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Por que comédia?

por Andrei Moscheto

Olá.

A/O/As/Os Bocas Malditas pediram para que eu falasse sobre meu processo, ou sobre a minha arte, ou sobre algo que eu achasse relevante. Mas sempre acho que as pessoas não me conhecem e, por não saberem quem sou, nem vão querer saber sobre alguma coisa minha. Então, desculpas desde já se este texto tem cheiro de biografia mais-que-autorizada que foi publicada antes mesmo que alguém quisesse conhecer o biografado. Em suma falo de mim, depois falo do assunto.

Quero fazer teatro, sempre quis. Ainda quero. Quero. Repito, pra dar ênfase e deixar você, leitor, ciente de que isso é importante pra mim.

Comecei cedo, aos 8 anos. Lá, na Casa da Cultura (Joinville-SC), sobre a ponta dos pés para espiar por uma janela, vi uma cena de pantomima em que atores desviavam árvores e rios de uma floresta e fiquei assustado de como aquilo era possível. Não tinha nada lá! Mas, quando os atores desviavam, dava pra ver a floresta. Foi próximo a isso que teve um show de talentos na escola e que eu me meti a contar uma história, sozinho. Nem me passava na cabeça que era um “monólogo” ou que eu deveria me preocupar com ter 200 pessoas me olhando ou que eu deveria me preocupar porque eu iria abrir o show. Era só uma coisa muito legal de fazer, mais nada. Fiz. No final, voltando correndo pra coxia, encontro a professora e minha mãe aos prantos. Que coisa legal isso de teatro, né? A gente vê arvores, rios, emoções que nem estão lá no palco, mas estão em quem olha. Gostei!

Nunca mais parei. Entre cursos livres, grupos de estudo com resultado em peças para dentro de sala de aula, participações em produções profissionais desde os 14 anos, sempre fui atrás disso e dizia que isso era o que iria fazer da vida. E fiz. E venho fazendo. E venho usando a preposição “e” no início de três frases seguidas e me preocupando com os gerúndios que se seguem.

Se a infância influenciou para que eu gostasse de teatro, continuar fazendo me levou pra comédia. Porque fazer rir parecia poderoso demais. Estar no palco ou na roda de amigos e fazer todos rirem dava uma resposta imediata se as pessoas entendiam o que você estava fazendo, compartilhavam das suas ideias. Nos cursos livres a preparação era sempre com exercícios de improvisação (bastante focados em variações de jogos da Viola Spolin, Boal e de técnicas de palhaço) que provocavam riso, liberavam ideias espontâneas dos artistas e, depois dessa fase, a evolução era a cena, a dramaturgia, a quebra das regras aristotélicas para que cheguemos a novos patamares com a nossa arte! Então, durante parte da adolescência e do começo da vida adulta, fazer teatro em cursos livres (seja como aluno ou como assistente de professor) era muito mais provocativo e poderoso do que era feito depois, nos palcos.

Todas as vezes que eu assistia aos filmes do Peter Greenaway e me deliciava com eles, ao lado eu acabava descobrindo os talentos histriônicos de Peter Sellers. Se achava que “A Última Tentação de Cristo” tinha viradas de roteiro que deveriam ser levadas como lições para uma vida profissional, “A Vida de Brian” parecia ter o mesmo ou muito mais. As músicas de Chico Buarque me levavam para alguns lados, as músicas do Premê me levavam para outros igualmente mágicos. Entre os atores parecia que todos estavam sempre em busca de risadas, epifanias cômicas, jogos complexos entre amigos. Nas coxias. No palco era melhor elevar o espírito, buscar algo além, atingir o nirvana intelectual e ser aplaudido por ser a luz que eleva o ser humano das trevas da mesmice. Fecha-se as cortinas, volta-se para o anseio da comédia novamente. Parecia, aos meus olhos, quase que uma disfunção psicológica, que observei dentro da classe teatral por diversas vezes: posso fazer uma comédia – que eu digo publicamente o quanto é difícil, mas que (no fundo) considero algo menor, mas quando eu for fazer algo grande-importante-contundente-escalafobético com certeza uma comédia não será.

O preconceito com a comédia, como algo menor, frequentemente apontado como sendo uma culpa do público por querer coisas mais fáceis, bastante incorretamente chamada de de “populares”, começa de dentro, pelos artistas que fazem. Por alguns artistas que fazem.

Meu primeiro convite para dirigir oficialmente algo foi uma comédia. Nunca mais parei. Nunca mais quis parar, sabia que era onde eu encontrava mais sentido. Sempre foi legal trabalhar com o projeto dos outros, mas foi ainda mais legal quando o projeto também partia de mim: surgiu o grupo Antropofocus.

Quando o grupo Antropofocus surgiu, em 2000, ele era formado por alunos da Faculdade de Artes do Paraná que tinham uma reclamação em comum com a academia: estávamos ali há dois anos e nada tinha sido falado sobre comédia. A academia não falava (fala?) sobre este assunto, passava ao largo apenas referenciando sua existência em momentos da história e mais nada, potencializando ainda mais o preconceito com esta forma de arte. As pessoas que fizeram a primeira formação do grupo, todas, tinham algum anseio por fazer comédia, procuraram apoio no ensino superior e não acharam. Todos queriam fazer comédia e achavam que isso não era um universo paralelo ao teatro. Na faculdade, parecia que existia um lugar sujo, estragado, fedorento chamado “mercado” e lá tinha comédia. Só lá.

No Antropofocus nosso objetivo era fazer rir. Só. Os ensejos estéticos estavam conosco, no fundo disso. As referências bibliográficas estavam conosco, o tempo todo. Mas, enquanto objetivo exteriorizado em ensaio, nossa vontade era “simplesmente” fazer rir. Como? A gente não tinha descoberto ainda, a gente só sabia o “como não”:

– A gente não queria usar palavrão: soa puritano, inocente, bobinho, infantiloide. Não é isso. Em comum os integrantes do grupo identificavam que os maus comediantes, aqueles que não tinham técnica, material, ensaio, apelavam para o palavrão como um saca-rolha de risada. Então, pra dificultar a nossa vida e ficar sob o fogo da plateia sem poder usar esse truque, não usávamos (e nem usamos, ainda hoje) palavrão.

– A gente queria que o mote das cenas (e depois dos espetáculos) surgissem do material criado em conjunto em sala de ensaio. Esse desejo que acabou levando o grupo a ficar especializado na técnica da improvisação, especialmente nas ferramentas que fazem os atores poderem apoiar ideias e ajudar a que surjam outras fora do esperado.

Começamos em outubro de 2000 e nunca mais paramos. Desde então estamos nessa estranha carreira de grupo de teatro que pesquisa comédia. O adjetivo “estranho” não qualifica a nossa relação com o público ou a nossa produção teatral (na minha opinião, leitor – caso você já tenha visto nosso trabalho e você queira classificá-lo assim não sou eu quem vai desmerecer suas ideias), mas se classifica onde a gente encaixa entre os outros grupos. Porque, para algumas pessoas que fazem teatro, somos chamados de “grupo de comédia”. Para quem faz comédia somos chamados de “grupo de teatro”. Então, há muito tempo, sabemos: estamos presos aqui, no meio. Entre o Teatro e a Comédia. Vivemos no meio de uma separação entre as duas coisas que os outros veem como distintas. Nós não.

(Bom, leitor, eu não vou usar a primeira pessoa do plural daqui pra frente, e não é porque eu duvido que essa opinião seja compartilhada com os integrantes do grupo. Apenas porque estamos conversando você e eu aqui, então acho que mantemos o papo entre primeira e terceira do singular. Caso você esteja lendo em grupo, perdão. Caso alguém esteja lendo pra você, perdão. Caso você preferisse ser tratado por tu, perdoas este autor que não quis errar – mais ainda – as conjugações dos verbos por aqui.)

Voltando a conversa anterior, estar num grupo de TEATRO que quer fazer COMÉDIA parecia estar carregado de contrassensos que eu não conseguia enxergar. Quando apareciam oportunidades de inscrição em festivais de teatro ou editais culturais eu recebia dicas de canto de boca para dar uma escondidinha nesse aspecto do grupo.

– Qual aspecto?
– Esse aí. Aí.
– O nome? O nome do grupo?
– Não, aquilo que tá escrito embaixo.
– A parte da pesquisa?
– Um pouco mais pra frente…
– …Comédia?
– Não fala alto! Senão eles não te chamam pra nada!

 

Parece um diálogo de maluco? Ele é. Mas tive com muitas pessoas durante as últimas décadas, em diferentes sotaques, idades, formações. Como se o preconceito velado existisse e ninguém quisesse falar sobre ele. Quando não se fala dos preconceitos eles perduram por muito mais tempo.

Essa diáspora que existe entre teatro e comédia pode ter tantas razões, que a própria razão desconhece, mas nenhuma delas é válida para se perpetuar. Independente de qual seja a fonte do preconceito, ela atrapalha ambos os lados, pois a comédia deixa de se aproximar das novas linguagens teatrais e o teatro deixa de se debruçar nas técnicas cômicas. A aproximação seria uma conquista positiva para todos nós. A percepção de que elas nunca estiveram apartadas pode demorar um pouco mais.

Gosto de estar no meio disso, fazendo teatro e comédia, apontando o rei nu no meu próprio espelho (tente não imaginar isso) e falando pra quem quiser ouvir: comédia também é teatro. Obrigado por emprestar seus olhos a isso aqui, esse texto, e que eles continuem a ver o humor que há no mundo.

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Andrei Moscheto é ator, diretor, improvisador, sonoplasta, dramaturgo (infantil e adulto). Trabalhando profissionalmente no teatro desde 1991, é diretor e fundador do Antropofocus desde 28 de outubro de 2000, companhia de teatro que se dedica a pesquisa do humor em diversas formas. É formado em Bacharelado em Direção Teatral pela Faculdade de Artes do Paraná (FAP) e fez Bacharelado em Interpretação na Unicamp, onde não chegou a se formar. É professor de teatro desde 1998. Foi professor da Faculdade de Artes do Paraná nos anos de 2005 e 2006. Ministra workshops focados na técnica da improvisação, área em que se especializou desde 2010.
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Para Além do Feminismo: O Que Vamos Fazer?

por Clarissa Oliveira
imagem coletivo feminista p.nitas* 

 

Faz alguns anos que me pergunto: onde está a produção artística feminina? Onde estão as mulheres que estão produzindo arte na nossa cidade/estado/país? O que se pensa quando se fala sobre arte produzida por mulheres?

Foi em 2010 que tive meu primeiro contato com o feminismo. Na época, ainda tateando algumas teorias, explorando esse universo novo que se abria, lendo algumas literaturas, fui compreendendo as diversas nuances do ser mulher enquanto ser social, para além do só estar no mundo (o que, por si só, já é um ato político). Comecei com a Simone de Beauvoir, flertei com Beatriz Preciado, compreendi alguns lugares do queer com a Judith Butler, e assim fui desenvolvendo meus estudos pessoais. Em 2013 publiquei a monografia de conclusão do meu curso de especialização com o título “A Intersecção de Poderes: O Corpo Grotesco Feminino Como Ferramenta Artística” e foi nessa pesquisa que meu interesse foi despertado. Comecei a estudar o conceito de beleza não só através da ótica dos homens estudiosos da mesma, como é o caso do Umberto Eco, cujas obras “História da Feiúra” e “História da Beleza” são essenciais para essa análise, mas fui atrás de mulheres que analisavam a beleza a partir da ótica feminista. Encontrei Naomi Wolf e ela me apresentou pontos de vista dos quais nunca tinha realmente parado pra pensar sobre. Quer dizer, não que eu não tenha de fato pensado sobre, porque incômodos sobre nossos corpos e lugares no mundo nos permeiam desde que começamos a ter noção da nossa existência, mas a análise teórica e estatística sobre questões envolvendo a figura da mulher e hipóteses palpáveis de porquê os sistemas de trabalho são da forma como são, tão ligados à figura da beleza, a isso foi a primeira vez que tive de fato contato. E dentre as várias análises sobre a beleza que Naomi me apresentou em seu livro “O Mito da Beleza”, uma das questões que mais me chamou a atenção foi os seus apontamentos sobre o lugar da mulher, da beleza feminina, nos diversos ambientes de trabalho. Wolf problematiza: “À medida que as mulheres iam exigindo acesso ao poder, a estrutura do poder recorreu ao mito da beleza para prejudicar, sob o aspecto material, o progresso das mulheres.” É com essa estrutura de pensamento que Naomi apresenta  essa prerrogativa, da beleza usada como arma contra a ascensão profissional e social das mulheres.

A manipulação da nossa imagem, a distorção do que é viável, palpável, aprazível aos olhos, essa figura impecável é restrita às mulheres. O conceito do “se cuidar” atrelado à ideia do físico é restrito às mulheres. E nós sempre soubemos que isso vem de uma estrutura de poder muito estabelecida e vertical, onde o homem exerce sua potência social e política e nós nos mantemos no lugar de submissão, se não direta e explícita, através de ferramentas muito subjetivas, como os altos padrões de beleza estabelecidos. Num universo muito patriarcal como é o ambiente de trabalho – e por mais que as mulheres tenham conquistado espaço em todas as áreas, na medida que vai se subindo hierarquicamente em qualquer área as relações vão se estabelecendo cada vez mais patriarcais – é muito difícil conseguir se impor só através de suas potências pessoais, inteligência ou conhecimento. Imagem é usada como ferramenta de poder. Poder esse ilusório, porque no fim das contas é tudo sobre como dominar e tirar o foco da verdadeira atenção. Com menos carga social em cima do homem – sem precisar se preocupar com que roupa usar, tamanho do decote, peso, maquiagem, jóias, dentre outras obrigações sociais, ele acaba tendo sua carga emocional muito mais direcionada. Isso sem entrar no mérito da sobrecarga do trabalho em casa, mas se eu entrar nessa discussão esse texto vai ter algo em torno de 50 páginas. O que quero dizer é que nossa presença é fragilizada. Com tantos empecilhos à figura feminina de se colocar como autoridade em um assunto, com tantas dificuldades em aceitar uma opinião limpa e sem juízo de valor vinda de uma mulher, esses entraves em lidar com a figura intelectual dela antes da aparência, conquistar espaços de valorização real e profissional é uma batalha diária e árdua.

E como isso reverbera nas nossas criações artísticas?

Tenho pensado muito sobre os lugares que ocupamos na nossa área. Quando se pensa em grandes nomes da dramaturgia, por exemplo, a lista é majoritariamente ocupada por homens. Nessa edição do Festival de Teatro de Curitiba de 2018, a curadoria (composta por homens) selecionou 29 espetáculos para compor a programação da Mostra Oficial. Desses, apenas 5 espetáculos (A Ira de Narciso, de Yara de Novaes; Se o Título Fosse um Desenho Seria um Quadrado Em Rotação, de Eleonora Fabião; Salomé, de Carolina Meinerz; Denise Stoklos em Extinção, de Denise Stocklos e Grande Sertão: Veredas, de Bia Lessa) eram dirigidos por mulheres. Em porcentagem, 17,24%. E adivinhem quantas dessas eram negras? Zero. Em 2017, carregando como eixo temático “Mulheres e Identidade”, essa mesma curadoria selecionou 32 espetáculos. Dessa vez, os números são mais felizes: 13 espetáculos dirigidos ou concebidos por mulheres (Nelson Rodrigues Por ele mesmo, concebido e dirigido pela própria Fernandona; Mart’nalia e banda, pela própria; 7 Conto, de Ingrid Guimarães; E Se Elas Fossem Para Moscou?, de Christiane Jatahy; Involuntários da Pátria, de Sonia Sobral e Fernanda Silva; Macumba: Uma Gira Sobre Poder, de Fernanda Julia; Mata Teu Pai, de Inez Viana; Nossa Senhora da Luz, de Raquel Castro; Olympia e o Que Podemos Dizer de Pierre, de Vera Mantero; Palavras Gestuais, de Denise Stocklos; Para que o Céu Não Caia, de Lia Rodrigues; Quando Se Calam os Anjos, de Nicole Vanoni; Roque Santeiro, de Debora Dubois). E mesmo falando de uma seleção focada em mulheres, não temos nem 50% dos espetáculos selecionados dirigidos por mulheres. Mais especificamente, 40,63% dos espetáculos. Esse pensamento é sintomático e real. Mulheres precisam conquistar espaços a duras penas, em situações que são muito mais fáceis e acessíveis à homens. E quais são as soluções?

O mercado de trabalho para atrizes é muito cruel. Para mulheres, não se exige apenas talento. É preciso ter talento, beleza, corpo dentro dos padrões estéticos. Não nego que existe sim um padrão que se espera dos homens também, mas aí voltamos na questão referente às prisões estéticas. Com perdão à interrupção do fluxo lógico, aproveito pra fazer mais uma citação à Naomi:

Durante a última década, as mulheres abriram uma brecha na estrutura do poder. Enquanto isso, cresceram em ritmo acelerado os distúrbios relacionados à alimentação, e a cirurgia plástica de natureza estética veio a se tornar uma das maiores especialidades médicas. Nos últimos cinco anos, as despesas com o consumo duplicaram, a pornografia se tornou o gênero de maior expressão, à frente dos discos e filmes convencionais somados, e trinta e três mil mulheres americanas afirmaram a pesquisadores que preferiam perder de cinco a sete quilos a alcançar qualquer outro objetivo. Um maior número de mulheres dispõe de mais dinheiro, poder, maior campo de ação e reconhecimento legal do que antes. No entanto, em termos de como nos sentimos do ponto de vista físico, podemos realmente estar em pior situação do que nossas avós não liberadas. (WOLF, Naomi, O Mito da Beleza)

É inevitável não pensar em como isso reverbera nas artes. Quando uma mulher não cumpre com os pré requisitos normativos estéticos (principalmente se atriz), ela perde oportunidades de trabalho. Com isso, sua autoconfiança e autoestima também são abaladas, por consequência sua força de vontade de continuar. Tenho uma amiga atriz que tem uma teoria interessante sobre a desenvoltura corporal e espontaneidade de interpretação dos atores homens em relação à atrizes. De acordo com a teoria dela, uma vez que homens sempre tiveram seus corpos mais libertos e suas questões pessoais de gênero mais bem-resolvidas, isso faz com que eles sejam muito mais seguros e por consequência, “melhores atores” (entre aspas, porque bem sabemos do quanto isso é relativo). Pra mim, essa lógica tem muito sentido. Se seu corpo não é tolhido desde a mais tenra infância, é lógico que sua disponibilidade corporal vai ser maior. E por consequência, as possibilidades se abrem mais facilmente. Mas claro, é só uma teoria, sem nenhuma base científica.

Corpos que fogem do altíssimo padrão estético recorrente são corpos dissidentes. E para corpos dissidentes, os espaços que há são os de questionamento e militância. Maravilha, queremos mesmo questionar e militar, certo? A questão é que o corpo padrão é na verdade a exceção à regra. E demanda esforços dos mais variados. O corpo dissidente feminino não é uma raridade, mas sim a estrutura da maioria dos nossos corpos, do manequim 44 ao 60+. Estamos falando de um universo muito amplo, que inclui muitas mulheres, ou melhor, que as exclui pra um lugar de margem, quando na verdade essa margem está lotada. E por que isso acontece?

Mas para além do estético, esse lugar de exclusão também está nos espaços que, essencialmente, a aparência não faz diferença. E aí falamos não de determinado padrão de mulher em detrimento à outro, mas na predileção óbvia por figuras masculinas em relação às femininas. O quão cruel é pensar que levamos isso, muitas vezes subjetivamente, para nossos espaços de trabalho e criação? Faço um desafio a todos nós, colegas artistas. Vamos pegar as fichas técnicas de nossos trabalhos nos últimos anos. Nossos e dos nossos colegas. Qual a porcentagem de mulheres nessas fichas? Quantas fichas técnicas levam mulheres nas funções de iluminação, sonoplastia, dramaturgia? E mais: dessas, quantas são negras? A verdade é que o problema não está lá longe, nos meios televisivos ou no eixo Rio-São Paulo. Começa aqui, no quintal de casa, na nossa própria obra.

Essa dificuldade em agregar mulheres e pensar nelas como primeira opção para qualquer função ainda é reflexo de uma estrutura patriarcal muito bem desenvolvida, que coloca a mulher, no senso comum, como uma figura de desequilíbrio emocional e de pouca força física. Quantas vezes não ouvimos o argumento de que “deve estar na TPM” quando uma mulher se posiciona? Quantas vezes uma mulher é chamada de histérica quando perde a paciência? Quantas vezes escutamos até mesmo de outras mulheres que é muito mais fácil trabalhar com homens? E o mito de que mulheres não podem ser verdadeiramente amigas, mas sim sempre rivais? Por mais conscientes que sejamos do absurdo dessas afirmações, elas povoam nossa existência desde muito cedo. E estão aí, o tempo todo.

Na minha opinião, existem duas soluções possíveis: 1) contratemos mais mulheres, valorizemos mais o trabalho feminino, enxerguemos a necessidade de valorização do trabalho e talento de todas as mulheres incríveis que estão ao nosso redor. E 2) criação de espaços. Há um tempo já tenho estabelecido para mim a importância de trabalhar e empoderar mulheres, em todas as áreas. É imprescindível que tenhamos espaços de segurança, onde nossas criações e potências sejam valorizadas entre nós. Sem o medo e o receio de passar pelo aval de um homem ou de ter seu espaço tolhido pela presença masculina. Precisamos criar nossos espaços para nos ouvirmos e termos voz. É preciso pensar numa arte que questione, que introduza e que movimente o assunto e o fluxo da mulheridade. Para além do feminismo enquanto pauta política (será? Tudo que fazemos é política afinal de contas), estimular a criação artística feminina é movimentar um espaço dominado por homens. Enquanto curadores, debatedores, críticos e programadores continuarem sendo majoritariamente homens, é óbvio que todas as programações serão dominadas por homens. Por quanto tempo mais teremos que lutar para ter nosso trabalho reconhecido?

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Clarissa Oliveira é atriz, produtora cultural, feminista, vegetariana, Áries com ascendente em Áries. Formada em Bacharelado em Artes Cenicas pela Faculdade de Artes do Paraná e especialista em História da Arte Moderna e Contemporânea pela EMBAP. Gosta de música, toca violino, atabaque, um pouquinho de baixo, ganhou um Gralha Azul por Melhor Composição Musical pelo espetáculo Macumba: Uma Gira Sobre Poder. Atualmente é sócia do Projeto Z junto com Nina Rosa Sá, mas antes disso foi sócia da Companhia Transitória com Thiago Inacio e Erick Alessandro. Também já foi artista Selvática e antes disso fez parte do Grupo de Investigação Cênica Heliogábalus. Acredita no feminismo como ferramenta de luta, arte e vida. Não sabe se gosta mais de atuar ou produzir, mas sabe que seu negócio é o teatro.

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Projeto Macumba – Para além das poéticas cênicas, concepções estéticas, linguagem e do troféu Gralha Azul

Por Thiago Inácio

 

O dever de um artista pelo menos com a minha preocupação é o de refletir os tempos.
Eu acho que é verdade para pintores, escultores, poetas, músicos, no que me diz respeito,
é a escolha deles, mas eu escolhi refletir os tempos e as situações nas quais eu me encontro,
pra mim é o meu dever e nesse tempo crucial em nossas vidas, quando tudo
é tão desesperador, quando todo dia é uma questão de sobrevivência,
eu acho que é impossível você não se envolver […]
como você pode ser um artista e não refletir os tempos?
(Nina Simone)

 

A quem se presta a arte? Qual é o papel do artista? A Companhia Transitória, desde sua fundação, se prestou a mesclar e a transitar entre discussões e inquietações artísticas provocativas que pudessem de alguma forma refletir sobre nossos tempos. De lá para cá, nos aventuramos em questões de gênero, sobre violência e assassinatos, fizemos um ensaio fotográfico sobre a invisibilização do ser humano transformado em números, passando por relações familiares, pelo vazio existencial, até chegarmos nas questões ligadas à negritude.

Encontrar um caminho possível de linguagem, poéticas cênicas, concepção estética vem sendo uma busca dentro das proposições artísticas do grupo. O princípio de trabalho é a procura de parcerias com profissionais da área para a troca de experiências, ideias, conceitos e práticas relacionadas ao fazer teatral. A companhia subverte a lógica tradicional, onde a figura do diretor convida os artistas para sua criação, e realiza o caminho inverso, onde convida o diretor e os artistas que se encaixam com a proposta dos seus projetos artísticos de acordo com a temática pesquisada.

Outro foco de pesquisa do grupo é o estudo, a exploração e a ocupação do espaço cênico, levando em conta as relações entre espaço/ator/espectador. O grupo trabalha a partir de processos colaborativos, nos quais articula uma horizontalidade das funções dos profissionais envolvidos sem, com isso, eliminar as especificidades da área de cada um. A pesquisa se estende também para a relação com o espaço (mundo) interno e externo; o alerta máximo para a compreensão da ação; a valorização do corpo como ferramenta tão importante quanto o espaço na aventura do intérprete; e, por fim, a importância do não saber para criar, do caos para organizar e a importância da atitude permanente de jogo, sendo esses alguns dos temas perseguidos por todos num clima de mútua provocação.

Como deixar de ensaiar o “teatrinho de escola” e realizar uma proposição artística que comunique, dialogue com o público e de fato contribua para a sociedade com o discurso dessa obra de arte? Foi quando paramos de nos preocupar com o “fazer” artístico em si e nos voltamos para “quem” estávamos fazendo que encontramos nossa identidade.

O espetáculo “Macumba: Uma gira sobre poder”, com direção de Fernanda Júlia, encenadora do NATA – Núcleo AfroBrasileiro de Teatro de Alagoinhas, foi contemplado pelo Bolsa Funarte de Fomento aos Artistas e Produtores Negros 2014, na categoria de Artes Integradas, e também com o 4º Prêmio Expressões Culturais Afro BrasileirasPrêmio Afro 2017, na categoria Artes Cênicas.  A peça estreou em Curitiba, na Sociedade Operária Beneficente 13 de Maio, clube fundado por negros libertos no final do século XIX e de grande contribuição ao movimento de identidade negra em Curitiba, sendo o segundo clube mais antigo do país.

O espetáculo fez temporada de 12 e julho a 04 de agosto de 2016 fora do “métier” habitual do edifício teatral convencional e dos dias tradicionais, realizando apresentações de terça à quinta-feira. Voltado ao público negro e à comunidade periférica e de movimentos sociais, o trabalho teve 80% de sua bilheteria gratuita, fazendo com que a comunidade viesse até o centro para prestigiar a produção. Tamanha a repercussão, o espetáculo foi selecionado pela curadoria de Guilherme Weber (Sutil Cia) e Márcio Abreu (Companhia Brasileira de Teatro) para integrar a programação da Mostra Oficial do Festival de Teatro de Curitiba 2017, demonstrando que as curadorias estão ficando cada vez mais antenadas no que o teatro quer e precisa refletir: os nossos tempos! No entanto, no panorama brasileiro, ainda é nítido que a programação com espetáculos que abordam a temática da negritude ou que contenham artistas negros em suas grades de programação é muito tímida, haja vista a polêmica envolvendo a programação do FIT-BH – Festival Internacional de Teatro, Palco & Rua de Belo Horizonte, em 2016, onde entre as 70 atrações não havia nenhuma que contemplasse o teatro negro. Daí a importância do negro ocupar cada vez mais os espaços midiáticos, em curadorias, crítica, como mediadores de cultura etc..

É difícil produzir arte? E quando falamos de arte negra? Um processo artístico de ação afirmativa, em meio a nossa até então vigente e frágil democracia, é algo de extrema importância que ultrapassa o fazer artístico e entra no campo da representatividade. A dificuldade dos produtores e artistas negros e o escasso protagonismo das negras e negros permeia vários setores da sociedade, e não é diferente dentro das manifestações artísticas. Nesse contexto, a ausência do negro significa também a indiferença e exclusão da cultura negra em meio à majoritária produção artística de pensamento e olhar eurocentrado que é produzida em Curitiba.

A exemplo do Festival de Teatro de Curitiba, outras mostras se demonstram preocupadas em refletir os nossos tempos, abandonando velhos formatos. Um exemplo disso é a Mostra Cenas Breves (2017), que deu conta em sua grade de programação de abranger um leque de opções de representatividade muito contundente com a atual conjuntura. Podemos citar também a Mostra Novos Repertórios (2017), que convidou o espetáculo “Macumba: Uma gira sobre poder” para fazer parte de sua programação após uma revisão da curadoria, 100% branca, sobre a ausência do teatro e artista negro em sua grade.

O trabalho da Companhia Transitória era um dentre outras opções de artistas negros refletindo sobre a negritude, e aqui se faz necessário registrar os nomes da nossa cena, como: Geisa Costa, Isidoro Diniz, Simone Magalhães, Cleo Cavalcantty, Aline Fuá, Bea Gerolin, Carla Torres, Janine Mathias, Pretícia Jerônimo, Pri Pontes, Leonardo Cruz, Brenda Santos, Kátia Drumond, Inês Drumond, Dermeval Silva, Iria Braga, Michele Mara, Marcel Szymanski, Loara Gonçalves, Matheus Moura, Taciane Vieira, Ronald Pinheiro, Gilmar Rodrigues, Cássia Damaceno, Cássia Gomes, Pedro Ramires, Sol do Rosário, Dayane Paixão, Geraldo Magela, Marcyo Luz, Frank Souza, Dekka Santos, Mariane Filomeno, Aline Alexandre, Stênio Soares, Gabriela Reis, Constânia Matos Netto, Tulio Borges, Kariny Martins, Helmann Padilha, André Daniel Guarani-Kaiowá, Washington Silveira, Nelson Sebastião, Waltel Branco, Saul Trumpet, Tiaguera Nunes, Kanêga Santos, Lu Soares, Adriano Carvalhaes, Miriane Figueira. Esses nomes destacam um breve levantamento realizado em post via Facebook, no dia 09 de junho de 2017, buscando um mapeamento mais próximo possível da realidade da cena artística negra da cidade.

A construção do espetáculo “Macumba: Uma gira sobre poder” congregou uma conjunção de acontecimentos. O primeiro deles foi a mudança na trajetória artística da companhia, voltando-se para questões ligadas à negritude ao compreender as dificuldades e situações de invisibilidade da comunidade negra curitibana, o que originou o PROJETO MACUMBA, de 2013 (ano de concepção do projeto) até 2016 (ano da estreia do espetáculo), pesquisando no cenário artístico da cidade ações que visavam fortalecer não só a discussão, mas também a arte negra em Curitiba e estender para além da capital o fortalecimento deste discurso.

O projeto configurou-se como uma ação afirmativa e buscou dar voz e visibilidade aos artistas negros para que ocorresse uma constante troca e se fizesse visível esta capacidade transformadora e de combate incansável contra o racismo e pelo reconhecimento dos valores das culturas negras na sociedade brasileira contemporânea, demonstrando o empoderamento da mulher e do homem negro como pontos positivos. Levar ao público as manifestações dessa cultura em diferentes vertentes artísticas foi e é, para nós, mais do que um interesse, mas uma necessidade, haja vista a pouca visibilidade do teatro negro na cidade – e não por falta de artistas negros, como mencionado anteriormente.

Hoje celebramos este espetáculo como um projeto perene e de importância ímpar para nossa cidade, estado e país. Mas nada disso seria possível sem os artistas e profissionais que deste projeto fizeram e fazem parte. São profissionais que acreditaram e embarcaram sem medo, com o coração aberto, e se entregaram de corpo e de alma a um ideal, a um pensamento, a um discurso, a um posicionamento. A começar pela diretora e dramaturga do espetáculo e o assistente de direção, Fernanda Júlia e Dominique Faislon, que se deslocaram da Bahia para enfrentar um inverno curitibano e realizar esse intercâmbio entre nordeste e sul.

Fernanda Júlia é Yakekerê (mãe pequena) do Ilê Axé Oyá L´adê Inan na cidade de Alagoinhas, bacharel em Direção Teatral da Escola de Teatro da UFBA, mestre em Artes Cênicas pelo Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas – PPGAC – UFBA, com a dissertação “Ancestralidade em cena: Candomblé e Teatro na formação de uma encenadora”. É diretora fundadora do NATA – Núcleo Afro brasileiro de Teatro de Alagoinhas, fundado em 17 de outubro de 1998, na cidade de Alagoinhas (Bahia), e também é dramaturga, educadora e pesquisadora da cultura africana no Brasil com ênfase nas religiões de matriz africana o Candomblé e atualmente doutoranda da UFBA.

Fernanda Júlia foi mais que uma diretora artística e dramaturga neste processo – foi uma mentora, guru, uma divindade ancestral que soube costurar todos os desejos, anseios, medos e inseguranças de um grupo com personalidades tão diferentes, com uma negritude que precisava ser externada artisticamente. E como trabalha a partir do teatro ritual, nos proporcionou todas as técnicas trabalhadas em seu grupo, como os rituais instauradores, ativação do movimento ancestral e o poeirão cênico, ao mesmo tempo em que colocava em prática sua dissertação de mestrado. A vivência dos rituais instauradores do fogo, da terra, do ar e da água foram nosso pedido de permissão às divindades para a construção do espetáculo.

Fernanda soube ouvir o que o trabalho pedia – no caso, o que Exu orientou –, e a resposta estava no que o próprio grupo gostaria de expressar. Ela teve a sensibilidade e compreendeu que essa obra de arte tinha muito mais a dizer para a cidade do que imaginávamos. As discussões de processo sempre nos levavam a entender que a dimensão deste trabalho e a responsabilidade eram muito maiores do que concebíamos em um primeiro momento. Porém, nada disso seria possível sem a comunhão e a entrega das atrizes Flávia Imirene e Tatiana Dias e do ator Gide Ferreira, além deste que vos escreve, Thiago Inácio.

Elenco (da esquerda para a direita): Thiago Inácio, Tatiana Dias, Gide Ferreira e Flávia Imirene – Macumba: Uma gira sobre poder – Questões ligadas a negritude

Trouxemos para o processo questões para além do artístico – éramos artistas com nossas dores e cicatrizes expostas em sala de ensaio, provocados pela direção, o que trouxe um texto que estava entalado em nossos âmagos. Pois o racismo é estrutural e está presente em nossa sociedade, e ser negro é mais do que a melanina em minha pele ou o meu cabelo, é o empoderamento de ambos. É resistência. É um ato político. São todas as marcas ancestrais que habitam em mim. Em todos os preconceitos sofridos. Foi a partir deste espetáculo que resgatei a minha ancestralidade que permeia minha trajetória como artista negro, pai de santo, mestre sala e toda a herança cultural que a mim pertence e faz a história do nosso país.

Ainda no que tange a equipe e a construção do processo, a música permeia todo o trabalho. Uma das características do teatro negro, trazidos por Fernanda Júlia, é que não se desassocia o que é teatro, o que é texto, o que é dança e o que é música. Tudo faz parte de uma coisa só, e para que isso pudesse acontecer os músicos desse projeto foram fundamentais. Em um espetáculo da magnitude do Macumba e a falta de um orçamento ideal, os integrantes deste projeto se desdobraram para além das suas funções – a produtora virou musicista e entrou em cena, o produtor executivo virou diretor musical, e junto ao percussionista se formou o coração que pulsa o espetáculo. Assim foi com os artistas Clarissa Oliveira, Erick Herculano, Matheus Santos e a nossa “Macumba Band” que contou com o respaldo de Dominique para a sua organização e execução. E para que tudo isso pudesse ter uma harmonia que também se transformasse em texto, tivemos algumas alternâncias na composição musical do espetáculo onde três das músicas que compõem o trabalho tiveram composição do ator Gide Ferreira. Essa grande orquestra nos rendeu o Troféu Gralha Azul 2016/2017 de melhor composição musical, além da indicação de melhor espetáculo.

Banda – Macumba: Uma gira sobre poder – Gide Ferreira (flauta); Erick Herculano (guitarra); Matheus Santos (percussão centro) e Clarissa Oliveira (percussão).

Este projeto é um divisor de águas em nossas histórias. É um marco histórico na produção cultural curitibana e brasileira. Este espetáculo é apenas o pontapé inicial para o realce da importância da cultura afro-brasileira dentro do contexto sulista, onde não é tão difundida. Com colonização majoritariamente europeia, a região Sul tem uma grande dívida de reparação no que diz respeito a essa cultura; prova disso é o fato do Dia da Consciência Negra não ser feriado por aqui como acontece em estados como Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo.

Apresentar o espetáculo em Curitiba, litoral e interior do Paraná foi uma forma de contribuir com o histórico cultural do povo negro na região. Entender as primeiras manifestações culturais afro-brasileiras na região sul é a melhor forma de aproximar essa cultura da grande população. De acordo com pesquisas do IBGE, 23% da população de Curitiba é composta por negros, que carregam consigo seu histórico, compondo o panorama cultural da cidade. Assim como os povos de origem europeia celebram e buscam suas bases colonizatórias, o Projeto Macumba tem por intuito a busca da ancestralidade, da afirmação e da representatividade e ocupação de espaços midiáticos relevantes, firmando a importância de visibilidade da negritude na sociedade e na arte  para refletir sobre esses tempos.

Making Of do espetáculo: Macumba Uma gira sobre poder:

Macumba: Uma gira sobre poder – 4º Prêmio Expressões Culturais Afro-Brasileiras – Prêmio Afro:

 

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Thiago Inácio possui formação acadêmica em Bacharelado em Comunicação Social – Jornalismo pelas Faculdades Integradas do Brasil – Unibrasil (2006) e em Artes Cênicas – Bacharelado em Interpretação pela Faculdade de Artes do Paraná – FAP (2010). Realizou o curso de Especialização em Políticas e Gestão Cultural da Universidade de Girona (Espanha) e Itaú Cultural em São Paulo no ano de 2014/2015. É integrante-fundador da Companhia Transitória de Curitiba. Em produção cultural faz parte da equipe do Festival de Teatro de Curitiba desde 2004, sendo responsável pela criação e curadoria da Mostra Coletivo de Pequenos Conteúdos em seis edições (2009 a 2014). Também foi produtor da Mostra Baiana, no Fringe, em 2013 e 2014. Já trabalhou com os diretores teatrais Fernanda Júlia, Amauri Ernani, Ana Paula Frazão, Edson Bueno, Giorgia Conceição, Laércio Rufa, Luciana Schwinden, Márcio Mattana, Nadja Naira, Sueli Araújo, Mariana Zanette, Dimis Jean Sores entre outros. Foi produtor de um dos mais antigos grupos de teatro de Curitiba: o Grupo Delírio de Teatro do diretor Edson Bueno. Prestou serviços a Fundação Teatro Guaíra junto ao setor de produção sob a coordenação do produtor Áldice Lopes. Desenvolve trabalho de gestão de projetos culturais junto a Parnaxx LTDA responsável pelo Festival de Teatro de Curitiba. Pela Caixa Cultural foi produtor local do espetáculo teatral “A Tecelã” do grupo a Caixa do Elefante na Caixa Curitiba em 2012. Foi produtor executivo do projeto de música “Cante com o Peixonauta” em 2013/2014 na circulação da Caixa Cultural etapa Salvador e Fortaleza e diretor de palco do espetáculo de dança “Borbulho” da Chamecki & Lerner Cia de Dança na circulação da Caixa Cultural em 2013 e 2014 nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza. Realizou a produção local da exposição “Brinquedos feitos à mão – Coleção Saluá Chequer” na Caixa Cultural Curitiba em 2014. Foi Delegado Setorial da Área de Teatro nas consultas públicas da implementação do Sistema Municipal de Cultura de Curitiba no processo de adequação ao Sistema Nacional de Cultura e gestor de projetos para a Fundação Cultural de Curitiba – Instituição Pública de Cultura. Em 2015 foi parecerista técnico da área de Artes Cênicas (Teatro – Dança – Ações de capacitação e treinamento de pessoal) para análise de projetos da lei Rouanet do Ministério da Cultura. Produziu em 2016 o show de abertura do Festival de Teatro de Curitiba com a artista Maria Bethânia na apresentação do trabalho “Bethânia e as Palavras” e também os espetáculos da Mostra Oficial no espaço Teatro Ópera de Arame. Em 2017, ainda pela Mostra Oficial de Teatro de Curitiba, foi o produtor do espaço Auditório Salvador de Ferrante – Guairinha. Foi o proponente do Projeto Macumba, projeto de Artes Integradas contemplado com o Bolsa Funarte de Fomento ao Artista e Produtores Negros 2014 que originou o espetáculo “Macumba: Uma gira sobre poder” também contemplado com o 4º Prêmio Expressões Culturais Afro-Brasileiras – Prêmio Afro, prêmio nacional que valoriza a cultura afro brasileira.
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desenhar com garras o que não se pode com as mãos

por Janaina Matter 

 

não sei desenhar

 

se soubesse faria aqui um desenho

 

seria algo mais ou menos assim:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

mas não sei desenhar para dar ideia do que seria, como seria

 

talvez por isso eu só desenhe com gestos, com palavras, com trajetórias

se desenho é sobre luz e sombra sobre o que é teatro?

sobre luz e sombra

sobre o que se vê e o que não se vê

sobre presença

sobre ausência

estar imóvel ou movimentar

desenhar no espaço, ainda que seja um ponto, imóvel, que move por dentro e ninguém vê

 

com o tempo descobri a dimensão do investimento energético que se demanda de uma atriz para caminhar de um ponto a outro com consciência absoluta de toda e cada parte do percurso, no momento presente…

 

falhei quase todas as vezes, se não todas

 

é na busca é na busca que está a magia é no trajeto no processo no caminho não na chegada digo e repito para mim mesma querendo aceitar que o resultado é consequência e nada mais e como fazer o processo presente como abraçar todo o trajeto e repetir todos os dias a sua magia parte dela toda ela um respiro que seja de inteireza uma única fagulha do que despertou tudo isso e ainda assim agarrar cada dia diferente o mesmo ímpeto criativo e fazê-lo presente de novo em cada instante renovar ressignificar brincar manipular como se fosse todo meu e como se soubesse o que fazer com isso todo dia como se soubesse do início como se soubesse do fim como se do medo pudesse dar conta como se da angústia pudesse extrair calma e deleite como se da incerteza brotasse coragem como se de fato estivesse no corpo a resposta para tudo que há como se todas e todos que estão ali quisessem ouvir pudessem ouvir como se todas e todos que estão aqui quisessem ouvir pudessem ouvir como se eu quisesse ouvir pudesse ouvir

 

 

 

 

 

meus ouvidos estão tampados há quase um ano.

Não tampados realmente, mas tem um zunido constante, que percebo quando me deito para dormir, quando os sons já não se ocupam de me distrair do zunido, constante. É certo que durante o dia todo ele está a zunir, mas eu não escuto. Não escuto o que se passa dentro do meu próprio ouvido. O que eu não quero ouvir, não posso ouvir

 

 

É sobre escuta, teatro

 

 

 

 

 

 

É uma revolta não violenta

Me falou Eugenio Barba numa residência artística recente que fiz com ele e Julia Varley, uma enorme atriz

Desses encontros que mudam algo, não sei o que ainda, mas mudam

 

não acredito em violência e isso não é suficiente para que eu não seja agressiva…           às vezes

 

 

não acredito em discursos e isso não é suficiente para eu não estar aqui colocando em palavras o que não pode ser desenhado

como se explica o tigre senão com sua imagem?

E há os que não veem

Como se toca o tigre senão o doparem?

 

 

Sobre o que? Sobre o que eu quero falar?

Quero falar?

Sob o que?

Posso falar?

Um processo é sobre ter questões e estou cheia delas. Em todos os sentidos cheia delas

A mulher escreve a partir de um ponto de vista pessoal me disse a Julia Varley, e por isso o que ela escreve não é recebido com a mesma seriedade, não tem no seu texto aquela suposta qualidade universal que tem os textos dos homens, já que são homens e assim sendo representam a universalidade do ser humano, que é, em penúltima instância, “o homem”. Penúltima porque em última…

 

Ser atriz não é ser ator

Ser atriz é ser caos

 

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Janaina Matter é atriz e diretora artística da Súbita Companhia de Teatro. Formada em Psicologia pela UTP/PR em 2002 e em atuação e direção pelos Cursos Livres de Teatro Pé no Palco. É cofundadora da Súbita Companhia, na qual atuou em todos os espetáculos.  Desde 2009 se dedica ao estudo da fisicalidade em cena e dramaturgia do gesto. Tem formação nos treinamentos Viewpoints, Suzuki e Composição de Cena, sob orientação de Anne Bogart e os integrantes da SITI Company (Nova York/EUA).  Em 2015 participará do treinamento intensivo com Tadashi Suzuki e a SCOT Company em Toga, Japão. Ministra oficinas e cursos de aprimoramento para pré-profissionais e profissionais do teatro e desenvolve pesquisa de orientação e direção de atores vinculada ao projeto Plataforma – núcleo permanente de pesquisa da Súbita Companhia, que acolhe artistas interessados em pesquisa cênica e treinamentos. Em 2014 compôs a Comissão Julgadora do Troféu Gralha Azul, 35ª edição em Curitiba, PR. Os espetáculos mais recentes criados pela Companhia incluem “Câmera Escura” (2014), “Extraordinário Cotidiano” e “Amores Difíceis” (2013), “Porque não estou onde você está”, pelo qual foi indicada ao Troféu Gralha Azul de melhor atriz em 2012. É também pesquisadora de interpretação para cinema e já integrou elenco de diversos curta-metragens, sendo os mais recentes “Coração de Congelador”, direção de Carol Winter 2014 e “Coração Magoado”, direção de Juliana Sanson em 2012.

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Notas e processos de criação

por Vivaldo Vieira Neto

“Não há solução porque não há problema.”

Marcel Duchamp

 

Este texto procura apontar algumas questões referentes ao processo que venho vasculhando há algum tempo referente à concepção e criação em estética. Não é de forma alguma um texto que se pretende ser exato, muito longe disso, são algumas pequenas notas, exemplificações ora fenomenológica, ora empírica. São anotações que vamos deixando pelo caminho, notas que vão se acumulando pelos cantos e que nos fazem pensar nesse processo criativo, de como enxergamos o mundo, nos processos de transformação de problemas de ordem objetiva em questões subjetivas. Para exemplificar certas questões, no presente texto, muitas vezes temos que recorrer há pobreza das metáforas, é inevitável essa fuga para podermos materializar certas ideias e pensamentos. Não vejo outro caminho senão recorrer à estética e nas suas inter-relações política e social.

Criar é se perder. É se permitir ao fracasso e às vezes ao êxito. Para Deleuze o ato de criação não se dá pelo prazer, mas pela necessidade. Necessidade de subjetivação do mundo, de expressão, de materialização de pensamentos em estética. E de onde surge essa necessidade? Talvez pela inquietação e observação, o olhar atento ao que nos circunda, quando certas questões nos parecem insólitas, desconexas, quando o mundo se torna insuportável; criamos. É a tomada de uma consciência, consciência está aprisionada a um corpo, atravessado por um mundo, corpo este moldado por uma sociedade e pela cultura, um corpo que se torna uma película entre minha consciência e o mundo. Corpo nômade que sempre deve ser questionado e por vezes superado, é através dessa inter-relação consciência-corpo-mundo onde a subjetivação se dá, por esses espaços vazios entre a observação e o pensamento, são fagulhas, insights, onde a busca por algo, quase nunca sabemos o que é, se faz necessário.

A produção em arte é um exercício da liberdade, tanto como a liberdade de pensamento como uma postura diante da sociedade, é se permitir a experimentação, principalmente das linguagens. E como construir esse processo criativo dentro dessas linguagens? Pensando nesses processos de criação, de como sair de uma ordem objetiva para uma abstração da ideia cheguei a um processo de criação, não é de forma alguma um método e nem uma regra, mas uma forma de como visualizo, imagino.

A primeira imagem que me ocorreu foi uma ideia de embaçamento; uma forma de deslocar o objeto, de não ter muita certeza do que está sendo visto, certa dúvida com relação ao que está sendo colocado, algo um pouco distante onde os contornos se diluem. Mas essa ideia de embaçamento ainda estava muito ligada apenas à visão, ainda não dava conta de todo o processo. A segunda imagem foi uma ideia de escurecimento; como se noite tomasse conta do mundo, onde o objeto é apenas um vulto, são necessários outros sentidos pra nos localizarmos diante do pensamento, a distância entre o observador e o objeto se constrói de outra forma, é preciso mais cuidado ao se deslocar para não esbarrarmos, a visão é um mero acaso, outros sentidos são necessários, nos perdemos no espaço, tudo se torna inseguro, insólito. Mas ainda não era isso, o processo de criação é ainda mais abrangente; foi quando me venho uma terceira ideia, a ideia de afundamento.

É como se pulássemos de um penhasco em direção ao mar, nos afundássemos nesse meio aquoso, saíssemos de nosso habitat natural. Quando o corpo é envolto por esse líquido, a visão se torna turva, o som é algo distante, a pele experimenta em toda sua extensão o meio onde está inserida, o chão é uma utopia, é preciso se movimentar para sobreviver, o gosto se torna amargo e o ar um privilégio. É preciso voltar à superfície para respirar, o ato criador seria esse limiar entre a sobrevivência e o afundamento, a tomada da consciência por um instante no meio desse caos, em busca de uma ilha mais próxima e o esforço para alcança-la, como as linguagens é preciso conhecê-las, explora-las, chegar até suas bordas para que seja possível visualizar outras ilhas/linguagens e se jogar ao mar novamente, fazer a travessia, num processo constante de luta, resistência. Segundo Malraux; a arte é a única coisa que resiste à morte. Trazendo essas ideias para o campo da estética; seria como se tirássemos o objeto de seu contexto original, um exercício de deslocamento, como se trouxéssemos a superfície novos significados e leituras possíveis, o título dado como uma forma de dúvida com relação ao que está sendo exposto, um constante questionamento, uma mão dupla, algo que vem e vai incessantemente criando um atrito entre o objeto e o público, é desses atritos que o pensamento se desloca para outras formas de como vemos as coisas. É nesse processo constante de conhecimento e exploração que tomamos o arquipélago, é estarmos isolados nessas ilhas, mas almejando o continente.

Independência ou sorte _ 2017

Pintura sobre tela sobre prédio em fase de restruturação_ Alfaiataria

A fabulosa rádio Tramontina_2017

Trabalho em parceria com Elenize Dezgeniski _ Alfaiataria

Adestramento _ 2014

 

Irmãos Siameses _ 2015

 

Campanha eleitoral _ 2016

Registro: Tuca Kawai

 

Fase de crescimento _ 2015

Check up _ 2003

 

Apropriação indébita _ 2014

Este vídeo é o registro de uma performance, a partir da apropriação da ideia do vídeo “Eat” de Andy Warhol. Sendo que está lata de sopa Campbell’s fora furtada por mim na Rede de Supermercados Mercadorama, por isto o título: Apropriação Indébita. O vídeo é o resultado final desse conjunto operacional: apropriação/furto + preformance + vídeo. Gostaria de aproveitar este espaço para agradecer, desde já, a Rede de Supermercados Mercadorama por este “patrocínio” e pelo “apoio as artes”.

Aulas de inglês _ 2015

 

Cinema de utilidade pública _ 2015

Site specific _ SESI Arte Contemporânea

Série: Queima de estoque _ 2017

 

 

Fila de espera _ 2016

 

Terapia de casal _ 2017

Sites:

https://vivaldovieiraneto.wordpress.com/

https://spamdirecionado.wordpress.com/

https://radiotramontina.wordpress.com/

Vivaldo Vieira Neto

Formado em escultura pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Com interesse no estudo das linguagens,  nas suas inter-relações e hibridismos.  Sua pesquisa atual “O corpo mediado por coisas e outras meios” busca investigar o lugar da performance e nas suas relações com o meio e espaço através de fotografias, instalações,  vídeos e ações performativas.

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APEGOS E DESAPEGOS

Por Jo Mistinguett

 

 

Esse processo é constante. Aqui tudo sempre pode ser alguma coisa ou outra. Pode ser nada também. O silêncio e o vazio dizem muito.

 

O barulho é constante, tem até uma janela dupla. Deixa qualquer um maluco. 14 anos ouvindo esse mesmo som. E cada vez mais ele aumenta. É tipo um ruído constante, que nunca para.

 

Tudo vai apodrecendo, morrendo aos poucos. Aumentando aos poucos, mas pode ser secando aos poucos. Cada segundo é um processo. Agora já mudou de novo.

 

O estímulo anda com a vida e a morte. Mais com a morte. O apocalipse acontece desde que o mundo existe. É impossível não falar sobre ele. Tudo é apocalipse.

 

A parede mofa, a banana apodrece, o cocô do gato fede. É melhor a corrente de ar que se faz quando abre todas as janelas. Só que quando abre a janela, o barulho entra. Tem que sempre escolher entre o ar fresco ou o silêncio. A parede fica preta de fuligem. Todo dia tem que limpar alguma coisa.

 

Apegos e desapegos, insônia. Não há mais medo, e sim blindagens. Um corpo conformado por blindagens.

 

A velha de 85 anos já não sabe mais quando é o próprio aniversário. O velho de 73 anos mal consegue levantar da cama. A criança que era um bebê já diz frases completas. E o chorão que foi plantado, virou árvore. Será que ainda existe? O gato morreu. Dois gatos morreram.

 

A segunda filha tem o olho que mudou de cor por causa de um acidente. A terceira filha mal se vê. O filho caçula tem pensamentos capitalistas e quer o gozo que o dinheiro pode proporcionar. Os outros que deveriam estar velhos morreram antes de envelhecer.

 

Ainda tem gavetas vazias e um espaço desocupado.

 

O sangue fraco perde rubor. Não pode mais sangrar. Nem sabe por onde sangra. O zumbido no ouvido fica mais forte e se mistura com o barulho que vem de fora. Do lado esquerdo o zumbido é mais alto, e as vezes não se ouve o que falam. O barulho de fora pode ser bom porque camufla o zumbido. Mas daí é uma barulheira constante. Pelo menos entra o ar fresco quando não faz muito frio. Quando tá muito frio a janela fecha e só se ouve o zumbido dentro da cabeça. Do lado esquerdo. Sempre o esquerdo.

 

O lado esquerdo sempre foi o lado preferido. É refinado, delicado, emotivo.

 

 

 

 

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Transmutações de Ideais e Destruição Generalizada

Por Nina Rosa Sá

 

 

 

O que é um processo? Como as questões chave de uma pesquisa se estabelecem ou reestabelecem ao longo dos anos? Como uma pesquisa se torna obsoleta e se transmuta em algo completamente diferente? O que é arte? O que é política? E como essas coisas se relacionam para que seja possível chegar nos resultados a que me proponho atingir hoje?

Bem, não quero escrever um texto incrivelmente longo, não quero aqui escrever uma espécie de Minha Vida na Arte. Decidi traçar um histórico rápido e falar sobre a influência do cinema no teatro que eu escolhi fazer. Decidi, há muito tempo, que me interessava nublar fronteiras, traçar paralelos entre arte e entretenimento. E de uns tempos pra cá, ao lançar o Projeto Z, venho pensando sobre como é importante hoje forjar um tipo de arte que também seja política. Propondo um outro viés artístico, separando as artes ao invés de integrá-las ou nublar seus limites. A tônica dominante do meu pensamento é a questão da representação e da representatividade. O foco da obra é sempre na mulher, preferencialmente na mulher lésbica e/ou bissexual.

Mas isso é algo que se desenha lentamente. E que só vai chegar ao seu ápice, como objetivo de construção em 2016/2017, com um projeto de teatro feito exclusivamente por mulheres e tratando de questões de mulheres, reunindo artistas que tenham algum tipo de envolvimento com o feminismo. Esse projeto desemboca na cena Que Bom que Você Entendeu que Eu Estou tão Perdida Quanto Você.

 

 

que bom que você entendeu que eu estou tão perdida quanto você_ Mostra Cena Breve 2017. Foto: Melito Junior.

 

E antes disso tem um desdobramento para um pensamento sobre séries televisivas, com um projeto ainda não realizado de websérie que se transforma em série de TV, Antes do Fim, escrita em 2016 e ainda sem previsão de realização. Aí já existe um exemplo claro de como as coisas se separam com o surgimento do Projeto Z. Existem agora artes distintas a serviço de uma mesma coisa política. Mas elas não se misturam mais. O projeto de Antes do Fim é exclusivamente audiovisual.

Mas primeiro o teatro.

Comecei com essa história de teatro em 2003, de um jeito meio por acidente, meio atípico, que não é o centro da questão, então melhor deixar essa anedota pra outro momento. No período que passei na faculdade e logo depois disso, enfiei o pé na história da busca pela fusão entre arte e entretenimento. Por dois segundos eu achei que a tecnologia salvaria a arte. E que a intersecção possível com entretenimento dependia dela. Bobagem. A arte em si é um tipo de tecnologia.

Passei anos tentando e testando. Eu desenvolvi um pouco essa linha de pensamento com a Companhia Provisória, que fundei junto com outros artistas em 2004 e durou até início de 2009. Uma pesquisa de interseccionalidade. O que é entretenimento e o que é arte? Existe a possibilidade de uma obra ser as duas coisas? Alguns críticos – vários deles – insistiam em chamar aquele negócio que eu ainda estava tentando entender de entretenimento. E sempre havia um tom irônico, algo que dizia que isso era menor. Eu entendo purismo, eu sou purista em vários aspectos. Mas não acredito que a gente possa ou deva categorizar as coisas que dizem respeito à arte assim.

O que eu quero dizer é: O Poderoso Chefão é um filme incrível, uma obra artística potente e também é entretenimento de alta qualidade. Estou usando esse exemplo porque é o tipo de filme com o qual a minha obra não se relaciona explicitamente e a gente pode seguir em frente sem que eu tenha que dizer “é óbvio que não estou me comparando ao Coppola”. Acredito que seja impossível dizer que grandes filmes como Taxi Driver, Apocalipse Now, Annie Hall, O Iluminado e vários outros não sejam grandes obras de entretenimento. Eu indago se é possível dizer que não são também arte. Para mim – que olho pra Evil Dead e tenho certeza absoluta que aquilo é arte, que tenho certeza que a trilogia zumbi do George Romero é arte – é impossível.

Eu entendo o que as pessoas querem dizer quando falam em “Cinema de Arte”. E isso normalmente se relaciona com as escolas europeias de cinema. E sendo uma pessoa que ama o Godard e considerando sua obra como uma grande referência pro tipo de trabalho que eu quero fazer, eu entendo e até acato. E se o que Godard – e Truffaut e Chabrol e Resnais e todos os outros – está fazendo é um tipo de arte que só pode ser categorizada como cinema de arte, será que ela não pode ser considerada entretenimento também? Olha, é possível que Adeus à Linguagem não possa mesmo, mas e Acossado? E o resto da galera? O tipo de filme que o Claude Chabrol fez tem várias camadas, mas poderiam ser considerados thrillers comuns se não houver vontade de olhar além. E o mesmo pode ser dito dos filmes do Truffaut. A forma pode ser considerada e olhada da maneira mais simples e singela possível. Pense em Os Incompreendidos como algo muito próximo de um tipo de cinema americano, que trata de amadurecimento. É possível olhar assim. Talvez o Godard seja o mais difícil de se enquadrar aqui, considerando a forma, pelas elipses e jump-cuts, pela necessidade de afastamento do público que não se vê nos outros dois cineastas citados, pelo menos tão explicitamente.

A minha questão, pensando no cinema e em todos esses grandes nomes, é: a gente pode diferenciar qualitativamente um Godard de um Kubrick? Um Scorsese de um Chabrol? Um Woody Allen de um Truffaut? Olha, tenho certeza que muita gente acredita que sim. Mas dentro do meu sistema de percepção e criação, eu considero impossível esse tipo de diferenciação. São grandes obras seminais de diretores essenciais e pertencem ao mais elevado pedestal do cinema. E ainda tem outra, como a discussão efetivamente é sobre teatro e essas quase mil palavras foram uma espécie de introdução a um tipo de pensamento artístico, eu sequer vou entrar no mérito do cinema oriental, porque seriam necessárias mais umas mil palavras pra fazer esse outro comparativo. E eu já fiz o comparativo acima da maneira mais superficial possível, pra que ninguém desista do texto porque ele é escabrosamente longo.

Mas e aí? Como é que tudo isso se relaciona com teatro?

 

 

Em Breve nos Cinemas_ Foto: Alice Rodrigues.

 

Primeiro porque é o pensamento por trás da coisa toda. É claro que cinema e teatro são coisas muito diferentes. Os meios de produção são inteiramente diversos. E também é claro que quando você tem algo que parte de um processo muito mais industrial e outro algo que parte de um processo mais artesanal, vai parecer que uma coisa está muito distante da outra. E não vou negar, estão mesmo. Mas o pensamento que funda as duas coisas, a sistematização crítica sobre a obra, isso é uma coisa próxima. E indo um pouco além, como no cinema é mais aceitável que arte e entretenimento andem de mãozinhas dadas, é mais fácil criar um tipo de pensamento para teatro que parta de uma lógica cinematográfica. Por exemplo, quando eu assisti A Vida é Cheia de Som e Fúria, do Felipe Hirsch, lá atrás, antes de tudo isso, antes de teatro existir como uma possibilidade pra mim. Foi um momento revelador, em que eu entendi que teatro pode ser aquilo, uma obra comovente, artística e completamente ligada ao entretenimento. Eu revi a peça anos depois, quando o teatro já era meu objeto de estudo e objetivo de vida, e continuei com a mesma impressão. A de que é possível criar algo relevante e divertido e bem feito. Arte que é entretenimento e vice-versa. Partindo desse pensamento, a influência do cinema nas coisas que eu estava pensando para teatro começou a se intensificar, culminando com a pesquisa que desenvolvi por alguns anos com o Teatro de Breque.

 

Em Breve nos Cinemas_ Foto: Marco Novack.

 

O auge dessa pesquisa foi o espetáculo Em Breve nos Cinemas (2012), a partir da obra de David Foster Wallace. Naquele espetáculo nós não apenas falávamos sobre cinema, não apenas trazíamos elementos de entretenimento, mas emprestávamos algo da linguagem, pra executar cenas de um filme que se construía ao vivo, diante da plateia, mediado pela projeção. O palco era dividido ao meio por uma parede. Do lado de trás desta parede pequenos cenários realistas eram montados e duas câmeras estáticas filmavam as cenas do filme. Essas cenas só eram vistas na projeção, com planos fechados, não mostrando as bordas do cenário. Mas o público podia ver a cena através de uma janela na parede do cenário, de maneira meio incômoda e recortada, mas que desvendava o que estava acontecendo ao vivo. Do lado da frente da parede o público via uma ficcionalização daquele ambiente de set de filmagem. Atores discutiam as cenas que ainda iam acontecer, ensaiavam textos, evidenciavam o processo de construção do filme. Um diretor explicava a estética. E ainda, numa terceira camada, os três atores falavam diretamente com o público – seja contando tudo que iria acontecer na peça, numa espécie de prólogo, seja fazendo uma explanação matemática, ou ainda num epílogo em que cada um deles dava sua opinião sobre o espetáculo, o filme ou a vida, logo antes que a parede que dividia o palco caísse pra revelar um grande nada, o fim niilista, a aniquilação (do personagem, do filme, do limite entre teatro e cinema).

Essa aniquilação era o ponto crucial do espetáculo. Ao aniquilar o sentido da intersecção a obra encontrava sua potência fundamental. Assumia-se teatro de novo. Rompia com os significados ou com a história construída. O final rompe com a ideia de que há uma estória a ser contada, com começo, meio e fim. Porém, para que se pudesse aniquilar algo, antes era necessário construir este algo. Todas as possibilidades de intersecção. Cenas que eram documentários inspirados nos filmes de Eduardo Coutinho. Cenas que eram trailers de algo que jamais seria visto, mas que dialogavam com a depressão da personagem. Cenas de um filme sobre um casal se despedaçando aos poucos. Cenas de um filme dentro de uma peça de teatro ou de uma peça de teatro dentro de um filme. Nos últimos vinte minutos nada disso importava mais. As cenas eram aniquiladas e substituídas pelo vazio de uma versão de música pop intercalada com a autópsia (real) de David Foster Wallace. Eu conto o final agora porque é extremamente provável que essa peça, esse acontecimento que era Em Breve nos Cinemas, não se repita. Então é importante.

 

 

Em Breve nos Cinemas_ Foto: Marco Novack.

 

Essa ideia de aniquilamento que surge nos minutos finais de Em Breve nos Cinemas, o compromisso com o nada e a destruição das intersecções artísticas, vai permear os caminhos e as guinadas que a minha proposta artística sofre. Ainda em parceria com o Teatro de Breque, em 2013, surge Um Carvalho, um texto sobre a ficcionalização do público, sobre improviso e sobre o desvendamento do trabalho do ator; e em 2016, o espetáculo A Maldita Raça Humana, aí sim um teatro assumidamente político, uma busca por um ato significativo realizado artisticamente. Juntas, estas duas peças representam uma guinada rumo à aniquilação de intersecções, ambas são puramente teatro, teatrais, ainda que diferentes entre si.

Como a intersecção é abandonada, o meu trabalho acaba se desdobrando e dividindo novamente em modalidades. E o Projeto Z nasce, então, como um selo cultural multiáreas, voltado tanto ao teatro, quanto à música e ao audiovisual, com proposta de expansão para outras áreas, como a literatura. Mas todas elas dissociadas umas das outras, ainda que, de certo modo, acabem se unindo dentro de um ideal político de construção artística.

O primeiro espetáculo do projeto é Para Ler Aos Trinta (2014), com uma equipe composta quase que exclusivamente por mulheres, com um texto que fala sobre questões femininas, ainda que não necessariamente atinja uma potência de discussão feminista. É uma peça de transição, em que o teatro é o mais importante e o sentido do entretenimento é deixado de lado em alguns momentos, para se atingir uma poética outra. Mas as projeções em vídeo ainda estão presentes e a apresentação dos créditos como em um filme também. Ela é transição porque ainda não é abandono, não consegue chegar por completo no aniquilamento. Mas é uma espécie de amadurecimento, uma primeira proposta de retorno ao teatro, de dialogar politicamente com o agora. E como primeira proposta ela falha em diversos lugares e tem sucesso em outros. Mas funciona por reencontrar o eixo de significação principal no trabalho das atrizes.

Em 2015 o projeto Qorpo Santo 3 Linguagens recebe aporte financeiro do edital Rumos Itaú. As três linguagens citadas são música, vídeo e teatro. A peça Amanhã Sou Outro, seguindo a linha do próprio dramaturgo, dialoga com o presente e as questões políticas do agora. Um agora pré-golpe, mas de manifestações de professores e do massacre de 29 de abril. Além disso, a questão LGBTQ+ é abordada, problematizando a maneira como o escritor havia tratado dela no século XIX, trazendo a discussão para uma esfera política, que naquele momento dialogava com a estética queer. Ao mesmo tempo a questão da mulher está presente, de maneira mais discreta, já que os esforços de representação acabaram se centrando mais nas figuras que compõe um casal gay. Ainda não era o ideal para mim, era necessário abordar as questões LGBTQ+ do ponto de vista da mulher. Porque se você parar pra pensar esse tipo de abordagem é mais difícil de encontrar, especialmente se retirada do lugar da piada, da punch line. E aqui eu já começo a pensar sobre televisão e cinema, mas voltaremos a isso na sequência.

 

 

Amanhã Sou Outro_ Projeto Qorpo Santo 3 Linguagens_ Foto: Rosano Mauro Jr.

 

A trilha sonora do projeto parte de letras do próprio QS, logo, o teor político está presente, e ainda há duas canções com letra de Leo Fressato, que explicitam este tom e novamente traz as questões para o nosso tempo. Os vídeos mostram o tom iconoclasta de QS, trazendo relações diretas com religião, dinheiro e a cidade de Curitiba. O projeto como um todo era uma tentativa de obra política, mas ainda caía na cilada da galhofa, do riso fácil para aliviar um assunto terrível, da quebra metalinguística. Como diria meu amigo Fábio Kinas, faltou “sair do jardim de infância”. E para que algo seja realmente relevante precisa muito amadurecimento. Preciso ainda. E pensando no quanto é necessário pensar a arte de outros modos, surgem dois projetos, completamente interligados, ao mesmo tempo em que são coisas distintas.

Primeiro, em 2015, logo após o fechamento do projeto Qorpo Santo, começa a ser desenvolvido o projeto de websérie Antes do Fim, uma obra audiovisual relativamente simples, mas focada no relacionamento entre duas mulheres. O projeto não consegue financiamento e fica engavetado até 2016, quando é selecionado para o Globolab, um edital da Rede Globo para webséries. No Rio de Janeiro o projeto continua a ser desenvolvido, com a colaboração de roteiristas, atores e diretores da Globo. Participa da final do concurso, mas não vence. E a partir daí começa a crescer como uma série de meia hora para televisão. Conforme cresce em tamanho cresce também na ideia de representação e representatividade. A proposta é de entretenimento, mas um tipo de entretenimento que trate de questões importantes, em que as pessoas – especialmente as muito jovens – possam se reconhecer, para que não se sintam invisibilizadas como eu e muito amigos e amigas nos sentimos quando éramos adolescentes. E isso dá início a um tipo de pesquisa bem específico, sobre estatísticas de representação da mulher LGBTQ na televisão. Os dados focam mais na televisão produzida nos Estados Unidos – até por se considerar o extenso volume de produção daquele país. E as estatísticas estão contra nós. O número de personagens lésbicas ou bissexuais despenca ano a ano. O índice preocupante só não é maior porque o número de personagens gays e transgêneros tem aumentado. Mas também, o número de personagens trans é tão ínfimo que não tinha como diminuir. E isso faz com que se tenha uma percepção um tanto cruel e divisiva sobre televisão. Os executivos ou grandes nomes da indústria são homens brancos, mas também há muitos gays entre eles, o que se converte numa questão bastante simples: quanto maior a representatividade maior a representação. E, bom, muitas mulheres estão falando isso há anos. A chave está na representatividade.

O que nos leva a 2017, ano em que todo o conceito de aniquilamento se radicaliza, com o projeto Que Bom que Você Entendeu que Eu Estou tão Perdida Quanto Você. Projeto de espetáculo longo, mas que aparece primeiro em uma cena de 15 minutos, tratando de um tema específico, completamente endereçado à comunidade artística que lotaria – e lotou – o Teatro José Maria Santos, na Mostra Cena Breve. Nesse recorte, que muito provavelmente sequer cabe no projeto de espetáculo longo, falávamos de um tipo de opressão exercida por um grupo de pessoas também oprimidas. Eram nosso melhores amigos gays com seus discursos misóginos de ódio ou nojo à buceta, uma representação do feminino. Eles sequer se davam conta. Não podem mais dizer que não se dão. Não podem nos trazer falsas simetrias do tipo “lésbicas dizem que tem nojo de pau e ninguém problematiza”. O pau é o herói da sociedade. Um pau pra ser enfiado dentro de nós, o pau metafórico. E pensamos em estupros reais, estupros coletivos, estupros que são exercício de poder e nada mais. E ao trazer o pau como nosso algoz estamos falando de uma sociedade falocêntrica e não do pau que faz parte da anatomia. E estamos falando que nossos amigos gays fazem parte desse sistema sem nem se dar conta – às vezes.

 

 

que bom que você entendeu que eu estou tão perdida quanto você_ Mostra Cena Breve 2017. Foto: Elenize Dezgeniski.

 

Ao mesmo tempo estamos falando das diversas esferas de agressão, das mais pesadas às mais cotidianas, que somos ensinadas a aceitar desde o forninho e da boneca Barbie. E não podemos mais suportar. E queremos estar entre nós mesmas e falar de um ponto de vista nosso, coletivo, ainda que plural. Assim, o projeto é idealizado, pensado e executado inteiramente por mulheres, uma equipe inteira de mulheres. Que passamos por tudo isso, das agressões mais pesadas, das quase últimas consequências, às mais leves, da não aceitação da nossa roupinha de Rambo e do carrinho no lugar da boneca. Mulheres que se compreendem, porque dividem à experiência de existir num mundo que as trata como cidadãs de segunda classe. Mulheres que são mães e encontram resistência dentro do próprio movimento feminista, mulheres que são bissexuais e tem sua sexualidade invalidada, mulheres lésbicas que são invisibilizadas. A agressão é permanente e se modifica em cada história nossa, mas ainda é a mesma raiz de agressão. E quando somos agredidas não podemos e nem devemos fazer piada ou tratar com leveza. Esse espetáculo é um grito gutural de “chega!” em que não há espaço para o humor. Começamos a entender isto.

Começamos a entender que humor é distração. Começamos a entender que precisamos sair dos nossos lugares de conforto e retirar os outros de seus lugares de conforto. Começamos a entender que precisamos falar com todas as mulheres, para além do nosso convívio. Começamos a entender que esse espetáculo atinge seu ápice quando descentralizado, quando democrático e inclusivo.

E quando um projeto parte de algo tão urgente é sintomático que o tom mude. O tom mudou, está mudado. Tudo mudou. O novo fazer teatral que o Projeto Z inaugura com esse projeto é radical, destruindo e reconstruindo tudo que veio antes.

 

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O Show do Apocalipse não é mais uma novidade para mim

Por Leonarda Glück
Fotos de Elenize Dezgeniski

Essa coisa de falar de processo não pode começar sem antes tentarmos “definir” juntos o que é processo, ou, nesse caso bem específico, o que é para mim um processo de criação artística. É raro eu escrever sobre isso mas vamos lá: para mim um processo é sempre a vazão de uma história que eu já não consigo mais conter, nem sempre com começo ou fim, já iniciada e em andamento, que desemboca em um texto, ou em cima de um palco, ou na rua, ou em produção imagética, impressa ou videográfica, ou demais localidades, físicas ou virtuais, onde ela possa ser apreciada por outrem. É um troço íntimo e ao mesmo tempo público, aberto, dividido, mas que muitas vezes é sozinha que me recolho com ele e que o levo para o meu travesseiro. Como eu gosto muito da palavra escrita, geralmente é por ela que inicio a maior parte dos meus processos, e isso se dá geralmente lendo, relendo e até mesmo escrevendo, mas nem sempre. Os insights surgem nos momentos mais inusitados, sem ordem ou organização qualquer, no meio do café da tarde, vagando pelas ruas, no banho, andando de bicicleta ou entrando no tribunal eleitoral. Para mim palavra e corpo, embora pertencentes a esferas relativamente distintas de expressão, são a mesmíssima coisa. Sempre considero um coração demasiado enganador aquele que tenta separá-los. Porque quando eu leio algo que me toca, é no corpo que se dá a reação, imediata, irrecorrível. O corpo não consegue escapar a uma reação assim tão sensorial como é para mim a palavra. Essa palavra para mim tão intramuscular, a um só tempo rapsódica e anárquica, erótica e mortífera, é meu campo maior de batalha semântica. Esse corpo para mim tão díspar, que dança sexo, desespero e guerra, é atração e repulsa em sua máxima potência em todo o meu exercício de escrita. É munida de ambos que eu caminho, é mergulhada até o último fio de cabelo nesse papinho de linguagem e de organismo vivo que eu sigo em frente. Às vezes a palavra é o movimento no vídeo também, e o corpo performance tangível. Em outras o corpo é música e a palavra imagem plasmada. Pois bem, foi o que me aconteceu com o Copi, esse dramaturgo argentino tão tomado de dialética e luta linguística, que me atraiu com esse texto que eu vi encenado pela primeira vez há dez anos atrás, em Curitiba, a primeira vez que o autor foi apresentado no Brasil. Ali eu pensei: “quero fazer esse texto!” e saindo dali eu fui atrás de tudo que dissesse respeito ao cara e sua obra. Comprei seu livro, descobri que era uma bichona louca maravilhosa, que desenhava além de escrever, que tinha dado um pé na América Latina e ido morar em Paris, e que por isso sua obra havia se tornado mais e mais intrincada. E que havia morrido de aids. Loretta Strong comeu o meu cérebro desde os primeiros instantes: quem diabos era essa mulher perdida no espaço tentando estabelecer diálogos insólitos com buracos negros existenciais enquanto era estuprada por ratos preocupados com a continuação de uma espécie tão malandra e torta? E como não fui eu mesma que escrevi isso?!! Fiquei fascinada e, após alguns anos falando sobre o assunto, ele voltou à tona. Foi em uma das reuniões na Casa Selvática que eu soltei que tinha interesse em montar esse texto, do jeito que fosse, com as condições que fossem, e que quem quisesse entrar comigo nessa estava convidado. Era, me parece claro agora, também uma maneira de homenagear a atriz Claudete Pereira Jorge, que todos amávamos muito e que faleceu há um ano atrás, nos deixando órfãos da magnífica voz que dez anos antes batizara de luz e cena o texto do autor no país. Uma vez mais era meu assunto predileto sendo levado à cena: uma mulher presa, oprimida, possivelmente manipulada, obrigada a fazer coisas que não deseja verdadeiramente, arrastada num redemoinho insano de visões de mundo que os outros se lhe interpõem. É a desgraça de cada dia da mulher, brasileira, latino-americana e universal, espetacularizada em sua própria existência sufocada no seio de uma sociedade doentia e sádica, mais interessada em explorá-la comercialmente do que em sua libertação. O que era para ser um monólogo, ou solo — como os artistas da dança preferem chamar — logo é interrompido por uma ideia que se abateu sobre mim quando eu voltava para casa um dia, altas horas da noite, dentro de um uber. O dia lotado de compromissos, fotos tanto para a próxima semana como para o próximo mês, tudo bem, vamos lá, decore as duas páginas e meia do texto que foi você mesma quem editou, tem também aquele teste para o filme daquele cara que está atrás de atrizes trans, o livro esgotou em alguns lugares mas as pessoas não param de pedir por ele, você não teria um aí para vender, por acaso? Escreva o release, veja se o maiô te serve, alguém te ligou para você se manifestar na tevê sobre artistas LGBTQIA atuais — militante compulsória em que o mundo te transformou — engula qualquer coisinha e lembre-se que, além de não ser preciso esperar o carnaval para ser vadia, o sexo está na cabeça e não necessariamente nos genitais, especifique as necessidades técnicas, para mim uma peruca só não adianta, tem que ser umas quatro logo duma vez, formando um bolo em cima da cabeça, os cabos dos teus três microfones vão precisar de mais de vinte metros cada um, como sempre, que horas teu voo sai, tem mensagem nova de jornalista (ou estudante de jornalismo, não sei o que é pior) nas tuas redes sociais a cada meia hora, todos querem uma entrevista contigo, que medo se a aeronave não conseguir frear na pistinha minúscula de Congonhas, tem mais duas mesas nos próximos meses, uma mais acadêmica e outra mais informal (que bom não precisar citar Foucault e Butler ao menos uma vez), uma amiga me disse que é possível que o mundo se acabe em print, parte da comunidade transexual já te enxerga como figura pública, querem saber a tua opinião sobre a Rússia, como não me tornar uma burocrata e ainda manter intumescido e úmido de vida meu grandioso grelo de arte? E aí, conseguiu decorar o texto?? Se tudo se acabar em print mesmo, será que no apocalipse irão passar as nossas mensagens inbox num telão? Na minha mente ligeira passam as imagens de todos os meus nudes sendo projetados, é a antecipação do inferno. Ah, agora tem essa entrada espetaculosa com a música da Nina Hagen, o clima vai ser bem drag boateira dos anos noventa, você vai ter um corpo de baile dançando com você e você tem que aprender a dublar em alemão. Tudo bem, você tira de letra, né? Claro que eu tiro, digo eu, nada mais fácil que o alemão, como sempre me fazendo de valentona. Não posso reclamar. E se tivesse também, no meio disso tudo, uma equipe jornalística de vídeo para entrevistar a Loretta depois que ela falar todas as loucuradas surrealistas dela? A cara do diretor é de dó, de novo a Léo com essas ideias, olhem o brilho insano nos olhos dela. Será que ela comeu? Talvez seja fome. Mas aí já não vai mais ser um monólogo, Léo. E qual o problema? No próprio texto do Copi as vozes são tantas que é possível que aquilo seja mais uma polifonia esquizofrênica do que um monólogo propriamente dito. E isso também está ótimo para você se você já fez a Valsa Nº6, do Nelson Rodrigues, não é mesmo? Na valsa ela também era esquizofrênica e nem viva estava. Nota mental: escrever o texto para a repórter da TV Rato falar, a televisão fictícia que irá entrevistar Loretta Strong, a única sobrevivente humana do apocalipse. É uma crítica à mídia? Vocês estão falando da espetacularização do fim? Sim, nós estamos transmitindo o Show do Apocalipse ao vivo e nele estaremos vestindo os nossos melhores estilistas. A verdade mesmo é que eu fiquei sozinha com os ratos: essa metáfora textual se aplica tão perfeitamente aos dias do Brasil de hoje que até me pergunto se Copi não era um pouco profeta. Se eu fosse a única mulher a sobreviver ao apocalipse e avistasse o Eduardo Cunha ao longe, sobrevivente também, como o belo exemplar de rato que ele é, será que eu teria coragem de deixá-lo me fecundar?!? É claro que seria uma completa nojeira, é claro que seria uma dramaturgia imunda. Então é claro também que algumas pessoas nesse mundo tenham interesse em pesquisar e criar sobre dramaturgias imundas e de transgressão, como é o caso do Copi e como é o meu próprio caso, pois cada vez mais eu sinto que estou escrevendo, versando e performando sobre a nojeira. A Hilda Hilst, de quem eu sou fã, em muitos de seus escritos, se referia a Deus como “O Grande Cara de Nojo” e eu acho isso muito significativo. Talvez toda a chamada Criação Divina, da qual nós todos somos parte (eu, você, o Copi e a Loretta), se refira mesmo ao nojo e à porcariada — a imundície como verdade lixosa — como um grande intestino explodido e espalhado. Quem iria duvidar? Resulta que, como o texto do Copi não foi utilizado na íntegra e também como nós enxertamos (eu sou a rainha do enxerto) outras coisas no contexto da Loretta, intitulamos a cena de “Betelgeuse”, que é o nome da estrela maior da constelação de Orion e que ao que tudo indica foi onde o satélite dela enroscou. Em inglês é também o nome do filme do Tim Burton de 1988, um dos ícones maiores da minha infância, que permeou todo esse processo de criação. Não está virando uma comédia rasgada demais? É um pastelão, um stand up caricato conceitual! Léo, você é a Dercy Gonçalves do futuro, me diz um amigo. Sim, meu querido, eu serei a grande vedete que abrirá as pernas para o futuro tecnológico. Contudo, tentarei sempre fugir da distopia, é bom que se diga. Também precisamos rir da desgraceira, sambar na catacumba das emoções, não podemos embarcar na nave plurissexual se não for pra dar risada também. O humor na cena é como um shot do melhor ecstasy no organismo: é gostoso e viciante, dá um prazer físico inenarrável. Tem vezes em que é melhor até do que chocolate ou sexo anal. Mas a gente tem que cuidar para não virar uma esculhambação xuxanística, tudo tem sua hora e vez. Eu quero muito que “Betelgeuse” vire peça, que entre cartaz, que faça o povo rir e que rode o país e o mundo. Vou comprar a alma de todos os meus parceiros de trabalho para isso. Talvez nem precise. A equipe gosta tanto de fazer o negócio que é possível sentirmos no ar essa alegria. A Casa Selvática, para mim misto da Factory do Warhol (numa versão tupiniquim subtropical) com os Dzi Croquettes da nova era, é um lugar bom para coisas assim florescerem, nós somos uma pequena multidão queer de figurinistas, roteiristas, diretores, produtores, cinegrafistas, modelos, professores, iluminadores, maquiadores, oficineiros, mães, escritores, pintores, atores, dançarinos, performers, cantores, guitarristas, sonoplastas, caracterizadores, tecladistas, artistas de dentro e de fora da cena, nós gostamos de criar para fazer parar, nem que seja por instantes, a dor do mundo. Às vezes nós a fazemos aumentar sem querer também, mas é como as coisas são. Não se pode ter tudo nessa vida. Eu sempre costumo dizer que o que eu estou fazendo nessa vida é apenas uma grande peça separada por capítulos, aqui e acolá. Amor, sexo, violência e poder serão sempre os meus temas do coração. A ascensão da mulher e a transexualidade são questões contemporâneas que vieram para se juntar a eles naquilo que eu tenho de mais essencial em mim, que é o desejo de produzir arte. Pesquisar sempre e observar sempre para criar sempre. Agora eu estou com uma ideia surgindo na minha cabecinha, com todo esse papo sobre fecundação que a Loretta Strong me deixou, que é de escrever um novo texto teatral para tratar da questão das crianças queer, quem as defende? Quem defende a criança viada?? Quem defenderá a criança travesti?!? Também o texto do Preciado sobre esse assunto me botou essa célula em funcionamento e eu não estou conseguindo me livrar dela. Junto com isso me chegam informações de países como a Finlândia e a Noruega, que tem desenvolvido políticas efetivas, além de comportamentais, para lidar com crianças que mostram desde muito cedo um descontentamento enorme com o sexo designado no momento do nascimento. Quero falar sobre isso agora. Está mexendo comigo. Penso que deve ser um monólogo novamente, mas a gente nunca sabe quando vai entrar um corpo de baile em cena, né? Acho que irá chamar-se “Baby Eva”, porque também tem a ver com o livro “A Paixão da Nova Eva”, da Angela Carter, em que um professor de inglês é transmutado em mulher por uma espécie de deusa da fertilidade, misto de mulher negra e máquina. Quem viver verá!

 

 

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Territórios moventes e o caminho que se faz de acordo com o passo

Por Elenize Dezgeniski

 

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O templo nômade: encruzilhadas – Notas in progress do processo momo: Para Gilda com Ardor

Por Ricardo Nolasco

Meu corpo gordo e nu vigiado no centro de uma cidade
Alarmes, sirenes, luzes, câmeras perfuram sem dó
Meu corpo gordo e nu é ação nessa cidade
Emergência: Meu corpo gordo nu vigiado perfurado e em chamas
Um corpo xamã e em exercício. Uma córpa em decomposição
Dança violência nessa cidade

Eu estou agora parado aqui, como uma rocha ou um monumento na sala da minha casa.   Deitado no sofá faço uma pose para a fotografia. Tem água por todos os lados. Um cano estourou e tenho um trabalho árduo para ser feito. Vejo meu reflexo no espelho d’água. Tenho quase 30 anos, a idade com que as pessoas que mais me inspiram já haviam morrido, planejavam seus suicídios ou estavam internadas em clínicas psiquiátricas. É Deus o manicômio. A cidade vive em baixo dos meus pés: fiações, encanamentos, esgoto, cabos telefônicos brotando por todos os vãos, todas as frestas. Meu corpo é cidade cheia de vias, veias, estrias, perebas, micoses, crateras, interdições, viadutos, torres. Eu convido que me percorra. Que nade comigo, mas saiba que toda transformação é dolorida. Vamos derrubar essa cidade e dos restos construir uma nova.

Orlandx [é uma palavra de terror, um grito de conquista, palavra chave, maldição bárbara, abre portais. Os corpos se fundem e se organizam de uma terceira forma, não passam por caminhos já percorridos, Orlandx encaixa e desencaixa-se, deita na relva, dança no caos, desorganiza um olhar: sumo aos olhos do voyeur, esfumaço o espaço. Truque de magia barata, sou um mágico de rodoviária. Dança cósmica de beberronas vulgares. Meu hálito te toca, te envolvo em minhas brumas, fundo toda a matéria. Uma das partes sumiu, escorreu pelas minhas mãos, diluiu-se no pó da criação. Cravo minha bandeira no flanco da terra. Pés ao alto serpenteando um play ground declaram: A cidade foi o presente que um amante milionário me deu! Serpentes dormem na beira dos rios, sob pedras].

Faço percursos pela cidade, jogos de cartas, associações místicas, psicomagias. Busco por mim mesmo desde que me perdi. Com meus pés sei que posso fazer que os fios se cruzem de outra forma. Mudo nome de praças, de ruas, estou a serviço do acaso na flanagem em que duas mitologias me acompanham: Rei Momo e Gilda. Na busca por eles, busco por mim. Na busca por mim, busco por eles. São mitologias com as quais danço. Saiamos dos teatros. O Deus que inventou o teatro foi expulso de todos os teatros.

 

TRAJETOS (anotações brutas de um caderno de artista)

 

AMANDA

Iniciei uma investigação na Alfaiataria (espaço cultural localizado na Rua Riachuelo que foi por muitos anos uma tradicional loja de produtos militares), o espaço ainda era muito frequentado pelos clientes tradicionais o que criava um movimento bastante híbrido. Criei um programa performativo chamado Expediente, onde permaneci por três dias das 09 ás 18 horas realizando uma série de ações que iniciava sempre com a lavagem da fachada e concluía com um jogo de tarot. Amanda surge no último dia dessa performance. Se identifica como travesti e exibe um longo cabelo sintético. Chegou no início da última ação, um jogo de Tarot que iria definir os próximos passos da investigação. Nesse momento estou vestido como Gilda: vestido preto e batom bastante borrado. Ela diz que eu deveria fazer a barba, usar uma roupa mais bonita e ser mais feminina. Olha as cartas e diz que é babado. Amanda sempre aparece nos percursos, é como uma nova Gilda, Gilda Agora. Sempre diz que pode fazer leituras de cartas a 10 reais. Encontrei ela hoje, saindo de traz do teatro Guaíra, empurrava um carrinho de bebê.

 

O APRENDIZ

Recebi uma carta, nela estava escrito que eu deveria convidar um artista 10 anos mais novo que eu para me acompanhar em um ato psicomágico. Chamei Leo Bardo e ainda convidei Felipe Augusto (Shakira) para nos acompanhar e filmar o trajeto. Nos encontramos 10 e 10 em frente à Catedral. Eu carregava uma sacola com 5 tomates e deveria colocar um em frente de cada teatro onde apresentamos a primeira peça do Grupo de Investigação Cênica Heliogábalus, Scarroll – da trilogia da duquesa à queda da rainha. Os teatros eram: TUC, Casa Vermelha e Casa Hoffmann. Ao colocar o terceiro tomate apareceu um menino, iremos chamá-lo aqui de Aleph.

 

BURACO

Aleph nos abordou porque pensou que estávamos filmando ele, dissemos que não, ele age com violência, inspirado pela temática da minha primeira peça começo a agir com ele com a lógica dos personagens de Lewis Carroll. Ele me chama de Gordo Viado, respondo dizendo que ele não tem 10 cm. Levamos a discussão a um lugar inesperado que conclui com ele pegando duas pedras de um terreno baldio em frente ao memorial de Curitiba (esse terreno é justamente o qual realizamos a primeira performance do núcleo O Estábulo de Luxo: Ç; que marca a minha primeira reaproximação com a Dani Passarinho, depois de alguns anos afastados, e o ínicio de uma parceria com Amany Rocco. Também participaram dessa Límerson Morales e Cali Ossani). Voltando a narrativa ele nos ameaça, joga a pedra.

 

FIM DO BURACO

Subo com o aprendiz até o relógio das flores. Onde leio um trecho de Alice No País das Maravilhas em que a protagonista se afoga em suas próprias lágrimas e depois, como sugerido na carta, repito uma cena do espetáculo Scarroll- da trilogia da duquesa à queda da rainha onde por três vezes ascendo uma vela e o aprendiz a apaga. Entrego um tomate para Leo Bardo. Voltamos pra minha casa e com o último tomate devo preparar um suco e beber esse enquanto ouvimos Amy Whinhouse. O aprendiz repete por três vezes: Sou um príncipe astuto muito mais jovem que você. Concluímos a psicomagia postando um vídeo com a última ação. Assim que fazemos isso recebemos uma mensagem dizendo que estávamos na televisão sendo agredidos por um menino de rua. Demoramos um tempo para entender o que tinha acontecido. Haviam câmeras do Cidade Alerta posicionadas que filmaram tudo e se não tivessem feito isso jamais veríamos o ocorrido como parte do ato psicomágico. No minuto 15 e 31 desse vídeo você pode ver  a matéria do Cidade Alerta (veja aqui)

 

PEQUENO/ALEPH

Escrevo para o Cidade Alerta pedindo o direito de resposta já que utilizaram nossas imagens sem autorização. Eles marcam para o dia seguinte pela manhã. Nós devemos dar a entrevista, segundo recomendações da Dani Passarinho, evocando as personas do mestre e do aprendiz. Devemos nos referir ao menino como Aleph. Até o momento não tivemos acesso a matéria, mas sabemos que ela saiu devido a uma ligação do Junior Pires. No dia seguinte (véspera do meu aniversário de 30 anos) Dani Passarinho preparou um encontro psicomágico. Assim que sento para iniciar o encontro desejo ascender um incenso que trouxe de casa. Peço a um menino que diz não ter mas aponta para outro, esse outro é Pequeno ou Aleph. Começamos discutindo e acabamos nos entendendo, ele acompanha toda a psicomagia onde Dani lixou e pintou as unhas dos meus pés enquanto eu lia Aleph do Jorge Luís Borges e escuto uma versão de O Corvo do Edgar Allan Poe. Depois disso apenas com um balde iniciamos a lavagem da escadaria do TUC e conseguimos mais água, suficientemente para lavar toda a escada. Depois disso voltamos a conversar com Pequeno que enquanto dá uma bola numa latinha com craque parece se interessar em participar de um espetáculo.

 

PAPISAS

Agora já tenho trinta anos. Construí três presentes, também eles psicomágicos. Pensando no arcano pensei em fazer um presente que tivesse uma materialidade, tivesse uma relação com o arcano, fosse único para cada um mas que fizessem parte de uma série, tivessem uma relação/conexão entre eles, e tivesse uma instrução de uso (essa contida na carta). Pesquisei sobre patuás- sortilégios feitos de produtos combinados amarrados dentro de um saco. Podendo ser ervas, objetos, orações. Patuás perdem o seu poder se abertos, traz o seu encantamento no segredo que guarda em seu útero. Gosto também por ser feito de pano e fio, objetos relacionados a mitologias femininas. O tapete que Penélope costura eternamente, a roupa preparada por Medea para a rival, as normas ou moiras que tecem o destino nas mitologias nórdicas e gregas em um trabalho místico. Sacerdotisas, bruxas, macumbeiras, yabás, Marias Bueno, Virgem Maria, Didi e a Lourdes do Brechó. Papisas.

Comprei elementos que pudessem ser misturados de formas distintas, fazendo uma alquimia única em cada patuá. Ingredientes: Casca de romã (a fruta possui ovários e cortado na posição certa apresenta uma estrela), arruda (proteção e feitiçaria) e anis (também em formato de estrela). Queimei junto a esse preparado algumas páginas do meu caderno com um poema inconcluso, as primeiras anotações desse processo e alguns elementos encontrados de peças antigas como as bobinas utilizadas em Pinheiros e Precipícios. Uma alquimia para ser envolvida em um útero ovo. Juntei pequenos objetos: 2 cálices e 1 moeda. Fiz três preparados distintos com a combinação desses elementos. Coloquei dentro de tecidos e amarrei com fio dourado. Três papisas.

Escrevi as cartas em locais distintos da cidade. Saí de minha casa em direção ao passeio público e na porta de entrada do Passeio Público um estêncil na parede me chamou atenção. Logo reconheci Edgar Allan Poe (autor do poema O Corvo que já apareceu em outra psicomagia e do conto que inspirou o filme do Fellini que vi ontem com a Dani Passarinho). Estava a imagem dele e o seguinte texto:

Úh, seu úrubu Filho da Puta

Parei para anotar, quando terminei minha caneta caiu no chão. Exatamente quando fui juntar passava um casal atrás de mim, ele abriu os braços e bateu com o relógio em um carro. Caiu uma peça pequena do farol. Recolhi. Entrei no Passeio Público. Tudo parecia orquestrado. Atenção dirigida? Talvez. Caminhei até a gaiola da Penelope Pileata e fiquei um tempo contemplando, me comunicando com o Límerson. Depois fui até o carramanchão com mesas de xadrez. Onde se encontram pessoas para jogar cartas. Dia ensolarado, artistas e moradores de rua estão acampados em frente, evangélicos recolhem equipamentos utilizados em uma oração e um senhor sentado em uma mesa escreve num pedaço de papelão. Me cumprimenta, cumprimento também. Começo a tirar os objetos dentro da bolsa: cigarro, caixa de fósforo. Ele me pede um cigarro e digo pra ele pra fumarmos juntos. Ele escreve com a caneta alguma coisa no cigarro, pergunto o que é, ele diz que é pra viver cem anos. Aponta para os evangélicos e diz que tem uma cruz invisível em frente a sua cabeça. Conversamos um pouco olho o que ele escreve no papelão, vejo a palavra deus e algumas letras que não entendo. Escrevo no meu cigarro II-papisa. Fumo e termino de retirar as coisas da minha bolsa. Livros, a carta da papisa e uma caixa onde estão juntos os três patuás. Escrevo a carta e percebo que o senhor ri muito. Momo. Em determinado momento ele levanta e se despede, diz que se chama Roberto e que mora no toldo verde da farmácia visconde. Continuo escrevendo. Descubro números e letras no farol caído do carro, começo na carta um cálculo desses códigos. Crio um código de leitura. E9 (dentro de um círculo) 01.6944. (E) equivale ao número cinco de eminência- o papa. 5+9+1+69+44. 5 +9+1+15+8. 5+9+1+6+8. 14+15. 5+6=11. 1+1=2. Papisa. Concluo a carta do Límerson. Depois descubro haver mais um 5 escondido separado da sequência numérica, é o número 5. Número do Papa, reflito sobre a presença de figuras masculinas em um experimento sobre as papisas.

Penso no que vivi nesse lugar, decido escrever ali a carta da Amabilis. Escrevo em um outro cigarro II- Papisa e início. Estou na terceira ou quarta linha quando começa a chover, tento continuar escrevendo com a chuva, mas está molhando o papel devido a furos na estrutura do carramanchão. Seco e guarda na minha bolsa novamente todos os materiais e apenas espero a chuva passar pra sair dali. Desejo terminar de escrever na companhia da minha vó. Ali onde estou vira abrigo e prisão. Muitas pessoas se abrigam, mas estamos ilhados…rodeados por água. Cai um pedaço do telhado em uma menina devido a força da água. Nesse instante um senhor um tanto mais novo que o primeiro se aproxima. Não parece ser morador de rua. Se aproxima e fala pra mim: olha o que encontrei ali no orelhão e me mostra um crucifixo. Seria esse o crucifixo invisível do Roberto? Continuamos a conversa até parar a chuva. Esse senhor me acompanha até a porta da casa da minha vó e vai embora. Não sei o seu nome.

Almoço com a família e concluo ali a minha carta. Na presença delicada e pesada dela. Um grande feminino silencioso e tradicional. Depois vou ao Guadalupe escrever a carta da Cali. Experiência muito forte depois de tudo que tinha acontecido. Escrevi a carta tomando um café. Poucas interações.

Em relação a proposta da Dani Passarinho fiz uma leve alteração. Não pedi a benção da papisa, mas pedi resposta. Entendendo essa resposta como a benção que pode ser negada. O Silêncio também é uma resposta para a papisa.

Primeira resposta à carta recebida hoje, no dia 09 de março de 2017, ano de Nosso Senhor jesus Cristo:

Penso agora, à noite, no Momo na Momo, na Papa. Alguma coisa quase me escapa.

Relendo a carta da Dani Passarinho me chama atenção a morte em parto da papisa em Roma ou o assassinato dela e da criança na outra versão. Não importa se “miráculo” ou o entendimento da fraude. Nas duas versões fala de uma rua pequena próxima ao Coliseu. Penso em Andrea, um amante italiano que amei intensamente por algumas horas sob a lua cheia de Roma e depois dessa noite o encanto acabou. Pra ele escrevi um verso que estava no poema incompleto do poema queimado: “sexo selvagem nos fundos da capela sistina”. Assistir Mama Roma do Pasolini.

 

RESPOSTAS

Uma torre recebendo um raio celeste é partida. Uma cidade, um universo, uma proteção, uma estabilidade.  Uma prisão para loucos, a bastilha, a torre de babel. Uma cidade em ruínas. Como já disse devemos derrubar a cidade para construir uma nova. Romper, quebrar ciclos e de dentro sairá luz. Fechar a macumba, o rito. Quebrar o cárcere.

Construo um templo nômade na forma como me movo pela cidade. Cada lugar é terreiro psicomágico, o tarot o oráculo a se consultar por seu próprio valor arquetípico e iconográfico. Não falo aqui de uma mão oculta que embaralha as cartas, falo de nossa própria mão. Nossa própria materialidade. A magia está naquilo que é mais visível. Na relação com a matéria mais bruta. Na criação de ficções. Em apresentarmos outras possibilidades para o mundo. O espetáculo é uma torre a ser roída.

Ontem o Leo Bardo propôs que apresente hoje uma performance com ele como um rito final desse ciclo que vivemos intensamente desde então. Penso que é hora de construir um espetáculo, uma peça, uma performance e essas experiências não devem ser apenas experiências minhas. Hoje de manhã li uma primeira resposta da Amabilis de Jesus para a carta às papisas:

“Para almas é morte tornar-se água e, para água é morte tornar-se terra, e de terra nasce água, e de água alma” – Heráclito de Éfeso.

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