará como tudo. maldita a dizer de preços, notas e tempo. descem a rua de mãos dadas sem medo. paralelepípedos reluzentes e. e, e: atravessados foram pelas coxas grossas, sardas, boca carnuda, jeans, extravaso.  

*

virar as costas. exercito deixá-las viradas ao céu, respirantes, em contato, desprotegidas: práticas diárias de afetação. há algo inteligente no amor?

*

há uma brisa de vento e mar. no rosto. na boca. no rosto mirrado, nos dedos compridos da mão e no cabelo grisalho. há uma janela de mar.  e o povo num fusca e pranchas de surfe afirmando uma vida de mar e sal na pele. sol na pele. e no pelo. hoje brisa de vento e sal e sol e cheiro de mar. amanhã brisa de vento sal e sol e cheiro e boca e cangote.   

 

(renata)

Entra a Diva que fica sentada numa mesa ao lado do banheiro. A Diva tem 78 anos. A sua presença me faz lembrar a minha.

Na mesa, passamos horas falando sobre o amor. Sobre os registros que encaixam nossas intensidades, intensidades que insistem em escapar. Nos nossos corpos, muitas forças não encontram lugar. Falamos da possibilidade de o amor estar no espaço e das possíveis danças entre os corpos; pode ser que falemos também sobre a espera. Sobre o medo de viver sem garantia.

Falamos irrefreavelmente sobre amar. Almoçamos juntas às vezes nas sextas, às vezes nas terças e, muitas vezes, criamos brechas pra cabermos uma na outra. A mesa, sempre entre nós. Descansamos os braços, bebemos cerveja e água, desejamos juntas o amor em direções bem próximas. Desejantes, falamos do impossível que é nossas danças não ecoarem nos nossos modos de amar. Espaço. Convite. Oscilações. Aberturas no corpo a corpo para o que e quem vai sendo junto. É e tem sido com quem pode aceitar o convite para estar e ir junto. Poder abrir mão. O peito. Entrar na brecha. Abrir corpo. Não acontece só.

Há um fio entre nós. O jeito de entrar é peculiar, e o jeito que caminha, vindo do fundo do corredor, é atormentador.

 

Escrever

(renata)

Respinga aqui o que é fresco em uma conversa. Está em jogo a condição do movimento que pode ser descontínuo e esburacado. A escrita fecha e abre. O encontro fecha e abre. Com medo do buraco, evito o encontro. É inevitável.

 

Acompanhar

(amaranta)

com um estetoscópio sensível passeio pela ossatura do texto. tamborilar pé, coração, expiração, buracos, relevos. corpo esquenta, não acompanha, trava, flui, se excita, desvia. no aprendizado do menor ter na palavra a constituição de um território que rompe com alguns significantes, racha seu usual. do trabalho de estar com as forças que pulsam e vivificam meu corpo escrevo:

renata: te acompanho neste percurso dança-escrita, escrita-dança. cenários curitibanos, clube dos solitários, boqueirão, açucenas, dançar a dois, já não saber. cozinha de vó, a sua, de toalha plástica com desenhos de frutas e verduras. o amor.  vi alguma racionalidade e organização dar lugar a um aqui-agora múltiplo, vivo, conectando elementos díspares, escrita se fazendo a partir de questões vitais, essas que não calam, essas que pedem expressão,  acompanhamento, companhia e também solidão. constituir uma escrita neste lugar é criação, insistência, travessia. atravesso saberes existentes, atravesso camadas de um si mesmo que entope. olho para os restos. estou: com o corpo singular do texto. 

 

(renata)

Espanto e alívio de ser todos os dias junto, de despencar um pouco em alguém, acolher e ativar a abertura de quem continua a habitar. Tem sido condição.

Helena. Jorge. Lucas. Natália. O frescor da chegada. O café-convite para o encontro. As vontades e a teimosia de não querer ir só. Rompeu-se algo: o corpo que agora só sabe ir quando vai junto. Vem junto? Vamos. E se ela não vem? Vai, continua. Ir mesmo com o que não desce goela abaixo. A insistência de ir. A insistência de repetir o convite que ficou no vazio, ecoando. O gesto de quem chega e o de quem está recuando. O gesto que não existe, que não se entende. Continua, inventa.

Chega junto! Ela. O cabelo dela. Ele, seu riso que esbarra em algum lugar que desmorona ela. Ela cede, ele veio. Ele não sabe onde por as mãos. Ela avança. Torce a cabeça para ver se a voz de longe que vem vindo é dele. Confirma. Vibrou no osso.

Amaranta. Estar junto inesgotável desde 2008. O Rio Tejo e o Rio Piracicaba. Seus rios. Sua inconstância que flui. No estúdio branco a sua escrita-dança-fotografia registram encontros, criam encontros, acontece. Continuo a encontrá-la em tanta profundidade. Outros percursos se desenham e criam elasticidade para o que pode ser perto e o que pode ser longe. O amor. E os tantos amores. O corrimão da Praça da Liberdade onde os cotovelos se apoiam, a fotografia ainda está se revelando. Revela o que é vivo. Os olhos acompanham as histórias. Escuto-as. Parque Lage. Curitiba. Lisboa. Rio de Janeiro. São Paulo. Barão Geraldo. Araras. Excitação a cada chegada. Ela se esparrama. Vai abrindo pedaços de mundos em cada lugar. Insiste em criar existência em cada lugar. A existência do “e” que bagunça o mundo a volta. 

 

Escrita-correspondência entre Renata e Amaranta*.

 

*Amaranta G. Krepschi: mestre em Psicologia Clínica pelo Núcleo de Estudos da Subjetividade (PUC-SP) com a pesquisa “Percurso entre ruas, escritas e modos de subjetivação” sob orientação de Suely Rolnik.  Formação em estudos do corpo pelo c.e.m (centro em movimento, Lisboa) e graduação em Psicologia (UFSCar). Atua na clínica e pesquisa corpo e escrita através de múltiplas práticas. “Cartas a Glória” é um processo de escrita coletiva que tem nos amores e nas cidades um território de criação. Realiza acompanhamento de textos em estados processuais e ministra laboratórios de escrita. Esteve em Curitiba em 2016 na Casa Hoffman e na FAP. Os diálogos com a artista e amiga Renata Roel se intensificaram desde 2015 e abriram a possibilidade de escrever para bocas malditas.

 

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