Dramaturgia-difícil: uma investigação

Dramaturgias-difíceis: uma investigação
De que modo é possível e por que, agora, tomar a palavra? Como inscrever dramaturgicamente ações possíveis em paisagens compartilhadas? De que modo evocar um discurso que não avolume a norma assassina? Como criar uma narrativa que seja um contragolpe: gesto em contramão à máquina-de-morte?
Dramaturgias-difíceis: uma investigação é uma fala pública de Francisco Mallmann sobre processos criativos em dramaturgia, a convite do evento Outras Palavras-Dramaturgias Contemporâneas. 

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Escrevo pensando no outro lado das imagens que as palavras são quando são dramaturgia.

Escrevo tentando desvendar o que dramaturgia pode ser, agora, no mundo, para mim.

Processo de criação.

Quando chamo isso de uma investigação em dramaturgia-difícil, quando uso essa ideia de dificuldade, não diz respeito ao fato de achar que é difícil fazer dramaturgia, e nem tem a ver com uma dificuldade conceitual-intelectual, propriamente. Mas é, antes, sobre a dificuldade de formulação que há na feitura do que entendo como dramaturgia – uma dramaturgia coerente, hoje, para mim. Diz respeito, também, evidentemente, a construção de linguagem – uma linguagem que seja contramão na lógica progressiva do mundo, uma linguagem-reescritura que parte da sensação e do entendimento de que algumas coisas fracassaram e que outras precisam ainda fracassar mais. Uma dramaturgia que tenha o poder de, ao mesmo tempo, fazer sangrar e também estancar a sangria. Uma dramaturgia que seja armadura, uma armadura furada e com lágrimas nos olhos.

A ideia de dificuldade está mais próxima, talvez, da dificuldade existente em falar, tomar a palavra, assumir para si o surgimento da palavra enquanto fenômeno, matéria, evocação pública de ideias e afetos Acho difícil falar, atualmente, embora às vezes em várias ocasiões como essa, me coloque a falar ininterruptamente. Uma dificuldade não-dissociada da importância. Uma dificuldade-coragem. Exercício de permanência, não-apagamento, uma língua-vida.

A verdade é que desconfio das pessoas que sempre souberam falar e desconfio das pessoas que podem, tem permissão para fazer isso livremente, sem impedimentos ou receio. Desconfio da eloquência, daquele tipo de eloquência extremamente precisa, que carrega uma certeza impávida de como dizer aquilo que se quer. Eu desconfio da palavra que não cai em desuso, que não se perde, que não escorrega e nem quebra. Eu desconfio da ausência de silêncio e também desconfio da imposição dele.

Eu costumo escrever aos cacos – do avesso, tentando minimamente entender o que pode ser o ato e a atividade de registrar palavras em alguma superfície. O que pode ser hoje projetar palavras no espaço aberto. O que pode ser uma escrita que se pretende teatro.

Quando se pensa nesses que sempre falaram, socialmente, muito rapidamente entendemos que o poder de fala, o discurso ininterrupto, a fala-fácil, certa de si, clara (em muitos sentidos), foi permitida e desenvolvida por poucas pessoas – e, em sua maioria – isso não é surpresa para nós -: homens, em uma sucessão de posições, que também interseccionam classe, cor, geografia, etc. A história da dramaturgia foi, durante muito tempo, a história da articulação de palavras por homens – palavras que visavam se tornar teatro, cena, imagem, projeção, fábula. É preciso entender que a história da dramaturgia é e foi, majoritariamente, uma plataforma de visibilidade e dizibilidade das palavras de homens.

Pensar hoje debruçado por sobre as possíveis representatividades, lugares de fala associados a uma feitura dramatúrgica, é, necessariamente, atribuir responsabilidades ao ser que manuseia a palavra e a faz circular. É lembrá-lo de que essa palavra é um exercício político de existência – a sua e também das construções de sentido e subjetividade que uma narrativa pode conter.

A dramaturgia que penso e exercito hoje se insere na  dificuldade de inúmeros jeitos. Não é fácil formular questões difíceis – falar sobre o poder, inverter o trajeto do olhar, assumir frentes de reivindicação sobre a ordem do mundo, sobre a geopolítica e as movimentações dos corpos, dos desejos, dos espaços em que estamos. Não é fácil falar sobre a ruína de um mundo que é, para muitas pessoas, máquina-de-morte. E eu hoje me interesso especialmente por elas – por essas pessoas e as possibilidades que suas existências são.

Me interesso pela criação em um terreno que seja, antes, um emaranhado de complexidade que, ao invés de ser resolvido por uma dramaturgia, seja avolumado por ela.

E é também difícil o gesto que se afasta da resolução – de uma linha narrativa que não contenha o momento em que tudo se explica. E isso é, aliás, de algum jeito, contrário a uma noção de drama. A uma possibilidade de exercitar o drama.

Dramaturgia-difícil para mim é criar sentido em um país que é um genocídio ativo e sistemático. Dramaturgia-difícil é aquela que se propõe a ser barreira para as violências estruturais instauradas especialmente pelo Estado brasileiro. Isso não significa pensar uma dramaturgia exemplar, bem-feita e exitosa. Dramaturgia-difícil é, antes, tentativa e processo. E, mesmo assim, podemos discuti-la sobre as premissas normativas – linguagem, arrojamento, sofisticação, e tantas outras possibilidades “distanciadas”, “universais” e “isentas”.

Uma dramaturgia que parte da dificuldade que é estar com os pés fincados nessa terra.

E as perguntas que eu lanço aqui não se pretendem enquanto perguntas inaugurais-norteadoras-normativas para o que eu considero uma dramaturgia, ou uma dramaturgia contemporânea, tema do evento. Eu falo a partir do meu processo de criação – perguntas que me mobilizam na dramaturgia que venho fazendo. Uma dramaturgia que eu nem sei se é boa – do modo como se convencionou entender uma boa dramaturgia. Penso aqui, especialmente, nos processos de três trabalhos que desenvolvi com diferentes artistas e coletivos aqui em Curitiba, recentemente: Para não morrer, do Espaço Cênico, Outra Palavra, com a Súbita. E, agora, Cabaret Macchina, que é uma dramaturgia desenvolvida por mim, Leonarda Glück e Ricardo Nolasco, com a Selvática.

Essas dramaturgias existem porque, para alguns de nós, parece hoje impossível levar adiante antigas narrativas que não compreendam as contradições dos lugares em que vivemos e dos corpos que somos.

Cidade: campo de batalha, palco, espaço a ser recriado diariamente, inúmeras dramaturgias: imagens antigas, dores de sempre, criações de sentido comum, promessas de futuro. Teatro.

Aqui, a importância de se tomar posição. Habitar temporalidades possíveis, dos dramas que já foram, daqueles que não chegaram a ser e desses tantos, que nos perfuram diariamente, com ou sem aviso.

Politizar assuntos públicos, feridas, torná-las poesia: cena. Experimento.

Jogar com o poder sem se apaixonar por ele. Insistir na possibilidade de alteração das paisagens em que estamos inseridos. Performar mundos, exercitar a realidade sem esconderijos. Por que morremos também por dentro?

Revirar todos os espaços e seus motivos: lugares de passagem, lugares evitados, lugares em que permanecemos e os tantos outros aonde ainda não chegamos.

Será possível rasurar a história? Nosso horizonte colonial escravocrata de quem ainda não se desfez por completo das dívidas, dos traumas e das marcas?

Que Brasil? Em que cenário? Que discurso possível diante do intolerável? Que vozes amplificam as dores e as curas?

Agora: quais palavras para quais fenômenos? De que modo nomear a radicalidade de artistas em ação, um bando de gente que encontra forma para as reivindicações que não adormecem.

Assim: desordenar as velhas certezas, as noções de natureza, biologia, sociedade, destino. Os entendimentos de passado e presente. Identificar onde está o que não-se-sabe o que não se permitiu saber, partilhar. Criar espaços respiráveis onde a vulnerabilidade de corpos e subjetividades incapturáveis possam se manifestar distante da normalidade assassina.

De que modo se atravessa esse tempo? Com que imagens compactuar e quais gestos avolumar? Como se saber comunidade, antes de tudo estética, e também se saber inevitavelmente sozinho?

Essas dramaturgias existem porque para alguns de nós é urgente ainda descobrir como continuaremos a viver juntos.

Tenho tentado ser brutalmente simples.

Tenho tentado ser brutalmente simples e sincero. e eu falho, na maior parte das vezes.

Não porque seja complicado, mas é porque tenho tentado fazer coisas no meio da confusão. e isso torna a simplicidade difícil.

Uma mesa bagunçada, uma casa suja, um país golpeado, uma cidade higiênica, vinte reais para o resto do mês, cem páginas para escrever, muitos livros para ler, uma estrada infinita que vai ficando cada vez maior, um telefonema para atender, amigos para salvar, muitas coisas para ver,

Tenho pensado e produzido artística e academicamente na transdisciplinaridade e isso é desgastante, isso machuca as costas, o pulso, a garganta, vai me adoecendo inteiro, me obrigando a criar casca, escudo,

Investigar e pesquisar coisas sem ter o interesse de contar a verdade, delimitar, produzir contornos e definições que não transitórios exige dar muitas explicações aos outros.

Tenho tentado ser brutalmente simples ao dar explicações aos outros, e conceber possibilidades dramatúrgicas

Ocupar uma sala, um colóquio, um seminário, um quarto, uma cama, fazer ecoar a minha voz afeminada,falar no feminino, intentar um plural feminino, dizer: TODAS, sem que isso sejam só mulheres, mas que TODAS sejam todos, mesmo, todos TODAS

Vai doendo, libertando, fazendo feliz e fazendo sofrer ao mesmo tempo

Processo de criação: o que é que você faz? Como você faz? Com quem? Onde? Por que você faz as coisas que faz? Qual o teu nome? O gênero do teu nome? Do teu corpo? Da tua arte? Das palavras que você escolhe para morrer ou para continuar a viver? Quais discursos? Quais manuais? Quais referências? Quais erros? Quais palavras te arrancam a dor de cabeça? Qual som você dançaria até perder os pés?  Que amor? Que ideia de amor? De família? De humanidade? De trabalho? De comunidade? De estética? De política? De país?

Eu falaria aqui agora sobre como a arte foi me tirando o desejo de cair do alto de um prédio. Me jogar.

Falaria da bobagem que é ser salvo por um poema, por um gesto, por uma luz que incide no espaço vazio. Pela música que alguém canta para não ser atropelado. Ser salvo por uma ideia de arte e escolher sair do mar, voltar para a areia, não desligar aparelho nenhum, não usar objetos cortantes contra minha carne, minha vida, não me asfixiar, não desistir, não enfiar uma arma em qualquer orifício e atirar, telefonar para os meus pais, eu estou vivo, sim, vou ensaiar a semana inteira, todos os dias à tarde, depois vou ter insônia pensando: só o que eu faço é insuficiente.

Eu falaria agora de uma coletividade que vai me curando as feridas, produzindo outras, me estilhaçando inteiro. Me ensinando como é ser sozinho em bando.

Um dia, dois, uma semana, uma temporada de anos. Sobre como isso, o peito remendado, é uma questão política, social, uma questão de pauta em teatro, a quantidade de colunistas sociais e a quantidade de público em uma quinta-feira 0 graus. Sobre como a precariedade do que, às vezes, chamamos trabalho, arte, vida é uma questão de política pública cultural.

Processo criativo: não romantizar violências estruturais e históricas. não fazer ficção brincando com os cadáveres e nem nadando nas poças de sangue.

Uma dramaturgia que agradeça minhas amigas aos aprendizados de como ir ao chão, voltar, ir ao chão e voltar, e dançar, depois. Agradeço a todos os cafés que já me passaram, aos que eu passei, quando eu disse: vai lá em casa, a gente escreve esse projeto, a gente chora juntas, a gente faz um bolo, a gente planeja aquela mudança no nosso jeito de ver as coisas, de estar na rua, na calçada, na sarjeta, no palco, na universidade, no aeroporto, na Europa, no lançamento do livro da amiga que escreve livros e lança. Vai lá em casa que a gente arma tudo, aprende as estratégias necessárias para mudar tudo, inclusive nosso coração provinciano

Eu diria agora do meu corpo índio. de uma bisavó, que dançava escondida, de uma avó que se apaixonou por um índio, e depois por um português, e depois pelos dois, e depois por uma plantação de samambaia e passou a odiar homens, a minha avó que fugiu de casa para estudar e ser livre e acabou sabendo escrever só o nome nos cheques  do marido que a deixou viúva com duas filhas e dois filhos no meio do rio grande do sul, onde eu passei as minhas férias e para onde eu pensei em fugir quando pensava em fugir

Um campo aberto, onde eu via pessoas se confundirem com cavalos, que misturavam o corpo com o corpo de um cavalo

Eu falaria agora de posições, de posições que nos permitem coisas, que nos permitem passar, ir e vir, viver, ficar, desejar, posições que nos permitem falar, eu falaria agora de posições que nos permitem falar. Eu falaria da desconfiança de ouvir alguém falar. Eu falaria: desconfiem de mim.

Toda essa gente dizendo que não deu certo, que foi um delírio ruim, que o esforço em enlouquecer, berrar, ter um corpo incendiário, fazer tudo-outro, é urgente

Não deu certo, a tua narrativa exemplar não deu certo, a que veio antes. a misoginia fundante, o linchamento dos jovens negros, a novela, a divisão classista, o estupro punitivo, o racismo, o feminicídio, todas as fobias, não deu certo. não é mais possível, é insuportável, é constrangedor hoje, agora, ano 2018 dizer obviedades aos ouvidos embrutecidos,  e replicar no âmbito representacional violências. é preciso, sim, atribuir responsabilidade: poder dizer: você está violentando alguém com o seu teatro. E poder perceber: eu estou violentando alguém com o meu teatro.

Processo de criação. Se afastar da autocensura: sobre como eu, meu corpo, decido me censurar frente a alguém ou alguma coisa. Um momento em que eu me torno meu inimigo – e isso é muito comum para as mulheres, para comunidade LGBT, para pessoas negras, não-brancas: um silêncio autogerado.

Por que nos foi ensinado o caminho da autocensura, mas não nos foi ensinado o trajeto da contramão? Por que é tão difícil reunir força para apontar aquilo que nos mata? Por que fazer uma dramaturgia que aumente a ideia de normalidade? Por que fazer falar quem sempre o fez? de que modo a minha dramaturgia me desimpõe o meu silêncio e o silêncio das minhas?

Processo de criação. Eu diria o meu nome.

Eu, jornalista, eu, crítica, dramaturga, poeta, performer, pesquisadora, bicha, dona de casa, dona de quase nada. fui fazendo umas coisas. fui deixando de pedir desculpas por ter vindo ao mundo. fui inventando uns jeitos de espancar uma palavra na outra. fui estudando umas coisas, fui achando importante saber falar, me defender, dizer: eu vim, eu estou aqui, eu vou dizer umas coisas, ou então, eu vou ficar só olhando, eu vou subir essa rua, eu vou descer essa rua, eu vou rebolar, eu vou dar uns gritos, vou me abotoar inteiro, só para abrir depois, eu vou enlouquecer, vou girar. vou beber e cheirar e fumar e depois na segunda-feira eu nunca mais vou fazer nada disso, já não quero, eu quero meu corpo lúcido, inteiro, sem me perder, quero escolher, que passo é esse, que trajeto, que caminho, que loucura

Quero poder escolher sumir sem que sumam comigo

Processo de criação: escrever. Eu escrevo. Me deparo sempre com a impossibilidade de escrever coisas novas, outras coisas. Me deparo sempre com a insuficiência das palavras, das coisas que elas querem dizer, capturar, dar significado. O meu trabalho é sempre ao redor da falência da palavra, mesmo quando elas se apresentam lindamente. Eu falo sobre o fracasso que é nascer e morrer na linguagem. Meu corpo não vai a lugar nenhum sem palavra. Por isso não sei dissociar a escrita do caminhar, do respirar, do estar vivo, da cobrança pelo direito de seguir viva – e quando eu digo vida, eu não digo reprodução, eu digo possibilidade de não-morte, eu digo possibilidade de não ser morta, enquanto indivíduo e enquanto comunidade.

Escrevo em estado de atenção e emergência. Escrevo consciente de que o meu silêncio é, às vezes, a possibilidade de criar debate. Falar é também não falar: que outras vozes evoquem aquilo que não sei e não poderia saber, sendo quem sou. Escrevo investigando as possibilidades de um texto que possa permitir que outras presenças me acompanhem – outra ordem de presença, outro gênero de gente. Enuncio e encadeio palavras intentando desvendar quem somos nós, e por que é assim tão necessário coletivizar a abstração fugidia que parece, momentaneamente, nos acalmar: nós – mas nós quem?

Novamente: Delimitar em um espaço, físico e conceitual: quem somos e o que queremos, o que poderíamos ser e o que poderíamos querer. Por quê? Que dramaturgia? Que teatro? Será que não estamos entregues a um exercício que, para além das nossas intenções, acaba por aniquilar posições e corpos diferentes e assimétricos? Estamos dispostas a criar, e constantemente recriar, contextos e coletivos que não pretendam compreender de forma totalizante e totalitária, que não estabeleçam lógicas rígidas que lentamente nos corrompam, que não resultem em sistemas generalizantes que, de algum modo, reproduzam violências dêsindividualizantes ou uma ideia homogênea de grupo?

 

Processo de criação: De que modo criamos um espaço de escuta ativo que considere nossas forças e fragilidades, nossos entendimentos e equívocos, nossa história sanguinolenta e nossa projeção de futuro dissensual? Como é que cuidamos juntas de nossas feridas sem deixarmos de ser (auto)críticas e criticáveis – reivindicando, assim, uma outra crítica, que considere também as nossas afetividades e as vulnerabilidades? De que modo (re)criaremos linguagem, vocabulário? Como é que diremos a Eurípedes que foi ele quem matou os filhos de Medeia e não Medeia? O que é que Heiner Müller vai descobrir quando der um rolê comigo? Como é que diremos ao cânone que não queremos e não cabemos na tradição moral que nos ofertam – que não faz o giro importante e urgente de se entender sempre parte de um contexto que só pode se pretender universal porque é antes colonial? O gênio precisa, como sempre precisou, de escravos. Como criaremos uma ontologia nossa, alheia à ideia de essência, mas que se apresente como uma cartografia errante e transviada? O que faremos com nossos privilégios, passabilidades, liberdades, mortes e conquistas? De que modo nosso desembrutecimento não gera outras brutalidades, proibições e autoritarismos que são exatamente aquilo que recai/recaiu sobre nós? Como não nos tornamos instituição e polícia? Será que, agora, é preciso engajamento para que nos tornemos comunicáveis, para além dos nossos terrenos? Devemos nos armar – palavras, termos, juridicamente? Devemos ser compreensíveis? Devemos responder à altura dos golpes baixos? Devemos nos esforçar para sermos acessíveis? Não seria isso uma outra violência – coisa que a nós é também negada, já que sempre somos obrigadas a sermos dóceis, marginais e constrangidas?

eu acho importante a gente se registrar, criar material, memória, dizer: estamos pensando nisso, sobre isso, agora, hoje, nesse lugar, temos esse tamanho, essas pretensões, esses sonhos, essas questões, esses conflitos, essas frustrações, esses sentimentos, esse ódio, esse amor, por isso eu escrevo, por isso eu crio arte, e convido outras pessoas a fazer coisas comigo e,

tenho pensado nos terrenos em que tomar a palavra é, antes, tomar-se a si: responsabilizar-se sobre seu corpo, sua história, condições-escolhas-caminhos – e por isso também responsabilizar-se pelas suas, nesse trânsito constante de ser sozinhoembando, solidão’multidão.

tenho pensado sobre o giro histórico, geopolítico, místicoanárquico, transfeminista, lesbobicha e preto que há em contar sua própria narrativa: dá-me aqui o poder da palavra que eu já estive muito tempo em suas mãos (que são bocas e são cabeças e são pés e são violentos). interseccionar narrativas, fazer história paralela. rasurar a fábula do vencedor. voltar e dizer: não foi assim, você precisa parar de me narrar.

tenho pensado sobre esses lugares desafiadores em que fazer a própria voz se materializar no espaço-hostil é ato de coragem efetiva em que tudo parte da dor e do aprendizado de se dizer e ir-se-dizendo no mundo-contramão. tenho pensado na voz quase sempre aos cacos, toda revirada, respirando em fiapo: em como ela se afasta terrivelmente do egoísmo porque poder surgir, mesmo falha, foi ato de não-morte (e vá ver as estatísticas: não morrer é bem difícil).

há um certo tipo de gente que não sabe e nunca vai saber sobre a dificuldade que é formular um discurso-outro, criar palavra no interior de uma boca dentada, uma mucosa para quem a palavra é, primeiro, exercício de vida: fluído sobrevivência, linguagem-sangue. uma represa inteira, letra e frase, quilômetros de texto-ancestral. uma voz precedida pelo atlântico-mãe, uma sabedoria anterior, outra ordem de falação.

há um certo tipo de gente que nunca vai saber o que é se reunir na geografia das sombras e gerar linguagem distante de uma máquina de morte, uma tentativa desesperada de, ao falar, não matar mas, ainda assim, nomear os assassinos e os fenômenos em alto e bom som.

tenho pensado em como a gente se ampara quando decide interromper a fala (o falo) do inimigo. como se projeta e protege, como amplifica e avoluma grandes e pequenos atos de reivindicação do espaço-tempo-palavra.

quando se decide por esse gesto estético de, ao mesmo tempo, estancar a sangria e devolvê-la para quem a iniciou: que palavras-gestos vão nos tirar da posição de alvos? que palavras-gestos nos fazem assassinos, quais nos fazem assassináveis?

 

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agora eu diria que a gente está descobrindo que nenhuma narrativa está morta o suficiente, porque se bobear eles voltam a queimar mulheres aos gritos de “queimem as bruxas” como fizeram ano passado em são Paulo com a boneca da Butler, se a gente se descuida eles voltam a tornar a escravidão legal como o atual governo deseja fazer, se a gente piscar eles retiram as terras das aldeias e dos quilombos como está acontecendo exatamente agora neste solo, como estão fazendo há 500 anos, se a gente bobear presidentes brancos enjaulam imigrantes não-brancos, se a gente se destrai eles usam helecopteros para matar do céu crianças pobres, como acontece agora em um Rio de Janeiro que está sob intervenção militar

Como alguém que escreve e pensa sobre narrativa, história, dramaturgia, ficção, enredo, drama, conflito, personagem fico pensando não é possível que a gente esteja negociando com as mesmas histórias, não é possível que as nossas narrativas de mundo não mudem, que o entedimento seja sempre tão cíclico, que todo período vai ser considerado um período sombrio com rompantes respiráveis

Eu acho que nós – e quando eu falo nós, outra vez, eu não sei, exatamente quem, mas tenho a impressão de que as pessoas que são esse nós vão saber que são – estamos carregando uma responsabilidade muito concreta e real sobre um desejo de permanecer ativas num âmbito coletivo de convivência e circulação. E isso é bastante desgastante. Nos lugares onde eu mais vou, atualmente, há um tempo, o discurso vigente é para que a gente dobre os esforços, para que a gente dobre as atenções, que a gente crie motes, motins, se torne guerrilheiras, crie quilombo, aldeia, arranje armas e estratégias, mude as subjetividades. Que a gente Resista. E faça isso a todo custo. Mesmo que totalmente estropiados. Como se já não fosse isso o que fizeram as que vieram antes de nós.

Pois eu estou muito interessado em saber de que modo quem nunca resistiu vai começar a entender que essa história toda é também sobre a sua possibilidade de ser isento. Um grande processo de criação.

Escrevo para saber quais palavras estão ao meu lado e quais estão contra mim. Escrevo para discernir quem caminha comigo e quem vem em direção oposta.

Escrevo sem saber o que é dramaturgia. Escrevo só com desconfiança, engajando meu corpo todo em dramaturgias-difíceis – dramaturgias que não barateiem e nem façam de moeda de troca as nossas existências a favor de uma ideia velha de representação.

Escrevo, porque como disse Audre Lorde, meus silêncios não me protegem – e quando os meus ruídos encontram outros para serem teatro-vida me parece que, senão proteção, eles nos permitem um certo tipo de projeção radical que consiste na exposição extrema: uma quase-proteção que se dá em trânsito, aberta.

Escrevo em coletivo para retornar ao mundo uma dor que nos habita mas que não nos pertence.

Escrevo pensando no outro lado das imagens que as palavras são, quando são dramaturgia.

fotografia: Arthur Firmino

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Francisco Mallmann é dramaturgo, performer, crítico e pesquisador.