Coração e O Céu de Valentim: por onde construímos nossas narrativas?

O indígena olha para baixo, para a terra que é imanente; ele tira sua força do chão. O cidadão olha para cima, para o Espírito encarnado sob a forma de um Estado transcendente; ele recebe seus direitos do alto.”[1]

O grupo Obragem, criado por Olga Nenevê e Eduardo Giacomini, faz parte do escopo de companhias em Curitiba que possui pesquisa continuada. É inegável seu comprometimento com o teatro. Criando e propondo projetos há pelo menos 15 anos o grupo compõe aquilo que chamamos de resistência cultural chegando ao ponto de construir dentro da própria casa um teatro, e em partes, com as próprias mãos. Um gesto de persistência, insistência e coragem.

Este ano o grupo executa o projeto Coração que é composto por duas peças interligadas, mas que podem também existir separadamente. A primeira é um solo de Greice Barros em que a personagem de um anjo habita um espaço desolador. A segunda, intitulada O céu de Valentim é uma narrativa sobre um menino, interpretado por Olga Nenevê, que após receber a visita do anjo sai na companhia de sua avó, Eduardo Giacomini, em busca do pai.

Surpreendentemente os espetáculos reverberaram em mim questões que dizem respeito a uma iconografia católica portuguesa, ou seja, colonial, que muitxs artistas brasileirxs e em diversas áreas tentam hoje resignificar e até mesmo destruir, numa tentativa de encontrar aquilo, ou aquelas tantas outras iconografias apagadas violentamente pelo processo colonizador.

Na primeira peça podemos associar a figura do anjo interpretado por Greice Barros ao Angelus Novus, pintura de Paul Klee que parece estar presente como referência não apenas pela semelhança do figurino e pelos movimentos que remetem ao corpo na pintura, mas também por um certo discurso e principalmente um modo de se olhar para a história.

Em Sobre o conceito de história[2] Walter Benjamim constrói uma narrativa a partir do olhar de Angelus Novus. Para ele o anjo de Paul Klee, ao qual ele se referirá como o anjo da história, revela pelo olhar a desolação diante do passado, o anjo não olha para uma cadeia de acontecimentos composta por causas e efeitos, mas olha para uma imagem achatada do horror produzido pelo ser humano. Em Coração, o anjo perturbado olha para o agora e replica o olhar do anjo de Klee, é um olhar de desolação e desespero sobre e para o que se passa enquanto se olha. A dramaturgia com autoria de Olga Nenevê não trata de uma narrativa evidente com começo, meio e fim, é o anjo perturbado perguntando-se sobre o horror das ações destruidoras do ser humano. O anjo olha para baixo, ele provavelmente olha para ruínas. Mas, de onde olha o anjo? De onde se constrói o olhar do anjo? Poderiam as ruínas olharem o anjo? Poderiam as ruínas não conceberem qualquer tipo de imagem de anjo? Poderia o anjo ser ruína?

Angelus Novus, desenho a nanquim, giz pastel e aquarela, feito por Paul Klee em 1920. Atriz Greice Barros no espetáculo Coração, foto de Elenize Dezgeniski.

Em Coração o anjo é também uma fala perturbada e guaguejante que não dá conta de uma elaboração sobre os acontecimentos históricos, reais e materiais.  Ele fala quase sem parar, quer ser morto, quer matar, subitamente sucumbe a estados próximos da loucura. O que ouvimos como suposto guaguejo é parte da pesquisa vocal de Olga Nenevê que busca uma vocalidade emocional, assim, pausas inesperadas, sílabas alongadas, desestabilizam o espectador e intensificam a interpretação. Coração parece insistir em um pessimismo que nos assola cotidianamente desde o momento em que acordamos até o momento em que nos deitamos para dormir, sem novidades em sua elaboração.

No segundo espetáculo, o menino Valentim ao supostamente receber a visita do anjo decidi sair em busca do pai que teria sido morto em uma situação de confronto com um outro homem. O pai de Valentim é nomeado como o homem de chinelo e seu algoz, o homem de botas.

O Céu de Valentim. Foto: Elenize Dezgeniski.

Assim inicia-se um trajeto de desafios e ensinamentos. O menino e a avó olham constantemente para o céu, para nuvens projetadas quase que continuamente, olham para um céu estrelado e olhando para o céu constroem um deslocamento em busca deste pai, que não se sabe ainda vivo ou morto. A avó sempre de maneira ingênua serve de escada para as descobertas de Valentim.

Com uma encenação que utiliza a linguagem do teatro para crianças, a contação de histórias, a manipulação de bonecos, o desenrolar do espetáculo engendra-se numa série de referências e em uma atmosfera que poderíamos localizar no universo das parábolas bíblicas, o que acaba por soar bastante moralista.

Durante o percurso Eduardo Giacomini, que interpreta a avó, interpreta também uma cobra peçonhenta que interpela o menino em sua busca e tenta enganá-lo, desvirtuá-lo do caminho. A cena nos é familiar e em algum lugar pode nos remeter a imagem da cobra interpelando Eva no “paraíso”. Assim como o mendigo interpretado também por Eduardo, representado de maneira caricata por uma máscara pode nos remeter ao mendigo Lázaro que aparece no livro de Lucas na bíblia católica. O mendigo que aparece ao menino Valentim e que personifica também um lobo, o ensina sobre as mazelas da avareza, o ensinamento é reafirmado pela a avó que diz: não há que se amar as coisas, mas as pessoas[3]. Há uma insistência num tipo de imagem do que seria um homem pobre pedinte, um clichê explorado em tantas outras narrativas com a imagem do homem pobre sendo um homem feio, com voz grave e movimentos abruptos. No livro de Lucas, o mendigo Lázaro é um pedinte que fica na porta de um homem muito rico. Quando Lázaro e o homem rico morrem os dois se encontram em outro plano. Lázaro vai para o céu e o homem rico vai para o inferno. A bíblia ensina nessa narrativa que aquele que sofreu mais ascende ao paraíso enquanto aquele que tudo teve na terra vai para o inferno. O homem rico vê desde o inferno Lázaro no paraíso cristão. A bíblia não sugere qualquer tipo de libertação possível de uma situação de exploração na terra, mas há na penitência e no martírio a recompensa da libertação no céu. Para a religião católica, sofrer é padecer no paraíso.

Essa polarização entre bem e mal com característica cristã aparece na peça na metáfora utilizada entre a imagem do homem de botas e o homem de chinelo, que identifica agentes da luta de classes. Uma metáfora que desconsidera as inúmeras produções teóricas e artísticas que pensam o capitalismo e a luta de classes considerando e nomeando o que é inevitável e urgente, que o capitalismo, enquanto sistema econômico-social está necessariamente ligado ao sexismo e racismo[4], como nos diz Silvia Federeci. No espetáculo, a luta é dos homens e o trajeto é o de um menino. Assim a narrativa de uma luta de classes simplificada parece fazer mais jus a um discurso colonizador do que a de fato repensar o que significam e significaram essas lutas e como elas foram produzidas ao longo da história.

Diante de tal simplificação me pergunto, quantos oprimidos não sucumbiram a opressões diversas que utilizaram as narrativas católicas como modus operandi de um deslocamento cultural forçado? Penso aqui na violência produzida pelas Missões Jesuíticas na América Latina que, dentre outras coisas, utilizaram primordialmente as narrativas bíblicas para justificarem e operarem um sistema de opressão e aniquilamento.

Assim, como o uso de uma iconografia marcadamente construída em nós via catolicismo português pode de algum modo operar num processo de descolonização? Pois, o que vemos no espetáculo não é uma subversão dessas iconografias, mas sim sua reafirmação.

Após vivenciar o falecimento da avó as palavras do menino Valentim ao final são: meu pai sempre esteve aqui. A onipresença de um pai, assim como a onipresença de um deus provoca muitas coisas. Michel Foucault diria que essa onipresença transferida para aquilo que conhecemos como estado moderno compõe as técnicas de controle e disciplinamento do corpo, o biopoder. Raul Seixas diria: paranoia[5].

O espetáculo parece uma tentativa de propor uma discussão a partir de um entorno político, social e de discussões complexas que não podem ser ignoradas no Brasil atual, e que nem pretendem ser ignoradas pelo grupo. No entanto, faz isso a partir de lugares simplificados que repetem a lógica iconográfica colonizadora reafirmando de algum modo apagamentos. E, como pensar o Brasil e a América Latina sem pensar seus apagamentos históricos? Escovar a história a contrapelo como sugere Benjamin, não poderia ser justamente entoar narrativas a partir/com/desde perspectivas iconográficas e estéticas daqueles/as que foram aniquilados/as?

Assim a nomeação de grupos oprimidos no texto final da peça parece não conectar-se com o apresentado anteriormente. Parece urgente a tarefa de se enunciar outros modos estéticos e éticos para nomear também os opressores e seus processos de opressão. Seria injusto afirmar que a peça não propõe uma empatia em relação ao oprimido, o que  parece problemático é que há na proposta uma empatia cristã e a empatia cristã está aqui há 518 anos. Como seria se Valentim e a avó, que se quer nome tem, olhassem mais para o chão como fazem os indígenas?

 

FICHA TÉCNICA:
CORAÇÃO
Texto e Direção: Olga Nenevê
Assistente de Direção e Cenário: Eduardo Giacomini
Interpretação: Greice Barros
Direção de Movimento e Preparação Corporal: Marila Velloso
Trilha Musical Original: Vadeco Schettini
Figurino: Paulo Vinícius
Iluminação e Operação de Luz: Lucas Amado

O CÉU DE VALENTIM
Texto: Olga Nenevê
Direção e Interpretação: Eduardo Giacomini e Olga Nenevê
Projeções: Lidia Sanae Ueta
Preparação Corporal: Marila Velloso
Trilha Musical Original: Vadeco Schettini
Figurino: Eduardo Giacomini
Confecção de Boneco (cobra-dragão): Maria Adélia
Iluminação e Operação de Luz: Lucas Amado

EQUIPE DO PROJETO
Teaser e Fotos (divulgação e registro): Elenize Dezgeniski
Registro em Vídeo: Lídia Ueta
Assessoria de Comunicação e Ass. de Produção: Luciana Melo
Designer Gráfico: Alessandra Nenevê
Responsável Técnico de Som e Luz: Lúcio Filipe Nogueira
Ass. de Produção: Douglas De Souza Perez
Produção: EGM Produções Artísticas

[1] CASTRO, Viveiro de. Os Involuntários da Pátria.  Série Pandemia. Editora N-1. Aula pública durante o ato Abril Indígena, Cinelândia, Rio de Janeiro, 20 de abril de 2016.

[2] BENAJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história in Magia e Técnica, Arte e Política – ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994 (obras escolhidas ; v.1)

[3] Fala da personagem Avó durante O Céu de Valentim.

[4] FEDERICI, Silvia. Calibã e a Bruxa – mulheres, corpo e acumulação primitiva. Editora Elefante. Tradução Coletivo Sycorax. p.37

[5] https://www.youtube.com/watch?v=DNhZ4HvCrA8 Música Paranóia de Raul Seixas.

 

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Luana Navarro

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Luana Navarro é artista visual, formada em Jornalismo pela PUC-PR e com mestrado em Processos Artísticos Contemporâneos pela UDESC.