Hyenna: os restos e a urgência da ineficiência na dança

Foto: Amanda Vicentini

 

Em Hyenna: a existência e os restos. A história de uma dança contada no corpo, de um tempo vivido e dançado pelo artista mineiro Tuca Pinheiro. Uma história singular, onde o que resta não é apenas sinônimo de sobra ou excesso, mas um conjunto de forças operando e criando tensões no corpo, na dança e no mundo.

Parado, com seu olhar para cima, os pés em en dehors numa quarta posição, ele se ajeita e se adapta. Seu corpo nos abre outras camadas de percepção do tempo no espaço. Vemos o tempo na sua espera e no seu corpo. Tuca dança e fala, constrói rimas às terminologias e metodologias do balé clássico,  segue se comunicando no francês que nem todos falam e entendem:  constrange e aproxima. Escolha estética e política acerca da linguagem que também delimita o conhecimento, o acesso. Limites da linguagem, que dizem de limites outros: epistemológicos, territoriais e subjetivos. Limites do saber, dos corpos, do que se pode fazer e do que se pode não fazer.

A linguagem, a corporalidade e os elementos que compõem a cena utilizados em Hyenna,  expõem o corpo num conflito cultural, existencial, antropofágico e autofágico.  Tuca escancara que quando assistimos uma dança, assistimos um discurso ético e estético e, concomitantemente, a articulação de estruturas de poder que operam no corpo. Tuca,  com seu corpo surrado pela própria dança, onde nas suas pernas latejam seu percurso, enuncia questões sobre a subcondição de vida e as políticas de higienização social. Com seu solo dança um coletivo.

Tuca dá espaço aos vestígios e faz-nos rir disso que resta. Um riso estranho do que não é só engraçado: é submisso, sarcástico, cruel…O riso é de espanto no reconhecimento do que e do como se aprende a dançar, o riso é da piada, mas não só, é da empatia num percurso, nas metodologias vivenciadas na dança e no que insiste em existir, propagar, legitimar.

Engendra e mobiliza uma mistura de imagens, contextos e territórios. Come os restos de si mesmo e dentre tantas outras, incita a pergunta sobre o que seria a dança brasileira. Assume as influências europeias em tensão com os clichês do exótico brasileiro. Confunde-nos trazendo à tona a humanidade de uma dança ineficiente, instável e autofágica.

Escova os dentes, escova seu corpo, axilas, cu, bolas, a sola do sapato, os pelos, a boca, o chão, a parede, tudo por onde escova sempre volta para sua boca, provoca nojo e aproximação pela desespetacularização de quem dança com as mesmas pernas que já esgotaram a limpeza dos movimentos, o equilíbrio e o belo. Pernas que seguem batendo chinelo havaiana, e caminham num país onde dançamos nossas tentativas.

Em Hyenna, vemos a morte  friccionada ao que nos resta da vida, aqui, uma dança borrada, intensa e dolorida. O resto que move é força, gargalhada, choro e pulsação. Coloca o dedo nas suas feridas, zomba de si. O resto e a ineficiência se ressignificam, são possibilidades e condições de criação e potência.

Tuca constrói e destrói o pertencer e o não pertencer, move-nos junto na tensão de aderir os espaços que o corpo habita, na sala do AP da 13, nos aproxima na condição de humanos e afasta-nos de modos alienantes de apreciação da dança.

Hyenna, solo de dança  do artista Tuca Pinheiro, foi apresentado nos dias 30 e 31 de março de 2018, em Curitiba – PR, no AP da 13. Fez parte da programação da II MOSTRA TEATRO DE SEGUNDA. A Mostra Teatro de Segunda vem para sua segunda edição, promovendo artistas locais e de outros de diversos estados do Brasil. A Mostra realizada no Ap da 13, espaço de moradia de artistas que fomentam cultura em Curitiba, abre novamente suas portas para mais um ato de resistência e independência de promover novas formas de se fazer arte.

Tuca Pinheiro é  Bailarino formado em dança clássica e contemporânea, diretor coreográfico, criador, intérprete, professor e pesquisador em dança contemporânea  vem desenvolvendo seus estudos, parcerias e criações coreográficas, junto a profissionais brasileiros e estrangeiros com o foco voltado à criação coreográfica e à pesquisa teórico prática em dramaturgia de dança. Há cinco anos desenvolve sua pesquisa de metodologia intitulada “A Urgência da Ineficiência- dispositivos para processos de criação coletiva em dança contemporânea”. Seu trabalho solo HYENNA- não deforma, não tem cheiro, não solta as tiras, co-produção com o FID 2013 teve estreia em outubro de 2013 em Belo Horizonte (MG), no FID 2013, e desde então tem circulado pelo país em vários festivais de dança com significativo resultado de críticas. Entre eles: BIENAL DE DANÇA SESC/CAMPINAS 2014, PANORAMA DE DANÇA 2014 (Rio de Janeiro-RJ), MODOS DE EXISTIR 2014-SESC Santo Amaro (São Paulo),MOSTRA HUMOR NA DANÇA 2014- SESC Belenzinho ( São Paulo-SP), BIENAL DE ARTES DA BAHIA 2014-Itaparica (BA), II VIRADA CULTURAL DE BELO HORIZONTE 2014-SESC Palladium (Belo Horizonte-MG), OCUPAÇÃO FUNARTE 2015 (Belo Horizonte-MG), e outros.

Descrição:

A figura da hiena se impôs como um poderoso símbolo para subcondições de vida, uma existência ambígua que transita entre o riso e o resto, fato que favoreceu a investigação de procedimentos coreográficos que colocam em discussão questões relativas à higienização e à hienização. Um stand up tragedy.

 

Ficha Técnica:

Bailarino: Tuca Pinheiro
Dramaturgia: Rosa Hercoles

 

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Renata Roel

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Renata Roel é artista da dança residente em Curitiba (PR).