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Entrevista de Geisa Costa

Esta entrevista foi realizada no dia 13 de novembro de 2018, por Maria Gabriela dos Reis Ferreira e Pedro Rodrigues Ramires, com orientação de Stela Fischer[1].

Atrizes: Geisa Costa e Luana Nastas, no filme “Vazante”. Foto: Roberta Tito

Geisa Costa é atriz londrinense, atuando em Curitiba desde 1993, também no cinema, produção cultural, contadora de histórias e, atualmente, terapeuta. Iniciou a sua carreira no teatro em 1981, no Curso de Teatro do Departamento de Cultura de Londrina, atuando na peça “Dona Xepa”, com direção de Antônio Saperas. Estreou em 1983 no Grupo Delta de Teatro de Londrina, com o espetáculo “Gota d’água”, de Chico Buarque e direção de José Antônio Teodoro. No Delta, permaneceu até 1987, com destaque para a sua atuação em “Toda Nudez Será Castigada”, de Nelson Rodrigues, espetáculo apresentado no Royal Shakespeare Festival (1986), e em cidades como Cidade do México, San Juan (Porto Rico), São Francisco (EUA) e Porto (Portugal). Em Curitiba, ganhou dois prêmios Gralha Azul de melhor atriz coadjuvante pela atuação em “A Casa do Terror 4” e “Risos e Lágrimas – A vida de Lala Schneider”. Também atuou em espetáculos infantis, com destaque para o seu trabalho com contação de histórias. No cinema, destacou-se nos filmes “Cafundó”, de Paulo Betti, “Besouro”, de Daniel Tickomiroff (indicada ao prêmio FIESP de melhor atriz Coadjuvante) e “Vazante”, de Daniela Thomas. Também coordenou e ministrou oficinas e atividades voltadas à valorização da cultura negra no Paraná, estando à frente da Rede de Mulheres Negras do Paraná, com a sua militância e ativismo em defesa da mulher negra.

Nós, somos os únicos alunos negros do nosso ano. Turma de 2016. Eu, Maria Gabriela, como a única mulher negra de uma sala que se iniciou com 40 alunos, me senti em uma partilha com a Geisa Costa, em cada história, situação que ela nos contou, pude me colocar, em um lugar de escuta que me trouxe muitas emoções. E ao absorver as suas palavras, consegui ver que as singularidades de suas histórias ao serem compartilhadas comigo, tornavam-se plurais, por sermos mulheres negras, por realmente me identificar com o que ela nos contava do que passou para se tornar a mulher que ela é hoje. Tudo que conversamos, o jeito carinhoso que ela nos recebeu em sua casa, com chá, café, bolo, para falar sobre a sua trajetória, foi um conjunto de experiências e sensações. Ela nos envolveu com e em todos os sentidos. Eu vejo a Geisa Costa como um exemplo, de mulher negra, artista sinônimo de resistência na cidade de Curitiba. Entrevistá-la foi um calor no coração. Lembro que era época de pré-eleições e nos deparamos com gritos e protestos a favor do atual presidente. Recordo-me de nos olharmos e entendermos o real motivo desse encontro, de entrevistar uma grande artista do nosso país, que resiste em favor da arte e que faz poesia com a sua negritude. Geisa Costa, agradeço pela oportunidade de ouvi-la por compartilhar conosco um pouco da sua grande história. E que com certeza levarei comigo o abraço, com cheirinho de chá e bolo de banana. Grato pela troca, você nos inspira. 

 

ARTISTAS PRETAS PRESENTES

Como foi o seu primeiro contado com as artes cênicas e seu processo para se tornar artista?

Geisa Costa: Acho que eu sempre quis ser atriz, já nasci querendo. Nasci em Nova América da Clina, a 60km de Londrina. Não tinha nenhuma referência de teatro, na cidade não havia teatro nem cinema. Nascemos na roça, minha mãe, mineira, veio para o interior do Paraná para trabalhar. Na cidade a única coisa que tinha era, de vez em quando, aquele cirquinho bem simples, com o palhaço passando pela cidade para convidar a criançada. O circo enchia os meus olhos e a alma. Eu sempre era convocada para cuidar das crianças dos artistas do circo, e isso me deixava muito feliz. Afinal, minha mãe tinha oito filhas e sempre que alguém precisava de algum serviço mandavam buscar uma das filhas da Dona Ana. E eu sempre ia. Quando se tratava de algum serviço no circo eu ficava muito contente, porque as crianças tentavam entrar de ratão – como a gente falava -, por baixo da lona e eu cuidando das crianças, não precisava, pois já estava lá dentro. Então, o circo era a única referência que eu tive. Uma dessas vezes que eu estava cuidando do filho de um casal, o circo já estava sendo desmontado e eles queriam que eu fosse embora com eles, estavam indo para Londrina. Nossa, eu fiquei muito feliz, mas eu tinha que pedir para a minha mãe. E ela: “você está louca? Não. Esse povo some no mundo leva você Nunca mais vai ver a mãe, não vai ver mais ninguém”. Ela não deixou nem eu voltar mais no circo. Como eu gostava muito do circo, e prestava muita atenção, eu juntava várias imagens e ia para o quintal de casa que era bem grande e reproduzia, criava meu próprio circo. Meu pai tinha uma lona que a gente jogava e fazia o circo ali mesmo.
A primeira vez que eu vi uma novela na minha vida, foi “Os Irmãos Coragem” e “A Escrava Isaura” [2]. O prefeito montou uma espécie de palquinho e colocou uma TV para a população assistir às novelas. Essa foi a primeira vez que eu vi TV na vida. Na minha ingenuidade achava que tudo aquilo era realidade. Eu sofria muito com a Escrava Isaura porque foi a primeira vez que tive contato com o que foi a escravidão. E com “Os Irmãos Coragem” eu fiquei muito encantada com a Ruth de Souza, ela começou a fazer parte a minha vida nesse momento, e a Léa Garcia também.[3]
Com treze anos eu fui pra Londrina com a minha irmã. Iniciou-se um outro ciclo, onde vi que ali era possível ser artista. Depois de um tempo, eu comecei a estudar, e descobri que existia um curso a distância, ao ler uma revista na casa da família que eu trabalhava. O curso era do Jaime Barcelos, ator, diretor, professor de teatro e televisão.[4] Eu juntei meu dinheirinho escondido, enviei pelo correio e continuei estudando escondido, e isso foi me incentivando a entrar cada vez mais nesse mundo. Algum tempo depois, descobri o Curso da Secretaria de Cultura de Londrina, comandado pelo Catalão, o professor Sapeiras (Antonio Sapeiras Spaza).[5] Era uma época de efervescência cultural, um “bum” cultural em Londrina, onde tudo acontecia, música, teatro etc. E esse movimento proporcionava uma proximidade, comecei a fazer o curso da Secretaria de Cultura de Londrina, onde também estava começando o Mario Bortolotto.[6]Em Londrina tinham dois grupos grandes, os dois que todo mundo queria estar: um era o Proteu o outro era o Delta.[7] O Proteu era um grupo mais revolucionário, mais popular, associado à Secretaria de Cultura da Universidade Estadual de Londrina – UEL. E o Delta era um grupo mais dos “coxinhas”, comandando pelo Teodoro (José Antônio Teodoro)[8] que era o criador. Muitos participantes de seus cursos relatam que ele foi o melhor professor porque tinha um amor imenso pelo teatro. Suas aulas de história eram contadas de um jeito diferente. Ele viajava muito.
Eu estava fazendo o curso da Secretaria, mas de olho nessas companhias. Para mim era muito distante fazer parte de algum desses grupos. Meu mundo era outro, eu estudava à noite, trabalhava de doméstica de dia, cuidava de criança, lavava, passava. Se quisesse ler alguma coisa era bem escondidinho. Quando o Saperas morreu, ficou um sentimento de o que a gente vai fazer com o grupo. Eu trabalhava na casa da Ieda, bailarina e dona do ADANAC (Centro de Dança e Artes), que trabalhava junto com o Delta. Ela fazia os espetáculos do Teatro Ouro Verde[9] e o ADANAC era uma das melhores escolas de artes, para a elite. Na época, eles estavam montando “Gota D’Água”, de Chico Buarque, e não tinha nenhum negro no elenco, imagina, como falar da favela sem um negro! A Ieda então falou com o Teodoro, e me chamaram para fazer um teste.
Eu fui, fiz o teste, e demorou cair a ficha, tudo para mim ali era uma descoberta. Passei no teste, mas eu não tinha muita pretensão, eu era muito ingênua na verdade. Comecei a fazer parte do grupo Delta. E veio “Gota D’Água”, um musical, onde percebi que eu canto mesmo! Aquele espetáculo foi uma luz, foi a minha estreia, no Teatro Ouro Verde, um dos maiores teatros de Londrina. Do dia que eu cheguei em Londrina até a estreia de “Gota D’Água” passaram-se dez anos. O espetáculo só não prosseguiu mais porque o Delta iniciou a montagem de “Toda Nudez Será Castigada”, de Nelson Rodrigues que ficou quatro anos em cartaz. Fomos selecionados para ir para Nova York, para o Royal Shakespeare, representando o Brasil. Eu me tornei atriz do Delta.
A única pessoa que me queria muito lá dentro era o diretor. O grupo era amador, mas o Téo instaurava um ar de profissionalismo. Se hoje a gente sofre com preconceito, imagina naquela época. Então, eu estar lá dentro daquele grupo era um ato de resistência. Ouvia certos comentários como: “agora esse grupo está chique demais, tem até empregada doméstica”! O Teodoro me protegia.

Geisa Costa no espetáculo “Risos e Lágrimas a vida de Lala Chineider”. Personagem: Odelair Rodrigues. Direção João Luis Fiani. Foto: Ale Carnieri.

Como era a dinâmica de criação das companhias existentes neste período?

Geisa Costa: Naquela época era mais forte, havia mais companhias. Elas simplesmente se formavam. Por exemplo, o Delírio[10], eram estudantes saídos do TCP (Teatro de Comédia Paraná)[11] que formaram esse grupo. O Delta tinha o curso no qual o Téo, como o professor, absorvia os alunos que iam saindo. E outros criaram seus próprios grupos. Como não havia lei de incentivo, tinha muito mais abertura para correr atrás de patrocínio. Por exemplo, quando fomos apresentar em Nova York, tivemos que correr atrás, pedir patrocínio. Na ocasião, o Teatro Guaíra nos apoiou. Éramos nós que tínhamos que correr atrás mesmo, dependia só da gente. E as apresentações eram sempre lotadas, todo mundo queria ver, éramos vistos como referência. Em 1987, o Téo faleceu e o grupo Delta ficou baqueado. Tentaram continuar, mas não deu certo. O grupo não suportou.

Quem são as suas referências como mulher negra e artista?

Geisa Costa: Ruth de Souza começou a fazer parte da minha vida ao assistir a novela “Os Irmãos Coragem”. Ela era amiga do Teodoro, acho que essa foi a coisa mais maravilhosa que poderia acontecer. Engraçado que quando estamos vivenciando as coisas, não paramos para pensar no que está acontecendo… conhece-la foi mágico, a prova que nada acontece por acaso! Nós fomos fazer uma temporada no Rio de Janeiro e quando íamos apresentar para classe artística – composta por todas aquelas pessoas que víamos na televisão, como o Antônio Fagundes, a Henriqueta Brieba[12] (que virou nossa fã número um). Ela estava em todos os espetáculos!). O Téo conversava com a gente, para nos controlarmos, afinal aquelas pessoas que víamos na televisão estavam ali para nos prestigiar. Ele nos orientava que após o espetáculo era para irmos para o camarim e esperar por eles, e agir naturalmente! Era para termos consciência que aquelas pessoas eram nossos colegas de trabalho. Um dia, na casa Paschoal (Paschoal Carlos Magno)[13], onde ficávamos artistas que saiam em circulação de temporada, Téo nos falou para nos arrumarmos que ele iria nos levar para conhecer a Rute de Souza! Chegamos na casa dela, nos sentamos na sala, em seguida ela chega e se sentou conosco. Eu fiquei observando-a, bem quietinha, só lembrando, da vez que a vi lá no interior, naquela televisãozinha e agora ela estava ali na minha frente. Eu queria conversar, tinha tanta coisa para falar com ela, mas eu só conseguia ficar admirando! Ela conversou com todos e às vezes me olhava. E eu quietinha ali. Num momento, ela parou, olhou para mim e perguntou: “E você? Não vai falar nada?” Respondi que estava escutando. Ficamos mais um tempo no Rio e eu não sei como, mas acabamos ficando amigas! Foi uma energia, uma troca! Ela me convidou para passar uns dias com ela, para participar de um espetáculo, “Tamborins da Glória”, porém não conseguimos patrocínio. Mas eu passei um mês com ela, em sua casa. Até hoje nós mantemos contato. Por carta, porque ela fala que internet não é pra ela. Eu ligo, fui lá visita-la ano passado, hoje ela está com 96 anos. Ruth com certeza foi a minha referência, a primeira mulher negra a pisar no Teatro Municipal, uma mulher muito homenageada, com uma vasta história na TV Globo. Ela é a minha referência de mulher negra artista.

Como foi o seu processo para lidar com os preconceitos e estereótipos em relação à mulher negra, no seu ambiente de trabalho?

Geisa Costa: Não foi fácil porque nunca é. Eu ousei estar dentro de grupos de pessoas ricas, onde eu seria no máximo a empregada delas, era outra realidade. Tanto que ninguém do Delta teve essa percepção que “Gota d’Água” acontece na favela, tem que ter preto. Tinha até japoneses no grupo, mas quando eu entrei fez toda a diferença porque já está no corpo negro essa essência. E ninguém pensou nisso, na época. Foi muito difícil, eu sentia no tratamento das pessoas, as pessoas tiveram que me engolir. Eu muitas vezes contornava situações, tanto que isso incomodava as pessoas.  “Nossa, ela não vai sair”, os participantes do Delta se perguntavam quando o Téo morreu. Para mim virou um desafio, eu ser a atriz, autônoma que vai conseguir caminhar por si mesma. O Téo me aceitou no grupo porque eu tinha o talento, afinal se ele não gostasse, teria me colocado para fora. E ele percebia essa minha resistência. Uma vez, o Téo comentou: “a pessoa mais resistente aqui é a Geisa porque eu não a vejo reclamar de nada, ela está resistindo”. E já naquele momento saquei todas as coisas dentro do grupo, do teatro, as panelas, os comentários. E criei os meus mecanismos. Hoje eu posso caminhar com as minhas próprias pernas, ganhei dois prêmios “Galha Azul”, eu estou no teatro há20 anos. Cheguei em Curitiba em 1993. Nunca me convidaram para fazer nada. Trabalhei com o Fiani (Jõao Luiz Fiani)[14].  Curitiba tem essa coisa de fingir que a gente não existe, para mim se criou um desafio, você vai ficando, vai ficando, resistindo… porque você existe, mas mesmo assim, tentam fingir que não te veem. Não é fácil não. E continua não sendo.

Espetáculo “Risos e Lágrimas a vida de Lala Chineider”. Direção João Luis Fiani. Foto: Ale Carnieri.

Você falou de sermos – nós artistas negros –invisibilizados. Como foi a sua participação no filme “Besouro”? E o que acha do fato de não ter sido exibido aqui em Curitiba?

Geisa Costa: O “Besouro” foi exibido aqui em Curitiba sim. Quando foi o dia da estreia, todo mundo estava esperando muito. Porque foi feita uma propaganda muito grande. O “Besouro”, que todos os capoeiristas conhecem porque ele é o líder dos capoeiristas, fez com que o Brasil inteiro ficasse esperando, criou-se uma expectativa. Fiquei confinada três meses para gravação do filme. Eu fiquei muito ansiosa, então chego o dia, já tinha tido pré-estreia, em São Paulo, no Rio de Janeiro, nas rodas de capoeiras, então quando chego o dia de estreia nacional, eu fui ao Shopping Mueller, e cadê o filme? Não, não tem. Só tinha um cartaz de divulgação. Saiu até uma matéria, sobre o filme, como tinha sido aceito em todas as capitais. No Sul, apenas Porto Alegre aceitou. Então eu escrevi uma carta: “E a nossa história como fica?” Passei dois dias escrevendo e joguei nas redes sociais. Houve manifestações, todo mundo fico com muita raiva, todo mundo queria saber. O pessoal da UEL (Universidade Estadual de Londrina) se mobilizou, fizeram um barulhão. Eu escrevi na carta a quantidade de negros que tem no Paraná, que Curitiba ostenta imagem de cidade cultural, tudo o que é aprovado no mundo para girar, precisa ser aprovado aqui, mas quando é um filme da Xuxa tudo bem. A história do nosso povo é silenciada, eu escrevi uma carta bem raivosa pedindo esclarecimentos. Eu queria saber. Por quê? Eu queria uma resposta!  O dono da produtora deu uma declaração (que não é bem assim),explicando que quando o filme estreia em outros lugares, a gente tem que esperar… Explicação chocha. Depois disso, eles colocaram o filme no Portão (Centro Cultural do Portão), mas não divulgaram. Eles queriam dizer, que o filme estava lá, mas que ninguém foi. Porém, tem gente que até hoje não sabe que o filme veio para cá. O filme já ganhou prêmio na África, muitas professoras estão trabalhando com o filme nas escolas. Tanto que teve uma professora denunciado por um pai de aluno porque ela estava passando o filme na escola. O pai achou que estavam doutrinando, a ideia que pode falar de religião, mas não de matriz africana. O filme não foi anunciado, fico pouco tempo e acabou.  Eu fui assistir, com o mestre Ideia que mobilizou o movimento do pessoal da capoeira. Então, o filme saiu logo de cartaz porque não teve público, faltou divulgação.

Você tem um contato muito grande com a população negra Afro-brasileira, por meio de artes, pesquisas, vivencias, oficinas e contação de histórias em escolas. No seu entendimento, como que é a construção de um trabalho onde a gente aborda toda essa dor que vem dos nossos ancestrais, desses preconceitos que ainda persistem e que antes eram velados e que hoje em dia estão na cara de todo mundo. Como a gente trabalha isso? Porque a sociedade nos coloca em um lugar de vitimista, e de que a questão do negro é “mimimi”, é exagero. Queria saber como que é para você, esse lugar?

Geisa Costa: É o que todos nós queremos, afinal, a nossa história não é contada. Ela é pesquisada, então não fica nesse lugar de uma eterna pesquisa. Estamos aqui para aprender juntos, a gente precisa cavoucar, porque se você não sabe a sua história, contam do jeito que querem como fizeram até hoje, do jeito mais cômodo para eles. Eu estou sempre pesquisando e buscando. Quando eu era criança, eu sempre quis saber o que tinha atrás da montanha, eu ficava contemplando, me questionando. Eu perguntava para o meu pai, eu o achava muito sábio, um mineiro. Eu acompanhava muito os movimentos dele. Ele era de uma bondade, de uma sabedoria, era o próprio “preto velho”. Pegava o cigarro, o prazer era mais de enrolar do que de pitá, eu ficava pensando sobre o que ele estava pensando. Ele pegava o cavalo gaúcho e sumia por trás das montanhas. Quando voltava, montava a fogueira e contava histórias, muitas eu já sabia, mas o prazer maior era ouvi-lo.  Eu já descobri muita coisa vendo essas montanhas, e a nossa história ela é bem assim, quanto mais você fuça, mais coisa tem, e quanto mais você fica sabendo, mais você se gosta.  Por isso quando você tem propriedade, você tem como rebater. Não temos todos os argumentos, mas tudo o que achar é lucro. Até agora podem falar qualquer coisa, mais a partir de um momento que sabe, não podem mais. Uma coisa que eu falo com muita propriedade, foi o texto que escrevi, eu não tenho que negar minhas origens que são os mais ricos saberes. Quando fui estudar radiestesia, meu pai não sabia o que era isso, mas ele tinha esse poder dentro dessa ancestralidade. Eu sempre quis saber o que tinha atrás da montanha, que tem outra montanha. Estamos tentando nos desconstruir, observar cada gesto. Eu fiz o “Vazante”, filme rodado em Portugal. O filme gerou toda uma discussão no ensejo do Festival de Cinema de Brasília, afinal, trata-se de escravidão, mas não é. Discussão sobre o negro na mídia. É outra realidade adas artistas pretas. Quando eu faço contação de história nas escolas, eu pego uma princesa preta, com um turbante. De forma bem gostosa, faço o amiguinho sair olhando de maneira diferente para coleguinha negra. Só agora a mídia percebeu que nós somos consumidores. Com muita resistência, eu sou atriz. Agora as pessoas estão mais conscientes de suas falas e conquistando espaços.

Geisa Costa e Ruth de Sousa. Foto: Acervo pessoal.

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[1] Entrevista realizada como trabalho final da disciplina de História do Teatro Brasileiro, do curso de Bacharelado em Artes Cênicas, da Universidade Estadual do Paraná – UNESPAR/FAP, no ano de 2018.
[2] “Irmãos Coragem” novela escrita por Janete Clair e dirigida por Daniel Filho, foi produzida e veiculada pela Rede Globo, de junho de 1970 a julho de 1971. E “Escrava Isaura”, adaptação de Gilberto Braga e direção de Herval Rossano e Milton Gonçalves, foi veiculada de outubro de 1976 a fevereiro de 1977.
[3]  Ruth de Souza, atriz considerada a primeira “dama negra” do teatro, do cinema e da televisão brasileira. Teve sua estreia no Teatro experimental do Negro, em “O Imperador Jones”, de Eugene O’ Neill, em 8 de maio de 1945, no Teatro Municipal. Por seu desempenho em “Sinhá Moça”, torna-se a primeira atriz indicada ao prêmio Leão de Ouro, no festival de Veneza, em 1954. Léa Garcia, atriz de teatro, TV e cinema. Brilhou em filmes como “Orfeu Negro” (1958) e estreou na Globo em 1970.
[4]  Jaime Barcelos, (Rio de Janeiro, 1930-1980) ator de teatro, cinema e Tv. Em 1978 ganhou o prêmio de melhor interprete teatral do ano, pela Associação Paulista de Críticos Teatrais. Foi um grande professor de teatro, criando o grupo de formação para atores, e lançou o livro, “ABC do Ator”.
[5]  Antonio Sapeiras Spaza viveu em Londrina a partir de 1954, e foi um dos pioneiros do teatro no Município.
[6] Mario Bortolotto (Londrina/PR 1962) é ator, diretor, dramaturgo, escritor e compositor.
[7] Proteu – Projeto de Teatro Experimental Universitário, grupo criado como atividade de extensão da UEL em 1978 e se manteve em atividade até 1996.  Delta foi o primeiro grupo do interior do Brasil a participar de um festival Internacional, dirigido por José Antônio Teodoro.
[8] José Antônio Teodoro faleceu em agosto de 1987, aos 34 anos. Foi professor de história, diretor do grupo Delta o primeiro grupo do interior do Brasil a representar num festival internacional.
[9] Cine-Teatro Ouro Verde é uma instituição cultural com auditório para sala de cinema, espetáculo de dança, teatro e apresentações musicais. Localizado em Londrina, Paraná.
[10] Cia Delírio, formada desde 1980.  Tem currículo de vários prêmios, como Gralha azul e Potty Lazarotto.
[11] Teatro de Comédia do Paraná é um grupo da Fundação Teatro Guaíra, Claudio Correa e Castro foi convidado para desenvolver a ideia e ser diretor.
[12] Henriqueta Brieba (1907-1995) atriz e comediante. Em 1975 ficou conhecida em “A moreninha”. E atuou em 33 filmes.
[13] Paschoal Carlos Magno (1906-1980)  autor, diretor, animador, tem um papel fundamental na renovação da cena brasileira, fundou o Teatro do Estudante do Brasil e o Teatro Duse.
[14] João Luiz Fiani é ator, diretor, produtor e dramaturgo. Responsável pelo empreendimento Teatro Lala  Scheneider.  Também assumiu o posto de secretário de Cultura do estudo do Paraná, no Governo do Beto Richa.

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Percepções em dança

Material desenvolvido por Elke Siedler, a convite de Carmen Jorge e Loa Campos.

 

LEIA AQUI – Percepções em dança, de Elke Siedler

A Mostra Solar foi realizada no período de 24 de outubro a 11 de novembro de 2018 na Casa Hoffmann – Centro de Estudos do Movimento.

A MOSTRA SOLAR 2018 vem lançar luz sobre os artistas da Dança de Curitiba. Surge com olhar atento e curioso pelos caminhos que a linguagem pode percorrer, pela liberdade de assumir riscos e com o intuito de divulgar a ação de artistas Curitibanos ao lado de artistas que dançam pelo mundo.

Consultora de Dança: Carmen Jorge

Realização: Prefeitura Municipal de Curitiba, Fundação Cultural de Curitiba, Fundo Municipal de Incentivo à Cultura e ICAC – Instituto Curitiba de Arte e Cultura A Mostra foi realizada no período de 24 de outubro a 11 de novembro de 2018 na Casa Hoffmann – Centro de Estudos do Movimento.

Artistas: Alessandra Lange, Fábio Tavares, Gabriel Machado, Gládis Tridapalli, Juliana Adur, Lívea Castro, Marila Velloso e Volmir Cordeiro

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Quando você ouvir corpa – notas sobre Ficção Científica e Corpa Atroz. Exe

Por Ricardo Nolasco
Fotografias de Vino Carvalho

cena de Metropolis de Fritz Lang, um filme percursor da ficção científica e do expressionismo alemão coberto de moralismo em 1927

1. A ficção científica está intimamente atrelada a toda literatura libertária produzida a partir da década de 50, se até então a visão distópica foi sempre bastante fatalista ao revelar um mundo decadente, colapsado e violento é desse mesmo mundo em ruínas que nasceriam possibilidades completamente dissidentes às proposições do amor romântico. Assim o sci-fi se tornou o formato mais amado pelxs anarquistas ontológicos, feministas ciborgues, cyber xamãs, tecno pagãos, imigrantes latinos e radical fayers; esse gênero nunca mais seria o mesmo, estaria presente nos principais manifestos e fanzines distribuídos ou vendidos por qualquer moeda nas saídas de shows punks, ocupações e até mesmo de brinde na compra de um LSD. Através dela seria possível propor novos mundos, encontrar possibilidades e se reconectar com o sagrado sem renegar o sintético. Possuir uma vida experimental. Se alguns movimentos advindos da segunda onda do feminismo cantavam a equidade entre os gêneros e o sagrado feminino, a terceira onda se interessava em olhar o mundo como era, com suas falhas, fracassos e tentativas. Esse mundo já era irreversível, mas poderíamos criar com ele: afinal tudo é fake, falso e artificial, inclusive o que chamamos de natureza.

Cuidado, in progress!

2. Em O Grotesco Feminino- risco, excesso e modernidade a pesquisadora Mary Russo aponta na hibridez grotesca uma possibilidade de fusão entre diferentes espécies. Todo híbrido é infértil e toda a esperança é perdida. É justamente nesse acasalamento, infecundo, entre uma ciência patriarcal, eurocêntrica e racionalista com a substituição de uma epistemologia democrática pela epistemologia dadá que nasce de forma não humana e de um parto nada natural esse monstro híbrido de proveta que nos interessa aqui: Evidentemente não estou me referindo a toda a ficção científica, mas aquela que nos revela que somos apenas figurantes de um teatro biológico – cadeia de DNA pronta pra ser subvertida.

3. A ciência normativa com seu complexo sistema farmacopornográfico estaria com os dias contados e assim essa FC ameaçaria como terroristas alienígenas todo o entretenimento Way Of Life: começando pelo romance, passando pela história em quadrinho e terminando no filme pornô. Angela Carter. Bjork. Donna Haraway. Matthew Barney. Hakin Bey. Laurie Anderson. Lay Bowerry. Paul Preciado. Diana Torres e Alan Moore são apenas alguns dos nomes que me fizeram como artista e que certamente não saíram impunes dessas experiências .

4. Por mais que no Brasil até então tenha sido bastante tímida essa propulsão mundial da ficção científica, o livro Futuro Proibido (organizado por Peter Laborn Wilson) foi a bíblia de uma geração de artistas anarquistas, livro do qual destaco esse fragmento para conversar diretamente com CorpaAtroz.Exe- espetáculo apresentado no Teatro Novelas Curitibanas integrando a programação de duas importantes mostras da cidade, a independente Mostra Emergente e a subsidiada Mostra Novos Repertórios 2018.

Meu Cabelo não é meu. Meu Sangue não é meu. Minha vida não é minha. Eu não sou livre. Eu sou uma prisioneira política em uma reserva de caça na América do Norte. Meus Cabelos são longos, finos, frágeis, encaracolados. Eu os penteio com despojo e água da chuva. Estou esperando e não estou esperando. Estou repousando e sou incansável. Tudo que sou, não sou.

Trecho do conto Eu Fui Uma Engenheira Genética na Adolescência de Denise Angela Shawi.

5. Duas mulheres robôs productas presas em um sistema de representação caricato falam com uma voz excessivamente fina e inumana, se movem como bonecas sobre um chão branco, programadas para entreter o público utilizando inúmeros recursos humorísticos. São graciosas e carismáticas ao revelar o fardo de uma feminilidade construída. De suas bocas discursos de atrocidades e violências contra o corpo feminino revelam como tudo é teatro e toda construção de docilidade é ironia e sarcasmo, o tom é agressivo.

6. Existe uma precariedade na execução, um fracasso evidente na tentativa de abdicação do humano presente na interpretação, figurinos e na cenografia (que não chega a ser tão cleen quanto a ideia que evidentemente evoca). A precariedade na tentativa de esterilidade, robotização, e pós humanidade é discurso junto com o corpo e voz dessas atrizes latino americanas. São jovens e é essa juventude o elemento mais impressionante da cena.

7. O ciborgue é alegoria da falha. Um vírus penetrou o sistema da cena e gradativamente essa vai se tornando mais violenta e conturbada, o que era alegórico se torna víscera e palavra material completamente diferente completamente semelhante a proposta por Antonin Artaud. Estamos sob esse domínio em uma experiência radical com o teatro, onde a plateia poderá sair louca.

8. Estes corpos que deveriam estar sendo agradáveis e delicados se tornam gradativamente mais e mais violentos, os microfones que pareciam antes ser apenas responsáveis por pequenos efeitos são responsáveis por perturbações sonoras e mentais. O quanto da cena pode acontecer apenas dentro da minha cabeça, afinal não sou e nem desejo a escrita de um público universal.

9. A saída está longe do humano e a representação não dará conta. Uma pregação feminista ciborgue. Muitos gritos, muito incomodo. Aqui a arte não é lugar para o conforto. Um a um os elementos desse mundo são mutilados, sendo o último deles o espaço que até então delimitou a cena, elas o arrancam e assim se aproximam da plateia. Tem microfones armas letais nas mãos. Tecnologicky made in paraguay, made in paraguay. Porque todas as vezes que você ouvir corpa um vulcão explodirá em alguma parte do mundo. Virá um ódio contido na garganta. As coisas estarão de outro jeito, não existirá Pai. O mundo terá mudado de forma definitiva. Não as boas intenções, não ao amor romântico.

Uma ficção que reinvente a realidade.

Duas mulheres e o desejo de serem um vírus mortal inteligente, de não serem humanas, de responder a humanidade com fúria. Pai, como a paixão de uma Nova Eva braços eletrônicos irão te abraçar, te agarrar, meu super man. Pai, um vírus entrou no teu sistema, você poderá agora ser diferente. Aceite essa mudança de dentro, ouça a voz de um novo tempo, ouça outras vozes contidas em todos esses sons. Um vírus é a esperança da máquina. A saída é do outro lado, elas amassam o espaço avançam na plateia, são profecias proferidas por ciborgues, uma nova corpa control DEL control DEL. Uma nova corpa desconfigurando. Desconfigurando.. Frankstein escrito em 1818 por Mary Schelley acreditava no amor. Só poderá haver amor depois da destruição de toda vez que você pensar em Corpa, manifestações mágicas: A voz bate, cava, espeta, treme, e a palavra toma uma dimensão material, ela é gesto e ato. Corpo sem órgãos recriado libertado de seus automatismos para “dançar pelo inverso”.

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Ricardo Nolasco é artista de cabaré, xamã, ex-ator, performer, escritor, poeta da presença, diretor de ex-teatro, artista pânico, neon dadaísta, situacionista, professor de artes cênicas e performáticas e flâneur. 

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Colisão frontal

por Luciano Schmidt

foto de Karla Vizione

Há anos, sempre que passava por aquela altura da Rua Inácio Lustosa, eu olhava praquele grande terreno baldio com uma estrutura decadente e pensava: isso aqui é um puta cenário. Uma locação para uma cena, alguma coisa louca bem no centro de Curitiba. E agora, nesse caótico outono de 2018, ali se materializa não só uma cena, mas um espetáculo explosivo.

Entre os muros pichados e restos de demolição, um ferro-velho particular montado com carros que já não são mais carros. Destruídos além de qualquer funcionalidade motora, se tornaram o cenário de uma peça que esses veículos com certeza não têm mais: Air Bag.

Em meio a tags, bombers e outros pichos, “REPÚBLICA DE CURITIBA” é o que se projeta no centro daquela quadra. Dois microfones em pedestais estão posicionados centralizando o cenário no carro (um pouco) menos destruído. O público entra e senta num semicírculo de bancos de carro arrancados e cadeiras improvisadas. A fumaça toma conta da grande estrutura de ferro e seu cemitério de automóveis. O dramaturgo toca guitarra, acompanhado de um baterista atrás da platéia, criando uma atmosfera inquieta e languidamente tensa. De repente uma série de marretadas metálicas captura a atenção na extrema esquerda da cena.

Uma figura feminina com uma máscara de solda, sobretudo marrom e botas com salto, martela a lateral de uma lataria até arrancar um pedaço. Ela coloca a peça num carrinho de supermercado e trepa em cima da carcaça para arrancar um pedaço do carro que está jogado por cima desse. Uma estranha luz branca sai da viseira da máscara, dando um aspecto ainda mais estranho para essa carniceira de ferragens.

Enquanto isso, uma criatura masculina está deitada sobre uma carroceria à direita, preguiçosamente se revirando como se teimando para não acordar com aquela barulheira. Ele veste um shorts de ciclista colado, uma regata branca e uma camisa aberta. O que ressalta o figurino juvenil é o All-Star vermelho. As cotoveleiras, joelheiras e luvas de proteção que ele usa criam um aspecto de tiozão grunge dos esportes radicais.

A mulher junta mais umas duas peças e desce da carcaça, conduzindo o carrinho de supermercado até o resto do Renault vermelho no centro de tudo. Ela entra no ex-veículo, a princípio calma e centrada, mas mexendo nervosamente no painel e nos bancos. Enquanto isso, o homem se levanta e pega um instrumento. Uma guitarra, um baixo, não importa. Ele arrasta aquele instrumento de zero cordas em volta do carro, andando cada vez mais rápido numa tentativa de corrida, enquanto arrasta aquele resto de música. A trilha sonora se eleva para ceder ao silêncio quando ele sobe num dos carros de trás e é iluminado por um a luz que projeta uma enorme sombra na parede.

Ele começa a murmurar cabisbaixo, e logo percebemos que pegamos as figuras no meio de uma discussão. Reclamando de não saber o que falar, começa a se lamentar de quantas noites ele passou vomitando o que os outros não tem coragem de dizer. Mas sua mulher não acha isso bonito. A essa altura ela já tirou a máscara e solda, mas ainda não fala muita coisa, continua mexendo no interior de carro e parando para prestar atenção no monólogo enfadonho do marido com uma expressão plácida. Monólogo que para numa frase que ele gosta, frase que contém um certo quê, frase que com sua empolgação vira um verso, que ele repete: “Eu não sei / você é que tem que saber / a profecia não cabe ao profeta”. A guitarra e a bateria entram num ritmo animado e o ator agora encarna o cantor de rock, tomando um dos microfones que habita a cena e cantando seu refrão chicletento até embalar a platéia.

Seu lamento empolgado vira raiva. Ela ainda não falou nada. Sua ira explode em porradas com o instrumento no capô do carro. Ele pede para ela falar, ela que sempre sabe o que falar. Mas por que? Se ela é a ignorante, a analfabeta política que não sabe dos problemas do mundo. Não sabe a diferença entre Samarco, Mariana e Belo Monte, não sabe das revoluções e violações de direitos que assolam o mundo. Ela só sabe do horário do judô do seu filho, da natação, do inglês. “JUDÔ É O CARALHO”, explode ele com uma guitarrada no carro. Sua agonia infantil só alimenta o desgosto dela, tornando fala mais violenta – mas de um jeito sofisticado – pondo o dedo nas feridas abertas, disparando certeira nas hipocrisias e inseguranças do marido.

Ele tenta rebater com sua fúria de injustiçado, e tentando exercer sua justiça poética, dispara a ilustre frase que estampa o folder do programa da peça: “Ninguém pode ser feliz com uma carteirinha da OAB desde o berço”. Ela dá uma risada. Aí, essa a cativou. E é a vez dela de tomar o outro microfone. Ela sal do carro e arranca o sobretudo, mostrando que também está com cotoveleiras, joelheiras e protetores. Eles contrastam com sua meia-calça, saia e sutiã pretos. Sobre um instrumental pesado, ela dispara a bela crítica social do marido com uma voz poderosa e até mais afinada, mais estridente que a dele. A música atinge um crescendo e ela sobe num dos carros quando o som para. Que inveja os desembargadores do tribunal devem ter de seu maridinho que passa as tardes compondo músicas e resolvendo os problemas do mundo na internet. Mas o quanto essa frase também diz sobre as estruturas do poder no estado do Paraná e no Brasil.

Mais discussão, mais bate boca, mais discursos sobre política e sexualidade até que ela o intima na chincha: “Você lembra o nome do nosso filho?” Uma música tensa toma conta e o marido agora distribui pipocas para o público, enquanto um narrador esportivo, que satiriza o tom dos locutores tradicionais, anuncia um estranho duelo de concessões passivo-agressivas. A desorientação do momento se encerra com os dois de pé em cima do carro, segurando um roteiro e interpretando com vozes afetadas a simulação de uma transa. Eles então chegam a um momento crucial: o momento em que, no meio da briga, eles começaram a se pegar.

E em plena crise, ela decide ceder a um desejo renegado ao marido por 21 anos: o desejo de comer o seu cu. Chegando lá, na hora H, tentando entrar… não deu. O casal discute a situação numa paródia das clássicas e forçadas interpretações de novela. Ela, indignada, relaxada até demais, não entende como ele pode estar meia-bomba. Eis que ele se escandaliza com o termo esdrúxulo da esposa. Isso não é coisa de mulher de bem, isso é palavra de mulher que tem amante! “Quer saber?”, diz ela, “Quer saber? Pois eu já falava meia-bomba muito antes de ter um amante!” – risada diabólica.

Uma bomba atômica foi jogada sobre a santidade do matrimônio. Ele não podia crer que sua esposa, sua esposinha querida, poderia ter um amante. “Mas há quanto tempo? 3 ANOS? Mas… Mas você deu o cu pra ele? Deu? DEU?” Mais do mesmo melodrama hipócrita, esse espetáculo tão banal que se repete nas novelas das famílias curitibanas e brasileiras e ocidentais e sabe-se lá onde mais. No auge de sua indignação moralista, o poeta transgressor subversivo ficou tomado de possessividade e dos e valores classe média que tanto detesta.

Sua esposa moderna, a advogada conformista e traidora, não consegue engolir tanta hipocrisia. Porque corno que corneia não é corno. Ou será que ele acha que ela esqueceu a amiguinha da sua filha? Como se ninguém soubesse. Todo mundo sabia. Só ele não sabia que todo mundo sabia. E pra ela já deu. Ela volta a catar as peças de carros espalhadas, espólios de uma vida a dois, e colocá-las no carrinho de supermercado. Ela sai de cena, deixando o marido de joelhos em cima do Renault.

Mas ele vai tentar reconquistá-la! “Espera! Eu… eu escrevi uma canção pra você!” Mas quando ela envolve o público no showzinho particular, pedindo mais luzes e mais fumaça para a equipe, ele treme na base, se acovarda. Diz que é pra ser algo íntimo, que a música não está pronta, que isso e aquilo. Ela perde a paciência de novo. Ele tenta mais uma vez, no desespero de seu desamparo, fazê-la voltar evocando a educação da filha. Enquanto ela sobe no carro, ele gagueja pateticamente: “Mas eu… Eu me preocupo com ela… Ela já ta crescidinha. Será que… Será que ela dá o cu pro namorado?”. A esposa o conforta: “Não, querido. Só pro amante.”

Um alarme soa. Eles descem do carro e vão ao porta-malas, de onde tiram apetrechos cerimoniais. Uma marcha nupcial irrompe e o casal sobe no carro de novo: ele com um véu de noiva e ela com um fraque, abrem uma champanhe e comemoram um casamento às avessas, onde a inversão de gêneros sugere uma inversão maior. Ao estourar a bebida, estranhas figuras começam a emergir das carcaças automotivas. São corpos masculinos e femininos com o peito despido, longas saias bizarras de um laranja vivo, projetadas da cintura às canelas por argolas como bambolês estáticos. Cada figura com um acessório mais estranho: uma carrega um triângulo de trânsito no pescoço, outra usa uma proteção facial de boxe, outra um cone pós-operatório canino. Todas se movem suavemente, até que a marcha matrimonial se dissolve e dá vez a um Mozart angelical.

Um coro de vozes suaves conduz os corpos seminus expostos ao frio. Eles se movem silenciosamente na paisagem apocalíptica do fim da relação, até assumirem certas posições estratégicas. Lentamente, pegam galões de gasolina ocultos que derramam no chão, ensopando o cenário com o combustível de uma revolta íntima. Suas mãos se estendem em direção a armas ocultas no cenário e em seus figurinos. Armas de água, de sabão, de borracha são brandidas para todos os lados enquanto os sons de um tiroteio trovejam nos ouvidos do público.

Lentamente, a batalha cessa e os corpos agora estáticos encaram os presentes com sua nudez. Uma voz feminina sussurra de maneira sensual uma cartinha para o Papai Noel. Essa figura mítica que preside os rituais anuais de tradição e normalidade de todas as famílias de bem. Essa entidade incorpórea cuja presença materialista se manifesta em débitos e créditos de presentes e promessas de um modo de vida em crise constante. A tensão sexual e pedófila dessa figura, tão próxima das criancinhas, é trazida à tona quando o coro levanta suas saias para revelar seus genitais vestidos, mas totalmente expostos sob as meias arrastão. Se expõe ao mesmo tempo em que tentam ocultar seus rostos. O perigo predatório que se esconde sob a fachada das famílias felizes é tocado nesse momento, lembrando que a maior parte dos abusos infantis são cometidos por membros da própria família.

A voz termina sua confissão estranhamente sedutora e burocrática. A ex-mulher já não está em cena, enquanto o marido está em cima de um carro segurando um galão de combustível. O coro se ajoelha perante ele com devoção. Ele manda um áudio para sua esposa dizendo que hoje não se atrasou para buscar seu filho na escola. Ele chegou até mais cedo, porque seu filho tinha manchado a camisa com um Toddynho contrabandeado, porque eles são proibidos na dieta padrão as segunda série. Ela grita de longe, do lado de fora do terreno, chacoalhando as grades, berrando pra ele se afastar do seu filho, que tem uma ordem judicial. Ela grita desesperada, mas já é tarde demais. Ele está estranhamente calmo e resoluto, orgulhoso que seu filho não teve medo de contar do Toddynho pra ele, porque a mãe ia brigar. Ele derrama a gasolina e, num último afago em seu filho invisível, ele acende uma tocha improvisada e a solta. Todas as luzes se acendem no poderoso flash da explosão.

Aos fundos, uma parte do terreno baldio cheio de telhas quebradas se ilumina. O homem anda até lá lentamente, até virar só uma sombra projetada na parede. O rádio sintoniza a estação Classe Média FM, a rádio da família curitibana, para trazer a cobertura ao vivo do ataque terrorista no tradicionalíssimo bairro Jardim Social. Um homem armado entrou na escola de segurança máxima e abriu fogo, matando 115 crianças antes de se suicidar e cair nos braços de uma criança que insistia em chamar de filho. A população da cidade se solidariza com a hashtag #SomosTodosSocial.

Assim se encerra Air Bag. Mas que air bag? Com certeza esse é um equipamento de segurança que não estava presente no veículo durante a batida violenta que é esse espetáculo. Uma porrada de tonelada na cara lavada da sociedade. Em uma atuação enérgica e visceral, Patrícia Cipriano e Gabriel Gorosito expõe as entranhas de um casamento falido através de suas personagens sem nome. As instituições sociais que permeiam nossas vidas são assaltadas numa autópsia de suas contradições mais vis. As hipocrisias de um povo revoltado, mas imbuído dos mesmos valores que detesta, são aviltadas com comentários sórdidos sobre nossa imobilidade, nossas fugas e engajamentos fúteis.

Ver essa peça não é bem ver, é participar. Estar exposto ao frio num cenário hostil, mas ao mesmo tempo aquecido pelo fogo elétrico evocado por essa grande produção. É estar enfiado na intimidade decadente de um casal arquétipo da atualidade. No cenário distópico da realidade, o espetáculo é um reflexo aumentado do desgaste dessa civilização no ápice de seu progresso, em plena cidade que simboliza a vanguarda da moralidade republicana de uma democracia frágil. Air Bag é uma explosão necessária, um respiro de claridade em meio à loucura, e por um lado talvez seja sim um aparato de segurança para nossa sanidade não se espatifar no choque de realidade que esse mundo nos impõe.

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Luciano Schmidt é formando em jornalismo pela PUC-PR.

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Encenação no jogo e o jogo na encenação

Por Fátima Ortiz

Este texto foi apresentado por Fátima Ortiz durante sua participação no encontro “Encenação no jogo e o jogo na encenação”, realizado dia 16 de junho, na Cia Senhas de Teatro, em Curitiba, durante o projeto Cia Senhas Aciona! O encontro teve também a participação de Cristiane Paoli Quito e Andrei Moscheto.

 

Primeiramente eu quero agradecer o convite para estar aqui neste ACIONA e dizer que valorizo muito este momento; este espaço de troca e reflexões tão necessárias e nutritivas. Um tempo para falarmos de nossas experiências neste oficio tão maluco, tão para poucos. Importa aqui saber ou dizer que somos poucos; Somos dotados de uma capacidade de resistência, sempre recheada de surpresas. Capacidade que consiste em doar nosso arsenal psicofísico para mimetizar a alma humana, as ações do ser humano, seus dilemas e conflitos. Um ato politico no sentido mais sensível do termo. O ator a atriz são os responsáveis pelo patrimônio emocional da humanidade.  Jogar é preciso no estúdio de trabalho… Encenar é preciso…  Ocupar o palco com o ancestral espirito lúdico. Resistir, pois temos ainda as lidanças de produção… E de projetos… Editais e os prazos… Outro jogo. Jogo real e duro de garantir a sobrevivência dos nossos coletivos e a manutenção dos nossos espaços.   Portanto vivas a este encontro… Inventado para nos manter motivados vivos e atualizados.  Parabéns Cia senhas por esta iniciativa que nos acolhe. Prazer de estar com Andrei, o rei do improviso, e com Cristiane uma grande inventadora de moda.

Jogo e encenação:   De início  preciso reforçar o valor da minha formação  autodidata;  que se deu  sempre neste fluxo  de mão dupla;  de aprender ensinando . Em terra de cego quem tem olho é rei eu virei rainha em Curitiba muito cedo, logo no início neste oficio de ser gente de teatro me descobri vocacionada para conduzir processos de grupo e isso tem tudo a ver com jogo e encenação e tem a ver com  aprender convivendo  criativamente e coletivamente. Sobre  o jogo teatral  na  arte-educação, sobre os jogos como ferramenta ou varinha mágica  aprendi  tudo que sei ,na lida, mesmo,   já de início orientando os professores e frequentadores do Centro de Criatividade de Curitiba, década de 70, no  tempo do bum da bioenergética, da biodança, no momento do surgimento explosivo  da palavra criatividade e com ela mudanças importantes na visão da arte,  a arte desmistificada e vista  como fonte  e forma de expressão e sensibilização;  popularizaram-se entre os artistas os termos expressão sonora, expressão plástica, expressão literária, expressão corporal (abrindo e democratizando  o conceito de dança)  e o teatro entrado de gala em cima do salto neste cenário por ser tido como arte total, a arte que emprega que dá serviço que junta e agrega todas as expressão artísticas.

E como em terra fértil sempre vem gente semear sabedoria e inquietação  aprendi e troquei com Aderbal Freire filho, Amir Adad , Joana Lopes, Fanny Abramovik e tantos outros.

Mais aqui  perto curti o jogo do bufão com Dedé Pacheco.

E aqui mais pertinho aprendi com a Maíra Lour,  minha filha, e com a Juliana Adur ,  figuras antenadas em Anne Bogart e View Points, uma delícia e grande sacada para o jogo com os atores e atrizes.

Aprendi com o tempo …

  • Aqui já posso trazer uma conclusiva: O sucesso neste casamento jogo e encenação exige tempo.
  • Paciência para não queimar etapas.

Formei-me e continuo-me formando assim: bebendo água de todas as fontes. Mas tenho lá minha nascente própria (meu olho d’água) minha assinatura de gente de teatro… Que também fui explorando e lapidando e  pude construir  um aprendizado ( ou saber que já sabia)   pelo viés do teatro dirigido a infância, onde  falar em jogo/ mergulhos brincantes  e ênfase no imaginário é  igual  dizer teatro para crianças. Lugar de honra do jogo. A bola e a corda,  e brincar de mãe. Jogar para que?  Para do jogo extrair a dramaticidade , o conflito , a poesia.  E levar o jogo até a camada da cena, da contracena e, sobretudo para inventar a atmosfera da peça.

Isso foi antes do Pé no Palco. Em 1995 quando criei o Pé já tinha muita estrada, já era uma encenadora experiente… Ali no Pé tudo foi sendo  aprofundado, reexperimentado, atualizado e  tem sido ainda agora tecido diariamente…

Nossa forma de trabalhar o jogo ou num sentido mais amplo a preparação para a encenação… Já de início traz a marca da confluência entre o aperfeiçoamento da inteireza do ator/atriz e sua capacidade de treino em grupo.  Do olhar que olha para dentro de si:  Antes do jogo coletivo vem o jogo solitário – que brinca com a pergunta: por que eu faço teatro? Repetir e jogar com as respostas sempre garante uma atualização permanente do atuante com o sentido do trabalho em grupo…

Acredito no ritual… Naquilo que antecede o jogo do dia… A atmosfera do espaço e o chegar…

A respiração que tem seus segredos…  Jogar no teatro  inclui, sobretudo, o  laboratório central da brincadeira dramática: a barriga… O baixo ventre onde centramos o ato de nossa respiração  nossa capacidade para rir e chorar… A inteireza se gesta dois dedos abaixo do umbigo  e esta percepção de força interna  e de engajamento  é o grande pré-requisito para o jogador da cena  condição básica de seu preparo para agir  e produzir em grupo:

Um abdômen ativo que eleva sutilmente o ar para o alto dos pulmões  instaura a PRESENÇA.

Talento? Será que eu tenho? Talento para  Viola Spolin – a grande mestra do jogo- se traduz na  capacidade   para experimentar.  O jogo só acontece com indivíduos dispostos a buscar a se jogar  perder –se e se achar e,  claro com um olho magico do  orientador/ provocador/ condutor/ diretor… O representante do público que pode ser os próprios jogadores em estado de plateia e de preferência com tarefas igualmente regradas.

Trazer para o jogo a consciência da recepção, ou seja, sempre  nos  exercitando para ter a plateia junto –  cumplice e na  torcida-  o tempo todo é fundamental.

Por estes caminhos  me levou o título da mesa

O título da mesa me leva  aqui à acordar  expressões do nosso dia a dia no estúdio de ensaio: vamos nos aquecer / acordar o corpo / acordar o espaço / acordaras articulações sonorizando-as/  jogar o som no espaço/ se olhem/ vocês olham para vocês/ eu olho vocês/ vocês olham para mim, eu represento agora o publico.

Jogamos e brincamos, tanto nas aulas como nos ensaios, e  podemos dizer não saber ou não precisar delinear onde  começava o jogo e onde se concretizava a encenação.

Digo para os alunos  toda aula é um espetáculo. Digo para o elenco todo ensaio é um espetáculo.

E aqui vai um exercício de grudar o jogo com a encenação:

Chegar ao estúdio  = sentir o público chegar.

Aquecer o corpo  = aquecer a relação com a plateia.

Sensibilizar o emocional  e o psiquismo estabelecendo regras para o ensaio e para o jogo  =   saber capturar e saber se deixar capturar permitir que a plateia entre na história´

Mergulhar no caos criativo = igual a deixar a plateia  na experiência  da se saber cúmplice.

Elaborar o jogo e complicar o jogo e descomplicar   = igual a permitir movimentos   inteligentes na plateia e  deixa-la também jogar com tudo aquilo  que se processa no gráfico do espetáculo sentir a plateia inteligenciando com  os atuantes a lapidação que foi feita na encenação.

Lapidar o jogo/ curtir o jogo/ não desistir/ dar conta do jogo  = igual dar conta do espetáculo

Abraçar e rir com os companheiros às vezes chorar   = admitir nossa potencia e impotência  = receber o aplauso do público com o coração e guardá-lo no banco de credito universal.

 

“ENCENAÇÃO NO JOGO E O JOGO NA ENCENAÇÃO”

De um jeito ou de outro sempre está presente num trabalho de grupo este enlace da preparação de um elenco  – exercícios lúdicos-  com a elaboração daquilo que foi vivido e pesquisado e que vira um espetáculo. Este processo no meu entendimento  e prática passa pelos vocábulos:  Caos, considério e cosmos.

O ato criativo sempre se apresenta caótico logo de cara é o caos criativo a ebulição de ideias.

Depois vem o considério,  ou seja,  considerar…É o  tempo ou o momento  de amadurecer as ideias ou de escolher  ou de deixar pra trás, desapegar,  silenciar esperar aceitar. Paciência, atenção e  foco.

E o estado cosmológico ufa! É quando rola a harmonia da criação, a beleza! Deixando claro que aqui quando falamos do belo não estamos falando do bonitinho certinho… Beleza neste caso é tudo  aquilo que provoca espanto, estranheza, inquietação e aí  entramos de novo no caos e o ciclo volta a agir rodar como os astros no céu.

Caos, considério e cosmos: Risco, disciplina e articulação são palavras chaves no contexto do jogo teatral.  Acho que risco é fator maior é condição e pré-requisito.

Articulação tem a ver com aceitar a inutilidade e a imprevisibilidade   Pra quê  jogar ? Pra nada! Nada é igual à Imprevisibilidade.

E muito suor, disposição, técnica e treino.  Tem gente que quando assiste a uma peça boa diz: Mas vocês treinaram bastante né?

Sim! Com a bola.  A bola…  Acho que é a melhor metáfora.

Outras gentes mais ligadas  ao fenômeno teatral dizem: Os atores bateram um bolão. O público não foi embora. Esteve cúmplice o tempo todo. Teatro é jogo.

Em português não temos um expressão  que indique teatro e jogo numa só palavra, como no inglês:  PLAY/ TO PLAY. No alemão também a dimensão lúdica do fazer teatral já está presente por inteiro na palavra SCHAUSPIEL  que quer dizer  jogadores do espetáculo. Nós precisamos dizer o “ jogo teatral” ou o “jogo dramático”, que neste caso aplica-se mais aos processos de arte educação.

Aí talvez se explique um pouco essa dicotomia processo e resultado com a qual lidamos: O Jogo é encenação? A encenação é um  jogo?

O jogo teatral é conjunto de acontecimento que envolve corpo  espaço,  e tempo  sobretudo,  e  envolve igualmente as relações destes elementos  com todo o arsenal material e imaterial que se faz presente na cena ou na situação e  isso tudo derivados da força da enunciação, do texto, ideia ou proposta.

Tem-se jogo tem-se jogador ou atuante. Tem-se  encenação tem-se encenador. O encenador surgiu outro dia, mais ou menos em 1860 conta-se que  junto com o aprimoramento com luz elétrica.

O encenador ou diretor vem para organizar tudo o que pode se passar no palco. Controlar a farra.   É o controlador dos efeitos.

E para além dos efeitos possíveis e das revoluções técnicas, da mecanização do palco e etc. Acrescenta-se  a crise do drama e da dramaturgia clássica. A destituição da palavra do texto centrismo.

A encenação exige então uma subordinação harmonizada das expressões artísticas todas (teatro arte total) e das novas maneiras de  abordagem  da dramaturgia.

Encenar é colocar no espaço aquilo que de certa forma foi colocado apenas no tempo. ”Teatro é Poesia em movimento” nas palavras de Antonin Artaud.

Questão: Quando o jogo  sai da camada processual de buscas e descobertas e passa a ser estrutural da encenação ou do resultado propriamente dito… Como fica?  Como o jogador se apropria da encenação?  “No tocante ao jogo, quem, no teatro, sabe faze-lo e ganha-lo, é quem melhor conhece as regras e finge trabalhar sem esforço e sem leis”.

Questões: Como a encenação conduz o jogo?

Como o jogo se transfigura para virar encenação?

O jogo na encenação impõe a pergunta: Como tirar o bolo da forma? Às vezes  o processo é tão legal e na hora de tirar da forma se  desbarranca . Ou o bolo vai na forma  o que é muito comum, você vai ao teatro e vê o processo do grupo  ainda na camada experimental .

Jogo  é treino ?  Encenação  é elaboração?

A encenação é o lugar das escolhas estéticas/ do contexto social/da ficção aumentada/das ideologias e propostas de linguagens…

Encenador e diretor é a mesma coisa?

Diretor é o diretor do espetáculo

E a encenação é um resultado mais subjetivo que inclui, como no  jogo, a imprevisibilidade.

E quem cuida do tal rigor técnico?

Qual é o parâmetro para o rigor técnico do jogo teatral?

Seja lá como for eu acredito  na necessidade imperiosa do diretor desta figura que representa o publico que vê de fora.  Ele é responsável por:  “Aquele vínculo secreto e invisível que une e que traz o mistério às relações que acontecem no palco ou no espaço cênico”

Acredito igualmente na necessidade imperiosa de jogadores de teatro: Aos atores/ atrizes  cabe mediar ideias/ mediar desejos de agradar de comunicar… Dirigir nosso olhar  com sua energia e presença.  O jogo do ator garante a vida de uma encenação. Garante a organicidade / a atuação orgânica/ o tempero de tudo que nos atravessa  e que  une palco e plateia. Tudo para agradar, para ser bem recebido e   bastante aplaudido)

“Agradar no teatro é igual a experimentar inúmeras combinações de jogo.”

Questões:

– Da separação entre processo e resultado.

– Estabelecer a hierarquia do condutor do jogo- Qualidades do condutor do jogo

– Regras como fator de segurança cumplicidade e abertura. Fechar para abrir mais

– Perguntas que nos intrigam: A passagem do experimento para o espetáculo pronto. Um espetáculo fica pronto?

A máscara teatral  é diferente da mascara social que  esconde  a verdade,  a mascara no teatro é sempre  revelador 

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Fátima Ortiz é atriz, diretora teatral, diretora de produção, arte educadora e dramaturga, reconhecida por suas iniciativas e realizações que englobam o fazer teatral em suas dimensões criativas, educativas e política.

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Cabaret Macchina: mecanismo poético selvagem

Por Luciano Schmidt
Fotografias de Humberto Araújo

Praça Rui Barbosa, centríssimo de Curitiba. São quase 21h de uma noite quente-fria de começo de outono, e uma atração do Festival de Teatro traz para a rua um grande grupo de pessoas. Elas esperam pelo que não sabem em frente à sede da Rua da Cidadania Matriz. Luzes de palco estão montadas ao lado dos portões, com caixas de equipamentos cênicos e técnicos concentrados que fazem os últimos ajustes.

Sem aviso, uma figura elegante surge e o grupo começa a tomar forma à sua volta. Ela monopoliza a atenção com um vestido negro e um ultrajante chapéu em formato de meia lua. Repentinamente vai em direção a um púlpito de rodinhas e, ao badalar do sino da Igreja que faz parte do cenário da praça, começa uma leitura bizarra. Palavras que não são palavras, um idioma desconhecido e hipnótico soa por lábios precisos. Apesar da falta de sentido dos sons, é evidente que a figura sacerdotal lê cada palavra diligentemente. Sentindo o efeito de um mecanismo verbal desconhecido, estamos agora sob a influência do Cabaret Macchina.

A liturgia continua enquanto o elenco transpassa a multidão até se alinhar próximo ao púlpito, com seus corpos rígidos cobertos de roupas esdrúxulas. As penas e meias arrastão do cabaré tradicional contrastam com peças gritantes, acessórios excessivos, pedaços de objetos quebrados, maquiagens pesadas e botas reluzentes. Peças de figurinos clássicos em choque com a indumentária urbana. Lanternas viram iluminação cênica de mão. Alguém começa a falar. A multidão está desorientada, não sabe para onde olhar, gente subindo nos canteiros e bancos da praça para tentar conseguir uma perspectiva melhor. Mal sabia o público que a desorientação seria uma constante nessa noite.

Repentinamente a infantaria surreal começa uma marcha, que abre caminho pelo público e atravessa a praça, guiando olhares ansiosos por um palco que não tem as limitações convencionais. Aliás, nessa peça, nada há de convencional. Os limites físicos entre os atores e a platéia não existem. Os limiares entre personagens e intérpretes são tênues. Atropelando as ruínas da quarta parede, a tropa volta num movimento imprevisível e toma conta do terreno elevado de um canteiro, onde as pessoas tinham subido para tentar enxergar melhor. Mas para. Parou. É importante estabelecer aqui e agora que não posso ter a pretensão de escrever sobre esse espetáculo de maneira exata, numa apresentação linear dos eventos que transcorreram. É preciso estabelecer o local e dar uma noção de como as coisas começaram, mas um relato crônico de cada ato não é possível de ser traçado.

Enquanto a multidão se ajeita para prestar atenção na ação que começou às suas costas, a cena acaba sem aviso. O espectador incauto então percebe o movimento incerto das pessoas à sua volta e tenta se posicionar novamente para capturar uma cena que agora acontece à sua esquerda. Mas uma personagem passa ao seu lado falando e chama sua atenção para o outro lado. Mais uma cena acaba e o incauto, que antes estava na primeira fileira, agora não consegue ver nada enquanto a ação se desenrola em outro canto. A cada transição, a luta pela sobrevivência recomeça na tentativa de se posicionar bem na hierarquia caótica das cabeças e estaturas que se cercam.

Heiner Müller brota com força das gargantas selváticas, transfigurado pela pós-modernidade em manifestações poéticas e situações absurdas. O anjo do desespero abre suas asas de plástico para distribuir o prazer e o tormento dos corpos. Jasão e seus argonautas são evocados e rechaçados, Medeia e Eurípedes e Hamlet e Deleuze e Guattari e Homero e Hakim Bey são elementos de uma mitologia bastarda que ganha vida no Cabaret Macchina. Revolta e apatia, privilégio e brutalidade, sexo e consumo são temas retratados por mecanismos dramáticos em transformação ininterrupta, com canções repentinas entre monólogos e diálogos tão mordazes quanto engraçados.

Uma personagem relata a guerra que começou com um protesto contra as normas de trânsito. O conflito entre o Estado e os revoltosos escala violentamente com a tomada de prédios públicos e execuções de agentes, até que o interlocutor, sem sabermos direito como ou quando, se transforma na base de dados que sangra de seu pedestal, alimentando um sistema autofágico que sobrevive mesmo após o levante.

Excitados pela tragédia, os portões da Rua da Cidadania Matriz se abrem e o público segue o elenco, que marcha para a escuridão. A estrutura do local é composta por blocos de pequenas lojas, conformados como quadras entre pequenas ruas e vielas dentro de um enorme galpão. À noite as lojas ficam fechadas como caixas metálicas, enquanto grandes vidraças e grades sob um teto altíssimo dão uma atmosfera fabril a esse segundo momento da peça. Após a chegada da platéia no centro da Matriz, um ator canta uma ópera irreverente e apresenta cada integrante do elenco. Mas não é o fim, longe disso. Como dito, não há nada convencional aqui. Cada um entra em cena e toma sua posição em frente a algum instrumento, microfone ou objeto inusitado. É nesse momento que surgem os convidados especiais, Karina Buhr e Max B.O. Contrastando o figurino apocalíptico do elenco, os dois estão vestidos com trajes típicos nordestinos. Todos tocam em conjunto uma música estranha e envolvente, com uma estética industrial acentuada pelo uso de um serrote, uma placa de metal, um galão de água, cadeiras de ferro e outros objetos. Criam uma cacofonia nervosa que é harmonizada por uma maestrina de muletas.

Mal acaba esse interstício musical e a desorientação assalta o público novamente. A partir de agora, parece que tudo se acelera e as memórias se amalgamam. De repente uma música começa, ela vem se aproximando pelas ruelas da Matriz e um carro – literalmente um carro – abre caminho e para no meio da multidão, que logo tenta tomar uma nova forma para ver a flutuação de Ofélia. Uma cena angustiante e cômica satiriza o próprio universo da produção teatral, na figura de uma autoritária e confusa diretora de cena que comanda ações desconexas com o auxílio inútil de uma assistente. Karina e Max mandam um repente afiado sobre um pescador e os dominamentos do criador. As personagens desfilam pelo caos. Um banco de praça aparece no meio da multidão, entre os espólios humanos de uma revolução. Então Karina volta, agora com os cabelos insurretos e a voz armada que a consagrou. Sobre a base do tambor que toca, ela canta uma elegia às selváticas da companhia e do mundo. Elenco e equipe técnica se reúnem ao redor do banco sob uma luz rosada, encarando o público com olhares intensos enquanto a cantora conclui o espetáculo energicamente.

Essa peça é uma máquina de guerra. Uma constante desterritorialização das referências, uma liquidação das certezas sólidas e sórdidas que tutelam a vida nas cidades. A equipe da Selvática Ações Artísticas consagra sua trajetória transgressora com uma peça de teor altamente explosivo. Sob o caos fragmentado da poesia, pulsa uma afirmação política e destemida. O livreto do espetáculo, que em si é um trabalho gráfico excepcional, nos diz quem são: “Artistas que vivem o risco de não dissociar vida de sonho.” Risco que se mostra cada vez mais real no teatro da crueldade que é o Brasil em pleno 2018. Contrariando a caretice gélida da suposta república de Curitiba, a trupe ocupa os espaços públicos da cidade com um manifesto pela liberdade em todos os seus sentidos. Após as duas apresentações do Festival, em que contou com seus convidados especiais, a peça vai a outros bairros para chegar a um público cada vez mais diverso. Agora a guerrilha cultural penetra as veredas da selva urbana, num necessário confronto ao maquinário mental pestilento que sustenta o sistema vigente. Como o anjo de Müller, a máquina-selvática parece dizer:

“Minha esperança é o último suspiro.
Minha esperança é a primeira batalha.”

_______________________________

Luciano Schmidt é formando em jornalismo pela PUC-PR.

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FRIDA, YO SOY LA DESINTEGRACIÓN

Por Brenda Sodré

 

 

Foto: Elenize Dezgeniski.

 

 

não há como saber algo tão bem quanto a realidade do espelho, por isso frida se pinta nos outros.

colorida, vários coques pela cabeça, amarras e ferros nas pernas, com a felicidade de uma criança, frida é puxada pela coleira por uma dominatrix zapatista (stela fischer), alguém ganha uma monocelha aqui, outra ali. alguém ganha uma monocelha e um beijo na cabeça. ela olha bem dentro do olho da gente. alguém ganha uma monocelha e um beijo no colo. a dominatrix a puxa mais rápido. alguém ganha uma monocelha e um beijo demorado na boca. que sorte. eu não estou entre os alguéns de monocelha, olho-no-olho, beijo na cabeça, no colo, na boca. queria tanto.

não há o fim de frida kahlo, uma frida jamais se cala com porquês, blablablás, e afins.

no teatro, vários ruídos, um céu azul turbulento que insiste em ficar me causa vertigem, uma mulher de burca preta (leticia olivares) nos dá as costas.

é a voz de donald trump que diz coisas nos alto-falantes. por entre o público, a frida punk de violeta luna ressurge segurando uma tesoura que parece ser cirúrgica, toca duas vezes a cabeça de uma garota para que ela abra espaço. eu preciso me movimentar também porque estou em frente à garota que foi tocada duas vezes na cabeça pela tesoura e eu não consigo mais voltar ao lugar de antes, fico imóvel. sim, parece que ela tem o poder de arrombar o ar com sua presença vulcânica. um fenômeno que nunca vi antes. estou presa no meu corpo, não tenho coragem de me movimentar, no entanto, várias coisas se bagunçam dentro e tenho a sensação de que é crime tirar os olhos dela.

 

 

Foto: Elenize Dezgeniski.

 

 

frida e a dominatrix chegam no palco e se aproximam da mulher de burca até despirem-na. suas costas gritam que nenhum ser humano é ilegal, mas ninguém sabia. algumas pessoas ainda não sabem mesmo depois de. um medo toma meu corpo.

não há o fim de frida kahlo, uma frida não se cala com capitalismos, misoginias, fundamentalismos, xenofobias e genocídios.

frida enfia a tesoura na língua, mete no nariz e ameaça romper o septo, puxa os cílios postiços, come e dá de comer. alguns rostos da plateia se entortam. ela troca de tesoura e começa a proclamar o caos, poda suas unhas uma a uma loucamente. uma unha voa no meu olho. que sorte.

a pélvis que dança cospe uma carne abjeta por entre as pernas. frida a devora. quer? ninguém aceita. ela insiste e oferece de novo e de novo e de novo. ninguém aceita. ninguém quer comer um pedaço de frida kahlo. ela tira os grampos-pregos do cabelo e limpa os dentes e com um deles espeta a carne. oferece para a plateia a oportunidade de perfurar a mesma carne que antes ela ofereceu como banquete. com exceção de uma pessoa, todo mundo aceita. eis que me acontece algo estranho: ela olha para mim e me convida. eu fico em sua frente, não entendo mais nada, sua presença me atormenta, era pra eu pegar um prego de sua perna e enfiar na carne como todos os outros, ao invés disso, eu sento no palco ao lado dela e balanço as pernas como ela balançava. ela ri e me dá um espeto (nesse momento, todos sabiam que eu havia entendido os sinais dela de maneira torta, eu era a única sem saber). eu enfio com força o prego na carne. ela arregala rapidamente os olhos e os fecha bem apertados. na hora eu me encolho toda, percebi a atrocidade que havia feito. ensaiei não espetar caso ela me notasse e resolvesse me chamar, ensaiei dizer coisas no ouvido dela sobre como eu seria incapaz de feri-la e de ferir o que saísse dela. mas eu não cumpri. eu sentei ao lado dela, balancei minhas pernas, olhei em seus olhos e escolhi perfurar a carne que seu corpo expeliu. eu volto ao meu lugar e ela prossegue com seu jantar autofágico, toma uma tequila e passa para o público compartilhar. tira a parte de cima da roupa colorida e veste um colete de metal apertado com várias lanças apontando para fora. ela convida uma moça da plateia, olha bem dentro do olho, elas se beijam ardidamente, apesar das lanças. apesar de.

não há o fim de frida kahlo, uma frida jamais se cala com acidentes de trens, pregos, lanças, ataduras, talas.

 

 

Foto: Elenize Dezgeniski.

 

 

com a confiança de quem tudo pode, frida kahlo violeta luna manipula uma seringa. ameaça enfiar nos olhos, oferece novamente para quem quiser injetar o líquido vermelho em seu corpo, ninguém aceita. ela para ao lado de um homem de terno, muito bem vestido e o intimida. ele não é ninguém perto dela, ninguém. e ali mesmo, injeta em sua coxa algo que eu não sei dizer o que é. frida devora uma garrafa de água com a violência dos tornados. vai se desmanchando, tira os grampos, desfaz os coques, tira a roupa, desfaz as amarras. estende pelo teatro um rolo de papel higiênico com o rosto do donald trump estampado. ela abre os braços e eles pegam fogo. qualquer movimento que ela faz ela pode fazer, nada acontece além dela. ela pode tudo, absolutamente tudo. seus braços abertos pegam fogo. um cristo mulher latina em chamas que eu escolho acreditar. sua saia vira um manto, esconderijo. ela agradece, plena, parada, vulcânica. e educada que é, limpa o teatro que sujou durante a cena com a bandeirinha vermelha e azul com 50 estrelas que conhecemos tão bem.

não há o fim de frida kahlo, uma frida jamais se cala com homens laranjas que agarram mulheres pela buceta, bandeiras, american way of life e afins.

no paradoja, horas depois, onde acontecia a festa de abertura do festival ruído encena, antes que eu pudesse proferir qualquer palavra, violeta luna com seus longos cabelos pretos lisos e seus olhos de rapina me vê e diz: foi muito engraçado, você foi a menina que sentou ao meu lado e balançou as perninhas.

 

 

Foto: Elenize Dezgeniski.

 

 

brenda sodré é áries com ascendente em sagitário, nasceu de cabelo vermelho e com uma hemorragia na cabeça. sua antepassada é a bomba, o projétil, o estilhaço. não sabe outro idioma senão o do fogo e do estalo. está se formando em artes cênicas na faculdade de artes do paraná. é atroz e performer, sua pesquisa atravessa questões de gênero, feminismo e tecnologia.

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existência temporária continuada em curitiba: mostra cena breve

Por Greice Barros

Este material foi apresentado por Greice Barros durante a sua participação no encontro “Espaços contextuais temporários: quais narrativas para quais potências?”, realizado dia 28 de setembro, na Companhia Brasileira de Teatro, em Curitiba, durante o Festival Internacional Ruído EnCena 2017. 

Obrigada pelo convite, por esse espaço essa experiência

Eu sou a Greice, nascida e criada em Curitiba.

A cidade sorriso, só que não!

Eu junto com a Marcia e a Sueli inventamos a Mostra Cena Breve Curitiba – a linguagem dos grupos de teatro

Indo pra décima edição em breve!!! (dedos cruzados) → cor verde = sorte

Vou tentar… com essas palavras e com a minha presença aqui agora com vocês, vou tentar compartilhar as tantas coisas, os tantos atravessamentos de tantas coisas, tantas que nos passam.

Acho maravilhoso se criar um espaço para se “falar sobre o que nos passa”. Toda essa/essas coisas que nos passam, a nós que habitamos esse tempo espaço com nossas diferenças e desejos.

Às vezes me passa

Às vezes em mim atravessa.

Bom…

ESPAÇOS CONTEXTUAIS TEMPORÁRIOS:

QUAIS NARRATIVAS PARA QUAIS POTÊNCIAS?

Pergunta… Questão…Questã…pra compartilharmos…

(Pausa curta) → cor vermelha = atenção

desafios, conexões, fruição, discussão e visibilidade

formas éticas e estéticas

relação arte mundo

hoje, agora

público

convivência

trânsito

foram as palavras que temporariamente tocaram, soaram, provocaram…

criaram Imagens…

chegamos aqui.

E o que nos passa.

Nós, nesse momento eu, mas

nós três: As três.

Somos AS e

Espada!!!

Mostra-A.

O que nos passa?!!

(Pausa curta) → cor vermelha = atenção

O que É a Mostra

e

O que ela pode ser…

O que é a Mostra Cena Breve?!!

O que a Mostra é

O que ela pode será…

(ritmo ao falar quase sem pausas) → cor roxo = acelerado + prazer ao falar

Ideologia

experiência,

sensibilidade,

produção,

parceria,

curadoria,

encontro,

troca sensível,

grupos novos,

grupos convidados, grupos que se fizeram, grupos que se desfizeram,

coletivos,

agrupamentos,

ajuntamentos,

promiscuidade artística,

A mostra como identidade irrequieta que quer fazer vibrar!!!!!

Lugar/Ação

PAUSA, PAUSA, PAUSA, PAUSA – conto nos dedos

(com pequenas pausas, entre cada PAUSA) → cor vermelha = atenção

A Mostra

Amostra.

Contrapartidas, prestação de contas, retorno de mídia, aprovação, desaprovação. Ganha não Ganha. Ganha?? Quem ganha, quem ganha…ganha?!

NÃO!!!

Comprovação de legitimidade, justificativa e objetivo.

Plano de ação e resultados a serem alcançados!!!

E aí… Cagamos Ou não Cagamos? eis a questão.

Do que se abre mão para sentar-se a mesa para assinar o contrato?? Patrocínio Incentivo Logomarca Apoio Institucional Cota de Convites Chancela.

Cancela.

(volta o ritmo de fala) → cor azul = acelerado

Planilhas orçamentárias e logísticas.

Cronogramas.

Projetos, projetos, projetos, projetos, projetooooooossssss

Produção como criação, como ação propositiva, ato.

produção executiva, direção de produção, produção artística, produção ação de formação, produção oficinas, produção técnica, produção festas…

produção e afeto, produção e partilha!

Desierarquizar as hierarquias

Desburocratização!!!!

Formação, atualização, arejamentos das ideias…

Arejamento de práticas.

O tempo…

Tempo histórico, cronológico e sensível.

A continuidade como resistência e como potência,

sem ser refém de tempo algum.

Inclusive do tempo que vem!!

Cumplicidade

Parcerias pra por a mão na massa!

Público,

novos públicos!!

Ações para ativação, formação, encantamento de novas públicos

Desafio, Experimento, Fragmento, Obra

15 minutos

Espaço temporário

da CENA

do teatro

do tempo/espaço temporário

(Pausa – bebe água) → cor laranja = prazer

Espaços temporários criam intensidade de presenças diversas

num tempo espaço único.

Proporcionar e vivenciar esse espaço/tempo.

Ser algo vivo pulsante por esses encontros

é diferente de somente oferecer uma programação exemplar com espetáculos ótimos?! Será?!

Como criar esse espaço aberto a errância?!

Criar e manter esse espaço, essa existência temporária é um ato político.

existência temporária continuada em curitiba, mostra cena breve curitiba.

Fotografias: acervo Mostra Cena Breve/ Elenize Dezgeniski / Lídia Ueta/ Patricia Lion

 

 

Greice Barros é atriz e produtora cultural. Suas criações como intérprete estão ligadas ao teatro e ao audiovisual, em sua maioria, com a performance e estudos sobre corpo e voz. Integra a CiaSenhas de Teatro. É sócia fundadora da Núcleo Produções Cultura e Desenvolvimento. Idealiza e desenvolve projetos como produtora e gestora cultural, interessando-se por políticas públicas pra cultura, manutenção de projetos culturais de continuidade, ações de formação e pesquisa em produção e produção como criação.

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Escrita-roubo sobre autobiografias roubadas

Por Fernanda Ricci

 

 

Foto: Lauro Borges.

 

 

[cochicho]

Curitiba, 14 de setembro de 2017.

 

Eu sou Fernanda, e a instrução de leitura é: leia cochichando.

Cochichando, Juliana me instrui: só podemos falar assim. Me convidou a subir ao piso de cima do Teatro Novelas Curitibanas.

Ao entrar na sala, me deparo com quatro microfones dispostos um em cada canto da sala, com almofadas em volta. Há duas filas de cadeiras frente a frente. À meia luz, recebo o convite de conversar pertinho, cochichado em um microfone. Nós, agora podemos abrir bilhetinhos e conversar sobre nossos medos, contar a história de quando derrubamos algo, de quando alguma coisa deu errado ou sobre a última vez que mentimos. Ou sobre qualquer coisa que tenha a ver com irregularidades. E quando uso a palavra irregularidades, eu estou roubando, porque sou residente da Mostra Emergente e Caio, diretor do espetáculo, me pediu perguntas que tenham a ver com irregularidades.

Juliana senta para conversar comigo e Lorenzo. Nos conta sobre a última coisa que tinha dado errado para ela, havia sido pela manhã. Tinha saído para se depilar e acabou perdendo o horário de ir buscar os remédios de seu pai. Suas pernas ainda estariam grudentas de cera. Ela nos contou que havia lavado, usado esponja e arranhado, mas a cera ainda estava lá. Eu sei que ceras são uma merda para sair da pele. Segundo roubo da escrita: no dia anterior Juliana havia saído do teatro para comprar as meias sugeridas pela Walkiria Talkie Nômade, Bianca, e buscar os remédios de seu pai.

Me peguei olhando para suas pernas a procura de cera e pensando se, ontem, algo havia dado errado com os remédios. Se eu não fizesse a residência, eu acreditaria nessa história?

Eu e Lorenzo começamos a falar dos possíveis erros dos engenheiros. Adicionamos uma outra questão: qual seu grande sonho de infância?

– Ser atriz. E eu sou atriz hoje. E o seu?

– Ser músico. E eu sou músico hoje.

Sorrisos.

[blimmm]

Juliana organiza o espaço. Pega todas as bolsas espalhadas entre chão e cadeiras, carregada e desajeitada, pega um programa da Mostra Emergente e coloca sobre outro programa que estava em frente a Ricardo. Coloca cada bolsa em cima de uma cadeira, organizadas por cor e modelo. Encontra um novo programa, junta aos outros. Achamos graça, chamei isso de cabideiro andante. Termina de organizar as bolsas. Ao terminar essa ação, estamos confortáveis, alguns de nós deitados no chão.

[blimmm]

Juliana para de cochichar [pare de ler cochichando], se apresenta. Diz que pode nos mostrar seu Ritornelo, seu Belchior e “estar bruxona”. Ela disse Belchior? Eu já não tenho certeza se disse. Não espera nossa resposta, sai mostrando. Se movimenta pelo espaço debilmente, em câmera lenta, se arrasta pelo chão, pelas paredes, se enfia em cantos, emite sons, faz bruxaria, transpira. Não há nada de débil. Nós? Transitamos em sentar, deitar, revirar, sorrir, exprimir atenção, estar, perceber a duração desse momento. Terceiro roubo da escrita: em minha última conversa com Caio, ele disse que Juliana nunca disse Belchior. Caio diz que Juliana diz: Ritornelo, tudo em seu devido lugar, encosto, hoje eu tô bruxona.

[blimmm]

Se dirige a Caio que manda imprimir algo. A página sai em branco. Juliana rapidamente coloca a folha para imprimir novamente.

 

Porque coisas dão errado, Caio?

Essa era a minha pergunta para você.

 

Juliana pega o notebook, para, o encara. Me atento para a sua respiração, para as gotas de suor que escorrem pelo seu rosto, nos cabelos grudados na testa, os pingos caindo no notebook, nos seus dedos molhados tocando as teclas e o touchpad. Seus olhos fixos na tela vão e voltam descendo. Fico curiosa: o que ela lê repetidamente?

Devolve o notebook a Caio e inicia novamente sua partitura ritornelo-nãobelchior-hojetôbruxona ao mesmo tempo que nos conta uma[s] história[s]. E agora a concretude de seus gestos não acontece mais no espaço de sua bruxaria, mas sim nos espaços de nossas histórias compartilhadas. Caio, esse DJ malandrinho, ouviu tudo, mixou e colou nossas histórias todas. A banalidade de contar qual foi a última coisa que você derrubou se mescla nos nossos erros, mentiras, a irregularidade que é existir, nos encontros fortuitos, no nonsense e humor. Nos deparamos com as nossas fragilidades e vulnerabilidades, com a certeza de que alguém ouviu nossos cochichos no microfone – sim, desde início era um pacto, mas perdemos algo? Quem mais nos escuta por aí?

Engenheiros que eram ruins em planejar prédios por não contarem que amam o garoto da faculdade e por isso decidem estudar massagem enquanto mentem para mãe sobre café e, os prédios balançam. Grupo Nômade e seus desejos de troca, as fragilidades da cena, as estratégias de criação de um espetáculo em que atriz e diretor moram em cidades diferentes, as estratégias de ensaio, as viagens Curitiba-Brasília, a troca via walkie-talkie entre Curitiba-Brasília-Canadá, o improviso, lidar com o imprevisto e com as coisas que dão errado. A insistência de um sonho.

Transitamos pela profundidade do banal que somos. Eu gostaria de não ter perdido a hora hoje, gostaria que minha mãe não tivesse ficado falando falando falando enquanto eu tentava terminar esse relato, gostaria de ter impresso esse texto em papel vegetal, escolhido melhor algumas palavras, refletido mais sobre algumas questões, mas algumas coisas dão errado. As irregularidades estão por aí, desde o pneu da minha bicicleta que fura, a luz que acaba e faz minha namorada ter que descer 16 andares pela escada ou a impressora que não funciona, até o retrocesso desse país tropical e abençoado por Deus?

Juliana se dirige à porta. Sai. Larga aberta. Guilherme ascende uma luz em direção a porta. Textos. Iluminados pela gambiarra de Marcela. Impressos em papel vegetal. Pendurados pela gambiarra de Caio. Todos com a cidade de Curitiba?, data. “Eu sou Juliana…”.

Penso sobre as conversas que inspiraram esses textos. Penso nas pessoas.

Desço as escadas, encontro novamente Lorenzo. Foi um prazer o conhecer. Vou para casa, e tudo ainda reverbera.

 

 

Foto: Lauro Borges.

 

 

Fernanda Ricci finaliza sua graduação em Artes Cênicas na Faculdade de Artes do Paraná. Nunca é vista usando calça jeans e nem sutiã. Pisciana que não gosta do que prende, saracuuuteia suculenta-explosiva n[u]as Poéticas e Políticas da Corpa Feminista, sobre o recorte de gênero, sexualidade, violência e suas possíveis mesclas.

 

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Eu sou um crash test dummy

Por Marina Viana 

 

 

Este texto foi lido por Marina Viana durante a sua participação no encontro “O que quer dizer independência?”, realizado na Companhia Brasileira de Teatro, em Curitiba, durante o Festival Internacional Ruído EnCena 2017.

 

 

Foto: Elenize Dezgeniski.

 

 

Começa no útero, abaixo da linha do equador. Revolve de furacão e enchente carregando quem não tem o que carregar, passa pela mão do hemisfério norte separando, apontando condenando o que a cabeça tampada por um lenço uma camisa um gorro de esqui performa de braços erguidos no ar. Derrubar monumentos, queimar carros explodir bancos. O sexo escorre por todas as fronterias imaginárias da polis, o suor do sul, o sangue do sul as especiarias do leste, o pacífico gelado o norte barbarizado. A baderna que adentra o espaço, com pés no chão de bailarina. Era pra falar de espaço. Espaço, coisa e corpo. O copo de café, copo vazio, cheio de ar. Vazio daquilo que no ar do copo ocupa o lugar. Ocupa. Tira gente põe represa. Adeus! ó choça do monte!… Adeus! palmeiras da fonte!… Adeus! amores… Adeus! Um homem vivendo dentro da baleia. O cu é logo ali. Este nosso sítio. E eu, menos estrangeiro no lugar que no momento, sigo mais sozinho caminhando contra o vento e meto o meu grelo na geopolítica… Eu podia ficar aqui pra sempre, no alto dessa montanha arranha céu, estrada de minas pedregosa, braços abertos sobre a Guanabara e o grelo na geopolítica! Dedico todo o meu fígado a América do Sul. Patchamama te veo tan triste. Errante navegante. Quem jamais te esqueceria.

Eu sou um crash test dummy.

E também dama do cerrado sem patrocínio nem vergonha na cara, indigna das alterosas co-criadora do teatro fanzine que faz um excelente mojito. Autodeboche narcísico, escracho melancólico e permanente diante do espelho. Na contracorrente de um movimento que eu ajudei a fundar, porque como boa caetana que sou, eu também estive lá. Hoje eu ando avulsa. Mas a rede ainda existe. Sigo com meus empreendimentos independentes. A cidade está cheia deles. Graças à deusa. Novos baianos te podem curtir numa boa.

Não sei quem sou. Mas estou bem. Já esta provado o que só é possível no estrago que dá acelerar na frente, entrar em choque com o tempo e voar na inércia dos acontecimentos.

Por tanto não sou vanguarda. Sou boneca de teste. E não que eu seja um boneco manipulável, sem opinião ou atitudes próprias. A fada azul me deu vida. Ainda não sei se sou a mentira ou a verdade do cerrado, o fato é que meu nariz não cresceu mais do que o de Barbra Streisand.

Mas essa onda avulsa, não sei pra onde vai, nem por que. Os tempos são ruins, 2016 foi um ano ruim, eu não estava lá, mas me contaram.

Mas uma hora eu descubro o caminho de novo. As armas chegarão amanhã e ninguém vai me impedir de cantar Don’t smoke in bed deitada num piano de cauda.

E mesmo avulsa eu vou seguindo por que a rede ainda existe.

Lá em casa tinha um baú. Um baú gigante de madeira escrito Grupo Galpão e embaixo um número de telefone que nem tinha ainda o 3 antes dele. Um baú bem velho que virou um desastre, mas representava, ali, mofando com a chuva e o tempo, cheio de resto de peças antigas e de empreendimentos passados. Repleto de bichos, fungos e representações coletivas de um mundo em decadência, entre o que é solido, se desmancha no ar e vira água no fim. Vira líquido. Vira solidão. Foi assim que eu perdi um grupo de teatro na chuva.

Mas mesmo avulsa e molhada eu vou seguindo porque a rede existe.

Eu nasci ontem demais, mas de vez em quando dava por mim, to velha. Que bom. Não parei. Eu sô fominha eu não me poupo eu não me pouco. Tô aqui tomando fôlego. Por que tudo é vontade de continuar. Tanta saudade preservada dentro de um baú de prata dentro de mim.

A rede existe.

Uma rede que funcionou nos últimos anos a revelia do sistema, confundindo a mídia, que não sabia se portar diante de tanta coisa fora das caixinhas conhecidas, a revelia também das leis de incentivo fiscal, uma rede sem dinheiro.

Continuamos pobres.

Não tenho uma utopia de viver como outros grupos. Acho que já tive um dia. Não serei Galpão. A instituição. Só o tesão que aqueles artistas despertaram em mim lá pros idos de noventa e que está aqui até hoje. Serei só tesão.

Anarquizei meus sonhos. Um dia entendo o que isso quer dizer.

Ricardo Nolasco matou o teatro da ultima vez que estive aqui. Saímos do templo e em cortejo enterramos o monumento, da casa burguesa. Talvez tenha sido isso. Não foi a primeira vez que matei o teatro com alguém. Talvez por isso me sinta expulsa.

Os deuses do teatro foram expulsos de todos os teatros.

Eu botei o grupo de teatro no paredão.

Acho que eu sequestrei por muito tempo o grupo de teatro, hoje eu tô liberando esse refém num terreno baldio, vou olhar pra câmera, suspirar e seguir meu caminho ao som de Smile do Chaplin. Aquele egocêntrico.

Hoje sigo avulsa, mas a rede existe, o bando existe.

 

 

Foto: Elenize Dezgeniski.

 

 

 

Marina Viana é atriz, dramaturga e diretora teatral graduada no curso de Artes Cênicas da UFMG com habilitações em Licenciatura e Bacharelado em Interpretação Teatral desde 2005. É integrante dos grupos: Mayombe Grupo de Teatro, Teatro 171, Cia Primeira Campainha, e é colaboradora de vários outros coletivos da cidade de Belo Horizonte (MG). Tem uma banda, já publicou zines, realiza prêmios e faz cabarés. Posou como modelo vivo na Escola de Belas Artes pra ajudar no orçamento da casa. Atriz e modelo. Escreve manifestos e plagicombina canções alheias.

 

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