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Notas e processos de criação

por Vivaldo Vieira Neto

“Não há solução porque não há problema.”

Marcel Duchamp

 

Este texto procura apontar algumas questões referentes ao processo que venho vasculhando há algum tempo referente à concepção e criação em estética. Não é de forma alguma um texto que se pretende ser exato, muito longe disso, são algumas pequenas notas, exemplificações ora fenomenológica, ora empírica. São anotações que vamos deixando pelo caminho, notas que vão se acumulando pelos cantos e que nos fazem pensar nesse processo criativo, de como enxergamos o mundo, nos processos de transformação de problemas de ordem objetiva em questões subjetivas. Para exemplificar certas questões, no presente texto, muitas vezes temos que recorrer há pobreza das metáforas, é inevitável essa fuga para podermos materializar certas ideias e pensamentos. Não vejo outro caminho senão recorrer à estética e nas suas inter-relações política e social.

Criar é se perder. É se permitir ao fracasso e às vezes ao êxito. Para Deleuze o ato de criação não se dá pelo prazer, mas pela necessidade. Necessidade de subjetivação do mundo, de expressão, de materialização de pensamentos em estética. E de onde surge essa necessidade? Talvez pela inquietação e observação, o olhar atento ao que nos circunda, quando certas questões nos parecem insólitas, desconexas, quando o mundo se torna insuportável; criamos. É a tomada de uma consciência, consciência está aprisionada a um corpo, atravessado por um mundo, corpo este moldado por uma sociedade e pela cultura, um corpo que se torna uma película entre minha consciência e o mundo. Corpo nômade que sempre deve ser questionado e por vezes superado, é através dessa inter-relação consciência-corpo-mundo onde a subjetivação se dá, por esses espaços vazios entre a observação e o pensamento, são fagulhas, insights, onde a busca por algo, quase nunca sabemos o que é, se faz necessário.

A produção em arte é um exercício da liberdade, tanto como a liberdade de pensamento como uma postura diante da sociedade, é se permitir a experimentação, principalmente das linguagens. E como construir esse processo criativo dentro dessas linguagens? Pensando nesses processos de criação, de como sair de uma ordem objetiva para uma abstração da ideia cheguei a um processo de criação, não é de forma alguma um método e nem uma regra, mas uma forma de como visualizo, imagino.

A primeira imagem que me ocorreu foi uma ideia de embaçamento; uma forma de deslocar o objeto, de não ter muita certeza do que está sendo visto, certa dúvida com relação ao que está sendo colocado, algo um pouco distante onde os contornos se diluem. Mas essa ideia de embaçamento ainda estava muito ligada apenas à visão, ainda não dava conta de todo o processo. A segunda imagem foi uma ideia de escurecimento; como se noite tomasse conta do mundo, onde o objeto é apenas um vulto, são necessários outros sentidos pra nos localizarmos diante do pensamento, a distância entre o observador e o objeto se constrói de outra forma, é preciso mais cuidado ao se deslocar para não esbarrarmos, a visão é um mero acaso, outros sentidos são necessários, nos perdemos no espaço, tudo se torna inseguro, insólito. Mas ainda não era isso, o processo de criação é ainda mais abrangente; foi quando me venho uma terceira ideia, a ideia de afundamento.

É como se pulássemos de um penhasco em direção ao mar, nos afundássemos nesse meio aquoso, saíssemos de nosso habitat natural. Quando o corpo é envolto por esse líquido, a visão se torna turva, o som é algo distante, a pele experimenta em toda sua extensão o meio onde está inserida, o chão é uma utopia, é preciso se movimentar para sobreviver, o gosto se torna amargo e o ar um privilégio. É preciso voltar à superfície para respirar, o ato criador seria esse limiar entre a sobrevivência e o afundamento, a tomada da consciência por um instante no meio desse caos, em busca de uma ilha mais próxima e o esforço para alcança-la, como as linguagens é preciso conhecê-las, explora-las, chegar até suas bordas para que seja possível visualizar outras ilhas/linguagens e se jogar ao mar novamente, fazer a travessia, num processo constante de luta, resistência. Segundo Malraux; a arte é a única coisa que resiste à morte. Trazendo essas ideias para o campo da estética; seria como se tirássemos o objeto de seu contexto original, um exercício de deslocamento, como se trouxéssemos a superfície novos significados e leituras possíveis, o título dado como uma forma de dúvida com relação ao que está sendo exposto, um constante questionamento, uma mão dupla, algo que vem e vai incessantemente criando um atrito entre o objeto e o público, é desses atritos que o pensamento se desloca para outras formas de como vemos as coisas. É nesse processo constante de conhecimento e exploração que tomamos o arquipélago, é estarmos isolados nessas ilhas, mas almejando o continente.

Independência ou sorte _ 2017

Pintura sobre tela sobre prédio em fase de restruturação_ Alfaiataria

A fabulosa rádio Tramontina_2017

Trabalho em parceria com Elenize Dezgeniski _ Alfaiataria

Adestramento _ 2014

 

Irmãos Siameses _ 2015

 

Campanha eleitoral _ 2016

Registro: Tuca Kawai

 

Fase de crescimento _ 2015

Check up _ 2003

 

Apropriação indébita _ 2014

Este vídeo é o registro de uma performance, a partir da apropriação da ideia do vídeo “Eat” de Andy Warhol. Sendo que está lata de sopa Campbell’s fora furtada por mim na Rede de Supermercados Mercadorama, por isto o título: Apropriação Indébita. O vídeo é o resultado final desse conjunto operacional: apropriação/furto + preformance + vídeo. Gostaria de aproveitar este espaço para agradecer, desde já, a Rede de Supermercados Mercadorama por este “patrocínio” e pelo “apoio as artes”.

Aulas de inglês _ 2015

 

Cinema de utilidade pública _ 2015

Site specific _ SESI Arte Contemporânea

Série: Queima de estoque _ 2017

 

 

Fila de espera _ 2016

 

Terapia de casal _ 2017

Sites:

https://vivaldovieiraneto.wordpress.com/

https://spamdirecionado.wordpress.com/

https://radiotramontina.wordpress.com/

Vivaldo Vieira Neto

Formado em escultura pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Com interesse no estudo das linguagens,  nas suas inter-relações e hibridismos.  Sua pesquisa atual “O corpo mediado por coisas e outras meios” busca investigar o lugar da performance e nas suas relações com o meio e espaço através de fotografias, instalações,  vídeos e ações performativas.

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APEGOS E DESAPEGOS

Por Jo Mistinguett

 

 

Esse processo é constante. Aqui tudo sempre pode ser alguma coisa ou outra. Pode ser nada também. O silêncio e o vazio dizem muito.

 

O barulho é constante, tem até uma janela dupla. Deixa qualquer um maluco. 14 anos ouvindo esse mesmo som. E cada vez mais ele aumenta. É tipo um ruído constante, que nunca para.

 

Tudo vai apodrecendo, morrendo aos poucos. Aumentando aos poucos, mas pode ser secando aos poucos. Cada segundo é um processo. Agora já mudou de novo.

 

O estímulo anda com a vida e a morte. Mais com a morte. O apocalipse acontece desde que o mundo existe. É impossível não falar sobre ele. Tudo é apocalipse.

 

A parede mofa, a banana apodrece, o cocô do gato fede. É melhor a corrente de ar que se faz quando abre todas as janelas. Só que quando abre a janela, o barulho entra. Tem que sempre escolher entre o ar fresco ou o silêncio. A parede fica preta de fuligem. Todo dia tem que limpar alguma coisa.

 

Apegos e desapegos, insônia. Não há mais medo, e sim blindagens. Um corpo conformado por blindagens.

 

A velha de 85 anos já não sabe mais quando é o próprio aniversário. O velho de 73 anos mal consegue levantar da cama. A criança que era um bebê já diz frases completas. E o chorão que foi plantado, virou árvore. Será que ainda existe? O gato morreu. Dois gatos morreram.

 

A segunda filha tem o olho que mudou de cor por causa de um acidente. A terceira filha mal se vê. O filho caçula tem pensamentos capitalistas e quer o gozo que o dinheiro pode proporcionar. Os outros que deveriam estar velhos morreram antes de envelhecer.

 

Ainda tem gavetas vazias e um espaço desocupado.

 

O sangue fraco perde rubor. Não pode mais sangrar. Nem sabe por onde sangra. O zumbido no ouvido fica mais forte e se mistura com o barulho que vem de fora. Do lado esquerdo o zumbido é mais alto, e as vezes não se ouve o que falam. O barulho de fora pode ser bom porque camufla o zumbido. Mas daí é uma barulheira constante. Pelo menos entra o ar fresco quando não faz muito frio. Quando tá muito frio a janela fecha e só se ouve o zumbido dentro da cabeça. Do lado esquerdo. Sempre o esquerdo.

 

O lado esquerdo sempre foi o lado preferido. É refinado, delicado, emotivo.

 

 

 

 

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Transmutações de Ideais e Destruição Generalizada

Por Nina Rosa Sá

 

 

 

O que é um processo? Como as questões chave de uma pesquisa se estabelecem ou reestabelecem ao longo dos anos? Como uma pesquisa se torna obsoleta e se transmuta em algo completamente diferente? O que é arte? O que é política? E como essas coisas se relacionam para que seja possível chegar nos resultados a que me proponho atingir hoje?

Bem, não quero escrever um texto incrivelmente longo, não quero aqui escrever uma espécie de Minha Vida na Arte. Decidi traçar um histórico rápido e falar sobre a influência do cinema no teatro que eu escolhi fazer. Decidi, há muito tempo, que me interessava nublar fronteiras, traçar paralelos entre arte e entretenimento. E de uns tempos pra cá, ao lançar o Projeto Z, venho pensando sobre como é importante hoje forjar um tipo de arte que também seja política. Propondo um outro viés artístico, separando as artes ao invés de integrá-las ou nublar seus limites. A tônica dominante do meu pensamento é a questão da representação e da representatividade. O foco da obra é sempre na mulher, preferencialmente na mulher lésbica e/ou bissexual.

Mas isso é algo que se desenha lentamente. E que só vai chegar ao seu ápice, como objetivo de construção em 2016/2017, com um projeto de teatro feito exclusivamente por mulheres e tratando de questões de mulheres, reunindo artistas que tenham algum tipo de envolvimento com o feminismo. Esse projeto desemboca na cena Que Bom que Você Entendeu que Eu Estou tão Perdida Quanto Você.

 

 

que bom que você entendeu que eu estou tão perdida quanto você_ Mostra Cena Breve 2017. Foto: Melito Junior.

 

E antes disso tem um desdobramento para um pensamento sobre séries televisivas, com um projeto ainda não realizado de websérie que se transforma em série de TV, Antes do Fim, escrita em 2016 e ainda sem previsão de realização. Aí já existe um exemplo claro de como as coisas se separam com o surgimento do Projeto Z. Existem agora artes distintas a serviço de uma mesma coisa política. Mas elas não se misturam mais. O projeto de Antes do Fim é exclusivamente audiovisual.

Mas primeiro o teatro.

Comecei com essa história de teatro em 2003, de um jeito meio por acidente, meio atípico, que não é o centro da questão, então melhor deixar essa anedota pra outro momento. No período que passei na faculdade e logo depois disso, enfiei o pé na história da busca pela fusão entre arte e entretenimento. Por dois segundos eu achei que a tecnologia salvaria a arte. E que a intersecção possível com entretenimento dependia dela. Bobagem. A arte em si é um tipo de tecnologia.

Passei anos tentando e testando. Eu desenvolvi um pouco essa linha de pensamento com a Companhia Provisória, que fundei junto com outros artistas em 2004 e durou até início de 2009. Uma pesquisa de interseccionalidade. O que é entretenimento e o que é arte? Existe a possibilidade de uma obra ser as duas coisas? Alguns críticos – vários deles – insistiam em chamar aquele negócio que eu ainda estava tentando entender de entretenimento. E sempre havia um tom irônico, algo que dizia que isso era menor. Eu entendo purismo, eu sou purista em vários aspectos. Mas não acredito que a gente possa ou deva categorizar as coisas que dizem respeito à arte assim.

O que eu quero dizer é: O Poderoso Chefão é um filme incrível, uma obra artística potente e também é entretenimento de alta qualidade. Estou usando esse exemplo porque é o tipo de filme com o qual a minha obra não se relaciona explicitamente e a gente pode seguir em frente sem que eu tenha que dizer “é óbvio que não estou me comparando ao Coppola”. Acredito que seja impossível dizer que grandes filmes como Taxi Driver, Apocalipse Now, Annie Hall, O Iluminado e vários outros não sejam grandes obras de entretenimento. Eu indago se é possível dizer que não são também arte. Para mim – que olho pra Evil Dead e tenho certeza absoluta que aquilo é arte, que tenho certeza que a trilogia zumbi do George Romero é arte – é impossível.

Eu entendo o que as pessoas querem dizer quando falam em “Cinema de Arte”. E isso normalmente se relaciona com as escolas europeias de cinema. E sendo uma pessoa que ama o Godard e considerando sua obra como uma grande referência pro tipo de trabalho que eu quero fazer, eu entendo e até acato. E se o que Godard – e Truffaut e Chabrol e Resnais e todos os outros – está fazendo é um tipo de arte que só pode ser categorizada como cinema de arte, será que ela não pode ser considerada entretenimento também? Olha, é possível que Adeus à Linguagem não possa mesmo, mas e Acossado? E o resto da galera? O tipo de filme que o Claude Chabrol fez tem várias camadas, mas poderiam ser considerados thrillers comuns se não houver vontade de olhar além. E o mesmo pode ser dito dos filmes do Truffaut. A forma pode ser considerada e olhada da maneira mais simples e singela possível. Pense em Os Incompreendidos como algo muito próximo de um tipo de cinema americano, que trata de amadurecimento. É possível olhar assim. Talvez o Godard seja o mais difícil de se enquadrar aqui, considerando a forma, pelas elipses e jump-cuts, pela necessidade de afastamento do público que não se vê nos outros dois cineastas citados, pelo menos tão explicitamente.

A minha questão, pensando no cinema e em todos esses grandes nomes, é: a gente pode diferenciar qualitativamente um Godard de um Kubrick? Um Scorsese de um Chabrol? Um Woody Allen de um Truffaut? Olha, tenho certeza que muita gente acredita que sim. Mas dentro do meu sistema de percepção e criação, eu considero impossível esse tipo de diferenciação. São grandes obras seminais de diretores essenciais e pertencem ao mais elevado pedestal do cinema. E ainda tem outra, como a discussão efetivamente é sobre teatro e essas quase mil palavras foram uma espécie de introdução a um tipo de pensamento artístico, eu sequer vou entrar no mérito do cinema oriental, porque seriam necessárias mais umas mil palavras pra fazer esse outro comparativo. E eu já fiz o comparativo acima da maneira mais superficial possível, pra que ninguém desista do texto porque ele é escabrosamente longo.

Mas e aí? Como é que tudo isso se relaciona com teatro?

 

 

Em Breve nos Cinemas_ Foto: Alice Rodrigues.

 

Primeiro porque é o pensamento por trás da coisa toda. É claro que cinema e teatro são coisas muito diferentes. Os meios de produção são inteiramente diversos. E também é claro que quando você tem algo que parte de um processo muito mais industrial e outro algo que parte de um processo mais artesanal, vai parecer que uma coisa está muito distante da outra. E não vou negar, estão mesmo. Mas o pensamento que funda as duas coisas, a sistematização crítica sobre a obra, isso é uma coisa próxima. E indo um pouco além, como no cinema é mais aceitável que arte e entretenimento andem de mãozinhas dadas, é mais fácil criar um tipo de pensamento para teatro que parta de uma lógica cinematográfica. Por exemplo, quando eu assisti A Vida é Cheia de Som e Fúria, do Felipe Hirsch, lá atrás, antes de tudo isso, antes de teatro existir como uma possibilidade pra mim. Foi um momento revelador, em que eu entendi que teatro pode ser aquilo, uma obra comovente, artística e completamente ligada ao entretenimento. Eu revi a peça anos depois, quando o teatro já era meu objeto de estudo e objetivo de vida, e continuei com a mesma impressão. A de que é possível criar algo relevante e divertido e bem feito. Arte que é entretenimento e vice-versa. Partindo desse pensamento, a influência do cinema nas coisas que eu estava pensando para teatro começou a se intensificar, culminando com a pesquisa que desenvolvi por alguns anos com o Teatro de Breque.

 

Em Breve nos Cinemas_ Foto: Marco Novack.

 

O auge dessa pesquisa foi o espetáculo Em Breve nos Cinemas (2012), a partir da obra de David Foster Wallace. Naquele espetáculo nós não apenas falávamos sobre cinema, não apenas trazíamos elementos de entretenimento, mas emprestávamos algo da linguagem, pra executar cenas de um filme que se construía ao vivo, diante da plateia, mediado pela projeção. O palco era dividido ao meio por uma parede. Do lado de trás desta parede pequenos cenários realistas eram montados e duas câmeras estáticas filmavam as cenas do filme. Essas cenas só eram vistas na projeção, com planos fechados, não mostrando as bordas do cenário. Mas o público podia ver a cena através de uma janela na parede do cenário, de maneira meio incômoda e recortada, mas que desvendava o que estava acontecendo ao vivo. Do lado da frente da parede o público via uma ficcionalização daquele ambiente de set de filmagem. Atores discutiam as cenas que ainda iam acontecer, ensaiavam textos, evidenciavam o processo de construção do filme. Um diretor explicava a estética. E ainda, numa terceira camada, os três atores falavam diretamente com o público – seja contando tudo que iria acontecer na peça, numa espécie de prólogo, seja fazendo uma explanação matemática, ou ainda num epílogo em que cada um deles dava sua opinião sobre o espetáculo, o filme ou a vida, logo antes que a parede que dividia o palco caísse pra revelar um grande nada, o fim niilista, a aniquilação (do personagem, do filme, do limite entre teatro e cinema).

Essa aniquilação era o ponto crucial do espetáculo. Ao aniquilar o sentido da intersecção a obra encontrava sua potência fundamental. Assumia-se teatro de novo. Rompia com os significados ou com a história construída. O final rompe com a ideia de que há uma estória a ser contada, com começo, meio e fim. Porém, para que se pudesse aniquilar algo, antes era necessário construir este algo. Todas as possibilidades de intersecção. Cenas que eram documentários inspirados nos filmes de Eduardo Coutinho. Cenas que eram trailers de algo que jamais seria visto, mas que dialogavam com a depressão da personagem. Cenas de um filme sobre um casal se despedaçando aos poucos. Cenas de um filme dentro de uma peça de teatro ou de uma peça de teatro dentro de um filme. Nos últimos vinte minutos nada disso importava mais. As cenas eram aniquiladas e substituídas pelo vazio de uma versão de música pop intercalada com a autópsia (real) de David Foster Wallace. Eu conto o final agora porque é extremamente provável que essa peça, esse acontecimento que era Em Breve nos Cinemas, não se repita. Então é importante.

 

 

Em Breve nos Cinemas_ Foto: Marco Novack.

 

Essa ideia de aniquilamento que surge nos minutos finais de Em Breve nos Cinemas, o compromisso com o nada e a destruição das intersecções artísticas, vai permear os caminhos e as guinadas que a minha proposta artística sofre. Ainda em parceria com o Teatro de Breque, em 2013, surge Um Carvalho, um texto sobre a ficcionalização do público, sobre improviso e sobre o desvendamento do trabalho do ator; e em 2016, o espetáculo A Maldita Raça Humana, aí sim um teatro assumidamente político, uma busca por um ato significativo realizado artisticamente. Juntas, estas duas peças representam uma guinada rumo à aniquilação de intersecções, ambas são puramente teatro, teatrais, ainda que diferentes entre si.

Como a intersecção é abandonada, o meu trabalho acaba se desdobrando e dividindo novamente em modalidades. E o Projeto Z nasce, então, como um selo cultural multiáreas, voltado tanto ao teatro, quanto à música e ao audiovisual, com proposta de expansão para outras áreas, como a literatura. Mas todas elas dissociadas umas das outras, ainda que, de certo modo, acabem se unindo dentro de um ideal político de construção artística.

O primeiro espetáculo do projeto é Para Ler Aos Trinta (2014), com uma equipe composta quase que exclusivamente por mulheres, com um texto que fala sobre questões femininas, ainda que não necessariamente atinja uma potência de discussão feminista. É uma peça de transição, em que o teatro é o mais importante e o sentido do entretenimento é deixado de lado em alguns momentos, para se atingir uma poética outra. Mas as projeções em vídeo ainda estão presentes e a apresentação dos créditos como em um filme também. Ela é transição porque ainda não é abandono, não consegue chegar por completo no aniquilamento. Mas é uma espécie de amadurecimento, uma primeira proposta de retorno ao teatro, de dialogar politicamente com o agora. E como primeira proposta ela falha em diversos lugares e tem sucesso em outros. Mas funciona por reencontrar o eixo de significação principal no trabalho das atrizes.

Em 2015 o projeto Qorpo Santo 3 Linguagens recebe aporte financeiro do edital Rumos Itaú. As três linguagens citadas são música, vídeo e teatro. A peça Amanhã Sou Outro, seguindo a linha do próprio dramaturgo, dialoga com o presente e as questões políticas do agora. Um agora pré-golpe, mas de manifestações de professores e do massacre de 29 de abril. Além disso, a questão LGBTQ+ é abordada, problematizando a maneira como o escritor havia tratado dela no século XIX, trazendo a discussão para uma esfera política, que naquele momento dialogava com a estética queer. Ao mesmo tempo a questão da mulher está presente, de maneira mais discreta, já que os esforços de representação acabaram se centrando mais nas figuras que compõe um casal gay. Ainda não era o ideal para mim, era necessário abordar as questões LGBTQ+ do ponto de vista da mulher. Porque se você parar pra pensar esse tipo de abordagem é mais difícil de encontrar, especialmente se retirada do lugar da piada, da punch line. E aqui eu já começo a pensar sobre televisão e cinema, mas voltaremos a isso na sequência.

 

 

Amanhã Sou Outro_ Projeto Qorpo Santo 3 Linguagens_ Foto: Rosano Mauro Jr.

 

A trilha sonora do projeto parte de letras do próprio QS, logo, o teor político está presente, e ainda há duas canções com letra de Leo Fressato, que explicitam este tom e novamente traz as questões para o nosso tempo. Os vídeos mostram o tom iconoclasta de QS, trazendo relações diretas com religião, dinheiro e a cidade de Curitiba. O projeto como um todo era uma tentativa de obra política, mas ainda caía na cilada da galhofa, do riso fácil para aliviar um assunto terrível, da quebra metalinguística. Como diria meu amigo Fábio Kinas, faltou “sair do jardim de infância”. E para que algo seja realmente relevante precisa muito amadurecimento. Preciso ainda. E pensando no quanto é necessário pensar a arte de outros modos, surgem dois projetos, completamente interligados, ao mesmo tempo em que são coisas distintas.

Primeiro, em 2015, logo após o fechamento do projeto Qorpo Santo, começa a ser desenvolvido o projeto de websérie Antes do Fim, uma obra audiovisual relativamente simples, mas focada no relacionamento entre duas mulheres. O projeto não consegue financiamento e fica engavetado até 2016, quando é selecionado para o Globolab, um edital da Rede Globo para webséries. No Rio de Janeiro o projeto continua a ser desenvolvido, com a colaboração de roteiristas, atores e diretores da Globo. Participa da final do concurso, mas não vence. E a partir daí começa a crescer como uma série de meia hora para televisão. Conforme cresce em tamanho cresce também na ideia de representação e representatividade. A proposta é de entretenimento, mas um tipo de entretenimento que trate de questões importantes, em que as pessoas – especialmente as muito jovens – possam se reconhecer, para que não se sintam invisibilizadas como eu e muito amigos e amigas nos sentimos quando éramos adolescentes. E isso dá início a um tipo de pesquisa bem específico, sobre estatísticas de representação da mulher LGBTQ na televisão. Os dados focam mais na televisão produzida nos Estados Unidos – até por se considerar o extenso volume de produção daquele país. E as estatísticas estão contra nós. O número de personagens lésbicas ou bissexuais despenca ano a ano. O índice preocupante só não é maior porque o número de personagens gays e transgêneros tem aumentado. Mas também, o número de personagens trans é tão ínfimo que não tinha como diminuir. E isso faz com que se tenha uma percepção um tanto cruel e divisiva sobre televisão. Os executivos ou grandes nomes da indústria são homens brancos, mas também há muitos gays entre eles, o que se converte numa questão bastante simples: quanto maior a representatividade maior a representação. E, bom, muitas mulheres estão falando isso há anos. A chave está na representatividade.

O que nos leva a 2017, ano em que todo o conceito de aniquilamento se radicaliza, com o projeto Que Bom que Você Entendeu que Eu Estou tão Perdida Quanto Você. Projeto de espetáculo longo, mas que aparece primeiro em uma cena de 15 minutos, tratando de um tema específico, completamente endereçado à comunidade artística que lotaria – e lotou – o Teatro José Maria Santos, na Mostra Cena Breve. Nesse recorte, que muito provavelmente sequer cabe no projeto de espetáculo longo, falávamos de um tipo de opressão exercida por um grupo de pessoas também oprimidas. Eram nosso melhores amigos gays com seus discursos misóginos de ódio ou nojo à buceta, uma representação do feminino. Eles sequer se davam conta. Não podem mais dizer que não se dão. Não podem nos trazer falsas simetrias do tipo “lésbicas dizem que tem nojo de pau e ninguém problematiza”. O pau é o herói da sociedade. Um pau pra ser enfiado dentro de nós, o pau metafórico. E pensamos em estupros reais, estupros coletivos, estupros que são exercício de poder e nada mais. E ao trazer o pau como nosso algoz estamos falando de uma sociedade falocêntrica e não do pau que faz parte da anatomia. E estamos falando que nossos amigos gays fazem parte desse sistema sem nem se dar conta – às vezes.

 

 

que bom que você entendeu que eu estou tão perdida quanto você_ Mostra Cena Breve 2017. Foto: Elenize Dezgeniski.

 

Ao mesmo tempo estamos falando das diversas esferas de agressão, das mais pesadas às mais cotidianas, que somos ensinadas a aceitar desde o forninho e da boneca Barbie. E não podemos mais suportar. E queremos estar entre nós mesmas e falar de um ponto de vista nosso, coletivo, ainda que plural. Assim, o projeto é idealizado, pensado e executado inteiramente por mulheres, uma equipe inteira de mulheres. Que passamos por tudo isso, das agressões mais pesadas, das quase últimas consequências, às mais leves, da não aceitação da nossa roupinha de Rambo e do carrinho no lugar da boneca. Mulheres que se compreendem, porque dividem à experiência de existir num mundo que as trata como cidadãs de segunda classe. Mulheres que são mães e encontram resistência dentro do próprio movimento feminista, mulheres que são bissexuais e tem sua sexualidade invalidada, mulheres lésbicas que são invisibilizadas. A agressão é permanente e se modifica em cada história nossa, mas ainda é a mesma raiz de agressão. E quando somos agredidas não podemos e nem devemos fazer piada ou tratar com leveza. Esse espetáculo é um grito gutural de “chega!” em que não há espaço para o humor. Começamos a entender isto.

Começamos a entender que humor é distração. Começamos a entender que precisamos sair dos nossos lugares de conforto e retirar os outros de seus lugares de conforto. Começamos a entender que precisamos falar com todas as mulheres, para além do nosso convívio. Começamos a entender que esse espetáculo atinge seu ápice quando descentralizado, quando democrático e inclusivo.

E quando um projeto parte de algo tão urgente é sintomático que o tom mude. O tom mudou, está mudado. Tudo mudou. O novo fazer teatral que o Projeto Z inaugura com esse projeto é radical, destruindo e reconstruindo tudo que veio antes.

 

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O Show do Apocalipse não é mais uma novidade para mim

Por Leonarda Glück
Fotos de Elenize Dezgeniski

Essa coisa de falar de processo não pode começar sem antes tentarmos “definir” juntos o que é processo, ou, nesse caso bem específico, o que é para mim um processo de criação artística. É raro eu escrever sobre isso mas vamos lá: para mim um processo é sempre a vazão de uma história que eu já não consigo mais conter, nem sempre com começo ou fim, já iniciada e em andamento, que desemboca em um texto, ou em cima de um palco, ou na rua, ou em produção imagética, impressa ou videográfica, ou demais localidades, físicas ou virtuais, onde ela possa ser apreciada por outrem. É um troço íntimo e ao mesmo tempo público, aberto, dividido, mas que muitas vezes é sozinha que me recolho com ele e que o levo para o meu travesseiro. Como eu gosto muito da palavra escrita, geralmente é por ela que inicio a maior parte dos meus processos, e isso se dá geralmente lendo, relendo e até mesmo escrevendo, mas nem sempre. Os insights surgem nos momentos mais inusitados, sem ordem ou organização qualquer, no meio do café da tarde, vagando pelas ruas, no banho, andando de bicicleta ou entrando no tribunal eleitoral. Para mim palavra e corpo, embora pertencentes a esferas relativamente distintas de expressão, são a mesmíssima coisa. Sempre considero um coração demasiado enganador aquele que tenta separá-los. Porque quando eu leio algo que me toca, é no corpo que se dá a reação, imediata, irrecorrível. O corpo não consegue escapar a uma reação assim tão sensorial como é para mim a palavra. Essa palavra para mim tão intramuscular, a um só tempo rapsódica e anárquica, erótica e mortífera, é meu campo maior de batalha semântica. Esse corpo para mim tão díspar, que dança sexo, desespero e guerra, é atração e repulsa em sua máxima potência em todo o meu exercício de escrita. É munida de ambos que eu caminho, é mergulhada até o último fio de cabelo nesse papinho de linguagem e de organismo vivo que eu sigo em frente. Às vezes a palavra é o movimento no vídeo também, e o corpo performance tangível. Em outras o corpo é música e a palavra imagem plasmada. Pois bem, foi o que me aconteceu com o Copi, esse dramaturgo argentino tão tomado de dialética e luta linguística, que me atraiu com esse texto que eu vi encenado pela primeira vez há dez anos atrás, em Curitiba, a primeira vez que o autor foi apresentado no Brasil. Ali eu pensei: “quero fazer esse texto!” e saindo dali eu fui atrás de tudo que dissesse respeito ao cara e sua obra. Comprei seu livro, descobri que era uma bichona louca maravilhosa, que desenhava além de escrever, que tinha dado um pé na América Latina e ido morar em Paris, e que por isso sua obra havia se tornado mais e mais intrincada. E que havia morrido de aids. Loretta Strong comeu o meu cérebro desde os primeiros instantes: quem diabos era essa mulher perdida no espaço tentando estabelecer diálogos insólitos com buracos negros existenciais enquanto era estuprada por ratos preocupados com a continuação de uma espécie tão malandra e torta? E como não fui eu mesma que escrevi isso?!! Fiquei fascinada e, após alguns anos falando sobre o assunto, ele voltou à tona. Foi em uma das reuniões na Casa Selvática que eu soltei que tinha interesse em montar esse texto, do jeito que fosse, com as condições que fossem, e que quem quisesse entrar comigo nessa estava convidado. Era, me parece claro agora, também uma maneira de homenagear a atriz Claudete Pereira Jorge, que todos amávamos muito e que faleceu há um ano atrás, nos deixando órfãos da magnífica voz que dez anos antes batizara de luz e cena o texto do autor no país. Uma vez mais era meu assunto predileto sendo levado à cena: uma mulher presa, oprimida, possivelmente manipulada, obrigada a fazer coisas que não deseja verdadeiramente, arrastada num redemoinho insano de visões de mundo que os outros se lhe interpõem. É a desgraça de cada dia da mulher, brasileira, latino-americana e universal, espetacularizada em sua própria existência sufocada no seio de uma sociedade doentia e sádica, mais interessada em explorá-la comercialmente do que em sua libertação. O que era para ser um monólogo, ou solo — como os artistas da dança preferem chamar — logo é interrompido por uma ideia que se abateu sobre mim quando eu voltava para casa um dia, altas horas da noite, dentro de um uber. O dia lotado de compromissos, fotos tanto para a próxima semana como para o próximo mês, tudo bem, vamos lá, decore as duas páginas e meia do texto que foi você mesma quem editou, tem também aquele teste para o filme daquele cara que está atrás de atrizes trans, o livro esgotou em alguns lugares mas as pessoas não param de pedir por ele, você não teria um aí para vender, por acaso? Escreva o release, veja se o maiô te serve, alguém te ligou para você se manifestar na tevê sobre artistas LGBTQIA atuais — militante compulsória em que o mundo te transformou — engula qualquer coisinha e lembre-se que, além de não ser preciso esperar o carnaval para ser vadia, o sexo está na cabeça e não necessariamente nos genitais, especifique as necessidades técnicas, para mim uma peruca só não adianta, tem que ser umas quatro logo duma vez, formando um bolo em cima da cabeça, os cabos dos teus três microfones vão precisar de mais de vinte metros cada um, como sempre, que horas teu voo sai, tem mensagem nova de jornalista (ou estudante de jornalismo, não sei o que é pior) nas tuas redes sociais a cada meia hora, todos querem uma entrevista contigo, que medo se a aeronave não conseguir frear na pistinha minúscula de Congonhas, tem mais duas mesas nos próximos meses, uma mais acadêmica e outra mais informal (que bom não precisar citar Foucault e Butler ao menos uma vez), uma amiga me disse que é possível que o mundo se acabe em print, parte da comunidade transexual já te enxerga como figura pública, querem saber a tua opinião sobre a Rússia, como não me tornar uma burocrata e ainda manter intumescido e úmido de vida meu grandioso grelo de arte? E aí, conseguiu decorar o texto?? Se tudo se acabar em print mesmo, será que no apocalipse irão passar as nossas mensagens inbox num telão? Na minha mente ligeira passam as imagens de todos os meus nudes sendo projetados, é a antecipação do inferno. Ah, agora tem essa entrada espetaculosa com a música da Nina Hagen, o clima vai ser bem drag boateira dos anos noventa, você vai ter um corpo de baile dançando com você e você tem que aprender a dublar em alemão. Tudo bem, você tira de letra, né? Claro que eu tiro, digo eu, nada mais fácil que o alemão, como sempre me fazendo de valentona. Não posso reclamar. E se tivesse também, no meio disso tudo, uma equipe jornalística de vídeo para entrevistar a Loretta depois que ela falar todas as loucuradas surrealistas dela? A cara do diretor é de dó, de novo a Léo com essas ideias, olhem o brilho insano nos olhos dela. Será que ela comeu? Talvez seja fome. Mas aí já não vai mais ser um monólogo, Léo. E qual o problema? No próprio texto do Copi as vozes são tantas que é possível que aquilo seja mais uma polifonia esquizofrênica do que um monólogo propriamente dito. E isso também está ótimo para você se você já fez a Valsa Nº6, do Nelson Rodrigues, não é mesmo? Na valsa ela também era esquizofrênica e nem viva estava. Nota mental: escrever o texto para a repórter da TV Rato falar, a televisão fictícia que irá entrevistar Loretta Strong, a única sobrevivente humana do apocalipse. É uma crítica à mídia? Vocês estão falando da espetacularização do fim? Sim, nós estamos transmitindo o Show do Apocalipse ao vivo e nele estaremos vestindo os nossos melhores estilistas. A verdade mesmo é que eu fiquei sozinha com os ratos: essa metáfora textual se aplica tão perfeitamente aos dias do Brasil de hoje que até me pergunto se Copi não era um pouco profeta. Se eu fosse a única mulher a sobreviver ao apocalipse e avistasse o Eduardo Cunha ao longe, sobrevivente também, como o belo exemplar de rato que ele é, será que eu teria coragem de deixá-lo me fecundar?!? É claro que seria uma completa nojeira, é claro que seria uma dramaturgia imunda. Então é claro também que algumas pessoas nesse mundo tenham interesse em pesquisar e criar sobre dramaturgias imundas e de transgressão, como é o caso do Copi e como é o meu próprio caso, pois cada vez mais eu sinto que estou escrevendo, versando e performando sobre a nojeira. A Hilda Hilst, de quem eu sou fã, em muitos de seus escritos, se referia a Deus como “O Grande Cara de Nojo” e eu acho isso muito significativo. Talvez toda a chamada Criação Divina, da qual nós todos somos parte (eu, você, o Copi e a Loretta), se refira mesmo ao nojo e à porcariada — a imundície como verdade lixosa — como um grande intestino explodido e espalhado. Quem iria duvidar? Resulta que, como o texto do Copi não foi utilizado na íntegra e também como nós enxertamos (eu sou a rainha do enxerto) outras coisas no contexto da Loretta, intitulamos a cena de “Betelgeuse”, que é o nome da estrela maior da constelação de Orion e que ao que tudo indica foi onde o satélite dela enroscou. Em inglês é também o nome do filme do Tim Burton de 1988, um dos ícones maiores da minha infância, que permeou todo esse processo de criação. Não está virando uma comédia rasgada demais? É um pastelão, um stand up caricato conceitual! Léo, você é a Dercy Gonçalves do futuro, me diz um amigo. Sim, meu querido, eu serei a grande vedete que abrirá as pernas para o futuro tecnológico. Contudo, tentarei sempre fugir da distopia, é bom que se diga. Também precisamos rir da desgraceira, sambar na catacumba das emoções, não podemos embarcar na nave plurissexual se não for pra dar risada também. O humor na cena é como um shot do melhor ecstasy no organismo: é gostoso e viciante, dá um prazer físico inenarrável. Tem vezes em que é melhor até do que chocolate ou sexo anal. Mas a gente tem que cuidar para não virar uma esculhambação xuxanística, tudo tem sua hora e vez. Eu quero muito que “Betelgeuse” vire peça, que entre cartaz, que faça o povo rir e que rode o país e o mundo. Vou comprar a alma de todos os meus parceiros de trabalho para isso. Talvez nem precise. A equipe gosta tanto de fazer o negócio que é possível sentirmos no ar essa alegria. A Casa Selvática, para mim misto da Factory do Warhol (numa versão tupiniquim subtropical) com os Dzi Croquettes da nova era, é um lugar bom para coisas assim florescerem, nós somos uma pequena multidão queer de figurinistas, roteiristas, diretores, produtores, cinegrafistas, modelos, professores, iluminadores, maquiadores, oficineiros, mães, escritores, pintores, atores, dançarinos, performers, cantores, guitarristas, sonoplastas, caracterizadores, tecladistas, artistas de dentro e de fora da cena, nós gostamos de criar para fazer parar, nem que seja por instantes, a dor do mundo. Às vezes nós a fazemos aumentar sem querer também, mas é como as coisas são. Não se pode ter tudo nessa vida. Eu sempre costumo dizer que o que eu estou fazendo nessa vida é apenas uma grande peça separada por capítulos, aqui e acolá. Amor, sexo, violência e poder serão sempre os meus temas do coração. A ascensão da mulher e a transexualidade são questões contemporâneas que vieram para se juntar a eles naquilo que eu tenho de mais essencial em mim, que é o desejo de produzir arte. Pesquisar sempre e observar sempre para criar sempre. Agora eu estou com uma ideia surgindo na minha cabecinha, com todo esse papo sobre fecundação que a Loretta Strong me deixou, que é de escrever um novo texto teatral para tratar da questão das crianças queer, quem as defende? Quem defende a criança viada?? Quem defenderá a criança travesti?!? Também o texto do Preciado sobre esse assunto me botou essa célula em funcionamento e eu não estou conseguindo me livrar dela. Junto com isso me chegam informações de países como a Finlândia e a Noruega, que tem desenvolvido políticas efetivas, além de comportamentais, para lidar com crianças que mostram desde muito cedo um descontentamento enorme com o sexo designado no momento do nascimento. Quero falar sobre isso agora. Está mexendo comigo. Penso que deve ser um monólogo novamente, mas a gente nunca sabe quando vai entrar um corpo de baile em cena, né? Acho que irá chamar-se “Baby Eva”, porque também tem a ver com o livro “A Paixão da Nova Eva”, da Angela Carter, em que um professor de inglês é transmutado em mulher por uma espécie de deusa da fertilidade, misto de mulher negra e máquina. Quem viver verá!

 

 

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Territórios moventes e o caminho que se faz de acordo com o passo

Por Elenize Dezgeniski

 

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O templo nômade: encruzilhadas – Notas in progress do processo momo: Para Gilda com Ardor

Por Ricardo Nolasco

Meu corpo gordo e nu vigiado no centro de uma cidade
Alarmes, sirenes, luzes, câmeras perfuram sem dó
Meu corpo gordo e nu é ação nessa cidade
Emergência: Meu corpo gordo nu vigiado perfurado e em chamas
Um corpo xamã e em exercício. Uma córpa em decomposição
Dança violência nessa cidade

Eu estou agora parado aqui, como uma rocha ou um monumento na sala da minha casa.   Deitado no sofá faço uma pose para a fotografia. Tem água por todos os lados. Um cano estourou e tenho um trabalho árduo para ser feito. Vejo meu reflexo no espelho d’água. Tenho quase 30 anos, a idade com que as pessoas que mais me inspiram já haviam morrido, planejavam seus suicídios ou estavam internadas em clínicas psiquiátricas. É Deus o manicômio. A cidade vive em baixo dos meus pés: fiações, encanamentos, esgoto, cabos telefônicos brotando por todos os vãos, todas as frestas. Meu corpo é cidade cheia de vias, veias, estrias, perebas, micoses, crateras, interdições, viadutos, torres. Eu convido que me percorra. Que nade comigo, mas saiba que toda transformação é dolorida. Vamos derrubar essa cidade e dos restos construir uma nova.

Orlandx [é uma palavra de terror, um grito de conquista, palavra chave, maldição bárbara, abre portais. Os corpos se fundem e se organizam de uma terceira forma, não passam por caminhos já percorridos, Orlandx encaixa e desencaixa-se, deita na relva, dança no caos, desorganiza um olhar: sumo aos olhos do voyeur, esfumaço o espaço. Truque de magia barata, sou um mágico de rodoviária. Dança cósmica de beberronas vulgares. Meu hálito te toca, te envolvo em minhas brumas, fundo toda a matéria. Uma das partes sumiu, escorreu pelas minhas mãos, diluiu-se no pó da criação. Cravo minha bandeira no flanco da terra. Pés ao alto serpenteando um play ground declaram: A cidade foi o presente que um amante milionário me deu! Serpentes dormem na beira dos rios, sob pedras].

Faço percursos pela cidade, jogos de cartas, associações místicas, psicomagias. Busco por mim mesmo desde que me perdi. Com meus pés sei que posso fazer que os fios se cruzem de outra forma. Mudo nome de praças, de ruas, estou a serviço do acaso na flanagem em que duas mitologias me acompanham: Rei Momo e Gilda. Na busca por eles, busco por mim. Na busca por mim, busco por eles. São mitologias com as quais danço. Saiamos dos teatros. O Deus que inventou o teatro foi expulso de todos os teatros.

 

TRAJETOS (anotações brutas de um caderno de artista)

 

AMANDA

Iniciei uma investigação na Alfaiataria (espaço cultural localizado na Rua Riachuelo que foi por muitos anos uma tradicional loja de produtos militares), o espaço ainda era muito frequentado pelos clientes tradicionais o que criava um movimento bastante híbrido. Criei um programa performativo chamado Expediente, onde permaneci por três dias das 09 ás 18 horas realizando uma série de ações que iniciava sempre com a lavagem da fachada e concluía com um jogo de tarot. Amanda surge no último dia dessa performance. Se identifica como travesti e exibe um longo cabelo sintético. Chegou no início da última ação, um jogo de Tarot que iria definir os próximos passos da investigação. Nesse momento estou vestido como Gilda: vestido preto e batom bastante borrado. Ela diz que eu deveria fazer a barba, usar uma roupa mais bonita e ser mais feminina. Olha as cartas e diz que é babado. Amanda sempre aparece nos percursos, é como uma nova Gilda, Gilda Agora. Sempre diz que pode fazer leituras de cartas a 10 reais. Encontrei ela hoje, saindo de traz do teatro Guaíra, empurrava um carrinho de bebê.

 

O APRENDIZ

Recebi uma carta, nela estava escrito que eu deveria convidar um artista 10 anos mais novo que eu para me acompanhar em um ato psicomágico. Chamei Leo Bardo e ainda convidei Felipe Augusto (Shakira) para nos acompanhar e filmar o trajeto. Nos encontramos 10 e 10 em frente à Catedral. Eu carregava uma sacola com 5 tomates e deveria colocar um em frente de cada teatro onde apresentamos a primeira peça do Grupo de Investigação Cênica Heliogábalus, Scarroll – da trilogia da duquesa à queda da rainha. Os teatros eram: TUC, Casa Vermelha e Casa Hoffmann. Ao colocar o terceiro tomate apareceu um menino, iremos chamá-lo aqui de Aleph.

 

BURACO

Aleph nos abordou porque pensou que estávamos filmando ele, dissemos que não, ele age com violência, inspirado pela temática da minha primeira peça começo a agir com ele com a lógica dos personagens de Lewis Carroll. Ele me chama de Gordo Viado, respondo dizendo que ele não tem 10 cm. Levamos a discussão a um lugar inesperado que conclui com ele pegando duas pedras de um terreno baldio em frente ao memorial de Curitiba (esse terreno é justamente o qual realizamos a primeira performance do núcleo O Estábulo de Luxo: Ç; que marca a minha primeira reaproximação com a Dani Passarinho, depois de alguns anos afastados, e o ínicio de uma parceria com Amany Rocco. Também participaram dessa Límerson Morales e Cali Ossani). Voltando a narrativa ele nos ameaça, joga a pedra.

 

FIM DO BURACO

Subo com o aprendiz até o relógio das flores. Onde leio um trecho de Alice No País das Maravilhas em que a protagonista se afoga em suas próprias lágrimas e depois, como sugerido na carta, repito uma cena do espetáculo Scarroll- da trilogia da duquesa à queda da rainha onde por três vezes ascendo uma vela e o aprendiz a apaga. Entrego um tomate para Leo Bardo. Voltamos pra minha casa e com o último tomate devo preparar um suco e beber esse enquanto ouvimos Amy Whinhouse. O aprendiz repete por três vezes: Sou um príncipe astuto muito mais jovem que você. Concluímos a psicomagia postando um vídeo com a última ação. Assim que fazemos isso recebemos uma mensagem dizendo que estávamos na televisão sendo agredidos por um menino de rua. Demoramos um tempo para entender o que tinha acontecido. Haviam câmeras do Cidade Alerta posicionadas que filmaram tudo e se não tivessem feito isso jamais veríamos o ocorrido como parte do ato psicomágico. No minuto 15 e 31 desse vídeo você pode ver  a matéria do Cidade Alerta (veja aqui)

 

PEQUENO/ALEPH

Escrevo para o Cidade Alerta pedindo o direito de resposta já que utilizaram nossas imagens sem autorização. Eles marcam para o dia seguinte pela manhã. Nós devemos dar a entrevista, segundo recomendações da Dani Passarinho, evocando as personas do mestre e do aprendiz. Devemos nos referir ao menino como Aleph. Até o momento não tivemos acesso a matéria, mas sabemos que ela saiu devido a uma ligação do Junior Pires. No dia seguinte (véspera do meu aniversário de 30 anos) Dani Passarinho preparou um encontro psicomágico. Assim que sento para iniciar o encontro desejo ascender um incenso que trouxe de casa. Peço a um menino que diz não ter mas aponta para outro, esse outro é Pequeno ou Aleph. Começamos discutindo e acabamos nos entendendo, ele acompanha toda a psicomagia onde Dani lixou e pintou as unhas dos meus pés enquanto eu lia Aleph do Jorge Luís Borges e escuto uma versão de O Corvo do Edgar Allan Poe. Depois disso apenas com um balde iniciamos a lavagem da escadaria do TUC e conseguimos mais água, suficientemente para lavar toda a escada. Depois disso voltamos a conversar com Pequeno que enquanto dá uma bola numa latinha com craque parece se interessar em participar de um espetáculo.

 

PAPISAS

Agora já tenho trinta anos. Construí três presentes, também eles psicomágicos. Pensando no arcano pensei em fazer um presente que tivesse uma materialidade, tivesse uma relação com o arcano, fosse único para cada um mas que fizessem parte de uma série, tivessem uma relação/conexão entre eles, e tivesse uma instrução de uso (essa contida na carta). Pesquisei sobre patuás- sortilégios feitos de produtos combinados amarrados dentro de um saco. Podendo ser ervas, objetos, orações. Patuás perdem o seu poder se abertos, traz o seu encantamento no segredo que guarda em seu útero. Gosto também por ser feito de pano e fio, objetos relacionados a mitologias femininas. O tapete que Penélope costura eternamente, a roupa preparada por Medea para a rival, as normas ou moiras que tecem o destino nas mitologias nórdicas e gregas em um trabalho místico. Sacerdotisas, bruxas, macumbeiras, yabás, Marias Bueno, Virgem Maria, Didi e a Lourdes do Brechó. Papisas.

Comprei elementos que pudessem ser misturados de formas distintas, fazendo uma alquimia única em cada patuá. Ingredientes: Casca de romã (a fruta possui ovários e cortado na posição certa apresenta uma estrela), arruda (proteção e feitiçaria) e anis (também em formato de estrela). Queimei junto a esse preparado algumas páginas do meu caderno com um poema inconcluso, as primeiras anotações desse processo e alguns elementos encontrados de peças antigas como as bobinas utilizadas em Pinheiros e Precipícios. Uma alquimia para ser envolvida em um útero ovo. Juntei pequenos objetos: 2 cálices e 1 moeda. Fiz três preparados distintos com a combinação desses elementos. Coloquei dentro de tecidos e amarrei com fio dourado. Três papisas.

Escrevi as cartas em locais distintos da cidade. Saí de minha casa em direção ao passeio público e na porta de entrada do Passeio Público um estêncil na parede me chamou atenção. Logo reconheci Edgar Allan Poe (autor do poema O Corvo que já apareceu em outra psicomagia e do conto que inspirou o filme do Fellini que vi ontem com a Dani Passarinho). Estava a imagem dele e o seguinte texto:

Úh, seu úrubu Filho da Puta

Parei para anotar, quando terminei minha caneta caiu no chão. Exatamente quando fui juntar passava um casal atrás de mim, ele abriu os braços e bateu com o relógio em um carro. Caiu uma peça pequena do farol. Recolhi. Entrei no Passeio Público. Tudo parecia orquestrado. Atenção dirigida? Talvez. Caminhei até a gaiola da Penelope Pileata e fiquei um tempo contemplando, me comunicando com o Límerson. Depois fui até o carramanchão com mesas de xadrez. Onde se encontram pessoas para jogar cartas. Dia ensolarado, artistas e moradores de rua estão acampados em frente, evangélicos recolhem equipamentos utilizados em uma oração e um senhor sentado em uma mesa escreve num pedaço de papelão. Me cumprimenta, cumprimento também. Começo a tirar os objetos dentro da bolsa: cigarro, caixa de fósforo. Ele me pede um cigarro e digo pra ele pra fumarmos juntos. Ele escreve com a caneta alguma coisa no cigarro, pergunto o que é, ele diz que é pra viver cem anos. Aponta para os evangélicos e diz que tem uma cruz invisível em frente a sua cabeça. Conversamos um pouco olho o que ele escreve no papelão, vejo a palavra deus e algumas letras que não entendo. Escrevo no meu cigarro II-papisa. Fumo e termino de retirar as coisas da minha bolsa. Livros, a carta da papisa e uma caixa onde estão juntos os três patuás. Escrevo a carta e percebo que o senhor ri muito. Momo. Em determinado momento ele levanta e se despede, diz que se chama Roberto e que mora no toldo verde da farmácia visconde. Continuo escrevendo. Descubro números e letras no farol caído do carro, começo na carta um cálculo desses códigos. Crio um código de leitura. E9 (dentro de um círculo) 01.6944. (E) equivale ao número cinco de eminência- o papa. 5+9+1+69+44. 5 +9+1+15+8. 5+9+1+6+8. 14+15. 5+6=11. 1+1=2. Papisa. Concluo a carta do Límerson. Depois descubro haver mais um 5 escondido separado da sequência numérica, é o número 5. Número do Papa, reflito sobre a presença de figuras masculinas em um experimento sobre as papisas.

Penso no que vivi nesse lugar, decido escrever ali a carta da Amabilis. Escrevo em um outro cigarro II- Papisa e início. Estou na terceira ou quarta linha quando começa a chover, tento continuar escrevendo com a chuva, mas está molhando o papel devido a furos na estrutura do carramanchão. Seco e guarda na minha bolsa novamente todos os materiais e apenas espero a chuva passar pra sair dali. Desejo terminar de escrever na companhia da minha vó. Ali onde estou vira abrigo e prisão. Muitas pessoas se abrigam, mas estamos ilhados…rodeados por água. Cai um pedaço do telhado em uma menina devido a força da água. Nesse instante um senhor um tanto mais novo que o primeiro se aproxima. Não parece ser morador de rua. Se aproxima e fala pra mim: olha o que encontrei ali no orelhão e me mostra um crucifixo. Seria esse o crucifixo invisível do Roberto? Continuamos a conversa até parar a chuva. Esse senhor me acompanha até a porta da casa da minha vó e vai embora. Não sei o seu nome.

Almoço com a família e concluo ali a minha carta. Na presença delicada e pesada dela. Um grande feminino silencioso e tradicional. Depois vou ao Guadalupe escrever a carta da Cali. Experiência muito forte depois de tudo que tinha acontecido. Escrevi a carta tomando um café. Poucas interações.

Em relação a proposta da Dani Passarinho fiz uma leve alteração. Não pedi a benção da papisa, mas pedi resposta. Entendendo essa resposta como a benção que pode ser negada. O Silêncio também é uma resposta para a papisa.

Primeira resposta à carta recebida hoje, no dia 09 de março de 2017, ano de Nosso Senhor jesus Cristo:

Penso agora, à noite, no Momo na Momo, na Papa. Alguma coisa quase me escapa.

Relendo a carta da Dani Passarinho me chama atenção a morte em parto da papisa em Roma ou o assassinato dela e da criança na outra versão. Não importa se “miráculo” ou o entendimento da fraude. Nas duas versões fala de uma rua pequena próxima ao Coliseu. Penso em Andrea, um amante italiano que amei intensamente por algumas horas sob a lua cheia de Roma e depois dessa noite o encanto acabou. Pra ele escrevi um verso que estava no poema incompleto do poema queimado: “sexo selvagem nos fundos da capela sistina”. Assistir Mama Roma do Pasolini.

 

RESPOSTAS

Uma torre recebendo um raio celeste é partida. Uma cidade, um universo, uma proteção, uma estabilidade.  Uma prisão para loucos, a bastilha, a torre de babel. Uma cidade em ruínas. Como já disse devemos derrubar a cidade para construir uma nova. Romper, quebrar ciclos e de dentro sairá luz. Fechar a macumba, o rito. Quebrar o cárcere.

Construo um templo nômade na forma como me movo pela cidade. Cada lugar é terreiro psicomágico, o tarot o oráculo a se consultar por seu próprio valor arquetípico e iconográfico. Não falo aqui de uma mão oculta que embaralha as cartas, falo de nossa própria mão. Nossa própria materialidade. A magia está naquilo que é mais visível. Na relação com a matéria mais bruta. Na criação de ficções. Em apresentarmos outras possibilidades para o mundo. O espetáculo é uma torre a ser roída.

Ontem o Leo Bardo propôs que apresente hoje uma performance com ele como um rito final desse ciclo que vivemos intensamente desde então. Penso que é hora de construir um espetáculo, uma peça, uma performance e essas experiências não devem ser apenas experiências minhas. Hoje de manhã li uma primeira resposta da Amabilis de Jesus para a carta às papisas:

“Para almas é morte tornar-se água e, para água é morte tornar-se terra, e de terra nasce água, e de água alma” – Heráclito de Éfeso.

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