Foto de Mariama Lopes

Bimobaba – escritas em processo para palavras inventadas

Foto de Mariama Lopes
Foto: Mariama Lopes

 

Bimobaba é bixo
comedor de parede
é bixa que rói com desejo
de produzir fendas
é mulher com buracos demais,
vaza¹

 

“Em processo”, aqui, não é eufemismo – ainda que “processo” possa ser muita coisa (pode ser algo como o tempo entre uma vida e outra, dentro do qual temporalidades múltiplas surgem, feito aquela que compreende o rápido piscar, quando se está vendo algo). Escrevo sobre Bimobaba² em processo porque esse é um trabalho que são vários. E porque Bimobaba ainda não acabou. Foi apresentado em março, na Casa do Damaceno e volta em abril e maio. Nas ruas. Escrevo em processo porque esse texto não tem ordens de nenhuma ordem. Ele se divide em pequenos textos, cada um com um título. O encadeamento aqui apresentado é uma sugestão pronta para ser desconsiderada.

 

Bimobaba

Mu-dança de lugares, corpos, territórios e paisagens. Híbrido-performance-dança. Se ela usa a boca, se usa os pés, se usa a bunda. Se ela usa os braços. As mãos, se ela usa. Se ela atrita contra a parede. Se ela move a cintura. Se move as pernas. Os pés. Se as coisas já estavam ali, se o corpo produz saliva. Se do corpo vazam fluidos. Se tem pelos. Se ela tem pelos. Se ela não esconde, não se esconde. Se ela produz marca. Se deixa vestígio. Se ela se demora. Se, de repente, acelera. Se fica de costas. Se ela se transmuta em nova. Se ela vira outra. Se ela mancha a pele. Se ela é monstra. Se ela tem artifícios. Se ela é artificial. Se pode-se questionar natureza. Se é um plano. Se é um roteiro. Se há dramaturgia. Se foi ensaiado. Se foi planejado. Se há luz e som e figurino. Se há horário marcado. Endereço. Se há outras pessoas para ver. E se há ritual. E se há abertura. E se são feitos convites. Se há interação. Se há participação. Se é necessário envolvimento. Se é preciso trocas. De fluídos. Se é um acordo. E se é honesto. Se é gentil. Necessário. Importante. Quais palavras para se dizer aquilo que se quer? Quais palavras para significar palavras inventadas? Quais gestos para se (des)fazer?

 

Vaza

Bimobaba é um trabalho de/em dança que intersecciona pesquisas, práticas e possibilidades que Bia Figueiredo vem pesquisando já há alguns anos, junto de várixs outrxs artistas. As imagens-possibilidades do corpo feminino-feminista, aliadas as noções de performatividade encontram contornos em procedimentos como o shaking e o twerk – esse último bastante ligado a contextos e discussões envolvendo movimento negro e a ideia de “empoderamento da mulher”. O corpo de Bia vai se transformando a medida que ela dança, uma dança-babada, em que uma tinta-artificio-azul mancha parede-e-pele. O modo como Bia transita na tridimensionalidade que há – arquitetura, corpos – afasta a imunidade que os espaços feitos para receberem espetáculos convencionais instauram sem esforço. Mas, para além disso, a imunidade que nos é tirada, se refere também ao fato de estarmos em contato com alguém que, em um gráfico misto de força e delicadeza, se desfaz, se transmuta, a olhos vistos. Olhos e sentidos outros, porque Bimobaba é também experiência sensorial, efetivamente. Joga-se com significados do que é (do que foi) “ver um espetáculo”. Se fosse o caso de escolher o que ver – para onde miram os olhos – é talvez para isso: um corpo que, deliberadamente, escolhe se transformar em contato com outrxs.  Uma contínua definição indefinida. A vulnerabilidade, quais caminhos? quais direções? quais distâncias? onde? em que coletividade? em que social?

Esse trabalho, que não é assinado (somente) por Bia Figueiredo, ainda que seja um solo, me fez pensar sobre modos de produção/exercício de mundo/criação em um sentido amplo, já que o Água Viva Concentrado Artístico é um coletivo que articula as criações e as coletividades de muitos modos. Aqui, com um trecho de um texto chamado “Autoria Múltipla”, de Boris Groys³, apresento questões que parecem tocar em alguns dos temas desse universo da produção coletiva/em coletivo no âmbito contemporâneo: Autoria – Parceria – Forma.

“Hoje, cada vez mais protestamos contra o culto tradicional da subjetividade artística, contra a figura do autor e contra a assinatura autoral. Essa rebelião, normalmente se vê como uma revolta contra as estruturas de poder do sistema de arte, que encontra sua expressão visível na figura do autor soberano. Repetidamente, críticos tentam demonstrar que não há um gênio artístico e, consequentemente, que a condição autoral do artista em questão não pode derivar do suposto fato de ele ser um gênio. (…) A luta contra a figura do autor é, assim, compreendida como a luta contra um sistema antidemocrático de privilégios arbitrários e hierarquias infundidas que, historicamente, representou interesses comerciais básicos. (…) Na verdade, toda exposição [próxima a ideia de “exposição”, em artes visuais, mas aqui pensada como o ato ou efeito de expor-se] exibe algo que foi selecionado por um ou mais artistas (…) os objetos selecionados são apresentados num espaço escolhido para a finalidade; a escolha desse lugar, que pode ser dentro ou fora dos espaços de uma instituição, frequentemente tem papel crucial no resultado. A escolha do lugar, portanto, também é parte do processo artístico criativo; o mesmo vale para a escolha da arquitetura do espaço (…) Pode-se estender à vontade a lista de decisões autorais artísticas que, juntas, resultam numa exposição que tem uma forma ou outra”.

 

Saliva – Dissolução – Proposição-plágio-substituição-recriação de trecho de Judith Butler

“O relato A dança que faço de mim mesma é parcial, assombrado assombrada por algo para o qual não posso conceber uma história definitiva um gesto definitivo. Não posso explicar exatamente por que surgi danço dessa maneira, e meus esforços de construção narrativa dramatúrgica são sempre submetidos à revisão. Há algo em mim e de mim do qual não posso dar um relato dançar. (…) Na construção da história da dança, crio-me em novas formas, instituindo um “eu” narrativo dançarino que se sobrepõe ao “eu” cuja vida passada procuro contar dançar”

Se te peço sua saliva para misturar a minha, “o encontro com o outro realiza uma transformação do si-mesmo da qual não há retorno. No decorrer dessa troca reconhece-se  que o si mesmo é o tipo de ser para o qual a permanência dentro de si prova-se impossível. O si-mesmo é obrigado a se comportar fora de si mesmo”

 

Performatividade – cinco questões

  1. O que posso me tornar?
  2. O que me tornei?
  3. O que já sou?
  4. O que eu era?
  5. O que não serei?

 

A mulher é uma construção, de Angélica Freitas

a mulher é uma construção
deve ser
a mulher basicamente é pra ser
um conjunto habitacional
tudo igual
tudo rebocado
só muda a cor
particularmente sou uma mulher
de tijolos à vista
nas reuniões sociais tendo a ser
a mais mal vestida
digo que sou jornalista

 

(a mulher é uma construção
com buracos demais

 

vaza
a revista nova é o ministério
dos assuntos cloacais
perdão
não se fala em merda na revista nova)
você é mulher
e se de repente acorda binária e azul
e passa o dia ligando e desligando a luz?
(você gosta de ser brasileira?
de se chamar virginia woolf?)

 

a mulher é uma construção
maquiagem é camuflagem

 

toda mulher tem um amigo gay
como é bom ter amigos

 

todos os amigos tem um amigo gay
que tem uma mulher
que o chama de fred astaire

 

neste ponto, já é tarde
as psicólogas do café freud
se olham e sorriem

 

nada vai mudar –
nada nunca vai mudar –

 

a mulher é uma construção

 

Nos disseram que a imagem é mulher e que o olhar é homem

Mas não sabem que estamos dissolvendo. Que somos imagem e olhar, que somos isso tudo, porque não somos, exatamente, uma só coisa. Não sabem das fronteiras borradas, não sabem da tinta azul, do atrito na pele. Não sabem que discordamos com o fim do poema que diz que nada nunca vai mudar. Vai mudar. Aí está. Pode-se ver que muda, que altera. Que troca. Pode-se ver que pode-se muito.

 

Em qual esquina de qual rua de qual cidade? 

Bimobaba vai deixar a sala. Bimobaba vai sair de casa, vai dançar na rua. Vai encontrar outra gente. Ainda não se sabe exatamente como. Bimobaba já deixou o espaço, a duração, a efemeridade. Bimobaba é flipbook, é dança-em-outro-lugar. Bimobaba é bicha-projeto sem fim.

 

 

¹Do material textual de Bimobaba.

²Criação e Performance: Bia Figueiredo/ Provocadora: Michelle Moura/ Provocadores das ações na rua: Camila Jorge e Ricardx Nolasco/ Criação e Projeto Gráfico Flipbook: Jessica Luz/ Figurino: Cali Ossani/ Iluminação: Erica Mityko/ Som: Luciano Faccini/ Escritas: Francisco Mallmann/ Fotografia: Mariama Lopes/ Vídeo: Gustavo Pinheiro/ Design Gráfico: Paula Ariana Calory/ Assessoria de Imprensa: Fernando de Proença/ Assistência de Produção: Félix Varejão/ Produção: Priscila de Morais/Diversa Produções/ Realização: Água Viva Concentrado Artístico

³ GROYS, Boris. Arte, Poder. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2017, p. 122-123.

⁴ FREITAS, Angélica. Um útero é do tamanho de um punho. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 45-46.

⁵ BUTLER, Judith. Relatar a si mesmo: crítica e violência ética. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015, p. 55-56.

⁶  “Quanto ao gênero das imagens, está claro que a concepção padrão é que estas sejam femininas. Segundo o historiador da arte Norman Bryson, as imagens “constroem sua audiência ao redor de uma oposição entre a mulher como imagem e o homem como o portador do olhar” – não imagem de mulheres, mas imagens como mulheres” (MITCHELL, W.J.T. O que as imagens realmente querem? In: Pensar a Imagem. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015, p. 173.

 

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Francisco Mallmann

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Francisco Mallmann é dramaturgo, performer, crítico e pesquisador.