Cabaréturgia: Pirraças de um bufão para uma inscrição histórica do cabaré.

por Ricardo Nolasco
colagem de Gabriel Machado 

Fora Drama! 

Já faz algum tempo que a palavra dramaturgia me perturba, foram diversas as discussões que tive com parceiras e parceiros de trabalho, assim como surtos desproporcionais, de maneira que para mim é quase impossível não iniciar essas propostas de escrita e reflexão sobre o cabaré se nao for por aqui. O que nos faz insistir na utilização  da palavra dramaturgia mesmo que nossas obras já não se refiram ao drama? E porque não usá-la já que o cabaré propõe tantas transgressões sejam estas através do humor ou da afronta? E se recaímos nesse tipo de questão por quanto tempo conseguiremos continuar chamando de teatro o que fazemos? Esse conjunto de reflexões que podem ser consideradas falsos problemas ou mesmo de uma discursividade lacunar tem me acompanhado e chegou o momento em que pela primeira vez me sento para enfrentá-las, aqui neste maldito cabaré! 

Nosso querido vovô Walter Benjamin nos deixou a missão de escovar a história a contra-pêlo e aqui estamos, afinal a história não é apenas contada pelos vencedores (e a do teatro e da arte não seria diferente) como também é documentada por eles e “todo documento é documento de barbárie” (Benjamin). Fernando Villar em “Sobre histórias, teatros e reescritas: primeiros apontamentos”, nos fala como algumas experiências cênicas foram esquecidas ou menos valorizadas pela história oficial do teatro em relação aos considerados grandes autores ou ao que seria mais conveniente de ser relatado por seus contextos históricos e dispositivos de poder vigentes. E qual dispositivo seria mais poderoso do que a palavra escrita? Assim, como afirma Villar, a história do teatro confunde-se com a história da dramaturgia e o que nos chega é sempre a exceção de muitos que foram esquecidos por não centrarem suas investigações no texto dramático.

Continuando nossa tarefa de olhar para a história, não é difícil perceber qual teatro que é beneficiado com isso, assim como com a palavra dramaturgia e com a régua dura e cortante do drama. Se fala do teatro sério, da ilusão e da catarse e o apagamento de tantas outras obras. A palavra dramaturgia se modificou com diferentes contextos e atualmente pode se referir inclusive a elementos da encenação que nada tem a ver com a palavra, mas a sombra do drama permanece ali e a exclusão de tantas outras escritas. Por isso grito a tanto tempo: fora drama! 

Se o drama apresenta em seus ideais sólidos de pièce bien faite a figura do belo animal ou animal perfeito onde não há sobra ou espaço para o desvio e o erro, o maldito cabaré apresenta seu animal imperfeito, híbrido, ciborgue, grotesco e monstruoso feito de partes diferentes, dissidentes e muitas vezes contraditórias, montando novas ficções e novas organizações para o que poderia ser o real. 

Como se escreve cabaré?

Cabaré. Cabaret. Cabarety. Kabareh. São algumas das formas que já escrevi. Além de se referirem a espetáculos, também se referem a um lugar de diversão, encontro e questionamento. Muitas vezes, mais importante do que o que irá se ver no palco é quem se vai encontrar ou sobre o que se vai conversar. É comum a associação do cabaré ao exercício democrático (que nada tem a ver com o sistema político) de se reunir em praças e feiras. Se em períodos repressivos a praça não for mais do povo, nem o céu do condor, se constrói o próprio espaço de liberdade e se nesse lugar se pode beber, comer e fumar, melhor ainda. Não à toa esse espaço foi eleito por Brecht como o perfeito para a propagação de uma arte política: não tem a pompa da arte séria e é o espaço dialético por excelência. Um espaço que por si só já revela que somos múltiplos e joga por terra todos ideais unificadores e totalizantes  da modernidade, incluindo o drama sério. 

O cabaré é um gênero derivado do teatro de variedades e que se relaciona diretamente com o entretenimento ao mesclar várias linguagens artísticas ao humor, à ironia, à paródia e à crítica sobre a atualidade. Um formato que valoriza a relação direta com o público (enquanto o drama deveria revelar um mundo apartado da vida) e que por não ser um gênero centrado no texto dramático tradicional foi considerado um subgênero popular e de entretenimento. Um gênero menor. 

E, afinal, o que você pode ver numa noite de cabaré? Variedades de todas as espécies como danças eróticas, discursos políticos, canções tristes, farsas, burlas, paródias de políticos, coreografias, números circenses, relatos autobiográficos, palhaçaria, charlatanismo, poesias, manifestos, discussões no meio da plateia, bruxaria, drags (queen, king e queer), performance art, cenas teatrais.. uma lista que jamais acaba. Espetáculos híbridos, críticos e populares. Parece que o cabaré tem o poder de reunir tudo que foi refutado pela história oficial sobre o mesmo palco. Só não tem espaço para a ilusão, porque o cabaré combate a espetacularidade com mais espetáculo: tudo é fake e visível e se dança loucamente. 

Nessa profusão de imagens, palavras, cenas e sensações, assim como no seu questionamento do mainstream, das belas artes e em seu humor mordaz e debochado, sempre a escrita desse tipo de manifestação foi uma controvérsia: afinal, se para toda arte cênica a efemeridade já é uma grande questão o que podemos dizer sobre uma arte tão instantânea como uma bomba prestes a explodir? Qual academia, estudioso ou museu se interessaria por esses registros? E em períodos totalitários, como a ascensão do fascismo e do nazismo, o stalinismo ou as ditaduras militares latino-americanas, onde se perseguiu qualquer possibilidade que se aproximasse de uma arte degenerada ou que não correspondesse a ideais padronizadores: será que mesmo esses artistas não esconderiam qualquer comprovação do seu envolvimento com o cabaré? De fato, olhar para os registros do cabaré é um movimento muito recente e nada canônico, heterotópico. 

Cabareturgia 

É importante ver o cabaré com sua ação de enfrentamento a história oficial do teatro, que desde a modernidade já conta narrativas muito parecidas e em sua maioria presas nas quatro paredes do palco italiano. Cabaré é ação e transgressão, festividade do desejo e resistência.   

Obviamente, o que fazemos hoje em dia e chamamos de cabaré, já pouco tem a ver com o vaudeville ou teatro de variedades europeu e é evidente que nesse Maldito Cabaré estamos falando de uma possibilidade específica, afinal, essa é a principal maneira que a arte tem sobrevivido sem patrocínio e na “Rabeira da Cadeia Alimentar” (Marina Viana). 

Por isso ele é a minha bandeira. 

Também pelos motivos já expostos, nunca consegui entender o meu trabalho com a escrita para a cena como uma dramaturgia, e por muito tempo até me afastei dessas funções ou criei formas de me ocultar por considerar o meu trabalho menor e não precisar ser creditado. E por isso tenho chamado de cabaréturgia essa escrita específica para cabaré, por entender que tem seus próprios princípios e eles nada tem a ver com a História (com H maiúsculo) do drama. Sabemos que nossas obras cabareteras estariam muito mais próximas do drama popular elizabetano, por exemplo, ao invés do que se convencionou a chamar de drama na modernidade, que mesmo ao expor a crise dramática em relação ao drama burguês ou absoluto, assimilar elementos trágicos e épicos, assim como retratar outras classes sociais, segue sendo um teatro racional feito para burgueses e intelectuais assistirem, completamente centrado na narrativa, na palavra e preso aos ideais da verossimilhança. 

A cabaréturgia está além da palavra que é escrita ou dita, mas a palavra realizada/performada. Poderia ter uma característica semelhante ao que se tem chamado de dramaturgia performativa ou as investigações referente ao teatro pós dramático de Lehmann, mas possuindo uma relação direta com o estudo do cabaré, seria muito mais coerente associar com uma idéia de a-dramático (como outras escritas para a cena que negam o drama: a escrita da performance art, do teatro da crueldade ou do cabaré moderno) ou pré dramático (como nos canovaccios da commedia dell’arte, nos roteiros de pantomima ou da palhaçaria, assim como festas populares). Existe uma grande importância em pensar essas escritas para cabaré com suas peculiaridades para que se investiguem escritas do gênero de uma maneira mais aberta, podendo ser escrita como poesia, desenho, gráfico, cartografia, imagem ou relato de processo. Destaca-se um grande amor pela fragmentação como forma de se contrapor a completude e aos perigos da histórica única, e pela reinvenção do que pode ser uma escrita incorporando relações mais e menos íntimas com a palavra e a discursividade. 

O que percebo ser sua maior característica é a relação com uma espetacularidade/teatralidade revelada, assim como quadros/atos rápidos, humor ácido e as referências a cultura pop e ao mundo real e como o vemos. Fragmentação (Cohen), precariedade (Bourriaud/Guattari/Fabião) e o ready made teatral (Duchamp, Passarinho) não como impedimento ou falta de acabamento, mas revelando as característica mais importantes do nosso tempo. 

Reitero que é inegável que a palavra dramaturgia já foi ressignificada diversas vezes depois da modernidade, tendo uma gama imensa de subdivisões – desde dramaturgia performativa, pós-dramática, da cena, do corpo, da dança, da luz, do figurino , etc -. mas que negar a palavra “drama” para mim tem sido um recurso  para apontar contradições na tentativa de desviar o olhar para outras paisagens. 

Falo aqui a partir da observação, anotação e acompanhamento do trabalho particular de artistas com quem já criei e estudo, assim como no desenvolvimento de minha própria investigação junto ao cabaré. Por isso, também, acredito ser compreensível que se trata de um trabalho em processo e de caráter experimental e que esse texto não acaba no ponto final, porque a ação destrutiva de escovar a história a contra-pêlo é uma ação ficcional de inversão da realidade, contínua e sempre em processo. 

Liberté, Precarieté e Cabaré!

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A escrita deste texto foi atravessado pela vida/obra de Walter Benjamin, Fernando Villar, Antonin Artaud, Bertolt Brecht, Hugo Ball, Susan Sontag, Emmy Hennings, Vladimir Maiakovski, Nicolas Bourriaud, Gabriel Machado, Marina Viana, Daniela Passarinho, Cleber Braga, Eleonora Fabião, Renato Cohen, Félix Guattari, Ana Paula Mello Peixoto, Marcel Duchamp, Hans Thies-Lehmann, Cecilia Sotres, Peter Szondi, Jean Jacques Roubine e Silvana Garcia.

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Ricardo Nolasco é artista de cabaré, tarólogo, ex-ator, performer, esquizo bruxo, escritor, poeta da presença, diretor de ex-teatro, artista pânico, neon dadaísta, situacionista, professor de artes cênicas e performáticas e flâneur. É Gilda, Momo, Goliarda, Zaira Zarathustra, Hugo Bola e infinitos outros duplos. Graduado em Artes Cênicas pela UNESPAR/FAP. É co-fundador do Grupo de Investigação Cênica Heliogábalus, da Selvática Ações Artísticas, do núcleo O Estábulo de Luxo e da ULC (Universidade Livre de Charlatanismo).  Junto a outros artistas organiza a programação cultural da Casa Selvática onde desenvolve a prática contínua da Reinvenção do Cabaré. Joga pelas ruas das cidades por onde passa como se essas fossem o seu playground. Em seu trabalho destaca-se uma arte fronteiriça com referência ao teatro de variedades, a transubstanciação de obras clássicas, questionamentos a respeito da identidade nacional, latino-americana e paranaense. Arte e vida no limite da trituração, do despedaçamento.

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