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Eu sou um crash test dummy

Por Marina Viana 

 

 

Este texto foi lido por Marina Viana durante a sua participação no encontro “O que quer dizer independência?”, realizado na Companhia Brasileira de Teatro, em Curitiba, durante o Festival Internacional Ruído EnCena 2017.

 

 

Foto: Elenize Dezgeniski.

 

 

Começa no útero, abaixo da linha do equador. Revolve de furacão e enchente carregando quem não tem o que carregar, passa pela mão do hemisfério norte separando, apontando condenando o que a cabeça tampada por um lenço uma camisa um gorro de esqui performa de braços erguidos no ar. Derrubar monumentos, queimar carros explodir bancos. O sexo escorre por todas as fronterias imaginárias da polis, o suor do sul, o sangue do sul as especiarias do leste, o pacífico gelado o norte barbarizado. A baderna que adentra o espaço, com pés no chão de bailarina. Era pra falar de espaço. Espaço, coisa e corpo. O copo de café, copo vazio, cheio de ar. Vazio daquilo que no ar do copo ocupa o lugar. Ocupa. Tira gente põe represa. Adeus! ó choça do monte!… Adeus! palmeiras da fonte!… Adeus! amores… Adeus! Um homem vivendo dentro da baleia. O cu é logo ali. Este nosso sítio. E eu, menos estrangeiro no lugar que no momento, sigo mais sozinho caminhando contra o vento e meto o meu grelo na geopolítica… Eu podia ficar aqui pra sempre, no alto dessa montanha arranha céu, estrada de minas pedregosa, braços abertos sobre a Guanabara e o grelo na geopolítica! Dedico todo o meu fígado a América do Sul. Patchamama te veo tan triste. Errante navegante. Quem jamais te esqueceria.

Eu sou um crash test dummy.

E também dama do cerrado sem patrocínio nem vergonha na cara, indigna das alterosas co-criadora do teatro fanzine que faz um excelente mojito. Autodeboche narcísico, escracho melancólico e permanente diante do espelho. Na contracorrente de um movimento que eu ajudei a fundar, porque como boa caetana que sou, eu também estive lá. Hoje eu ando avulsa. Mas a rede ainda existe. Sigo com meus empreendimentos independentes. A cidade está cheia deles. Graças à deusa. Novos baianos te podem curtir numa boa.

Não sei quem sou. Mas estou bem. Já esta provado o que só é possível no estrago que dá acelerar na frente, entrar em choque com o tempo e voar na inércia dos acontecimentos.

Por tanto não sou vanguarda. Sou boneca de teste. E não que eu seja um boneco manipulável, sem opinião ou atitudes próprias. A fada azul me deu vida. Ainda não sei se sou a mentira ou a verdade do cerrado, o fato é que meu nariz não cresceu mais do que o de Barbra Streisand.

Mas essa onda avulsa, não sei pra onde vai, nem por que. Os tempos são ruins, 2016 foi um ano ruim, eu não estava lá, mas me contaram.

Mas uma hora eu descubro o caminho de novo. As armas chegarão amanhã e ninguém vai me impedir de cantar Don’t smoke in bed deitada num piano de cauda.

E mesmo avulsa eu vou seguindo por que a rede ainda existe.

Lá em casa tinha um baú. Um baú gigante de madeira escrito Grupo Galpão e embaixo um número de telefone que nem tinha ainda o 3 antes dele. Um baú bem velho que virou um desastre, mas representava, ali, mofando com a chuva e o tempo, cheio de resto de peças antigas e de empreendimentos passados. Repleto de bichos, fungos e representações coletivas de um mundo em decadência, entre o que é solido, se desmancha no ar e vira água no fim. Vira líquido. Vira solidão. Foi assim que eu perdi um grupo de teatro na chuva.

Mas mesmo avulsa e molhada eu vou seguindo porque a rede existe.

Eu nasci ontem demais, mas de vez em quando dava por mim, to velha. Que bom. Não parei. Eu sô fominha eu não me poupo eu não me pouco. Tô aqui tomando fôlego. Por que tudo é vontade de continuar. Tanta saudade preservada dentro de um baú de prata dentro de mim.

A rede existe.

Uma rede que funcionou nos últimos anos a revelia do sistema, confundindo a mídia, que não sabia se portar diante de tanta coisa fora das caixinhas conhecidas, a revelia também das leis de incentivo fiscal, uma rede sem dinheiro.

Continuamos pobres.

Não tenho uma utopia de viver como outros grupos. Acho que já tive um dia. Não serei Galpão. A instituição. Só o tesão que aqueles artistas despertaram em mim lá pros idos de noventa e que está aqui até hoje. Serei só tesão.

Anarquizei meus sonhos. Um dia entendo o que isso quer dizer.

Ricardo Nolasco matou o teatro da ultima vez que estive aqui. Saímos do templo e em cortejo enterramos o monumento, da casa burguesa. Talvez tenha sido isso. Não foi a primeira vez que matei o teatro com alguém. Talvez por isso me sinta expulsa.

Os deuses do teatro foram expulsos de todos os teatros.

Eu botei o grupo de teatro no paredão.

Acho que eu sequestrei por muito tempo o grupo de teatro, hoje eu tô liberando esse refém num terreno baldio, vou olhar pra câmera, suspirar e seguir meu caminho ao som de Smile do Chaplin. Aquele egocêntrico.

Hoje sigo avulsa, mas a rede existe, o bando existe.

 

 

Foto: Elenize Dezgeniski.

 

 

 

Marina Viana é atriz, dramaturga e diretora teatral graduada no curso de Artes Cênicas da UFMG com habilitações em Licenciatura e Bacharelado em Interpretação Teatral desde 2005. É integrante dos grupos: Mayombe Grupo de Teatro, Teatro 171, Cia Primeira Campainha, e é colaboradora de vários outros coletivos da cidade de Belo Horizonte (MG). Tem uma banda, já publicou zines, realiza prêmios e faz cabarés. Posou como modelo vivo na Escola de Belas Artes pra ajudar no orçamento da casa. Atriz e modelo. Escreve manifestos e plagicombina canções alheias.

 

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retrrrrópica

Por Brenda Sodré

 

 

Foto: Cayo Vieira.

 

 

sono, 17 de setembro, domingo, 20h, casa hoffmann, retrópica. saí do churrasco onde estava levemente entorpecida para assistir uma peça porque precisava assistir para fazer uma crítica. peguei uma carona com juliana fenker. era eu, a travesti agnes que eu namoro, juliana motorista e no local encontramos bruna, a iaé. então fui comprar o ingresso e putz não trouxe o comprovante de estudante ah você é da fap? sim ah ok então pode pagar meia.

no hall, várias pessoas famosíssimas como a noite de paris. antes de decidir publicar esse texto, eu citava os nomes das pessoas famosíssimas, agora eu tenho medo.

o fato é que há uma escadaria que se sobe e se aperta juntinho no mezanino. e lá está ela.

uma mulher gigante veste preto e glitter. mas há corpo à mostra. seios. colo quente, respiração, olho-água, corpo-fogo, ventre vivo. suas mãos seguram ovos e fazem magia.

eu pisco os olhos e ela se desmancha, ela se desmancha ao som de palavras que ecoam mantras ao fundo que dizem a vagina é uma ferida tropical; o mar latino, fossa aberta da humanidade; nós amamos o algoz, nosso gozo vem com surra; o imigrante é o sonho canibal; onde a mesa é branca, a esperança e magia só podem ser negras; a unicidade da rebeldia terá pulso de mulher. num dia negra, no outro travesti.

agora uma mulher dourada quebra ovos. rebola. bate o pé. bate o pé. bate o pé. recusa ficar parada, então bate o pé, barulha. grita. ri. vem bem perto. bate o pé ao lado do pé do outro. ao lado do meu pé. ao lado do pé das pessoas famosíssimas. é um pé que bate agora e depois. um pé que não sabe fazer outra coisa senão bater e bater é dançar.

esse é o momento em que eu digo que pensei em começar a crítica dizendo que a mari paula é uma estrela que brilha brilha brilha, só que eu não comecei assim. ou comecei. e a crítica só começa agora. você decide. o fato é que mari paula vem de longe, facão na mão, zoiuda, pra matar os mal/mau (nesse caso serve os dois) do mundo. mulher que corta vestida de fagulhas. as mãos mornas que manuseiam delicados ovos é a mesma que segura a lâmina da bruta faca. facão na mão, pé no chão. corta batatas. meudeusdocéuvocêvaicortarodedomeninacuidadocomissoaí! as batatas se juntam aos ovos quebrados no início, e aos temperos que caem em chuva lá do alto da mão morna da estrela mari paula que brilha e manuseia ovos e facões. não sei ao certo, mas acho que isso se chama tortilha, minha vó faz.

uma mulher de pernas abertas mastiga batatas e ovos com a boca cheia. algumas batatas e ovos grudam no canto da boca. outras batatas e ovos caem ao chão, não sem antes tocar o corpo vivo da mulher que está de pernas abertas mastigando batatas e ovos enquanto balbucia algo em espanhol que a minha falta de conhecimento não permite reconhecer. eu escuto antropofagia. eu escuto canibalismo. eu escuto narcotráfico. disso eu deduzo coisas, várias coisas bem deduzidas. nada muito diferente que as provas de idiomas que fiz na vida, entendo 3 palavras e tento inventar uma história pra elas.

 

Foto: Marcos Guiraud.

 

uma mulher troca de roupa. transita entre brasil e espanha, brasil e espanha. colônia, colonizador, colônia, colonizador. que? há um corpo que dança, um corpo que troca de roupa, que corta, que brilha, que presentifica. penso em algumas coisas enquanto a mulher gira-cai-insiste-levanta. há diferença no corpo-espanha e no corpo-brasil? a diferença está apenas nas vestimentas? a vestimenta é corpo? roupa é pele? há diferença no corpo de um povo colonizado e no corpo de um povo colonizador? se quer demarcar essas diferenças? o que é a américa latina? a antropofagia, o que é?

por várias vezes desaprendi a respirar. recupero o fôlego e ela está lá. ela gira, gira, gira, gira. troca de roupa novamente. ela está na espanha? troca de roupa. ainda está lá com outro look? quase nua. está no brasil? não sei muitas coisas, as linhas se borram todas. a isso se dá o nome antropofagia? esse borrão de subjetividades? essas subjetividades que se borram?

uma mulher cai. levanta e gira. cai. levanta e gira. cai, mete os cornos na mesa. a faca estava lá meudeusdocéumeninacuidadocomessafaca! cai, levanta e corta. grita. ri. brilha. gira ao redor das roupas e cai no meio das roupas, as roupas ou seriam peles? deslizam, andam. sujar é também um ato político, me disse uma vez biagio pecorelli. uma mulher-facão-na-bota sai.

e volta. facão também é microfone, ampliador de voz que mesmo sem emitir som diz coisas bem pensadas. aqui se dublam músicas que já não posso recordar. segurando o facão pela lâmina. mari paula é afiada, não teme o corte. ela é a própria vagina ferida tropical. fratura exposta, funda. rasgo.

estou digerindo. outra mulher está digerindo.

 

 

 

Foto: Cayo Vieira.

 

 

 

brenda sodré é áries com ascendente em sagitário, nasceu de cabelo vermelho e com uma hemorragia na cabeça. sua antepassada é a bomba, o projétil, o estilhaço. não sabe outro idioma senão o do fogo e do estalo. está se formando em artes cênicas na faculdade de artes do paraná. é atroz e performer, sua pesquisa atravessa questões de gênero, feminismo e tecnologia.

 

 

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Novas histórias, novos problemas

Por Thalita Sejanes

27 de setembro de 2017
“Novas histórias, novos problemas”Continue reading

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