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FRIDA, YO SOY LA DESINTEGRACIÓN

Por Brenda Sodré

 

 

Foto: Elenize Dezgeniski.

 

 

não há como saber algo tão bem quanto a realidade do espelho, por isso frida se pinta nos outros.

colorida, vários coques pela cabeça, amarras e ferros nas pernas, com a felicidade de uma criança, frida é puxada pela coleira por uma dominatrix zapatista (stela fischer), alguém ganha uma monocelha aqui, outra ali. alguém ganha uma monocelha e um beijo na cabeça. ela olha bem dentro do olho da gente. alguém ganha uma monocelha e um beijo no colo. a dominatrix a puxa mais rápido. alguém ganha uma monocelha e um beijo demorado na boca. que sorte. eu não estou entre os alguéns de monocelha, olho-no-olho, beijo na cabeça, no colo, na boca. queria tanto.

não há o fim de frida kahlo, uma frida jamais se cala com porquês, blablablás, e afins.

no teatro, vários ruídos, um céu azul turbulento que insiste em ficar me causa vertigem, uma mulher de burca preta (leticia olivares) nos dá as costas.

é a voz de donald trump que diz coisas nos alto-falantes. por entre o público, a frida punk de violeta luna ressurge segurando uma tesoura que parece ser cirúrgica, toca duas vezes a cabeça de uma garota para que ela abra espaço. eu preciso me movimentar também porque estou em frente à garota que foi tocada duas vezes na cabeça pela tesoura e eu não consigo mais voltar ao lugar de antes, fico imóvel. sim, parece que ela tem o poder de arrombar o ar com sua presença vulcânica. um fenômeno que nunca vi antes. estou presa no meu corpo, não tenho coragem de me movimentar, no entanto, várias coisas se bagunçam dentro e tenho a sensação de que é crime tirar os olhos dela.

 

 

Foto: Elenize Dezgeniski.

 

 

frida e a dominatrix chegam no palco e se aproximam da mulher de burca até despirem-na. suas costas gritam que nenhum ser humano é ilegal, mas ninguém sabia. algumas pessoas ainda não sabem mesmo depois de. um medo toma meu corpo.

não há o fim de frida kahlo, uma frida não se cala com capitalismos, misoginias, fundamentalismos, xenofobias e genocídios.

frida enfia a tesoura na língua, mete no nariz e ameaça romper o septo, puxa os cílios postiços, come e dá de comer. alguns rostos da plateia se entortam. ela troca de tesoura e começa a proclamar o caos, poda suas unhas uma a uma loucamente. uma unha voa no meu olho. que sorte.

a pélvis que dança cospe uma carne abjeta por entre as pernas. frida a devora. quer? ninguém aceita. ela insiste e oferece de novo e de novo e de novo. ninguém aceita. ninguém quer comer um pedaço de frida kahlo. ela tira os grampos-pregos do cabelo e limpa os dentes e com um deles espeta a carne. oferece para a plateia a oportunidade de perfurar a mesma carne que antes ela ofereceu como banquete. com exceção de uma pessoa, todo mundo aceita. eis que me acontece algo estranho: ela olha para mim e me convida. eu fico em sua frente, não entendo mais nada, sua presença me atormenta, era pra eu pegar um prego de sua perna e enfiar na carne como todos os outros, ao invés disso, eu sento no palco ao lado dela e balanço as pernas como ela balançava. ela ri e me dá um espeto (nesse momento, todos sabiam que eu havia entendido os sinais dela de maneira torta, eu era a única sem saber). eu enfio com força o prego na carne. ela arregala rapidamente os olhos e os fecha bem apertados. na hora eu me encolho toda, percebi a atrocidade que havia feito. ensaiei não espetar caso ela me notasse e resolvesse me chamar, ensaiei dizer coisas no ouvido dela sobre como eu seria incapaz de feri-la e de ferir o que saísse dela. mas eu não cumpri. eu sentei ao lado dela, balancei minhas pernas, olhei em seus olhos e escolhi perfurar a carne que seu corpo expeliu. eu volto ao meu lugar e ela prossegue com seu jantar autofágico, toma uma tequila e passa para o público compartilhar. tira a parte de cima da roupa colorida e veste um colete de metal apertado com várias lanças apontando para fora. ela convida uma moça da plateia, olha bem dentro do olho, elas se beijam ardidamente, apesar das lanças. apesar de.

não há o fim de frida kahlo, uma frida jamais se cala com acidentes de trens, pregos, lanças, ataduras, talas.

 

 

Foto: Elenize Dezgeniski.

 

 

com a confiança de quem tudo pode, frida kahlo violeta luna manipula uma seringa. ameaça enfiar nos olhos, oferece novamente para quem quiser injetar o líquido vermelho em seu corpo, ninguém aceita. ela para ao lado de um homem de terno, muito bem vestido e o intimida. ele não é ninguém perto dela, ninguém. e ali mesmo, injeta em sua coxa algo que eu não sei dizer o que é. frida devora uma garrafa de água com a violência dos tornados. vai se desmanchando, tira os grampos, desfaz os coques, tira a roupa, desfaz as amarras. estende pelo teatro um rolo de papel higiênico com o rosto do donald trump estampado. ela abre os braços e eles pegam fogo. qualquer movimento que ela faz ela pode fazer, nada acontece além dela. ela pode tudo, absolutamente tudo. seus braços abertos pegam fogo. um cristo mulher latina em chamas que eu escolho acreditar. sua saia vira um manto, esconderijo. ela agradece, plena, parada, vulcânica. e educada que é, limpa o teatro que sujou durante a cena com a bandeirinha vermelha e azul com 50 estrelas que conhecemos tão bem.

não há o fim de frida kahlo, uma frida jamais se cala com homens laranjas que agarram mulheres pela buceta, bandeiras, american way of life e afins.

no paradoja, horas depois, onde acontecia a festa de abertura do festival ruído encena, antes que eu pudesse proferir qualquer palavra, violeta luna com seus longos cabelos pretos lisos e seus olhos de rapina me vê e diz: foi muito engraçado, você foi a menina que sentou ao meu lado e balançou as perninhas.

 

 

Foto: Elenize Dezgeniski.

 

 

brenda sodré é áries com ascendente em sagitário, nasceu de cabelo vermelho e com uma hemorragia na cabeça. sua antepassada é a bomba, o projétil, o estilhaço. não sabe outro idioma senão o do fogo e do estalo. está se formando em artes cênicas na faculdade de artes do paraná. é atroz e performer, sua pesquisa atravessa questões de gênero, feminismo e tecnologia.

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existência temporária continuada em curitiba: mostra cena breve

Por Greice Barros

Este material foi apresentado por Greice Barros durante a sua participação no encontro “Espaços contextuais temporários: quais narrativas para quais potências?”, realizado dia 28 de setembro, na Companhia Brasileira de Teatro, em Curitiba, durante o Festival Internacional Ruído EnCena 2017. 

Obrigada pelo convite, por esse espaço essa experiência

Eu sou a Greice, nascida e criada em Curitiba.

A cidade sorriso, só que não!

Eu junto com a Marcia e a Sueli inventamos a Mostra Cena Breve Curitiba – a linguagem dos grupos de teatro

Indo pra décima edição em breve!!! (dedos cruzados) → cor verde = sorte

Vou tentar… com essas palavras e com a minha presença aqui agora com vocês, vou tentar compartilhar as tantas coisas, os tantos atravessamentos de tantas coisas, tantas que nos passam.

Acho maravilhoso se criar um espaço para se “falar sobre o que nos passa”. Toda essa/essas coisas que nos passam, a nós que habitamos esse tempo espaço com nossas diferenças e desejos.

Às vezes me passa

Às vezes em mim atravessa.

Bom…

ESPAÇOS CONTEXTUAIS TEMPORÁRIOS:

QUAIS NARRATIVAS PARA QUAIS POTÊNCIAS?

Pergunta… Questão…Questã…pra compartilharmos…

(Pausa curta) → cor vermelha = atenção

desafios, conexões, fruição, discussão e visibilidade

formas éticas e estéticas

relação arte mundo

hoje, agora

público

convivência

trânsito

foram as palavras que temporariamente tocaram, soaram, provocaram…

criaram Imagens…

chegamos aqui.

E o que nos passa.

Nós, nesse momento eu, mas

nós três: As três.

Somos AS e

Espada!!!

Mostra-A.

O que nos passa?!!

(Pausa curta) → cor vermelha = atenção

O que É a Mostra

e

O que ela pode ser…

O que é a Mostra Cena Breve?!!

O que a Mostra é

O que ela pode será…

(ritmo ao falar quase sem pausas) → cor roxo = acelerado + prazer ao falar

Ideologia

experiência,

sensibilidade,

produção,

parceria,

curadoria,

encontro,

troca sensível,

grupos novos,

grupos convidados, grupos que se fizeram, grupos que se desfizeram,

coletivos,

agrupamentos,

ajuntamentos,

promiscuidade artística,

A mostra como identidade irrequieta que quer fazer vibrar!!!!!

Lugar/Ação

PAUSA, PAUSA, PAUSA, PAUSA – conto nos dedos

(com pequenas pausas, entre cada PAUSA) → cor vermelha = atenção

A Mostra

Amostra.

Contrapartidas, prestação de contas, retorno de mídia, aprovação, desaprovação. Ganha não Ganha. Ganha?? Quem ganha, quem ganha…ganha?!

NÃO!!!

Comprovação de legitimidade, justificativa e objetivo.

Plano de ação e resultados a serem alcançados!!!

E aí… Cagamos Ou não Cagamos? eis a questão.

Do que se abre mão para sentar-se a mesa para assinar o contrato?? Patrocínio Incentivo Logomarca Apoio Institucional Cota de Convites Chancela.

Cancela.

(volta o ritmo de fala) → cor azul = acelerado

Planilhas orçamentárias e logísticas.

Cronogramas.

Projetos, projetos, projetos, projetos, projetooooooossssss

Produção como criação, como ação propositiva, ato.

produção executiva, direção de produção, produção artística, produção ação de formação, produção oficinas, produção técnica, produção festas…

produção e afeto, produção e partilha!

Desierarquizar as hierarquias

Desburocratização!!!!

Formação, atualização, arejamentos das ideias…

Arejamento de práticas.

O tempo…

Tempo histórico, cronológico e sensível.

A continuidade como resistência e como potência,

sem ser refém de tempo algum.

Inclusive do tempo que vem!!

Cumplicidade

Parcerias pra por a mão na massa!

Público,

novos públicos!!

Ações para ativação, formação, encantamento de novas públicos

Desafio, Experimento, Fragmento, Obra

15 minutos

Espaço temporário

da CENA

do teatro

do tempo/espaço temporário

(Pausa – bebe água) → cor laranja = prazer

Espaços temporários criam intensidade de presenças diversas

num tempo espaço único.

Proporcionar e vivenciar esse espaço/tempo.

Ser algo vivo pulsante por esses encontros

é diferente de somente oferecer uma programação exemplar com espetáculos ótimos?! Será?!

Como criar esse espaço aberto a errância?!

Criar e manter esse espaço, essa existência temporária é um ato político.

existência temporária continuada em curitiba, mostra cena breve curitiba.

Fotografias: acervo Mostra Cena Breve/ Elenize Dezgeniski / Lídia Ueta/ Patricia Lion

 

 

Greice Barros é atriz e produtora cultural. Suas criações como intérprete estão ligadas ao teatro e ao audiovisual, em sua maioria, com a performance e estudos sobre corpo e voz. Integra a CiaSenhas de Teatro. É sócia fundadora da Núcleo Produções Cultura e Desenvolvimento. Idealiza e desenvolve projetos como produtora e gestora cultural, interessando-se por políticas públicas pra cultura, manutenção de projetos culturais de continuidade, ações de formação e pesquisa em produção e produção como criação.

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Escrita-roubo sobre autobiografias roubadas

Por Fernanda Ricci

 

 

Foto: Lauro Borges.

 

 

[cochicho]

Curitiba, 14 de setembro de 2017.

 

Eu sou Fernanda, e a instrução de leitura é: leia cochichando.

Cochichando, Juliana me instrui: só podemos falar assim. Me convidou a subir ao piso de cima do Teatro Novelas Curitibanas.

Ao entrar na sala, me deparo com quatro microfones dispostos um em cada canto da sala, com almofadas em volta. Há duas filas de cadeiras frente a frente. À meia luz, recebo o convite de conversar pertinho, cochichado em um microfone. Nós, agora podemos abrir bilhetinhos e conversar sobre nossos medos, contar a história de quando derrubamos algo, de quando alguma coisa deu errado ou sobre a última vez que mentimos. Ou sobre qualquer coisa que tenha a ver com irregularidades. E quando uso a palavra irregularidades, eu estou roubando, porque sou residente da Mostra Emergente e Caio, diretor do espetáculo, me pediu perguntas que tenham a ver com irregularidades.

Juliana senta para conversar comigo e Lorenzo. Nos conta sobre a última coisa que tinha dado errado para ela, havia sido pela manhã. Tinha saído para se depilar e acabou perdendo o horário de ir buscar os remédios de seu pai. Suas pernas ainda estariam grudentas de cera. Ela nos contou que havia lavado, usado esponja e arranhado, mas a cera ainda estava lá. Eu sei que ceras são uma merda para sair da pele. Segundo roubo da escrita: no dia anterior Juliana havia saído do teatro para comprar as meias sugeridas pela Walkiria Talkie Nômade, Bianca, e buscar os remédios de seu pai.

Me peguei olhando para suas pernas a procura de cera e pensando se, ontem, algo havia dado errado com os remédios. Se eu não fizesse a residência, eu acreditaria nessa história?

Eu e Lorenzo começamos a falar dos possíveis erros dos engenheiros. Adicionamos uma outra questão: qual seu grande sonho de infância?

– Ser atriz. E eu sou atriz hoje. E o seu?

– Ser músico. E eu sou músico hoje.

Sorrisos.

[blimmm]

Juliana organiza o espaço. Pega todas as bolsas espalhadas entre chão e cadeiras, carregada e desajeitada, pega um programa da Mostra Emergente e coloca sobre outro programa que estava em frente a Ricardo. Coloca cada bolsa em cima de uma cadeira, organizadas por cor e modelo. Encontra um novo programa, junta aos outros. Achamos graça, chamei isso de cabideiro andante. Termina de organizar as bolsas. Ao terminar essa ação, estamos confortáveis, alguns de nós deitados no chão.

[blimmm]

Juliana para de cochichar [pare de ler cochichando], se apresenta. Diz que pode nos mostrar seu Ritornelo, seu Belchior e “estar bruxona”. Ela disse Belchior? Eu já não tenho certeza se disse. Não espera nossa resposta, sai mostrando. Se movimenta pelo espaço debilmente, em câmera lenta, se arrasta pelo chão, pelas paredes, se enfia em cantos, emite sons, faz bruxaria, transpira. Não há nada de débil. Nós? Transitamos em sentar, deitar, revirar, sorrir, exprimir atenção, estar, perceber a duração desse momento. Terceiro roubo da escrita: em minha última conversa com Caio, ele disse que Juliana nunca disse Belchior. Caio diz que Juliana diz: Ritornelo, tudo em seu devido lugar, encosto, hoje eu tô bruxona.

[blimmm]

Se dirige a Caio que manda imprimir algo. A página sai em branco. Juliana rapidamente coloca a folha para imprimir novamente.

 

Porque coisas dão errado, Caio?

Essa era a minha pergunta para você.

 

Juliana pega o notebook, para, o encara. Me atento para a sua respiração, para as gotas de suor que escorrem pelo seu rosto, nos cabelos grudados na testa, os pingos caindo no notebook, nos seus dedos molhados tocando as teclas e o touchpad. Seus olhos fixos na tela vão e voltam descendo. Fico curiosa: o que ela lê repetidamente?

Devolve o notebook a Caio e inicia novamente sua partitura ritornelo-nãobelchior-hojetôbruxona ao mesmo tempo que nos conta uma[s] história[s]. E agora a concretude de seus gestos não acontece mais no espaço de sua bruxaria, mas sim nos espaços de nossas histórias compartilhadas. Caio, esse DJ malandrinho, ouviu tudo, mixou e colou nossas histórias todas. A banalidade de contar qual foi a última coisa que você derrubou se mescla nos nossos erros, mentiras, a irregularidade que é existir, nos encontros fortuitos, no nonsense e humor. Nos deparamos com as nossas fragilidades e vulnerabilidades, com a certeza de que alguém ouviu nossos cochichos no microfone – sim, desde início era um pacto, mas perdemos algo? Quem mais nos escuta por aí?

Engenheiros que eram ruins em planejar prédios por não contarem que amam o garoto da faculdade e por isso decidem estudar massagem enquanto mentem para mãe sobre café e, os prédios balançam. Grupo Nômade e seus desejos de troca, as fragilidades da cena, as estratégias de criação de um espetáculo em que atriz e diretor moram em cidades diferentes, as estratégias de ensaio, as viagens Curitiba-Brasília, a troca via walkie-talkie entre Curitiba-Brasília-Canadá, o improviso, lidar com o imprevisto e com as coisas que dão errado. A insistência de um sonho.

Transitamos pela profundidade do banal que somos. Eu gostaria de não ter perdido a hora hoje, gostaria que minha mãe não tivesse ficado falando falando falando enquanto eu tentava terminar esse relato, gostaria de ter impresso esse texto em papel vegetal, escolhido melhor algumas palavras, refletido mais sobre algumas questões, mas algumas coisas dão errado. As irregularidades estão por aí, desde o pneu da minha bicicleta que fura, a luz que acaba e faz minha namorada ter que descer 16 andares pela escada ou a impressora que não funciona, até o retrocesso desse país tropical e abençoado por Deus?

Juliana se dirige à porta. Sai. Larga aberta. Guilherme ascende uma luz em direção a porta. Textos. Iluminados pela gambiarra de Marcela. Impressos em papel vegetal. Pendurados pela gambiarra de Caio. Todos com a cidade de Curitiba?, data. “Eu sou Juliana…”.

Penso sobre as conversas que inspiraram esses textos. Penso nas pessoas.

Desço as escadas, encontro novamente Lorenzo. Foi um prazer o conhecer. Vou para casa, e tudo ainda reverbera.

 

 

Foto: Lauro Borges.

 

 

Fernanda Ricci finaliza sua graduação em Artes Cênicas na Faculdade de Artes do Paraná. Nunca é vista usando calça jeans e nem sutiã. Pisciana que não gosta do que prende, saracuuuteia suculenta-explosiva n[u]as Poéticas e Políticas da Corpa Feminista, sobre o recorte de gênero, sexualidade, violência e suas possíveis mesclas.

 

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Eu sou um crash test dummy

Por Marina Viana 

 

 

Este texto foi lido por Marina Viana durante a sua participação no encontro “O que quer dizer independência?”, realizado na Companhia Brasileira de Teatro, em Curitiba, durante o Festival Internacional Ruído EnCena 2017.

 

 

Foto: Elenize Dezgeniski.

 

 

Começa no útero, abaixo da linha do equador. Revolve de furacão e enchente carregando quem não tem o que carregar, passa pela mão do hemisfério norte separando, apontando condenando o que a cabeça tampada por um lenço uma camisa um gorro de esqui performa de braços erguidos no ar. Derrubar monumentos, queimar carros explodir bancos. O sexo escorre por todas as fronterias imaginárias da polis, o suor do sul, o sangue do sul as especiarias do leste, o pacífico gelado o norte barbarizado. A baderna que adentra o espaço, com pés no chão de bailarina. Era pra falar de espaço. Espaço, coisa e corpo. O copo de café, copo vazio, cheio de ar. Vazio daquilo que no ar do copo ocupa o lugar. Ocupa. Tira gente põe represa. Adeus! ó choça do monte!… Adeus! palmeiras da fonte!… Adeus! amores… Adeus! Um homem vivendo dentro da baleia. O cu é logo ali. Este nosso sítio. E eu, menos estrangeiro no lugar que no momento, sigo mais sozinho caminhando contra o vento e meto o meu grelo na geopolítica… Eu podia ficar aqui pra sempre, no alto dessa montanha arranha céu, estrada de minas pedregosa, braços abertos sobre a Guanabara e o grelo na geopolítica! Dedico todo o meu fígado a América do Sul. Patchamama te veo tan triste. Errante navegante. Quem jamais te esqueceria.

Eu sou um crash test dummy.

E também dama do cerrado sem patrocínio nem vergonha na cara, indigna das alterosas co-criadora do teatro fanzine que faz um excelente mojito. Autodeboche narcísico, escracho melancólico e permanente diante do espelho. Na contracorrente de um movimento que eu ajudei a fundar, porque como boa caetana que sou, eu também estive lá. Hoje eu ando avulsa. Mas a rede ainda existe. Sigo com meus empreendimentos independentes. A cidade está cheia deles. Graças à deusa. Novos baianos te podem curtir numa boa.

Não sei quem sou. Mas estou bem. Já esta provado o que só é possível no estrago que dá acelerar na frente, entrar em choque com o tempo e voar na inércia dos acontecimentos.

Por tanto não sou vanguarda. Sou boneca de teste. E não que eu seja um boneco manipulável, sem opinião ou atitudes próprias. A fada azul me deu vida. Ainda não sei se sou a mentira ou a verdade do cerrado, o fato é que meu nariz não cresceu mais do que o de Barbra Streisand.

Mas essa onda avulsa, não sei pra onde vai, nem por que. Os tempos são ruins, 2016 foi um ano ruim, eu não estava lá, mas me contaram.

Mas uma hora eu descubro o caminho de novo. As armas chegarão amanhã e ninguém vai me impedir de cantar Don’t smoke in bed deitada num piano de cauda.

E mesmo avulsa eu vou seguindo por que a rede ainda existe.

Lá em casa tinha um baú. Um baú gigante de madeira escrito Grupo Galpão e embaixo um número de telefone que nem tinha ainda o 3 antes dele. Um baú bem velho que virou um desastre, mas representava, ali, mofando com a chuva e o tempo, cheio de resto de peças antigas e de empreendimentos passados. Repleto de bichos, fungos e representações coletivas de um mundo em decadência, entre o que é solido, se desmancha no ar e vira água no fim. Vira líquido. Vira solidão. Foi assim que eu perdi um grupo de teatro na chuva.

Mas mesmo avulsa e molhada eu vou seguindo porque a rede existe.

Eu nasci ontem demais, mas de vez em quando dava por mim, to velha. Que bom. Não parei. Eu sô fominha eu não me poupo eu não me pouco. Tô aqui tomando fôlego. Por que tudo é vontade de continuar. Tanta saudade preservada dentro de um baú de prata dentro de mim.

A rede existe.

Uma rede que funcionou nos últimos anos a revelia do sistema, confundindo a mídia, que não sabia se portar diante de tanta coisa fora das caixinhas conhecidas, a revelia também das leis de incentivo fiscal, uma rede sem dinheiro.

Continuamos pobres.

Não tenho uma utopia de viver como outros grupos. Acho que já tive um dia. Não serei Galpão. A instituição. Só o tesão que aqueles artistas despertaram em mim lá pros idos de noventa e que está aqui até hoje. Serei só tesão.

Anarquizei meus sonhos. Um dia entendo o que isso quer dizer.

Ricardo Nolasco matou o teatro da ultima vez que estive aqui. Saímos do templo e em cortejo enterramos o monumento, da casa burguesa. Talvez tenha sido isso. Não foi a primeira vez que matei o teatro com alguém. Talvez por isso me sinta expulsa.

Os deuses do teatro foram expulsos de todos os teatros.

Eu botei o grupo de teatro no paredão.

Acho que eu sequestrei por muito tempo o grupo de teatro, hoje eu tô liberando esse refém num terreno baldio, vou olhar pra câmera, suspirar e seguir meu caminho ao som de Smile do Chaplin. Aquele egocêntrico.

Hoje sigo avulsa, mas a rede existe, o bando existe.

 

 

Foto: Elenize Dezgeniski.

 

 

 

Marina Viana é atriz, dramaturga e diretora teatral graduada no curso de Artes Cênicas da UFMG com habilitações em Licenciatura e Bacharelado em Interpretação Teatral desde 2005. É integrante dos grupos: Mayombe Grupo de Teatro, Teatro 171, Cia Primeira Campainha, e é colaboradora de vários outros coletivos da cidade de Belo Horizonte (MG). Tem uma banda, já publicou zines, realiza prêmios e faz cabarés. Posou como modelo vivo na Escola de Belas Artes pra ajudar no orçamento da casa. Atriz e modelo. Escreve manifestos e plagicombina canções alheias.

 

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retrrrrópica

Por Brenda Sodré

 

 

Foto: Cayo Vieira.

 

 

sono, 17 de setembro, domingo, 20h, casa hoffmann, retrópica. saí do churrasco onde estava levemente entorpecida para assistir uma peça porque precisava assistir para fazer uma crítica. peguei uma carona com juliana fenker. era eu, a travesti agnes que eu namoro, juliana motorista e no local encontramos bruna, a iaé. então fui comprar o ingresso e putz não trouxe o comprovante de estudante ah você é da fap? sim ah ok então pode pagar meia.

no hall, várias pessoas famosíssimas como a noite de paris. antes de decidir publicar esse texto, eu citava os nomes das pessoas famosíssimas, agora eu tenho medo.

o fato é que há uma escadaria que se sobe e se aperta juntinho no mezanino. e lá está ela.

uma mulher gigante veste preto e glitter. mas há corpo à mostra. seios. colo quente, respiração, olho-água, corpo-fogo, ventre vivo. suas mãos seguram ovos e fazem magia.

eu pisco os olhos e ela se desmancha, ela se desmancha ao som de palavras que ecoam mantras ao fundo que dizem a vagina é uma ferida tropical; o mar latino, fossa aberta da humanidade; nós amamos o algoz, nosso gozo vem com surra; o imigrante é o sonho canibal; onde a mesa é branca, a esperança e magia só podem ser negras; a unicidade da rebeldia terá pulso de mulher. num dia negra, no outro travesti.

agora uma mulher dourada quebra ovos. rebola. bate o pé. bate o pé. bate o pé. recusa ficar parada, então bate o pé, barulha. grita. ri. vem bem perto. bate o pé ao lado do pé do outro. ao lado do meu pé. ao lado do pé das pessoas famosíssimas. é um pé que bate agora e depois. um pé que não sabe fazer outra coisa senão bater e bater é dançar.

esse é o momento em que eu digo que pensei em começar a crítica dizendo que a mari paula é uma estrela que brilha brilha brilha, só que eu não comecei assim. ou comecei. e a crítica só começa agora. você decide. o fato é que mari paula vem de longe, facão na mão, zoiuda, pra matar os mal/mau (nesse caso serve os dois) do mundo. mulher que corta vestida de fagulhas. as mãos mornas que manuseiam delicados ovos é a mesma que segura a lâmina da bruta faca. facão na mão, pé no chão. corta batatas. meudeusdocéuvocêvaicortarodedomeninacuidadocomissoaí! as batatas se juntam aos ovos quebrados no início, e aos temperos que caem em chuva lá do alto da mão morna da estrela mari paula que brilha e manuseia ovos e facões. não sei ao certo, mas acho que isso se chama tortilha, minha vó faz.

uma mulher de pernas abertas mastiga batatas e ovos com a boca cheia. algumas batatas e ovos grudam no canto da boca. outras batatas e ovos caem ao chão, não sem antes tocar o corpo vivo da mulher que está de pernas abertas mastigando batatas e ovos enquanto balbucia algo em espanhol que a minha falta de conhecimento não permite reconhecer. eu escuto antropofagia. eu escuto canibalismo. eu escuto narcotráfico. disso eu deduzo coisas, várias coisas bem deduzidas. nada muito diferente que as provas de idiomas que fiz na vida, entendo 3 palavras e tento inventar uma história pra elas.

 

Foto: Marcos Guiraud.

 

uma mulher troca de roupa. transita entre brasil e espanha, brasil e espanha. colônia, colonizador, colônia, colonizador. que? há um corpo que dança, um corpo que troca de roupa, que corta, que brilha, que presentifica. penso em algumas coisas enquanto a mulher gira-cai-insiste-levanta. há diferença no corpo-espanha e no corpo-brasil? a diferença está apenas nas vestimentas? a vestimenta é corpo? roupa é pele? há diferença no corpo de um povo colonizado e no corpo de um povo colonizador? se quer demarcar essas diferenças? o que é a américa latina? a antropofagia, o que é?

por várias vezes desaprendi a respirar. recupero o fôlego e ela está lá. ela gira, gira, gira, gira. troca de roupa novamente. ela está na espanha? troca de roupa. ainda está lá com outro look? quase nua. está no brasil? não sei muitas coisas, as linhas se borram todas. a isso se dá o nome antropofagia? esse borrão de subjetividades? essas subjetividades que se borram?

uma mulher cai. levanta e gira. cai. levanta e gira. cai, mete os cornos na mesa. a faca estava lá meudeusdocéumeninacuidadocomessafaca! cai, levanta e corta. grita. ri. brilha. gira ao redor das roupas e cai no meio das roupas, as roupas ou seriam peles? deslizam, andam. sujar é também um ato político, me disse uma vez biagio pecorelli. uma mulher-facão-na-bota sai.

e volta. facão também é microfone, ampliador de voz que mesmo sem emitir som diz coisas bem pensadas. aqui se dublam músicas que já não posso recordar. segurando o facão pela lâmina. mari paula é afiada, não teme o corte. ela é a própria vagina ferida tropical. fratura exposta, funda. rasgo.

estou digerindo. outra mulher está digerindo.

 

 

 

Foto: Cayo Vieira.

 

 

 

brenda sodré é áries com ascendente em sagitário, nasceu de cabelo vermelho e com uma hemorragia na cabeça. sua antepassada é a bomba, o projétil, o estilhaço. não sabe outro idioma senão o do fogo e do estalo. está se formando em artes cênicas na faculdade de artes do paraná. é atroz e performer, sua pesquisa atravessa questões de gênero, feminismo e tecnologia.

 

 

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Novas histórias, novos problemas

Por Thalita Sejanes

27 de setembro de 2017
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