Escrita-roubo sobre autobiografias roubadas

Por Fernanda Ricci

 

 

Foto: Lauro Borges.

 

 

[cochicho]

Curitiba, 14 de setembro de 2017.

 

Eu sou Fernanda, e a instrução de leitura é: leia cochichando.

Cochichando, Juliana me instrui: só podemos falar assim. Me convidou a subir ao piso de cima do Teatro Novelas Curitibanas.

Ao entrar na sala, me deparo com quatro microfones dispostos um em cada canto da sala, com almofadas em volta. Há duas filas de cadeiras frente a frente. À meia luz, recebo o convite de conversar pertinho, cochichado em um microfone. Nós, agora podemos abrir bilhetinhos e conversar sobre nossos medos, contar a história de quando derrubamos algo, de quando alguma coisa deu errado ou sobre a última vez que mentimos. Ou sobre qualquer coisa que tenha a ver com irregularidades. E quando uso a palavra irregularidades, eu estou roubando, porque sou residente da Mostra Emergente e Caio, diretor do espetáculo, me pediu perguntas que tenham a ver com irregularidades.

Juliana senta para conversar comigo e Lorenzo. Nos conta sobre a última coisa que tinha dado errado para ela, havia sido pela manhã. Tinha saído para se depilar e acabou perdendo o horário de ir buscar os remédios de seu pai. Suas pernas ainda estariam grudentas de cera. Ela nos contou que havia lavado, usado esponja e arranhado, mas a cera ainda estava lá. Eu sei que ceras são uma merda para sair da pele. Segundo roubo da escrita: no dia anterior Juliana havia saído do teatro para comprar as meias sugeridas pela Walkiria Talkie Nômade, Bianca, e buscar os remédios de seu pai.

Me peguei olhando para suas pernas a procura de cera e pensando se, ontem, algo havia dado errado com os remédios. Se eu não fizesse a residência, eu acreditaria nessa história?

Eu e Lorenzo começamos a falar dos possíveis erros dos engenheiros. Adicionamos uma outra questão: qual seu grande sonho de infância?

– Ser atriz. E eu sou atriz hoje. E o seu?

– Ser músico. E eu sou músico hoje.

Sorrisos.

[blimmm]

Juliana organiza o espaço. Pega todas as bolsas espalhadas entre chão e cadeiras, carregada e desajeitada, pega um programa da Mostra Emergente e coloca sobre outro programa que estava em frente a Ricardo. Coloca cada bolsa em cima de uma cadeira, organizadas por cor e modelo. Encontra um novo programa, junta aos outros. Achamos graça, chamei isso de cabideiro andante. Termina de organizar as bolsas. Ao terminar essa ação, estamos confortáveis, alguns de nós deitados no chão.

[blimmm]

Juliana para de cochichar [pare de ler cochichando], se apresenta. Diz que pode nos mostrar seu Ritornelo, seu Belchior e “estar bruxona”. Ela disse Belchior? Eu já não tenho certeza se disse. Não espera nossa resposta, sai mostrando. Se movimenta pelo espaço debilmente, em câmera lenta, se arrasta pelo chão, pelas paredes, se enfia em cantos, emite sons, faz bruxaria, transpira. Não há nada de débil. Nós? Transitamos em sentar, deitar, revirar, sorrir, exprimir atenção, estar, perceber a duração desse momento. Terceiro roubo da escrita: em minha última conversa com Caio, ele disse que Juliana nunca disse Belchior. Caio diz que Juliana diz: Ritornelo, tudo em seu devido lugar, encosto, hoje eu tô bruxona.

[blimmm]

Se dirige a Caio que manda imprimir algo. A página sai em branco. Juliana rapidamente coloca a folha para imprimir novamente.

 

Porque coisas dão errado, Caio?

Essa era a minha pergunta para você.

 

Juliana pega o notebook, para, o encara. Me atento para a sua respiração, para as gotas de suor que escorrem pelo seu rosto, nos cabelos grudados na testa, os pingos caindo no notebook, nos seus dedos molhados tocando as teclas e o touchpad. Seus olhos fixos na tela vão e voltam descendo. Fico curiosa: o que ela lê repetidamente?

Devolve o notebook a Caio e inicia novamente sua partitura ritornelo-nãobelchior-hojetôbruxona ao mesmo tempo que nos conta uma[s] história[s]. E agora a concretude de seus gestos não acontece mais no espaço de sua bruxaria, mas sim nos espaços de nossas histórias compartilhadas. Caio, esse DJ malandrinho, ouviu tudo, mixou e colou nossas histórias todas. A banalidade de contar qual foi a última coisa que você derrubou se mescla nos nossos erros, mentiras, a irregularidade que é existir, nos encontros fortuitos, no nonsense e humor. Nos deparamos com as nossas fragilidades e vulnerabilidades, com a certeza de que alguém ouviu nossos cochichos no microfone – sim, desde início era um pacto, mas perdemos algo? Quem mais nos escuta por aí?

Engenheiros que eram ruins em planejar prédios por não contarem que amam o garoto da faculdade e por isso decidem estudar massagem enquanto mentem para mãe sobre café e, os prédios balançam. Grupo Nômade e seus desejos de troca, as fragilidades da cena, as estratégias de criação de um espetáculo em que atriz e diretor moram em cidades diferentes, as estratégias de ensaio, as viagens Curitiba-Brasília, a troca via walkie-talkie entre Curitiba-Brasília-Canadá, o improviso, lidar com o imprevisto e com as coisas que dão errado. A insistência de um sonho.

Transitamos pela profundidade do banal que somos. Eu gostaria de não ter perdido a hora hoje, gostaria que minha mãe não tivesse ficado falando falando falando enquanto eu tentava terminar esse relato, gostaria de ter impresso esse texto em papel vegetal, escolhido melhor algumas palavras, refletido mais sobre algumas questões, mas algumas coisas dão errado. As irregularidades estão por aí, desde o pneu da minha bicicleta que fura, a luz que acaba e faz minha namorada ter que descer 16 andares pela escada ou a impressora que não funciona, até o retrocesso desse país tropical e abençoado por Deus?

Juliana se dirige à porta. Sai. Larga aberta. Guilherme ascende uma luz em direção a porta. Textos. Iluminados pela gambiarra de Marcela. Impressos em papel vegetal. Pendurados pela gambiarra de Caio. Todos com a cidade de Curitiba?, data. “Eu sou Juliana…”.

Penso sobre as conversas que inspiraram esses textos. Penso nas pessoas.

Desço as escadas, encontro novamente Lorenzo. Foi um prazer o conhecer. Vou para casa, e tudo ainda reverbera.

 

 

Foto: Lauro Borges.

 

 

Fernanda Ricci finaliza sua graduação em Artes Cênicas na Faculdade de Artes do Paraná. Nunca é vista usando calça jeans e nem sutiã. Pisciana que não gosta do que prende, saracuuuteia suculenta-explosiva n[u]as Poéticas e Políticas da Corpa Feminista, sobre o recorte de gênero, sexualidade, violência e suas possíveis mesclas.

 

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