Criar e subverter palavras é também criar e subverter realidades?

Francisco Mallmann escreve sobre o Ruído EnCena a convite do Festival. Os textos serão publicados no site do Ruído EnCena. 

 

Foto: Bia Lile

 

 

Escrevo agora. Quando a inofensiva e problemática1 exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira foi fechada em Porto Alegre por alegações de pedofilia e zoofilia em algumas obras curadas. Agora. Quando forças reacionárias fizeram investidas contra a exposição Não matarás, em Brasília, que é sobre o golpe de 1964 e o de 2016. Agora. Quando o Masp, em São Paulo, cobriu com uma pequena cortina preta as cenas eróticas desenhadas por Pedro Correia de Araújo, em uma exposição retrospectiva de desenhos e pinturas do artista. Agora. Quando deputados estaduais do Mato Grosso do Sul, também alegando pornografia e pedofilia, registraram um boletim de ocorrência contra a artista plástica Alessandra Cunha, cujas obras estão expostas no Museu de Arte Contemporânea de Campo Grande. Agora. Quando a apresentação da peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, de Jo Clifford, no Sesc Jundiaí, foi cancelada por decisão judicial movida por congregações religiosas, por políticos e pelo TFP (Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade). Agora. Quando a Justiça Federal do Distrito Federal tomou uma decisão, em caráter liminar, que permite psicólogos livres para oferecer tratamentos contra a homossexualidade, tomando-a como doença. Agora. Quando por aí ações de invisibilidade e silenciamento se multiplicam e se perpetuam com a aprovação, apoio e exaltação das mais distintas esferas e grupos  – há, entre nós, aliás, os que invisibilizam, silenciam e boicotam. Agora. Quando grupos, instituições e forças reacionárias criam violentamente contextos e circunstâncias de ameaça e censura. Escrevo agora. Em vias de iniciar o Ruído EnCena, que nos diz: precisamos falar sobre o que nos passa.

Escrevo em estado de atenção e emergência. Escrevo consciente de que o meu silêncio é, às vezes, a possibilidade de criar debate. Falar é também não falar: que outras vozes evoquem aquilo que não sei e não poderia saber, sendo quem sou. Escrevo investigando as possibilidades de um texto que possa permitir que outras presenças me acompanhem. Enuncio e encadeio palavras intentando desvendar quem somos nós, e por que é assim tão necessário coletivizar a abstração fugidia que parece, momentaneamente, nos acalmar: nós. Delimitar em um espaço, físico e conceitual: quem somos e o que queremos, o que poderíamos ser e o que poderíamos querer. Por quê? Será que não estamos entregues a um exercício que, para além das nossas intenções, acaba por aniquilar posições e corpos diferentes e assimétricos? Estamos dispostas a criar, e constantemente recriar, contextos e coletivos que não pretendam compreender de forma totalizante e totalitária, que não estabeleçam lógicas rígidas que lentamente nos corrompam, que não resultem em sistemas generalizantes que, de algum modo, reproduzam violências desinvidualizantes ou uma ideia homogênea de grupo?

Escrevo fazendo perguntas: como é tomar a palavra, distante de uma tentativa unificadora? Como é fazer com que o nosso discurso seja um campo aberto para as nossas falhas? Como é emitir uma palavra e perceber que no momento de falar uma voz sem nome me precedia há muito tempo2? Como é falar e ser envolvido por uma voz que diga é preciso continuar, é preciso pronunciar palavras enquanto as há, é preciso dizê-las até que elas me encontrem, até que elas me digam3? Como é falar buscando a lucidez e a responsabilidade do perigo que envolve o fato de as pessoas falarem e seus discursos proliferarem indefinidamente4?

Provavelmente uma coisa nos una, aqui: a certeza de que não é fácil falar e é menos ainda para quem foi privado de pronunciar palavras e de entender esse gesto como possibilidade. Várias de nós, durante muito tempo, fomos impedidas de frasear nossas existências, nossas dores e deleites. Várias de nós fomos atacadas com palavras que hoje usamos para nos nomear, por escolha: bicha-travesti-preta- trans-gorda-sapatão- outra-palavra-ainda. Assumir a palavra, para várias de nós, é assumir corpo, voz, classe, cor, gênero, identidade(s), pensamento(s) e circunstâncias menos ou mais transitórias de vida e experiência, que se constroem entre o individual e o coletivo. Será que criar e subverter palavra(s) é também criar e subverter realidade(s)? Será que agora já aprendemos que falar é antes abrir a boca e atacar o mundo com ela, saber morder5?

E se é sabido que as intersecções promovem o entrecruzamento de vivências com especificidades que não podem ser desconsideradas, subestimadas e esquecidas: como nós, entre dissidentes, podemos tomar a palavra sem nos anular? De que modo criamos um espaço de escuta ativo que considere nossas forças e fragilidades, nossos entendimentos e equívocos, nossa história sanguinolenta e nossa projeção de futuro dissensual? Como é que mobilizamos as narrativas, criamos novas e nos desfazemos daquelas que já não nos servem (e nem nunca serviram)? Como é que cuidamos juntas de nossas feridas sem deixarmos de ser (auto)críticas e criticáveis – reivindicando, assim, uma outra crítica, que considere também as afetividades e as vulnerabilidades desviantes? De que modo (re)criaremos linguagem, vocabulário? Como criaremos uma ontologia nossa, alheia à ideia de essência, mas que se apresente como uma cartografia errante e transviada? O que faremos com nossos privilégios, passabilidades, liberdades, mortes e conquistas? De que modo nosso desembrutecimento não gera outras brutalidades, proibições e autoritarismos que são exatamente aquilo que recai/recaiu sobre nós? Como não nos tornamos instituição e polícia? Será que, agora, é preciso engajamento para que nos tornemos comunicáveis, para além dos nossos terrenos? Devemos nos armar – palavras, termos, juridicamente? Devemos ser compreensíveis? Devemos responder à altura dos golpes baixos? Devemos nos esforçar para sermos acessíveis? Não seria isso uma outra violência – coisa que a nós é também negada, já que sempre somos obrigadas a sermos dóceis, marginais e constrangidas?

Nós já sabemos que é política a festa, o lacre, o arraso, a pinta, mas o que há antes e depois do lacre? Do arraso? Da pinta? Há, de fato, antes e depois? As nossas solidões serão sempre assunto posterior – as responsabilidades afetivas, históricas e sociais? De que modo conseguiremos tensionar as nossas questões, entendendo que nada disso é fácil, nada disso é sem dor e desconforto6? Porque ao tatear a possibilidade  de uma coletividade forjada no movimento improvável de um estilhaçamento, vai ser sempre necessário abrir espaço para os fluxos de sangue, para as ondas de calor e para a pulsação da ferida: politizar a ferida, afinal, é um modo de estar juntas na quebra e de encontrar, entre os cacos de uma vidraça estilhaçada, um liame impossível, o indício de uma coletividade áspera e improvável. Tem a ver com habitar espaços irrespiráveis, avançar sobre caminhos instáveis e estar a sós com o desconforto de existir em bando, o desconforto de, uma vez juntas, tocarmos a quebra umas das outras7. Será que estamos dispostas a, de fato, habitar o ruidoso, ocupar zonas ruidosas, para tramar outras formas de vida, para além de uma política representacional8?

E será possível olharmos e nos debruçarmos por sobre uma curadoria, uma programação, um evento, um Festival, tomando os trabalhos e ações como alternativas de linguagem, discurso, conceito, imagem e proposições não certas, não terminadas, não prontas? Será que podemos trocar a ideia de finalidade pela prática de investigação? Nós podemos entender a arte aqui articulada como uma criação coletiva de sentido, sem subestimar e superestimar recepções, interpretações, nomes e criações? Será que podemos desconfiar de todas as coisas, considerá-las e negá-las, amá-las e recusá-las, para que, depois, se for o caso, voltemos a acreditar em suas potências transformadoras? Nós podemos e queremos vivenciar o curto-circuito em sua inteireza?

O Ruído EnCena se apresenta como um Festival de perguntas e eu não poderia iniciar a composição das minhas reflexões de outro modo. Pergunto. Mas não tenho respostas definitivas sobre as questões que me/nos lanço. Desconfio de algumas coisas, me demoro, confuso, sobre outras, fujo e tropeço nas indagações, mas tento não correr o risco impaciente e ingênuo de respondê-las. No lugar disso: experiencio-as, faço delas motivo para pôr minha sensibilidade no mundo, no encontro com outras sensibilidades e trajetórias – talvez, juntas, nós possamos delinear um início de resposta, talvez não, talvez continuemos alimentando perguntas. Talvez seja essa uma das possibilidades da desgastada palavra resistência – porque a resistência em arte além de localizar as fronteiras que marginalizam corpos e práticas, também cria suas fronteiras e se alimenta deste paradoxo que é morrer na própria linguagem. Porque se me despi de algumas barreiras para entrar em contato com vocês, criei outras a partir do conhecimento que produzimos juntos. Ou seja, o movimento parece mesmo contraditório e entendemos, com a ajuda de muitas e muitos, que só erguemos muros para destruí-los9.

Talvez o que nós possamos nos dizer atualmente – há sempre a possibilidade de eu estar equivocado – com menos ou mais didatismo e paciência, é que não temos certeza de como fazer todas as coisas a que temos nos dedicado – os ofícios, os desejos, as reivindicações, as previsões de futuro. E isso é bom, ao que parece. O Ruído é, ele mesmo, uma experimentação performativa: a união dessas pessoas, dessas artistas, produtoras, curadoras, organizadoras, técnicas, colaboradoras e público(s) é, em si, uma possibilidade de inscrever vibração em uma paisagem golpeada. Um afetar-se afetado em um país que agora sacode os seus traumas sem o intuito da sinceridade brutal: a colônia é ainda colônia, o índio (o outro, a outra) é ainda coisa intolerável, a violência tem ainda o mesmo rosto e muitos parecem estar bem com isto. Seguimos com o racismo estrutural, a misoginia subcutânea, a censura aplaudida e muitos parecem estar bem com isto. Nós, nossa indefinição, não.  

 

Que experimentemos a radicalidade de ruídos.

Que os nossos barulhos sejam cenas e levantes.

Que a insurgência seja ensurdecedora.

 

 

 

 

1   Inofensiva por não me parece propriamente um espaço de radicalidade em relação às questões que se apropria e capitaliza. E problemática pela mesma razão. Perde-se, novamente, a possibilidade de se debater o poder e a violência dos museus, dos herdeiros e da branquitude que perpetua modos de concepção, exposição, circulação, visibilidades e comportamentos.

2   Michel Foucault, em A Ordem do Discurso (2015, p.83).

3   Michel Foucault, em A Ordem do Discurso (2015, p.83).

4   Michel Foucault, em A Ordem do Discurso (2015, p.84).  

5   Valère Novarina, em Diante da Palavra (2009, p.14).

6   Jota Mombaça, em Na Quebra. Juntas (Transborda Mostra de Performance, 2016, p. 37).

7   Jota Mombaça, em Na Quebra. Juntas (Transborda Mostra de Performance, 2016, p. 37).

8   “Obviamente, a tarefa política não é recusar a política representacional – como se pudéssemos fazê-lo. As estruturas jurídicas da linguagem e da política constituem o campo contemporâneo do poder; consequentemente, não há posição fora desse campo, mas somente uma genealogia crítica de suas próprias práticas de legitimação. (…) E a tarefa é justamente formular, no interior dessa estrutura constituída, uma crítica às categorias de identidade que as estruturas jurídicas contemporâneas engendram, naturalizam e imobilizam.” Judith Butler, em Problemas de Gênero (2017, p. 24).   

9   Caio Riscado, em Ciranda das Bonecas Desajustadas (Transborda Mostra de Performance, 2016, p.26).   

 

 

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Francisco Mallmann

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Francisco Mallmann é dramaturgo, performer, crítico e pesquisador.