Colisão frontal

por Luciano Schmidt

foto de Karla Vizione

Há anos, sempre que passava por aquela altura da Rua Inácio Lustosa, eu olhava praquele grande terreno baldio com uma estrutura decadente e pensava: isso aqui é um puta cenário. Uma locação para uma cena, alguma coisa louca bem no centro de Curitiba. E agora, nesse caótico outono de 2018, ali se materializa não só uma cena, mas um espetáculo explosivo.

Entre os muros pichados e restos de demolição, um ferro-velho particular montado com carros que já não são mais carros. Destruídos além de qualquer funcionalidade motora, se tornaram o cenário de uma peça que esses veículos com certeza não têm mais: Air Bag.

Em meio a tags, bombers e outros pichos, “REPÚBLICA DE CURITIBA” é o que se projeta no centro daquela quadra. Dois microfones em pedestais estão posicionados centralizando o cenário no carro (um pouco) menos destruído. O público entra e senta num semicírculo de bancos de carro arrancados e cadeiras improvisadas. A fumaça toma conta da grande estrutura de ferro e seu cemitério de automóveis. O dramaturgo toca guitarra, acompanhado de um baterista atrás da platéia, criando uma atmosfera inquieta e languidamente tensa. De repente uma série de marretadas metálicas captura a atenção na extrema esquerda da cena.

Uma figura feminina com uma máscara de solda, sobretudo marrom e botas com salto, martela a lateral de uma lataria até arrancar um pedaço. Ela coloca a peça num carrinho de supermercado e trepa em cima da carcaça para arrancar um pedaço do carro que está jogado por cima desse. Uma estranha luz branca sai da viseira da máscara, dando um aspecto ainda mais estranho para essa carniceira de ferragens.

Enquanto isso, uma criatura masculina está deitada sobre uma carroceria à direita, preguiçosamente se revirando como se teimando para não acordar com aquela barulheira. Ele veste um shorts de ciclista colado, uma regata branca e uma camisa aberta. O que ressalta o figurino juvenil é o All-Star vermelho. As cotoveleiras, joelheiras e luvas de proteção que ele usa criam um aspecto de tiozão grunge dos esportes radicais.

A mulher junta mais umas duas peças e desce da carcaça, conduzindo o carrinho de supermercado até o resto do Renault vermelho no centro de tudo. Ela entra no ex-veículo, a princípio calma e centrada, mas mexendo nervosamente no painel e nos bancos. Enquanto isso, o homem se levanta e pega um instrumento. Uma guitarra, um baixo, não importa. Ele arrasta aquele instrumento de zero cordas em volta do carro, andando cada vez mais rápido numa tentativa de corrida, enquanto arrasta aquele resto de música. A trilha sonora se eleva para ceder ao silêncio quando ele sobe num dos carros de trás e é iluminado por um a luz que projeta uma enorme sombra na parede.

Ele começa a murmurar cabisbaixo, e logo percebemos que pegamos as figuras no meio de uma discussão. Reclamando de não saber o que falar, começa a se lamentar de quantas noites ele passou vomitando o que os outros não tem coragem de dizer. Mas sua mulher não acha isso bonito. A essa altura ela já tirou a máscara e solda, mas ainda não fala muita coisa, continua mexendo no interior de carro e parando para prestar atenção no monólogo enfadonho do marido com uma expressão plácida. Monólogo que para numa frase que ele gosta, frase que contém um certo quê, frase que com sua empolgação vira um verso, que ele repete: “Eu não sei / você é que tem que saber / a profecia não cabe ao profeta”. A guitarra e a bateria entram num ritmo animado e o ator agora encarna o cantor de rock, tomando um dos microfones que habita a cena e cantando seu refrão chicletento até embalar a platéia.

Seu lamento empolgado vira raiva. Ela ainda não falou nada. Sua ira explode em porradas com o instrumento no capô do carro. Ele pede para ela falar, ela que sempre sabe o que falar. Mas por que? Se ela é a ignorante, a analfabeta política que não sabe dos problemas do mundo. Não sabe a diferença entre Samarco, Mariana e Belo Monte, não sabe das revoluções e violações de direitos que assolam o mundo. Ela só sabe do horário do judô do seu filho, da natação, do inglês. “JUDÔ É O CARALHO”, explode ele com uma guitarrada no carro. Sua agonia infantil só alimenta o desgosto dela, tornando fala mais violenta – mas de um jeito sofisticado – pondo o dedo nas feridas abertas, disparando certeira nas hipocrisias e inseguranças do marido.

Ele tenta rebater com sua fúria de injustiçado, e tentando exercer sua justiça poética, dispara a ilustre frase que estampa o folder do programa da peça: “Ninguém pode ser feliz com uma carteirinha da OAB desde o berço”. Ela dá uma risada. Aí, essa a cativou. E é a vez dela de tomar o outro microfone. Ela sal do carro e arranca o sobretudo, mostrando que também está com cotoveleiras, joelheiras e protetores. Eles contrastam com sua meia-calça, saia e sutiã pretos. Sobre um instrumental pesado, ela dispara a bela crítica social do marido com uma voz poderosa e até mais afinada, mais estridente que a dele. A música atinge um crescendo e ela sobe num dos carros quando o som para. Que inveja os desembargadores do tribunal devem ter de seu maridinho que passa as tardes compondo músicas e resolvendo os problemas do mundo na internet. Mas o quanto essa frase também diz sobre as estruturas do poder no estado do Paraná e no Brasil.

Mais discussão, mais bate boca, mais discursos sobre política e sexualidade até que ela o intima na chincha: “Você lembra o nome do nosso filho?” Uma música tensa toma conta e o marido agora distribui pipocas para o público, enquanto um narrador esportivo, que satiriza o tom dos locutores tradicionais, anuncia um estranho duelo de concessões passivo-agressivas. A desorientação do momento se encerra com os dois de pé em cima do carro, segurando um roteiro e interpretando com vozes afetadas a simulação de uma transa. Eles então chegam a um momento crucial: o momento em que, no meio da briga, eles começaram a se pegar.

E em plena crise, ela decide ceder a um desejo renegado ao marido por 21 anos: o desejo de comer o seu cu. Chegando lá, na hora H, tentando entrar… não deu. O casal discute a situação numa paródia das clássicas e forçadas interpretações de novela. Ela, indignada, relaxada até demais, não entende como ele pode estar meia-bomba. Eis que ele se escandaliza com o termo esdrúxulo da esposa. Isso não é coisa de mulher de bem, isso é palavra de mulher que tem amante! “Quer saber?”, diz ela, “Quer saber? Pois eu já falava meia-bomba muito antes de ter um amante!” – risada diabólica.

Uma bomba atômica foi jogada sobre a santidade do matrimônio. Ele não podia crer que sua esposa, sua esposinha querida, poderia ter um amante. “Mas há quanto tempo? 3 ANOS? Mas… Mas você deu o cu pra ele? Deu? DEU?” Mais do mesmo melodrama hipócrita, esse espetáculo tão banal que se repete nas novelas das famílias curitibanas e brasileiras e ocidentais e sabe-se lá onde mais. No auge de sua indignação moralista, o poeta transgressor subversivo ficou tomado de possessividade e dos e valores classe média que tanto detesta.

Sua esposa moderna, a advogada conformista e traidora, não consegue engolir tanta hipocrisia. Porque corno que corneia não é corno. Ou será que ele acha que ela esqueceu a amiguinha da sua filha? Como se ninguém soubesse. Todo mundo sabia. Só ele não sabia que todo mundo sabia. E pra ela já deu. Ela volta a catar as peças de carros espalhadas, espólios de uma vida a dois, e colocá-las no carrinho de supermercado. Ela sai de cena, deixando o marido de joelhos em cima do Renault.

Mas ele vai tentar reconquistá-la! “Espera! Eu… eu escrevi uma canção pra você!” Mas quando ela envolve o público no showzinho particular, pedindo mais luzes e mais fumaça para a equipe, ele treme na base, se acovarda. Diz que é pra ser algo íntimo, que a música não está pronta, que isso e aquilo. Ela perde a paciência de novo. Ele tenta mais uma vez, no desespero de seu desamparo, fazê-la voltar evocando a educação da filha. Enquanto ela sobe no carro, ele gagueja pateticamente: “Mas eu… Eu me preocupo com ela… Ela já ta crescidinha. Será que… Será que ela dá o cu pro namorado?”. A esposa o conforta: “Não, querido. Só pro amante.”

Um alarme soa. Eles descem do carro e vão ao porta-malas, de onde tiram apetrechos cerimoniais. Uma marcha nupcial irrompe e o casal sobe no carro de novo: ele com um véu de noiva e ela com um fraque, abrem uma champanhe e comemoram um casamento às avessas, onde a inversão de gêneros sugere uma inversão maior. Ao estourar a bebida, estranhas figuras começam a emergir das carcaças automotivas. São corpos masculinos e femininos com o peito despido, longas saias bizarras de um laranja vivo, projetadas da cintura às canelas por argolas como bambolês estáticos. Cada figura com um acessório mais estranho: uma carrega um triângulo de trânsito no pescoço, outra usa uma proteção facial de boxe, outra um cone pós-operatório canino. Todas se movem suavemente, até que a marcha matrimonial se dissolve e dá vez a um Mozart angelical.

Um coro de vozes suaves conduz os corpos seminus expostos ao frio. Eles se movem silenciosamente na paisagem apocalíptica do fim da relação, até assumirem certas posições estratégicas. Lentamente, pegam galões de gasolina ocultos que derramam no chão, ensopando o cenário com o combustível de uma revolta íntima. Suas mãos se estendem em direção a armas ocultas no cenário e em seus figurinos. Armas de água, de sabão, de borracha são brandidas para todos os lados enquanto os sons de um tiroteio trovejam nos ouvidos do público.

Lentamente, a batalha cessa e os corpos agora estáticos encaram os presentes com sua nudez. Uma voz feminina sussurra de maneira sensual uma cartinha para o Papai Noel. Essa figura mítica que preside os rituais anuais de tradição e normalidade de todas as famílias de bem. Essa entidade incorpórea cuja presença materialista se manifesta em débitos e créditos de presentes e promessas de um modo de vida em crise constante. A tensão sexual e pedófila dessa figura, tão próxima das criancinhas, é trazida à tona quando o coro levanta suas saias para revelar seus genitais vestidos, mas totalmente expostos sob as meias arrastão. Se expõe ao mesmo tempo em que tentam ocultar seus rostos. O perigo predatório que se esconde sob a fachada das famílias felizes é tocado nesse momento, lembrando que a maior parte dos abusos infantis são cometidos por membros da própria família.

A voz termina sua confissão estranhamente sedutora e burocrática. A ex-mulher já não está em cena, enquanto o marido está em cima de um carro segurando um galão de combustível. O coro se ajoelha perante ele com devoção. Ele manda um áudio para sua esposa dizendo que hoje não se atrasou para buscar seu filho na escola. Ele chegou até mais cedo, porque seu filho tinha manchado a camisa com um Toddynho contrabandeado, porque eles são proibidos na dieta padrão as segunda série. Ela grita de longe, do lado de fora do terreno, chacoalhando as grades, berrando pra ele se afastar do seu filho, que tem uma ordem judicial. Ela grita desesperada, mas já é tarde demais. Ele está estranhamente calmo e resoluto, orgulhoso que seu filho não teve medo de contar do Toddynho pra ele, porque a mãe ia brigar. Ele derrama a gasolina e, num último afago em seu filho invisível, ele acende uma tocha improvisada e a solta. Todas as luzes se acendem no poderoso flash da explosão.

Aos fundos, uma parte do terreno baldio cheio de telhas quebradas se ilumina. O homem anda até lá lentamente, até virar só uma sombra projetada na parede. O rádio sintoniza a estação Classe Média FM, a rádio da família curitibana, para trazer a cobertura ao vivo do ataque terrorista no tradicionalíssimo bairro Jardim Social. Um homem armado entrou na escola de segurança máxima e abriu fogo, matando 115 crianças antes de se suicidar e cair nos braços de uma criança que insistia em chamar de filho. A população da cidade se solidariza com a hashtag #SomosTodosSocial.

Assim se encerra Air Bag. Mas que air bag? Com certeza esse é um equipamento de segurança que não estava presente no veículo durante a batida violenta que é esse espetáculo. Uma porrada de tonelada na cara lavada da sociedade. Em uma atuação enérgica e visceral, Patrícia Cipriano e Gabriel Gorosito expõe as entranhas de um casamento falido através de suas personagens sem nome. As instituições sociais que permeiam nossas vidas são assaltadas numa autópsia de suas contradições mais vis. As hipocrisias de um povo revoltado, mas imbuído dos mesmos valores que detesta, são aviltadas com comentários sórdidos sobre nossa imobilidade, nossas fugas e engajamentos fúteis.

Ver essa peça não é bem ver, é participar. Estar exposto ao frio num cenário hostil, mas ao mesmo tempo aquecido pelo fogo elétrico evocado por essa grande produção. É estar enfiado na intimidade decadente de um casal arquétipo da atualidade. No cenário distópico da realidade, o espetáculo é um reflexo aumentado do desgaste dessa civilização no ápice de seu progresso, em plena cidade que simboliza a vanguarda da moralidade republicana de uma democracia frágil. Air Bag é uma explosão necessária, um respiro de claridade em meio à loucura, e por um lado talvez seja sim um aparato de segurança para nossa sanidade não se espatifar no choque de realidade que esse mundo nos impõe.

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Luciano Schmidt é formando em jornalismo pela PUC-PR.

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