Como mover as palavras para além daquilo que elas fizeram de nós?

Três pequenas anotações sobre :
uma intenção de espetáculo
uma estreia
uma apresentação

 

 _ desculpe, não tenho nada a dizer hoje, posso te enviar um e-mail? amanhã?

às vezes quando escrevo um e-mail penso estar escrevendo uma carta. depois de anos, depois de alguns destinatários imaginados, desejados e interrompidos.

escrevo uma carta não como aquela não escrita pela personagem capturada pela polícia no estrangeiro, escrevo uma carta sem as mãos sujas de terra, sem as mãos sujas de detergente, escrevo uma carta sem imagem de praia pra enviar junto.

escrevo um e-mail com desejo de carta após sonhar que mastigava vidro.

escrevo para quem ainda gagueja e sabe-se gaguejar, escrevo para quem duvida de um como se diz, duvida da palavra deteriorada em potência de ser enunciada, para quem deseja criar espaços na mente e fala, balbuciar alguma outra coisa que não seja o que aquela, uma velha esgarçada, surrada palavra diz, não inventar novas palavras, mas explodir as que existem.

insistir nas palavras que existem.
ser testemunha da transformação da palavra na minha boca e na boca do outro.
assumir a incerteza.
persistir nas coisas que deslizam.
não negar a insegurança.

escrevo para quem faz uma dramaturgia difícil.

escrevo um desejo de carta.

Barthes em O grão da voz diz que a única subversão possível em matéria de linguagem é deslocar as coisas 

lista de tentativas

– jogar as palavras contra um muro alto
– umedecer ainda mais sílabas deslizantes até que elas dancem
– enfiar no micro-ondas em potência máxima: política, destino e paisagem
– quebrar ao menos duas palavras com uma marreta
– emprestar uma marreta para uma amiga
– evitar o empréstimo de uma marreta a um inimigo
– reconhecer o inimigo
– reconhecer minha palavra na palavra do inimigo
– reconhecer a palavra do inimigo na minha palavra
– descobrir a quem dizemos o que nos parece ser importante
– reconhecer o que não somos capazes de ouvir

 

pra você, quando é que a escuta torna-se ação?

 

_ não te trouxe flores, nem chocolates, mas estou aqui, inteira

um homem abre um tapete vermelho arredondado, uma mulher entra segurando um pedestal com um microfone, ela testa o microfone, uma segunda mulher toma a palavra. um homem em pé a acompanha.

alguém fora do teatro diz: eu pensei que dizer era isso, era a palavra, era esse som ainda que fragmentado, mas de repente, dizer é tirar os sapatos, é desligar aparelhos, é mover paredes, é arrumar vasos com flores de plástico, é carregar sofás, e a palavra some, a palavra, aqui,                               some                                    com o arrastar dos móveis. você segue suada e eu não sei o que fazemos aqui e é bom ter ainda a quem poder dizer que

                                                                                                                                                                                                                                    não sei
                                                                                                                                                                                                                                    o que
                                                                                                                                                                                                                                    fazemos  

                                                                                                                                                                                                                                    aqui

 

e por que é que a gente tem que se mexer tanto, se balançar inteiro, tirar a casa do lugar pra mudar o que está na linguagem? precisamos aqui, agora de uma marreta, com cabo longo.

Saímos todos acompanhados no breu do parque que se anuncia e na possibilidade da violência também anunciada, saímos acompanhados por necessidade, por instrução, saímos acompanhados, necessariamente acompanhados com marretas imaginárias.

uma mulher carrega o corpo de um homem, mais pesado que o seu, uma mulher carrega com dignidade o corpo de um homem, mais pesado que o seu. por que uma mulher não poderia ter dignidade carregando um corpo mais pesado que o seu?

_ recomeçamos. quatro corpos na minha frente. um corpo ao fundo. eu, aqui. ouço o som distante da água que cai lá fora. recomeçamos, vocês aí, eu, aqui. recomeçamos juntos.

palavras constroem coisas bastante sólidas, constroem corpos, muros altos com arames, uma sala pequena para interrogatórios, um banco no meio de uma praça, um navio para tripulantes, passageiros e cargas pesadas, antenas de TV, uma cabine peep show, chip de celular, um aperto de mão entre dois autoritários em algum lugar do mundo, palavras ainda podem construir motins, também, mas palavras só existem porque corpo e é do corpo que eles têm medo

fotografia de Olívia D’Agnoluzzo

 

Outra palavra[i], novo espetáculo da Súbita parte de “cinco palavras-conceitos – fronteira, identidade, território, lugar e corpo – para se debruçar sobre questões políticas e sociais atuais”[ii]. Desenvolvida a partir das seguintes questões “o que nos faz falar? o que nos permite tomar a palavra?” o espetáculo é uma narrativa fragmentada e embaralhada de cinco situações que envolvem o dizer e o dizer-se como ação de existência em contextos políticos que nos exigem a reinvenção e a tomada de lugares via fala, via palavra enunciada.

Ancorada na construção de cincos territórios que são situações propõe-se em cada uma delas a tensão diante/com/a partir de um determinado dizer-se: uma mulher viaja para devolver o corpo de um homem ao seu lugar de origem. Um jovem é deportado do estrangeiro. Uma filha adotiva busca a identidade da mãe assassinada durante a ditadura militar no Brasil. Um homem do oriente médio confronta a própria história ao acolher uma prima refugiada. Quatro personagens privados de liberdade sob uma ditadura ou um estado totalitarista constroem uma possibilidade de existência.

Com direção de Maíra Lour, dramagurgia de Franciso Mallmann e atuação de Álvaro Antonio, Cleydson Nascimento, Helena de Jorge Portela e Janaina Matter o espetáculo dentro do contexto de investigação da Súbita parece apontar para novos interesses da companhia. Depois de dez anos de produção o grupo se dispõe a conectar-se com outras formas de se fazer teatro, o convite a Francisco Mallmann para participar deste trabalho traz outros modos de se pensar a relação entre atores, dramaturgia e direção. A partir de uma escrita que aconteceu com o grupo, a dramaturgia é a continuidade de uma investigação poética de Francisco Mallmann que considera o outro como fundante da palavra que será dita, este processo é o cerne da questão de Outra Palavra. Se para Barthes só posso levar o meu corpo até o limite dele mesmo com um outro; mas esse outro também tem um corpo, um imaginário, poderíamos pensar que em Outra Palavra só se pode levar a palavra até o limite com um outro, mas esse outro também tem uma palavra, sua palavra.

Francisco Mallmann consegue desencarcerar a potência que todos nós temos que é a possibilidade de jogar e o desejo de modificar os usos opressores que pode ter toda e qualquer palavra, num contexto em que a crise além de política é uma crise da palavra, porque a política falida que vivenciamos e sua manipulação se faz pela palavra. Saímos em estado de atenção, seguros de que a modificação das coisas passa pela palavra. Assim, sua dramaturgia é desejada para além do teatro, queremos carregá-la com as mãos mesmo, enfiar na mochila e poder retomá-la na sala de espera do dentista.

Enquanto assistia a mostra de processo do espetáculo realizada no Teatro José Maria Santos dois pensamentos me atravessavam e insistiam em coexistir com o que eu via diante de mim. Enquanto estava em Brasília este ano uma amiga que trabalha diretamente com os povos indígenas do Xingu me relatou que desde o ano passado eles reivindicam constantemente o uso da palavra território, substituindo terra indígena e parque indígena por território indígena. Em toda entrevista, em materiais enviados para imprensa, em fóruns de discussão, em manifestações eles dizem enfaticamente a palavra: território. O segundo pensamento que me tomava a todo instante era a lembrança do título do prefácio de A pedagogia do oprimido de Paulo Freire: Aprender a dizer a sua palavra.

Para além de encontrar uma definição precisa para o que pode vir a ser um território, em Outra palavra me interessa lançar as perguntas: como são construídos e desconstruídos os territórios? Estas questões se dirigem a proposta de encenação, mas transbordam também para o que são as questões urgentes do nosso contexto político. O que um como pode definir aquilo que se constrói?

A primeira cena do espetáculo acontece na beira do espaço cênico, uma mulher arruma o tapete, um homem entra com um pedestal e um microfone e na sequencia uma outra mulher toma a palavra. Um homem arruma o tapete, uma mulher entra com um pedestal e um microfone e na sequencia uma outra mulher toma a palavra.

A inversão dos agentes dentro da cena apresenta-se como uma ação chave que aponta uma coerência com aquilo o que se pretende no espetáculo. Se num primeiro momento (mostra de processo) a cena apresentada colocava o homem como aquele que constrói o espaço de fala de uma mulher, isso é rearranjado numa evidente reação e tomada de consciência do que significa este detalhe que aponta para a luta real em que mulheres constroem espaços de fala para outras mulheres. Sabemos que palavras existem em contextos construídos, e não seria nossa batalha urgente a construção de contextos?

No prefácio de A pedagogia do oprimido escrito por Ernani Maria Fiori, o autor diz que com a palavra o homem se faz homem e sabemos que com a palavra a bixa se faz bixa, a mulher se faz mulher, a lésbica se faz lésbica, indígenas tentam retomar um território ao qual pertencem e que homem não é sinônimo de humanidade. As palavras não nos são dadas. E certamente, não são os homens que nos darão as palavras. Quem acompanha o trabalho de poesia de Francisco Mallmann encontra em Outra Palavra o que lhe é característico e desejado a tentativa de um vocabulário poético desde uma perspectiva que descontrói certos lugares em que a palavra reforça invisibilidades e opressões ligadas a sexualidade, gênero e lugares de fala. Permeando-se por esta busca a Súbita neste espetáculo lida também com essas questões no processo de encenação e direção, a dramaturgia difícil[iii], como assina o próprio Francisco Mallmann, desloca então as estratégias antes experimentadas pela companhia, a não lineariedade das cenas, a desconstrução das situações tornam a proposta um exercício de construção e desconstrução de narrativas onde o como se constrói e desconstrói borrando os limiares das histórias e produzindo efetivamente a possibilidade das palavras se fazerem outras, num processo aberto que se modificou até o ultimo dia desta primeira temporada. De algum modo neste processo a Súbita parecia necessitar e buscar ao longo das apresentações uma ecologia da imagens[iv], numa atitude corajosa de se desfazer, dentre outras coisas, do cenário inicial, tapadeiras móveis que eram montadas e desmontadas durante toda o espetáculo, que replicava imagens já existentes na dramaturgia esvaziando sua potência e causando certa redundância.

A precisão física, característica da companhia construída a partir de treinamentos como Suzuki e ViewPoints, ainda que bastante importantes parece não ser neste trabalho uma característica de maior importância, para além de corpos treinados e tonificados o trabalho acolhe em cena a presença de outros corpos como é o caso da participação de Álvaro Antonio que assina a sonoplastia e Joana Walter na assistência de palco, ambos realizando suas funções dentro do espaço cênico, escolha esta que condiz com a escolha do trabalho acontecer com o espaço de encenação completamente aberto desierarquiezando em certa medida a visibilidade de atorxs e técnicxs. Vemos o tempo todo o modo como as cenas são construídas e desconstruídas. Se faz teatro mostrando-se fazer teatro

Neste sentido, a potência do espetáculo parece ancorar-se nos momentos de menor nitidez sobre o que acontece e quem são os agentes da situação. Em determinado território uma discussão entre as quatro personagens sob um regime opressor na qual tentam entender quem são eles e quem são nós amplifica o que vivemos num aqui agora real em que tentamos diariamente encontrar nossos pares para a construção de uma possível insurgência, seja ela no espaço real ou virtual. Neste momento do espetáculo a plateia está diretamente implicada neste jogo de eles <–> nós, um jogo com a própria realidade teatral atores/plateia, um cá e lá que pode ser fluído e manipulado a todo instante. As personagens conduzem um chamamento para a reflexão sobre nossos lugares cambiantes, quem está na plateia se implica na questão porque todos nós podemos em algum nível transitar pelo dizer-se pronominal, ali acontece um exercício coletivo bastante precioso. Quem é a pessoa do discurso do que? Num momento em que necessitamos tanto afirmar coletividades o espetáculo coloca em questão esse processo de afirmação, e, quando é que uma coletividade não precisará massacrar as individualidades ?

Agora, imagine uma dança das cadeiras, como aquela brincadeira que costumávamos a fazer na infância, mas imagine uma dança na qual cadeiras são adicionadas e não subtraídas a cada interrupção da música, este parece ser o desejo de Outra palavra, uma experimentação genuína e uma investida de deslocamento de um teatro que a duras penas tenta reinventar lugares de fala, modos de encenação, atuação, direção e dramaturgia. Um trabalho que modifica-se tanto após sua estreia, além de revelar a própria condição do fazer teatro, expõe uma tentativa sincera da companhia de desconstruir seus próprios lugares de linguagem, num processo difícil, mas necessário se o que se pretende de fato é dizer outra palavra.

 

[i] Outra palavra estreou em Curitiba no dia 24 de agosto de 2017 no teatro Cleon Jacques. O espetáculo foi realizado sem lei de incentivo, esta observação não tem como objetivo endossar qualquer discurso que defenda a precarização das políticas públicas para cultura, mas sim sublinhar que mesmo que não queriam e que as estruturas sejam cada dia mais precárias o teatro seguirá sendo feito.

[ii] Texto de divulgação do espetáculo publicado no evento do Facebook.

[iii] Outra palavra uma dramaturgia difícil da Súbita Cia de Teatro é a forma como Francisco Mallmann se referiu a essa escrita durante a mostra de processo no teatro José Maria Santos.

[iv] Susan Sontag nos últimos textos que escreveu sobre fotografia passou a repetir algo que era a possibilidade de se pensar uma ecologia das imagens. Ela dizia isso após escrever um livro inteiro sobre a dinâmica da produção das imagens de guerra em Diante da dor dos outros, me aproprio aqui deste termo usado por ela para pensar em uma possível economia de imagens que acabam por sobrepor imagens que parecem ter maior potência no contexto do espetáculo.

 

 

 

 

Compartilhe:

Luana Navarro

Ver posts de Luana Navarro
Luana Navarro é artista visual com trânsito por diversas linguagens. Tem interesse pela palavra, a leitura em voz alta, a imagem e o corpo como dispositivo e suporte de criação.