eu também espero uma linguagem

a partir de um recorte de Hoje é dia de rock[1]
fotografia de Vitor Dias.
a feitura desse texto é atravessada por uma breve troca de mensagens com
Cesar Matthew, ator que intepreta Valente, na peça em questão.
alguns trechos desse texto são entrecortados pela dramaturgia
de
Hoje é dia de rock – há uma versão online aqui

valentia
1 qualidade do que é valente, corajoso, intrépido; valor, coragem, audácia.
2 qualidade do que tem energia, força, vigor.
3 capacidade de agir energicamente, com decisão, seriedade.
4 qualidade do que é resistente, forte.
5 ato praticado com coragem, intrepidez.

Escrevo de dentro da armadilha. A partir de uma emboscada. A partir das imagens e discursos que criaram sobre nós. Bichas.

Escrevo sobre o perigoso gesto de tentar falar em nome de uma ideia de coletividade extremamente heterogênea, unida pelo rastro de violência, especialmente nessa parte do globo: colonizada e genocida.

Escrevo no interior de uma dupla emboscada: a partir dos discursos e imagens que nós mesmos criamos.

Escrevo para saber de você como é que lida(re)mos com as coisas (coisas) que eles criaram.

Escrevo sem respostas.

esse texto começa quando me disseram que aqui, antes do período colonial,
a sexualidade não encontrava a distinção homofóbica com a qual operamos

esse texto começa quando me disseram que o primeiro índio morto no brasil
teve sua morte espetacularizada ao ser amarrado a um canhão[2]

esse texto começa quando se aceita que a ideia de pecado, solidão
e família é necessariamente colonial

esse texto começa quando na porta do teatro eu ouvi
“que bom que tem a bicha para dar uma animada na platéia”

esse texto começa quando em frente ao guairinha dois garotos
sofreram um ataque homofóbico em 2015
(eles também usavam saias)

 

Escrevo tentando assegurar e amparar os estigmas e estereótipos que nos aplanam, que supostamente arrancam de nós a complexidade – o privilégio de ser complexo – e nos direcionam a imaginários eufóricos ou suicidas.

Escrevo querendo, ao mesmo tempo, desvendar e tornar possível a imagem risível: a imagem em convulsão – por isso, uma imagem que vive, uma imagem que respira, sente, chora e sangra.

Escrevo para que a bicha seja gargalhável sempre que quiser – mas escrevo, antes de tudo, para que ela gargalhe. Viva.

Escrevo porque quero que a imagem risível seja uma escolha lúcida, não um caminho fácil, não um caminho repetível, um atalho, um trajeto que se faz no automático, atribuído por um sistema que não necessariamente se interessa pela autonomia de uma subjetividade, mesmo que em um âmbito representacional.

Escrevo porque quero que a imagem risível dobre, gire e quebre – que ela esteja em cacos, que ela seja difícil, com um percurso que nos permita ir-testando ir-juntando até atingir uma espécie de certeza, uma espécie de firmeza: uma valentia (“para estilhaçar a ditadura da imagem e os preconceitos a ela vinculados”, como é apresentada a trajetória de Virginie Despentes em Teoria King Kong).

Escrevo porque a imagem da bicha vibra e aponta vetores de dubiedade: um falso problema? um recurso retórico? uma bobagem? uma chatice minha? uma loucura na qual estou preso? uma repetição desnecessária? uma continuidade inevitável? uma invenção coletiva? uma ordem das hierarquias inerentes ao fazer artístico? uma criação processual? uma representação? a minha vida? teatro?

 

Valentia: rir, permitir o riso.

Valentia: deixar de rir, parar o riso.

Valentia: desvendar o riso.

Valentia: segurar na mão, o som e o público.

Valentia: preencher.

 

1 DE DEZEMBRO DE 2017 12:28

Francisco Mallmann

cesar, querido. estou escrevendo.
não posso dizer que estou escrevendo sobre ‘hoje é dia de rock’, porque penso e escrevo a partir de um recorte da peça. talvez possa ser frustrante te dizer que estou escrevendo “sobre a peça”, de um modo abrangente. enfim, de todo modo, eu queria te fazer uma pergunta que, ao mesmo tempo, é e não é sobre isso. e se você quiser, pode me responder.


o que é ser uma bicha latinoamericana?

 

Escrevo como uma interlocutora, parceira, uma-bicha-que-escreve.

Escrevo porque há uma dramaturgia anterior (sempre há uma dramaturgia anterior).

Escrevo porque o “Dramaturgo José Vicente foi Rimbaud do Brasil”[3] e tratou sobre a homossexualidade de homens em mais de um dos seus textos.

Escrevo porque se escolhe fazer teatro (sempre há um teatro anterior).

Escrevo porque se fazem escolhas (e fazer escolhas é escolher habitar, tocar, trocar, manusear sensibilidades e o sensível).

Escrevo porque há diretores, diretoras, dramaturgos, dramaturgas, atrizes, atores, técnicos, parceiros, artistas, públicos,  instituições e Estados (onde é que terminam e começam?).

Escrevo porque existem acordos, demandas, metodologias, treinos, testes, exercícios, processos e fotografias de divulgação (marcas e ensaios).

Escrevo porque “um sucesso da década de 1970” foi remontado na cidade em que nasci, vivo e crio.

Escrevo porque antes de chegar ao teatro as pessoas caminharam, se locomoveram, saíram de lugares,  andaram pela rua, pegaram ônibus, pedalaram, viveram suas vidas e talvez tenham corrido riscos: eu não sei que vidas são essas – algumas eu conheço, outras não.

Escrevo porque proponho uma leitura idiossincrática das possibilidades de vivências sexuais e de gênero – aqui, penso especialmente a partir de uma identidade de gênero “bicha” em que o próprio uso do termo “bicha” aponta especificidades[4].

Escrevo pelas personagens e figuras estranhas nos espetáculos, nesse espetáculo – pelos deslocamentos vitais que dissidências (tenho pensado sobre essa palavra e ainda não encontrei substituta) podem promover.

Escrevo porque a própria noção de “espetáculo” faz necessário que existam “seres espetacularizados” – mas quem pode ser espetacular? em que contexto? de que modo? com quais contornos? quais as abordagens dessa espetacularização?

Escrevo porque há a linguagem. O desenvolvimento, o tencionamento e a morte da linguagem.

Escrevo porque nesta dramaturgia alguém diz: “vem que eu espero tua linguagem” e eu compartilho desse chamamento. Eu também espero uma linguagem, como quem cria música. Eu também me pergunto “Que palavras ainda lhes faltam? O que necessitam dizer?” como Audre Lorde fez.

Escrevo porque um elenco branco evoca uma dramaturgia que, em dado momento, diz “nós somos índios”.

Escrevo porque é a bicha quem tem nojo de pobres e detesta “caipirismo” nessa família.

Escrevo porque a única mulher negra na peça é uma personagem cigana, hiperssexualizada, inserida em uma encenação que a faz entrar em cena, na maior parte das vezes, para sentar no colo de um homem que a chama incessantemente de “irmãzinha” (me reviro à atriz Flávia Imirene, e essa não é uma colocação sobre a qualidade de sua atuação, definitivamente – é outra a abordagem)

 

Meus silêncios não tinham me protegido[5].

 

Escrevo porque uma bicha se chama Valente. Valente. Porque a ela foi solicitada a língua presa e porque foi a única a ser aplaudida em cena aberta na noite em que estive no teatro. Porque dela se riu, até que fosse perdido o ar.

Escrevo porque Valente também começou “a escrever cartas para pessoas imaginárias” quando brincava “como uma criança obcecada, que recebeu uma flechada e saiu sangue”.

Escrevo uma carta para alguém imaginário enquanto sangro, tal qual dramaturgia.

Escrevo porque quando Valente se desloca do fundo do palco até a frente, um susto me ocorre, um medo, um desejo estranho de salvá-lo ao mesmo tempo que quero segurar sua mão, me expor, ao seu lado, em constrangimento. Pois que sejamos multidão.

Escrevo porque quando dança Valente, ao som de duas vozes, ao som de mulheres que cantam, español, eu danço e choro  junto/com/ao lado, uma mesma dança perturbada.

Escrevo sobre os sonhos e desejos da dupla Valente-Isabel: casar com o Elvis, namorar o mecânico, ser um imperador asteca, ir com algum garoto para trás da igreja, morrer na merda. Fugir. Fugir. Fugir. Fugir. Para que descubram só amanhã.

 

quais são as relações por meio das quais uma bicha se torna uma bicha risível?[6] ou o antônimo disso? atribuímos isso a ela? ao outro? 

qual dramaturgia – horizonte mundo sentido – me permite ser/ver uma bicha sonhadora-fugitiva?

quem ampara ou ridiculariza esse ser? o que o torna ridicularizável ou amparável?

quem o torna “isto” ou “aquilo”?

que narrativa é essa? e por que hoje – agora?

qual nosso interesse em re-avivar ideias de família, propriedade, liberdade e gênero, entendendo os deslocamentos, as contínuas mudanças históricas e as projeções que se fazem de um amanhã? 

 

esse texto não compreende por normalidade relações heterossexuais
envolvendo procriação e monogamia

esse texto compreende que há uma ideologia de gênero imperando
há muito tempo em nossas relações sociais
uma noção de gênero e sexo que é heterossexual, machista, homofóbica,
racista e colonial

esse texto acha que, de algum modo, para eles, a culpa vai ser sempre
da bicha (da outra): se ela for 
risível, sofrível, inteligente ou burra, pobre ou rica,
a culpa vai ser sempre dela

esse texto se pergunta como é possível que algumas pessoas
se permitam ver certas coisas no palco mas não se permitam ver certas coisas na rua

 

Escrevo distante da polícia – no entanto, sei que tropeço em uma ideia de proteção, de atenção, em uma ideia ativa de cuidado, que é ruidosa e polifônica, que pode parecer monitória.

Escrevo porque preciso saber se não estou reproduzindo qualquer tipo de coerção violenta. É só uma bicha, no teatro, afinal. Deixa ela. Tudo está “lindo”. Tudo está “poético” e “primoroso”. 

Escrevo porque preciso usar o verbo fazendo a autocrítica – o quanto desses indícios que trago à tona são de minha responsabilidade? O quanto a minha cognição e meu desejo de desdobramento quer se aproximar ou se afastar de coisas, deliberadamente? Quem recorta sou eu.

Escrevo a partir da bicha e, por isso, necessariamente escrevo sobre a mulher, o homem, a mãe e o pai, os irmãos, a irmã, a cunhada, os frequentadores de um bar. Escrevo sobre a bicha porque escrevo sobre o mundo e sobre o modo como ele nos permite viver ou morrer. Escrevo a partir da bicha por isso escrevo sobre estética, política e vida. Escrevo sobre a bicha porque escrevo sobre tudo.

Escrevo curioso para saber o quanto andam pensando por aí sobre as coisas que fazem, as imagens e conhecimentos que se produzem e/ou reproduzem ao criar. Escrevo para saber quem vive no interior das decisões.

Escrevo para saber o que querem dizer em 2017 com “realidade” “brasil” “índio”, em se tratando de uma construção discursiva que envolve o “apagamento de um tempo” – o mesmo slogan para aqueles que lutam contra o fascismo e para os que são, de fato, fascistas. O apagamento de um tempo é tudo o que sabemos fazer no Brasil, ao que parece – índio escravidão ditadura: palavras que nos recordam isso: “o apagamento de um tempo”, vários tempos encadeados.

Escrevo para descobrir se “apagar um tempo” estando dentro dele não é também convocar o próprio apagamento: quem apaga? quem pede para apagar? quem é apagado? por quê?

Escrevo depois de já ter compartilhado algumas dessas ideias que registro aqui de forma processual com outro artista e ter ouvido: “acho que as pessoas não querem saber disso, por que não fala das músicas, tão bonitas? do figurino colorido?”  como se questões pudessem ser apagadas com cor e som. “Será que não podemos só rir um pouco?“, ele também disse como se eu estivesse boicotando o riso ao invés de  um desejo de entendê-lo (o que já demonstra, em si, um interesse e uma valoração). Como se essa abordagem fosse uma afronta ou uma bobagem – como se a bicha não fosse parte integrante e fundamental na construção narrativa, de sentido e imagética que a mim se apresenta.

Escrevo no ano em que falei publicamente sobre uma outra peça, que considero transfóbica e me foi sugerido “assistir peças como uma folha em branco, sem tantos preconceitos, se deixar emocionar sem tantas amarras”.

Escrevo porque

não sou

não serei

não quero ser

não posso ser

uma folha em branco.

 

– Então me diz ‘vai!’. Eu preciso de alguém que me diga ‘vai!’

 

Criação de contexto – n.1 

Como é que poderemos usar saias e nomear seus tecidos?

Como é que gritaremos – e como é que pararemos de gritar?

Como é que criaremos um terreno para dançar?

Sonharemos com impérios incas?

Desmaiaremos em reuniões familiares?

Leremos mãos mesmo sem saber ler mãos?

 

Criação de contexto – n.2

Como é que poderei usar saias e nomear tecidos?

Como é que gritarei – e como é que pararei de gritar?

Como é que criarei um terreno para dançar?

Sonharei com impérios incas?

Desmaiarei em reuniões familiares?

Lerei mãos mesmo sem saber ler mãos?

 

Criação de contexto – n.3

 (Fomos cuidadosamente ensinadas a odiar a nós mesmas)[7]

Desde o princípio dos tempos, o mundo foi inspirado pelo trabalho de artistas queer. Em troca, houve sofrimento, dor e violência. Ao longo da história, a sociedade travou uma batalha contra os seus cidadãos e cidadãs queer: elas devem seguir carreiras criativas, contanto que discretamente. Através das artes, as queer são produtivas, lucrativas, entretém e até são capazes de inspirar. Estes são os mais claros e úteis subprodutos daquilo que, do contrário, é considerado um comportamento antissocial. Nos círculos culturais, as queers podem coexistir tranquilamente com uma elite que, de outro modo, as abomina.[8]

(Permita-se sentir raiva do fato de que não há lugar neste país onde estejamos seguras, nenhum lugar onde não somos alvo do ódio e do ataque, do nosso próprio desprezo, do suicídio – do armário)[9]

 

Criação de contexto – n.4

Fomos educadas para respeitar mais ao medo do que a nossa necessidade de linguagem e definição, mas se esperamos em silêncio que chegue a coragem, o peso do silêncio vai nos afogar. O fato de estarmos aqui e que eu esteja dizendo essas palavras, já é uma tentativa de quebrar o silêncio e estender uma ponte sobre nossas diferenças, porque não são as diferenças que nos imobilizam, mas o silêncio. E restam tantos silêncios para romper![10]

 

1 DE DEZEMBRO DE 2017 13:24

Cesar Mathew

Oi Chico!! Entendo sim, claro!! Fico muito feliz que você esteja escrevendo!!!

Irei responder partindo do Valente e onde isso dialoga com o que eu acredito. Eu penso por exemplo que a cena da despedida e do choro dele é ao mesmo tempo o adeus da família mas também o choro da bixa latina, que tem duas peninhas pra defender ela do mundo e faz disso sua armadura, mesmo que seja para sobreviver só até a próxima esquina, então que seja assim, do jeito que ela é! Pra mim a bixa latina chora a dor e a alegria de ficar de pé em terras sucateadas, são séculos e séculos de pura extorsão do velho continente mas o que incomoda mesmo é se ela usar um salto alto ou falar mole, dentro de toda solidão latina está a bixa lutando e batendo asas.

 

será que eu deveria estar contente já que há, pelo menos, uma bicha?

será que é motivo de comemoração uma bicha entre muitxs heterossexuais?

será que a minha leitura é classista e branca?

será que uma equipe com integrantes gays nos imuniza dessas questões?

será que isso é considerado uma possibilidade de recirculação de gênero?[11]

será uma prática subversiva que questiona a própria ideia de identidade?

será que é uma identidade surgindo da ruína?

será que o fato do ator ser bicha torna tudo diferente?

será que o deslocamento histórico justifica?

será que se considera atual?

será que é preciso ler como um entendimento datado?

será que o governador assistiu e gostou?

será que ela está tirando um sarro de tudo?

será que ela está rindo de todo mundo?

será que ela guarda uma certeza de que isso tudo é uma bobagem?

será que ela está além dessas discussões?

será que ela acha isso tudo uma chatice?

será que ela percebe essas relações ao seu redor?

será que ela se entende como parte do entretenimento?

será que o gráfico dramático da bicha explica tudo?

será que a dramaturgia dela a torna heroína?

será que a dramaturgia dela a torna vítima?

será que a fuga é salvação? redenção? única possibilidade? liberdade? desfecho trágico? começo de outra coisa que o público não vê?

será que ela é uma experiência estética?

será que eu estou inventando coisa?

será que eu estou me passando?

será que as pessoas a amam por fetiche?

será que as pessoas a adoram como adoram um animal fofinho?

será que é assim que tem que ser uma bicha em um teatro “popular”?

será que elas aplaudem uma personagem?

será que no fim as pessoas sempre dão as mãos e saem dançando?

será que as pessoas ririam dela fora de cena?

será que as pessoas a aplaudem na rua?

será que a arte nos proteje?

POR QUE A BICHA NÃO PODE SER SANTA?
POR QUE A BICHA NÃO PODE PARECER JESUS CRISTO?

POR QUE A BICHA PRECISA SER SANTA?
POR QUE A BICHA PRECISA PARECER JESUS CRISTO?

POR QUE A BICHA QUER SER SANTA?
POR QUE A BICHA QUER PARECER JESUS CRISTO?

 

A radicalidade de um outro estatuto: outra maneira de se aproximar, dizer palavras, imaginar a vida – se referir à mesma dignidade com a qual identificam-se outros agentes. Vem que eu espero tua linguagem se tornando Eu crio uma linguagem se tornando Eu sou uma linguagem. Trocar a espera por atuação – inscrição de palavra, gesto, corpo, discurso: voz, língua, código, operação: pensamento. Outro. Me sento nas poltronas vermelhas e não quero dizer nada nunca mais. Penso nisso só amanhã. Mas não posso. Eu quero descansar – eu quero esquecer os nomes das violências específicas. Mas não posso. Quero parar de medir e tecer comparações[12]. Esquecer. Tirar da pele a História e as histórias. Arrancar. Mas não posso. Eu quero uma poesia que destrói para poder re-fazer. Construir muros para destruí-los. Eu sei sobre a descontextualização que posso estar aplicando – uma assimetria com ímpetos discursivos, reflexivos: críticos (dizem que não é isso o que faço, que não é isso o que sou). Eu sei que podem usar a palavra “desonestidade”. De um lado: nossas discussões seguem sendo setentistas – de outro: sinto sono. A vertente nostálgica – a quem? A saudade: a quem? “E quem é que quer ter saudade? Saudade do que? Da vida colonial?”[13]. Eu entendi. A fabulação. O cânone – o contra-canône. O realismo fantástico. A fronteira, o país, a cidade, as pedras, o caminho. Eu entendi a metáfora. Nada disso real: r-e-a-l. Eu entendi. Dois anos em cartaz. Real. Exatamente isso, um país, a cidade, estado, vida: trajeto. Pedra. Trilha sonora. Uma dramaturgia do dramaturgo censurado pela ditadura. Contexto: antes da aids. Tomar posição: não saber. Como é que se avança? Identificar as minhas ignorâncias e hábitos. Deixar que falem. Deixar que exista. Deixar ser confuso. E depois: enlouquecer. Começar os debates falando sobre saúde mental. Sobre a loucura – falando dela, com ela, ao lado ou dentro dela. Sobre a não imunidade de todos os tempos, especialmente este, em que insisto em abrir a boca. Falando contra os esconderijos. Contra a ingenuidade. Ser ingenuamente contra a ingenuidade. Falar sobre cinismo. Sobre as imagens que criei com as imagens existentes. Falar das subjetividades exaltadas, anárquicas e barulhentas em uma paisagem embrutecida. Falar arte como quem diz ação. Falar teatro como quem diz posicionamento. Falar música como quem diz garganta. Gritar. Ter, ao mesmo tempo, menos e mais paciência. Ouvir as explicações. Muito bem, muito bem, vocês estão com a razão – estou sendo radical. Desconfiar: como é que você pode me colocar em uma situação-outra? Como você me leva adiante? Como me tira e me devolve do mundo? Da calçada? Da cidade? Do teatro? Do meu corpo? Da minha comunidade, antes de tudo, estética. Não falo sobre beleza, assim, be le za. É bonito, é claro que sim. O Cesar. Valente, dizendo coisas. Não é sobre isso. É bonito. É sobre dizer. Sou eu. Dizer. Um espaço em que cada pessoa mantinha uma cumplicidade de olho e de traje, uma com a outra. E tinha rituais, que no fundo eram exorcismos, mas a gente não dizia dizia. A gente dizia. A gente diz.

 

Valentia: dizer.

 

__________________________________
[1] Texto: José Vicente. Direção, Cenografia e Figurino: Gabriel Villela. Diretor Assistente: Ivan Andrade. Direção Musical, arranjos e preparação vocal: Marco França. Assistente de figurinos e aderecista: José Rosa. Iluminação Wagner Correa. Fotos: Vitor Dias. Elenco: Rodrigo Ferrarini, Rosana Stavis, Arthur Faustino, Cesar Mathew, Evandro Santiago, Flávia Imirene, Helena Tezza, Kauê Persona, Luana Godin, Matheus Gonzales, Nathan Milléo Gualda, Paulo Marques, Pedro Inoue. A peça estreou no dia 18 de novembro e será apresentada até dia 17 de dezembro, de quinta-feira a sábado, às 20h30 e domingo, às 19h.
[2] Leia Aqui
[3] Leia Aqui
[4] Leia Aqui
[5] Audre Lorde, A Transformação do silêncio em linguagem e ação
[6] Em referência a questão elaborada por Gayle Rubin no texto O tráfico de mulheres: “Quais são, então, essas relações por meio das quais uma mulher se torna uma mulher oprimida?”.
[7] Manifesto Queer Nation Leia Aqui
[8] Manifesto Queer Nation
[9] Manifesto Queer Nation
[10] Audre Lorde, A Transformação do silêncio em linguagem e ação
[11] “Mesmo que construtos heterossexistas circulem como lugares praticáveis de poder/discurso a partir dos quais se faz o gênero, persiste a pergunta: que possibilidades existem de recirculação? Que possibilidades de fazer o gênero repetem e deslocam, por meio da hipérbole da dissonância, da confusão interna e da proliferação, os próprios construtos pelos quais os gêneros são mobilizados?” Judith Butler, Problemas de gênero.
[12] “Nuestro código de valores, nuestras pautas de conducta, todo lo que hacemos y pensamos, lo queramos o no, siempre lo medimos a la luz de planteamientos y propuestas éticas heteronormativas, procedentes de ámbitos tan homofóbicos como la iglesia, la religión, la filosofía, la escuela, la universidad, la política, los partidos, la cultura, el cine y todos los discursos morales que las instituciones proclaman a los cuatro vientos para impregnar poco a poco a las masas desde pequeñitos”. Paco Vidarte, Ética marica
[13] Bernardo Carvalho, Reprodução.

Compartilhe:

Francisco Mallmann

Ver posts de Francisco Mallmann
Francisco Mallmann é dramaturgo, performer, crítico e pesquisador.