Entrevista de Geisa Costa

Esta entrevista foi realizada no dia 13 de novembro de 2018, por Maria Gabriela dos Reis Ferreira e Pedro Rodrigues Ramires, com orientação de Stela Fischer[1].

Atrizes: Geisa Costa e Luana Nastas, no filme “Vazante”. Foto: Roberta Tito

Geisa Costa é atriz londrinense, atuando em Curitiba desde 1993, também no cinema, produção cultural, contadora de histórias e, atualmente, terapeuta. Iniciou a sua carreira no teatro em 1981, no Curso de Teatro do Departamento de Cultura de Londrina, atuando na peça “Dona Xepa”, com direção de Antônio Saperas. Estreou em 1983 no Grupo Delta de Teatro de Londrina, com o espetáculo “Gota d’água”, de Chico Buarque e direção de José Antônio Teodoro. No Delta, permaneceu até 1987, com destaque para a sua atuação em “Toda Nudez Será Castigada”, de Nelson Rodrigues, espetáculo apresentado no Royal Shakespeare Festival (1986), e em cidades como Cidade do México, San Juan (Porto Rico), São Francisco (EUA) e Porto (Portugal). Em Curitiba, ganhou dois prêmios Gralha Azul de melhor atriz coadjuvante pela atuação em “A Casa do Terror 4” e “Risos e Lágrimas – A vida de Lala Schneider”. Também atuou em espetáculos infantis, com destaque para o seu trabalho com contação de histórias. No cinema, destacou-se nos filmes “Cafundó”, de Paulo Betti, “Besouro”, de Daniel Tickomiroff (indicada ao prêmio FIESP de melhor atriz Coadjuvante) e “Vazante”, de Daniela Thomas. Também coordenou e ministrou oficinas e atividades voltadas à valorização da cultura negra no Paraná, estando à frente da Rede de Mulheres Negras do Paraná, com a sua militância e ativismo em defesa da mulher negra.

Nós, somos os únicos alunos negros do nosso ano. Turma de 2016. Eu, Maria Gabriela, como a única mulher negra de uma sala que se iniciou com 40 alunos, me senti em uma partilha com a Geisa Costa, em cada história, situação que ela nos contou, pude me colocar, em um lugar de escuta que me trouxe muitas emoções. E ao absorver as suas palavras, consegui ver que as singularidades de suas histórias ao serem compartilhadas comigo, tornavam-se plurais, por sermos mulheres negras, por realmente me identificar com o que ela nos contava do que passou para se tornar a mulher que ela é hoje. Tudo que conversamos, o jeito carinhoso que ela nos recebeu em sua casa, com chá, café, bolo, para falar sobre a sua trajetória, foi um conjunto de experiências e sensações. Ela nos envolveu com e em todos os sentidos. Eu vejo a Geisa Costa como um exemplo, de mulher negra, artista sinônimo de resistência na cidade de Curitiba. Entrevistá-la foi um calor no coração. Lembro que era época de pré-eleições e nos deparamos com gritos e protestos a favor do atual presidente. Recordo-me de nos olharmos e entendermos o real motivo desse encontro, de entrevistar uma grande artista do nosso país, que resiste em favor da arte e que faz poesia com a sua negritude. Geisa Costa, agradeço pela oportunidade de ouvi-la por compartilhar conosco um pouco da sua grande história. E que com certeza levarei comigo o abraço, com cheirinho de chá e bolo de banana. Grato pela troca, você nos inspira. 

 

ARTISTAS PRETAS PRESENTES

Como foi o seu primeiro contado com as artes cênicas e seu processo para se tornar artista?

Geisa Costa: Acho que eu sempre quis ser atriz, já nasci querendo. Nasci em Nova América da Clina, a 60km de Londrina. Não tinha nenhuma referência de teatro, na cidade não havia teatro nem cinema. Nascemos na roça, minha mãe, mineira, veio para o interior do Paraná para trabalhar. Na cidade a única coisa que tinha era, de vez em quando, aquele cirquinho bem simples, com o palhaço passando pela cidade para convidar a criançada. O circo enchia os meus olhos e a alma. Eu sempre era convocada para cuidar das crianças dos artistas do circo, e isso me deixava muito feliz. Afinal, minha mãe tinha oito filhas e sempre que alguém precisava de algum serviço mandavam buscar uma das filhas da Dona Ana. E eu sempre ia. Quando se tratava de algum serviço no circo eu ficava muito contente, porque as crianças tentavam entrar de ratão – como a gente falava -, por baixo da lona e eu cuidando das crianças, não precisava, pois já estava lá dentro. Então, o circo era a única referência que eu tive. Uma dessas vezes que eu estava cuidando do filho de um casal, o circo já estava sendo desmontado e eles queriam que eu fosse embora com eles, estavam indo para Londrina. Nossa, eu fiquei muito feliz, mas eu tinha que pedir para a minha mãe. E ela: “você está louca? Não. Esse povo some no mundo leva você Nunca mais vai ver a mãe, não vai ver mais ninguém”. Ela não deixou nem eu voltar mais no circo. Como eu gostava muito do circo, e prestava muita atenção, eu juntava várias imagens e ia para o quintal de casa que era bem grande e reproduzia, criava meu próprio circo. Meu pai tinha uma lona que a gente jogava e fazia o circo ali mesmo.
A primeira vez que eu vi uma novela na minha vida, foi “Os Irmãos Coragem” e “A Escrava Isaura” [2]. O prefeito montou uma espécie de palquinho e colocou uma TV para a população assistir às novelas. Essa foi a primeira vez que eu vi TV na vida. Na minha ingenuidade achava que tudo aquilo era realidade. Eu sofria muito com a Escrava Isaura porque foi a primeira vez que tive contato com o que foi a escravidão. E com “Os Irmãos Coragem” eu fiquei muito encantada com a Ruth de Souza, ela começou a fazer parte a minha vida nesse momento, e a Léa Garcia também.[3]
Com treze anos eu fui pra Londrina com a minha irmã. Iniciou-se um outro ciclo, onde vi que ali era possível ser artista. Depois de um tempo, eu comecei a estudar, e descobri que existia um curso a distância, ao ler uma revista na casa da família que eu trabalhava. O curso era do Jaime Barcelos, ator, diretor, professor de teatro e televisão.[4] Eu juntei meu dinheirinho escondido, enviei pelo correio e continuei estudando escondido, e isso foi me incentivando a entrar cada vez mais nesse mundo. Algum tempo depois, descobri o Curso da Secretaria de Cultura de Londrina, comandado pelo Catalão, o professor Sapeiras (Antonio Sapeiras Spaza).[5] Era uma época de efervescência cultural, um “bum” cultural em Londrina, onde tudo acontecia, música, teatro etc. E esse movimento proporcionava uma proximidade, comecei a fazer o curso da Secretaria de Cultura de Londrina, onde também estava começando o Mario Bortolotto.[6]Em Londrina tinham dois grupos grandes, os dois que todo mundo queria estar: um era o Proteu o outro era o Delta.[7] O Proteu era um grupo mais revolucionário, mais popular, associado à Secretaria de Cultura da Universidade Estadual de Londrina – UEL. E o Delta era um grupo mais dos “coxinhas”, comandando pelo Teodoro (José Antônio Teodoro)[8] que era o criador. Muitos participantes de seus cursos relatam que ele foi o melhor professor porque tinha um amor imenso pelo teatro. Suas aulas de história eram contadas de um jeito diferente. Ele viajava muito.
Eu estava fazendo o curso da Secretaria, mas de olho nessas companhias. Para mim era muito distante fazer parte de algum desses grupos. Meu mundo era outro, eu estudava à noite, trabalhava de doméstica de dia, cuidava de criança, lavava, passava. Se quisesse ler alguma coisa era bem escondidinho. Quando o Saperas morreu, ficou um sentimento de o que a gente vai fazer com o grupo. Eu trabalhava na casa da Ieda, bailarina e dona do ADANAC (Centro de Dança e Artes), que trabalhava junto com o Delta. Ela fazia os espetáculos do Teatro Ouro Verde[9] e o ADANAC era uma das melhores escolas de artes, para a elite. Na época, eles estavam montando “Gota D’Água”, de Chico Buarque, e não tinha nenhum negro no elenco, imagina, como falar da favela sem um negro! A Ieda então falou com o Teodoro, e me chamaram para fazer um teste.
Eu fui, fiz o teste, e demorou cair a ficha, tudo para mim ali era uma descoberta. Passei no teste, mas eu não tinha muita pretensão, eu era muito ingênua na verdade. Comecei a fazer parte do grupo Delta. E veio “Gota D’Água”, um musical, onde percebi que eu canto mesmo! Aquele espetáculo foi uma luz, foi a minha estreia, no Teatro Ouro Verde, um dos maiores teatros de Londrina. Do dia que eu cheguei em Londrina até a estreia de “Gota D’Água” passaram-se dez anos. O espetáculo só não prosseguiu mais porque o Delta iniciou a montagem de “Toda Nudez Será Castigada”, de Nelson Rodrigues que ficou quatro anos em cartaz. Fomos selecionados para ir para Nova York, para o Royal Shakespeare, representando o Brasil. Eu me tornei atriz do Delta.
A única pessoa que me queria muito lá dentro era o diretor. O grupo era amador, mas o Téo instaurava um ar de profissionalismo. Se hoje a gente sofre com preconceito, imagina naquela época. Então, eu estar lá dentro daquele grupo era um ato de resistência. Ouvia certos comentários como: “agora esse grupo está chique demais, tem até empregada doméstica”! O Teodoro me protegia.

Geisa Costa no espetáculo “Risos e Lágrimas a vida de Lala Chineider”. Personagem: Odelair Rodrigues. Direção João Luis Fiani. Foto: Ale Carnieri.

Como era a dinâmica de criação das companhias existentes neste período?

Geisa Costa: Naquela época era mais forte, havia mais companhias. Elas simplesmente se formavam. Por exemplo, o Delírio[10], eram estudantes saídos do TCP (Teatro de Comédia Paraná)[11] que formaram esse grupo. O Delta tinha o curso no qual o Téo, como o professor, absorvia os alunos que iam saindo. E outros criaram seus próprios grupos. Como não havia lei de incentivo, tinha muito mais abertura para correr atrás de patrocínio. Por exemplo, quando fomos apresentar em Nova York, tivemos que correr atrás, pedir patrocínio. Na ocasião, o Teatro Guaíra nos apoiou. Éramos nós que tínhamos que correr atrás mesmo, dependia só da gente. E as apresentações eram sempre lotadas, todo mundo queria ver, éramos vistos como referência. Em 1987, o Téo faleceu e o grupo Delta ficou baqueado. Tentaram continuar, mas não deu certo. O grupo não suportou.

Quem são as suas referências como mulher negra e artista?

Geisa Costa: Ruth de Souza começou a fazer parte da minha vida ao assistir a novela “Os Irmãos Coragem”. Ela era amiga do Teodoro, acho que essa foi a coisa mais maravilhosa que poderia acontecer. Engraçado que quando estamos vivenciando as coisas, não paramos para pensar no que está acontecendo… conhece-la foi mágico, a prova que nada acontece por acaso! Nós fomos fazer uma temporada no Rio de Janeiro e quando íamos apresentar para classe artística – composta por todas aquelas pessoas que víamos na televisão, como o Antônio Fagundes, a Henriqueta Brieba[12] (que virou nossa fã número um). Ela estava em todos os espetáculos!). O Téo conversava com a gente, para nos controlarmos, afinal aquelas pessoas que víamos na televisão estavam ali para nos prestigiar. Ele nos orientava que após o espetáculo era para irmos para o camarim e esperar por eles, e agir naturalmente! Era para termos consciência que aquelas pessoas eram nossos colegas de trabalho. Um dia, na casa Paschoal (Paschoal Carlos Magno)[13], onde ficávamos artistas que saiam em circulação de temporada, Téo nos falou para nos arrumarmos que ele iria nos levar para conhecer a Rute de Souza! Chegamos na casa dela, nos sentamos na sala, em seguida ela chega e se sentou conosco. Eu fiquei observando-a, bem quietinha, só lembrando, da vez que a vi lá no interior, naquela televisãozinha e agora ela estava ali na minha frente. Eu queria conversar, tinha tanta coisa para falar com ela, mas eu só conseguia ficar admirando! Ela conversou com todos e às vezes me olhava. E eu quietinha ali. Num momento, ela parou, olhou para mim e perguntou: “E você? Não vai falar nada?” Respondi que estava escutando. Ficamos mais um tempo no Rio e eu não sei como, mas acabamos ficando amigas! Foi uma energia, uma troca! Ela me convidou para passar uns dias com ela, para participar de um espetáculo, “Tamborins da Glória”, porém não conseguimos patrocínio. Mas eu passei um mês com ela, em sua casa. Até hoje nós mantemos contato. Por carta, porque ela fala que internet não é pra ela. Eu ligo, fui lá visita-la ano passado, hoje ela está com 96 anos. Ruth com certeza foi a minha referência, a primeira mulher negra a pisar no Teatro Municipal, uma mulher muito homenageada, com uma vasta história na TV Globo. Ela é a minha referência de mulher negra artista.

Como foi o seu processo para lidar com os preconceitos e estereótipos em relação à mulher negra, no seu ambiente de trabalho?

Geisa Costa: Não foi fácil porque nunca é. Eu ousei estar dentro de grupos de pessoas ricas, onde eu seria no máximo a empregada delas, era outra realidade. Tanto que ninguém do Delta teve essa percepção que “Gota d’Água” acontece na favela, tem que ter preto. Tinha até japoneses no grupo, mas quando eu entrei fez toda a diferença porque já está no corpo negro essa essência. E ninguém pensou nisso, na época. Foi muito difícil, eu sentia no tratamento das pessoas, as pessoas tiveram que me engolir. Eu muitas vezes contornava situações, tanto que isso incomodava as pessoas.  “Nossa, ela não vai sair”, os participantes do Delta se perguntavam quando o Téo morreu. Para mim virou um desafio, eu ser a atriz, autônoma que vai conseguir caminhar por si mesma. O Téo me aceitou no grupo porque eu tinha o talento, afinal se ele não gostasse, teria me colocado para fora. E ele percebia essa minha resistência. Uma vez, o Téo comentou: “a pessoa mais resistente aqui é a Geisa porque eu não a vejo reclamar de nada, ela está resistindo”. E já naquele momento saquei todas as coisas dentro do grupo, do teatro, as panelas, os comentários. E criei os meus mecanismos. Hoje eu posso caminhar com as minhas próprias pernas, ganhei dois prêmios “Galha Azul”, eu estou no teatro há20 anos. Cheguei em Curitiba em 1993. Nunca me convidaram para fazer nada. Trabalhei com o Fiani (Jõao Luiz Fiani)[14].  Curitiba tem essa coisa de fingir que a gente não existe, para mim se criou um desafio, você vai ficando, vai ficando, resistindo… porque você existe, mas mesmo assim, tentam fingir que não te veem. Não é fácil não. E continua não sendo.

Espetáculo “Risos e Lágrimas a vida de Lala Chineider”. Direção João Luis Fiani. Foto: Ale Carnieri.

Você falou de sermos – nós artistas negros –invisibilizados. Como foi a sua participação no filme “Besouro”? E o que acha do fato de não ter sido exibido aqui em Curitiba?

Geisa Costa: O “Besouro” foi exibido aqui em Curitiba sim. Quando foi o dia da estreia, todo mundo estava esperando muito. Porque foi feita uma propaganda muito grande. O “Besouro”, que todos os capoeiristas conhecem porque ele é o líder dos capoeiristas, fez com que o Brasil inteiro ficasse esperando, criou-se uma expectativa. Fiquei confinada três meses para gravação do filme. Eu fiquei muito ansiosa, então chego o dia, já tinha tido pré-estreia, em São Paulo, no Rio de Janeiro, nas rodas de capoeiras, então quando chego o dia de estreia nacional, eu fui ao Shopping Mueller, e cadê o filme? Não, não tem. Só tinha um cartaz de divulgação. Saiu até uma matéria, sobre o filme, como tinha sido aceito em todas as capitais. No Sul, apenas Porto Alegre aceitou. Então eu escrevi uma carta: “E a nossa história como fica?” Passei dois dias escrevendo e joguei nas redes sociais. Houve manifestações, todo mundo fico com muita raiva, todo mundo queria saber. O pessoal da UEL (Universidade Estadual de Londrina) se mobilizou, fizeram um barulhão. Eu escrevi na carta a quantidade de negros que tem no Paraná, que Curitiba ostenta imagem de cidade cultural, tudo o que é aprovado no mundo para girar, precisa ser aprovado aqui, mas quando é um filme da Xuxa tudo bem. A história do nosso povo é silenciada, eu escrevi uma carta bem raivosa pedindo esclarecimentos. Eu queria saber. Por quê? Eu queria uma resposta!  O dono da produtora deu uma declaração (que não é bem assim),explicando que quando o filme estreia em outros lugares, a gente tem que esperar… Explicação chocha. Depois disso, eles colocaram o filme no Portão (Centro Cultural do Portão), mas não divulgaram. Eles queriam dizer, que o filme estava lá, mas que ninguém foi. Porém, tem gente que até hoje não sabe que o filme veio para cá. O filme já ganhou prêmio na África, muitas professoras estão trabalhando com o filme nas escolas. Tanto que teve uma professora denunciado por um pai de aluno porque ela estava passando o filme na escola. O pai achou que estavam doutrinando, a ideia que pode falar de religião, mas não de matriz africana. O filme não foi anunciado, fico pouco tempo e acabou.  Eu fui assistir, com o mestre Ideia que mobilizou o movimento do pessoal da capoeira. Então, o filme saiu logo de cartaz porque não teve público, faltou divulgação.

Você tem um contato muito grande com a população negra Afro-brasileira, por meio de artes, pesquisas, vivencias, oficinas e contação de histórias em escolas. No seu entendimento, como que é a construção de um trabalho onde a gente aborda toda essa dor que vem dos nossos ancestrais, desses preconceitos que ainda persistem e que antes eram velados e que hoje em dia estão na cara de todo mundo. Como a gente trabalha isso? Porque a sociedade nos coloca em um lugar de vitimista, e de que a questão do negro é “mimimi”, é exagero. Queria saber como que é para você, esse lugar?

Geisa Costa: É o que todos nós queremos, afinal, a nossa história não é contada. Ela é pesquisada, então não fica nesse lugar de uma eterna pesquisa. Estamos aqui para aprender juntos, a gente precisa cavoucar, porque se você não sabe a sua história, contam do jeito que querem como fizeram até hoje, do jeito mais cômodo para eles. Eu estou sempre pesquisando e buscando. Quando eu era criança, eu sempre quis saber o que tinha atrás da montanha, eu ficava contemplando, me questionando. Eu perguntava para o meu pai, eu o achava muito sábio, um mineiro. Eu acompanhava muito os movimentos dele. Ele era de uma bondade, de uma sabedoria, era o próprio “preto velho”. Pegava o cigarro, o prazer era mais de enrolar do que de pitá, eu ficava pensando sobre o que ele estava pensando. Ele pegava o cavalo gaúcho e sumia por trás das montanhas. Quando voltava, montava a fogueira e contava histórias, muitas eu já sabia, mas o prazer maior era ouvi-lo.  Eu já descobri muita coisa vendo essas montanhas, e a nossa história ela é bem assim, quanto mais você fuça, mais coisa tem, e quanto mais você fica sabendo, mais você se gosta.  Por isso quando você tem propriedade, você tem como rebater. Não temos todos os argumentos, mas tudo o que achar é lucro. Até agora podem falar qualquer coisa, mais a partir de um momento que sabe, não podem mais. Uma coisa que eu falo com muita propriedade, foi o texto que escrevi, eu não tenho que negar minhas origens que são os mais ricos saberes. Quando fui estudar radiestesia, meu pai não sabia o que era isso, mas ele tinha esse poder dentro dessa ancestralidade. Eu sempre quis saber o que tinha atrás da montanha, que tem outra montanha. Estamos tentando nos desconstruir, observar cada gesto. Eu fiz o “Vazante”, filme rodado em Portugal. O filme gerou toda uma discussão no ensejo do Festival de Cinema de Brasília, afinal, trata-se de escravidão, mas não é. Discussão sobre o negro na mídia. É outra realidade adas artistas pretas. Quando eu faço contação de história nas escolas, eu pego uma princesa preta, com um turbante. De forma bem gostosa, faço o amiguinho sair olhando de maneira diferente para coleguinha negra. Só agora a mídia percebeu que nós somos consumidores. Com muita resistência, eu sou atriz. Agora as pessoas estão mais conscientes de suas falas e conquistando espaços.

Geisa Costa e Ruth de Sousa. Foto: Acervo pessoal.

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[1] Entrevista realizada como trabalho final da disciplina de História do Teatro Brasileiro, do curso de Bacharelado em Artes Cênicas, da Universidade Estadual do Paraná – UNESPAR/FAP, no ano de 2018.
[2] “Irmãos Coragem” novela escrita por Janete Clair e dirigida por Daniel Filho, foi produzida e veiculada pela Rede Globo, de junho de 1970 a julho de 1971. E “Escrava Isaura”, adaptação de Gilberto Braga e direção de Herval Rossano e Milton Gonçalves, foi veiculada de outubro de 1976 a fevereiro de 1977.
[3]  Ruth de Souza, atriz considerada a primeira “dama negra” do teatro, do cinema e da televisão brasileira. Teve sua estreia no Teatro experimental do Negro, em “O Imperador Jones”, de Eugene O’ Neill, em 8 de maio de 1945, no Teatro Municipal. Por seu desempenho em “Sinhá Moça”, torna-se a primeira atriz indicada ao prêmio Leão de Ouro, no festival de Veneza, em 1954. Léa Garcia, atriz de teatro, TV e cinema. Brilhou em filmes como “Orfeu Negro” (1958) e estreou na Globo em 1970.
[4]  Jaime Barcelos, (Rio de Janeiro, 1930-1980) ator de teatro, cinema e Tv. Em 1978 ganhou o prêmio de melhor interprete teatral do ano, pela Associação Paulista de Críticos Teatrais. Foi um grande professor de teatro, criando o grupo de formação para atores, e lançou o livro, “ABC do Ator”.
[5]  Antonio Sapeiras Spaza viveu em Londrina a partir de 1954, e foi um dos pioneiros do teatro no Município.
[6] Mario Bortolotto (Londrina/PR 1962) é ator, diretor, dramaturgo, escritor e compositor.
[7] Proteu – Projeto de Teatro Experimental Universitário, grupo criado como atividade de extensão da UEL em 1978 e se manteve em atividade até 1996.  Delta foi o primeiro grupo do interior do Brasil a participar de um festival Internacional, dirigido por José Antônio Teodoro.
[8] José Antônio Teodoro faleceu em agosto de 1987, aos 34 anos. Foi professor de história, diretor do grupo Delta o primeiro grupo do interior do Brasil a representar num festival internacional.
[9] Cine-Teatro Ouro Verde é uma instituição cultural com auditório para sala de cinema, espetáculo de dança, teatro e apresentações musicais. Localizado em Londrina, Paraná.
[10] Cia Delírio, formada desde 1980.  Tem currículo de vários prêmios, como Gralha azul e Potty Lazarotto.
[11] Teatro de Comédia do Paraná é um grupo da Fundação Teatro Guaíra, Claudio Correa e Castro foi convidado para desenvolver a ideia e ser diretor.
[12] Henriqueta Brieba (1907-1995) atriz e comediante. Em 1975 ficou conhecida em “A moreninha”. E atuou em 33 filmes.
[13] Paschoal Carlos Magno (1906-1980)  autor, diretor, animador, tem um papel fundamental na renovação da cena brasileira, fundou o Teatro do Estudante do Brasil e o Teatro Duse.
[14] João Luiz Fiani é ator, diretor, produtor e dramaturgo. Responsável pelo empreendimento Teatro Lala  Scheneider.  Também assumiu o posto de secretário de Cultura do estudo do Paraná, no Governo do Beto Richa.

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