FRIDA, YO SOY LA DESINTEGRACIÓN

Por Brenda Sodré

 

 

Foto: Elenize Dezgeniski.

 

 

não há como saber algo tão bem quanto a realidade do espelho, por isso frida se pinta nos outros.

colorida, vários coques pela cabeça, amarras e ferros nas pernas, com a felicidade de uma criança, frida é puxada pela coleira por uma dominatrix zapatista (stela fischer), alguém ganha uma monocelha aqui, outra ali. alguém ganha uma monocelha e um beijo na cabeça. ela olha bem dentro do olho da gente. alguém ganha uma monocelha e um beijo no colo. a dominatrix a puxa mais rápido. alguém ganha uma monocelha e um beijo demorado na boca. que sorte. eu não estou entre os alguéns de monocelha, olho-no-olho, beijo na cabeça, no colo, na boca. queria tanto.

não há o fim de frida kahlo, uma frida jamais se cala com porquês, blablablás, e afins.

no teatro, vários ruídos, um céu azul turbulento que insiste em ficar me causa vertigem, uma mulher de burca preta (leticia olivares) nos dá as costas.

é a voz de donald trump que diz coisas nos alto-falantes. por entre o público, a frida punk de violeta luna ressurge segurando uma tesoura que parece ser cirúrgica, toca duas vezes a cabeça de uma garota para que ela abra espaço. eu preciso me movimentar também porque estou em frente à garota que foi tocada duas vezes na cabeça pela tesoura e eu não consigo mais voltar ao lugar de antes, fico imóvel. sim, parece que ela tem o poder de arrombar o ar com sua presença vulcânica. um fenômeno que nunca vi antes. estou presa no meu corpo, não tenho coragem de me movimentar, no entanto, várias coisas se bagunçam dentro e tenho a sensação de que é crime tirar os olhos dela.

 

 

Foto: Elenize Dezgeniski.

 

 

frida e a dominatrix chegam no palco e se aproximam da mulher de burca até despirem-na. suas costas gritam que nenhum ser humano é ilegal, mas ninguém sabia. algumas pessoas ainda não sabem mesmo depois de. um medo toma meu corpo.

não há o fim de frida kahlo, uma frida não se cala com capitalismos, misoginias, fundamentalismos, xenofobias e genocídios.

frida enfia a tesoura na língua, mete no nariz e ameaça romper o septo, puxa os cílios postiços, come e dá de comer. alguns rostos da plateia se entortam. ela troca de tesoura e começa a proclamar o caos, poda suas unhas uma a uma loucamente. uma unha voa no meu olho. que sorte.

a pélvis que dança cospe uma carne abjeta por entre as pernas. frida a devora. quer? ninguém aceita. ela insiste e oferece de novo e de novo e de novo. ninguém aceita. ninguém quer comer um pedaço de frida kahlo. ela tira os grampos-pregos do cabelo e limpa os dentes e com um deles espeta a carne. oferece para a plateia a oportunidade de perfurar a mesma carne que antes ela ofereceu como banquete. com exceção de uma pessoa, todo mundo aceita. eis que me acontece algo estranho: ela olha para mim e me convida. eu fico em sua frente, não entendo mais nada, sua presença me atormenta, era pra eu pegar um prego de sua perna e enfiar na carne como todos os outros, ao invés disso, eu sento no palco ao lado dela e balanço as pernas como ela balançava. ela ri e me dá um espeto (nesse momento, todos sabiam que eu havia entendido os sinais dela de maneira torta, eu era a única sem saber). eu enfio com força o prego na carne. ela arregala rapidamente os olhos e os fecha bem apertados. na hora eu me encolho toda, percebi a atrocidade que havia feito. ensaiei não espetar caso ela me notasse e resolvesse me chamar, ensaiei dizer coisas no ouvido dela sobre como eu seria incapaz de feri-la e de ferir o que saísse dela. mas eu não cumpri. eu sentei ao lado dela, balancei minhas pernas, olhei em seus olhos e escolhi perfurar a carne que seu corpo expeliu. eu volto ao meu lugar e ela prossegue com seu jantar autofágico, toma uma tequila e passa para o público compartilhar. tira a parte de cima da roupa colorida e veste um colete de metal apertado com várias lanças apontando para fora. ela convida uma moça da plateia, olha bem dentro do olho, elas se beijam ardidamente, apesar das lanças. apesar de.

não há o fim de frida kahlo, uma frida jamais se cala com acidentes de trens, pregos, lanças, ataduras, talas.

 

 

Foto: Elenize Dezgeniski.

 

 

com a confiança de quem tudo pode, frida kahlo violeta luna manipula uma seringa. ameaça enfiar nos olhos, oferece novamente para quem quiser injetar o líquido vermelho em seu corpo, ninguém aceita. ela para ao lado de um homem de terno, muito bem vestido e o intimida. ele não é ninguém perto dela, ninguém. e ali mesmo, injeta em sua coxa algo que eu não sei dizer o que é. frida devora uma garrafa de água com a violência dos tornados. vai se desmanchando, tira os grampos, desfaz os coques, tira a roupa, desfaz as amarras. estende pelo teatro um rolo de papel higiênico com o rosto do donald trump estampado. ela abre os braços e eles pegam fogo. qualquer movimento que ela faz ela pode fazer, nada acontece além dela. ela pode tudo, absolutamente tudo. seus braços abertos pegam fogo. um cristo mulher latina em chamas que eu escolho acreditar. sua saia vira um manto, esconderijo. ela agradece, plena, parada, vulcânica. e educada que é, limpa o teatro que sujou durante a cena com a bandeirinha vermelha e azul com 50 estrelas que conhecemos tão bem.

não há o fim de frida kahlo, uma frida jamais se cala com homens laranjas que agarram mulheres pela buceta, bandeiras, american way of life e afins.

no paradoja, horas depois, onde acontecia a festa de abertura do festival ruído encena, antes que eu pudesse proferir qualquer palavra, violeta luna com seus longos cabelos pretos lisos e seus olhos de rapina me vê e diz: foi muito engraçado, você foi a menina que sentou ao meu lado e balançou as perninhas.

 

 

Foto: Elenize Dezgeniski.

 

 

brenda sodré é áries com ascendente em sagitário, nasceu de cabelo vermelho e com uma hemorragia na cabeça. sua antepassada é a bomba, o projétil, o estilhaço. não sabe outro idioma senão o do fogo e do estalo. está se formando em artes cênicas na faculdade de artes do paraná. é atroz e performer, sua pesquisa atravessa questões de gênero, feminismo e tecnologia.

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