Quando você ouvir corpa – notas sobre Ficção Científica e Corpa Atroz. Exe

Por Ricardo Nolasco
Fotografias de Vino Carvalho

cena de Metropolis de Fritz Lang, um filme percursor da ficção científica e do expressionismo alemão coberto de moralismo em 1927

1. A ficção científica está intimamente atrelada a toda literatura libertária produzida a partir da década de 50, se até então a visão distópica foi sempre bastante fatalista ao revelar um mundo decadente, colapsado e violento é desse mesmo mundo em ruínas que nasceriam possibilidades completamente dissidentes às proposições do amor romântico. Assim o sci-fi se tornou o formato mais amado pelxs anarquistas ontológicos, feministas ciborgues, cyber xamãs, tecno pagãos, imigrantes latinos e radical fayers; esse gênero nunca mais seria o mesmo, estaria presente nos principais manifestos e fanzines distribuídos ou vendidos por qualquer moeda nas saídas de shows punks, ocupações e até mesmo de brinde na compra de um LSD. Através dela seria possível propor novos mundos, encontrar possibilidades e se reconectar com o sagrado sem renegar o sintético. Possuir uma vida experimental. Se alguns movimentos advindos da segunda onda do feminismo cantavam a equidade entre os gêneros e o sagrado feminino, a terceira onda se interessava em olhar o mundo como era, com suas falhas, fracassos e tentativas. Esse mundo já era irreversível, mas poderíamos criar com ele: afinal tudo é fake, falso e artificial, inclusive o que chamamos de natureza.

Cuidado, in progress!

2. Em O Grotesco Feminino- risco, excesso e modernidade a pesquisadora Mary Russo aponta na hibridez grotesca uma possibilidade de fusão entre diferentes espécies. Todo híbrido é infértil e toda a esperança é perdida. É justamente nesse acasalamento, infecundo, entre uma ciência patriarcal, eurocêntrica e racionalista com a substituição de uma epistemologia democrática pela epistemologia dadá que nasce de forma não humana e de um parto nada natural esse monstro híbrido de proveta que nos interessa aqui: Evidentemente não estou me referindo a toda a ficção científica, mas aquela que nos revela que somos apenas figurantes de um teatro biológico – cadeia de DNA pronta pra ser subvertida.

3. A ciência normativa com seu complexo sistema farmacopornográfico estaria com os dias contados e assim essa FC ameaçaria como terroristas alienígenas todo o entretenimento Way Of Life: começando pelo romance, passando pela história em quadrinho e terminando no filme pornô. Angela Carter. Bjork. Donna Haraway. Matthew Barney. Hakin Bey. Laurie Anderson. Lay Bowerry. Paul Preciado. Diana Torres e Alan Moore são apenas alguns dos nomes que me fizeram como artista e que certamente não saíram impunes dessas experiências .

4. Por mais que no Brasil até então tenha sido bastante tímida essa propulsão mundial da ficção científica, o livro Futuro Proibido (organizado por Peter Laborn Wilson) foi a bíblia de uma geração de artistas anarquistas, livro do qual destaco esse fragmento para conversar diretamente com CorpaAtroz.Exe- espetáculo apresentado no Teatro Novelas Curitibanas integrando a programação de duas importantes mostras da cidade, a independente Mostra Emergente e a subsidiada Mostra Novos Repertórios 2018.

Meu Cabelo não é meu. Meu Sangue não é meu. Minha vida não é minha. Eu não sou livre. Eu sou uma prisioneira política em uma reserva de caça na América do Norte. Meus Cabelos são longos, finos, frágeis, encaracolados. Eu os penteio com despojo e água da chuva. Estou esperando e não estou esperando. Estou repousando e sou incansável. Tudo que sou, não sou.

Trecho do conto Eu Fui Uma Engenheira Genética na Adolescência de Denise Angela Shawi.

5. Duas mulheres robôs productas presas em um sistema de representação caricato falam com uma voz excessivamente fina e inumana, se movem como bonecas sobre um chão branco, programadas para entreter o público utilizando inúmeros recursos humorísticos. São graciosas e carismáticas ao revelar o fardo de uma feminilidade construída. De suas bocas discursos de atrocidades e violências contra o corpo feminino revelam como tudo é teatro e toda construção de docilidade é ironia e sarcasmo, o tom é agressivo.

6. Existe uma precariedade na execução, um fracasso evidente na tentativa de abdicação do humano presente na interpretação, figurinos e na cenografia (que não chega a ser tão cleen quanto a ideia que evidentemente evoca). A precariedade na tentativa de esterilidade, robotização, e pós humanidade é discurso junto com o corpo e voz dessas atrizes latino americanas. São jovens e é essa juventude o elemento mais impressionante da cena.

7. O ciborgue é alegoria da falha. Um vírus penetrou o sistema da cena e gradativamente essa vai se tornando mais violenta e conturbada, o que era alegórico se torna víscera e palavra material completamente diferente completamente semelhante a proposta por Antonin Artaud. Estamos sob esse domínio em uma experiência radical com o teatro, onde a plateia poderá sair louca.

8. Estes corpos que deveriam estar sendo agradáveis e delicados se tornam gradativamente mais e mais violentos, os microfones que pareciam antes ser apenas responsáveis por pequenos efeitos são responsáveis por perturbações sonoras e mentais. O quanto da cena pode acontecer apenas dentro da minha cabeça, afinal não sou e nem desejo a escrita de um público universal.

9. A saída está longe do humano e a representação não dará conta. Uma pregação feminista ciborgue. Muitos gritos, muito incomodo. Aqui a arte não é lugar para o conforto. Um a um os elementos desse mundo são mutilados, sendo o último deles o espaço que até então delimitou a cena, elas o arrancam e assim se aproximam da plateia. Tem microfones armas letais nas mãos. Tecnologicky made in paraguay, made in paraguay. Porque todas as vezes que você ouvir corpa um vulcão explodirá em alguma parte do mundo. Virá um ódio contido na garganta. As coisas estarão de outro jeito, não existirá Pai. O mundo terá mudado de forma definitiva. Não as boas intenções, não ao amor romântico.

Uma ficção que reinvente a realidade.

Duas mulheres e o desejo de serem um vírus mortal inteligente, de não serem humanas, de responder a humanidade com fúria. Pai, como a paixão de uma Nova Eva braços eletrônicos irão te abraçar, te agarrar, meu super man. Pai, um vírus entrou no teu sistema, você poderá agora ser diferente. Aceite essa mudança de dentro, ouça a voz de um novo tempo, ouça outras vozes contidas em todos esses sons. Um vírus é a esperança da máquina. A saída é do outro lado, elas amassam o espaço avançam na plateia, são profecias proferidas por ciborgues, uma nova corpa control DEL control DEL. Uma nova corpa desconfigurando. Desconfigurando.. Frankstein escrito em 1818 por Mary Schelley acreditava no amor. Só poderá haver amor depois da destruição de toda vez que você pensar em Corpa, manifestações mágicas: A voz bate, cava, espeta, treme, e a palavra toma uma dimensão material, ela é gesto e ato. Corpo sem órgãos recriado libertado de seus automatismos para “dançar pelo inverso”.

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Ricardo Nolasco é artista de cabaré, xamã, ex-ator, performer, escritor, poeta da presença, diretor de ex-teatro, artista pânico, neon dadaísta, situacionista, professor de artes cênicas e performáticas e flâneur. 

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