desenhar com garras o que não se pode com as mãos

por Janaina Matter 

 

não sei desenhar

 

se soubesse faria aqui um desenho

 

seria algo mais ou menos assim:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

mas não sei desenhar para dar ideia do que seria, como seria

 

talvez por isso eu só desenhe com gestos, com palavras, com trajetórias

se desenho é sobre luz e sombra sobre o que é teatro?

sobre luz e sombra

sobre o que se vê e o que não se vê

sobre presença

sobre ausência

estar imóvel ou movimentar

desenhar no espaço, ainda que seja um ponto, imóvel, que move por dentro e ninguém vê

 

com o tempo descobri a dimensão do investimento energético que se demanda de uma atriz para caminhar de um ponto a outro com consciência absoluta de toda e cada parte do percurso, no momento presente…

 

falhei quase todas as vezes, se não todas

 

é na busca é na busca que está a magia é no trajeto no processo no caminho não na chegada digo e repito para mim mesma querendo aceitar que o resultado é consequência e nada mais e como fazer o processo presente como abraçar todo o trajeto e repetir todos os dias a sua magia parte dela toda ela um respiro que seja de inteireza uma única fagulha do que despertou tudo isso e ainda assim agarrar cada dia diferente o mesmo ímpeto criativo e fazê-lo presente de novo em cada instante renovar ressignificar brincar manipular como se fosse todo meu e como se soubesse o que fazer com isso todo dia como se soubesse do início como se soubesse do fim como se do medo pudesse dar conta como se da angústia pudesse extrair calma e deleite como se da incerteza brotasse coragem como se de fato estivesse no corpo a resposta para tudo que há como se todas e todos que estão ali quisessem ouvir pudessem ouvir como se todas e todos que estão aqui quisessem ouvir pudessem ouvir como se eu quisesse ouvir pudesse ouvir

 

 

 

 

 

meus ouvidos estão tampados há quase um ano.

Não tampados realmente, mas tem um zunido constante, que percebo quando me deito para dormir, quando os sons já não se ocupam de me distrair do zunido, constante. É certo que durante o dia todo ele está a zunir, mas eu não escuto. Não escuto o que se passa dentro do meu próprio ouvido. O que eu não quero ouvir, não posso ouvir

 

 

É sobre escuta, teatro

 

 

 

 

 

 

É uma revolta não violenta

Me falou Eugenio Barba numa residência artística recente que fiz com ele e Julia Varley, uma enorme atriz

Desses encontros que mudam algo, não sei o que ainda, mas mudam

 

não acredito em violência e isso não é suficiente para que eu não seja agressiva…           às vezes

 

 

não acredito em discursos e isso não é suficiente para eu não estar aqui colocando em palavras o que não pode ser desenhado

como se explica o tigre senão com sua imagem?

E há os que não veem

Como se toca o tigre senão o doparem?

 

 

Sobre o que? Sobre o que eu quero falar?

Quero falar?

Sob o que?

Posso falar?

Um processo é sobre ter questões e estou cheia delas. Em todos os sentidos cheia delas

A mulher escreve a partir de um ponto de vista pessoal me disse a Julia Varley, e por isso o que ela escreve não é recebido com a mesma seriedade, não tem no seu texto aquela suposta qualidade universal que tem os textos dos homens, já que são homens e assim sendo representam a universalidade do ser humano, que é, em penúltima instância, “o homem”. Penúltima porque em última…

 

Ser atriz não é ser ator

Ser atriz é ser caos

 

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Janaina Matter é atriz e diretora artística da Súbita Companhia de Teatro. Formada em Psicologia pela UTP/PR em 2002 e em atuação e direção pelos Cursos Livres de Teatro Pé no Palco. É cofundadora da Súbita Companhia, na qual atuou em todos os espetáculos.  Desde 2009 se dedica ao estudo da fisicalidade em cena e dramaturgia do gesto. Tem formação nos treinamentos Viewpoints, Suzuki e Composição de Cena, sob orientação de Anne Bogart e os integrantes da SITI Company (Nova York/EUA).  Em 2015 participará do treinamento intensivo com Tadashi Suzuki e a SCOT Company em Toga, Japão. Ministra oficinas e cursos de aprimoramento para pré-profissionais e profissionais do teatro e desenvolve pesquisa de orientação e direção de atores vinculada ao projeto Plataforma – núcleo permanente de pesquisa da Súbita Companhia, que acolhe artistas interessados em pesquisa cênica e treinamentos. Em 2014 compôs a Comissão Julgadora do Troféu Gralha Azul, 35ª edição em Curitiba, PR. Os espetáculos mais recentes criados pela Companhia incluem “Câmera Escura” (2014), “Extraordinário Cotidiano” e “Amores Difíceis” (2013), “Porque não estou onde você está”, pelo qual foi indicada ao Troféu Gralha Azul de melhor atriz em 2012. É também pesquisadora de interpretação para cinema e já integrou elenco de diversos curta-metragens, sendo os mais recentes “Coração de Congelador”, direção de Carol Winter 2014 e “Coração Magoado”, direção de Juliana Sanson em 2012.

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