Entrevista de Márcio Roberto Gonçalves: Formas de descentralização do teatro de Curitiba

Entrevista realizada no dia 30 de outubro de 2018 por Nádia Petroski Antunes e Thaísa Pereira Grossmann, com orientação de Stela Fischer[1]

Márcio Roberto Gonçalves é professor, diretor de teatro e produtor cultural. Idealizador e criador do Centro Cultural Boqueirão, em 2006. O espaço é uma instituição não governamental sem fins lucrativos e tem como objetivo “a produção e a difusão da arte e da cultura na formação humana”, como enfatiza Márcio na entrevista que nos concedeu. Localizado na região sul da cidade de Curitiba, no bairro Boqueirão, o espaço é sede de um projeto que tem como objetivo a descentralização da arte e da cultura na cidade. No Centro Cultural Boqueirão, as crianças estudantes da rede pública podem participar das atividades ofertadas gratuitamente, atuando como forma de inclusão social por meio das artes.

Escolhemos Márcio para ser nosso entrevistado pelo fato de, assim como nós, também ser do Boqueirão, uma região considerada como perigosa e muitas vezes marginalizada. A entrevista se passou dentro do próprio Centro Cultural que fica ao lado de uma invasão, onde famílias de baixa ou nenhuma renda invadiram o terreno para morarem, sem água tratada, energia elétrica ou qualquer acesso às necessidades básicas. A criação do centro cultural, oportunizou o acesso de moradores da região à arte e cultura. Ao oferecer programas gratuitos para famílias de baixa renda, o Centro Cultural encontra uma maneira de tirar muitas crianças das ruas. Esse feito foi muito importante para a região e para quem mora nela hoje, pois fez com que a região deixasse de ser vista apenas como um bairro perigoso e passou a ser um lugar com possibilidades e acesso culturais fora do centro. E, por último, pelo fato desse centro cultural ser do lado de nossas casas, nós conseguimos acompanhar e ver o impacto de suas ações em primeira mão. Por este e outros motivos que nos afetam a realizar esta conversa com o idealizador do projeto, Marcio Roberto Gonçalves e descobrir como tudo aconteceu.

Como alguém que dedica a vida à arte e cultura, o que o levou a trabalhar especificamente no Boqueirão, a idealizar e abrir um espaço artístico numa área descentralizada da cidade? Você notou algum impacto positivo nessa comunidade que tem menos acesso às manifestações artísticas?

Márcio Eu dediquei 30 anos da minha vida ao trabalho de arte e cultura, não só a questão de teatro, mas o trabalho de arte educação que eu acho fundamental na formação de uma criança. Aqui em Curitiba, tudo é muito centralizado e isso sempre me incomodou. Viver sem arte é uma coisa muito triste. A arte é a busca do belo, das estéticas, do pensamento, o que deve nortear a convivência humana. E eu nunca entendi por que isso não se espalhava. Sempre fui uma pessoa suburbana e quando nós somos suburbanos estamos mais próximos da violência, da falta da educação e da insensibilidade. Eu acredito que a arte é o único caminho para que as pessoas tenham mais discernimento, conheçam a cultura da outra pessoa, a religião da outra pessoa e se tornem pessoas mais sensíveis. Talvez seja um pouco romântico, mas eu acho que grande parte da violência que existe nos bairros, às margens da cidade, aconteça pela falta da arte.

Olhando alguns projetos implantados em periferias, em algumas partes do mundo que transformaram regiões e pessoas, eu resolvi apostar na construção de um teatro, um centro de cultura, às margens da cidade, a menos de 200 metros de uma das maiores invasões da cidade, e os resultados são maravilhosos. Descobri que grande parte da violência é imaginação. Quando vim para cá tinha medo. O primeiro contato que tive numa invasão, vi que é feita também por família e crianças. A cidade empurra as pessoas, e então a única coisa que você pode dar para elas é essa reflexão. Na maioria das vezes, são pessoas com baixa escolaridade, com empregos informais, algumas com problemas com vícios. Essas pessoas já são calejadas e criam certa resistência em relação à sociedade que insiste em querer educá-las à força. Nós criamos esse espaço e aos poucos fomos interagindo com essas pessoas. Começamos a conversar, procurar entender. Ajudamos no processo de saídas das invasões para moradia em apartamentos. Na época, foi uma gestão no Brasil que ajudou bastante, e quando pedimos apoio, conseguimos. Nós trouxemos os líderes da invasão para dentro do CCB – Centro Cultural Boqueirão. “Perguntamos: ‘vocês não querem criar seus filhos em um outro espaço, num apartamento?’ – lógico que com muita sensibilidade, para que eles não achassem que os estávamos chamando de ‘sem dignidade’”. E para que tudo isso acontecesse, foi preciso um centro cultural que usou a arte para sensibilizar. Acho que esse é o grande ganho, o maior ganho que tivemos nesse espaço nos últimos 12 anos foi a questão do discernimento que nós conseguimos oferecer a algumas pessoas.

Cena do espetáculo “O Meu Pequeno Pé de Laranjeira” com produção de Márcio Roberto e do Centro Cultural Boqueirão. Foto: Chico Noqueira. 

O Centro Cultural Boqueirão foi responsável por criar e divulgar peças como “Teimosinho e Mandão em dois idiotas que sentados cada qual com seu barril”[2] e “A arca de Noé”[3] que foram indicadas e ganharam prêmios, inclusive o Gralha Azul[4]. Normalmente peças e locais com tal reconhecimento conseguem se firmar no mercado artístico curitibano com mais facilidade, mas sabemos que isso não aconteceu aqui e que o espaço tem dificuldade de se manter aberto. Como é pra você fazer e promover arte e cultura no atual momento político brasileiro, onde o governo não financia ou pouco incentiva a cultura?

Márcio Foi feito um trabalho de formiguinha. O espaço tem 12 anos e eu tenho 25 anos de produção cultural1. Já tinha recebido prêmios antes e usei muito desse currículo pra que o espaço começasse a ser reconhecido na cidade e hoje ele é referência na descentralização de cultura em Curitiba. Eu também achava que essa questão do público seria um problema, que as pessoas não viriam por ser no Boqueirão. A proposta do nosso projeto era fazer com que as pessoas circulassem por aqui, para tirar a atmosfera de “perigoso”. Quando eu comecei, aqui era considerado uma “cracolândia”, então quanto mais pessoas viessem e circulassem mais traria segurança e tranquilidade ao local.

Aqui no Centro Cultural Boqueirão tem gente qualificada e trabalhadora. Quando nós começamos a colocar Ruth Rocha[5], Ziraldo[6], Nelson Rodrigues[7]em cartaz, as pessoas começaram a ver que tinha um ganho muito grande ao vir para cá. Uma das políticas que adotamos aqui era a de não cobrar ingresso. Essa proposta de “pague quanto vale” começou a ser adotada por nós e hoje é utilizada em vários espaços culturais da cidade. Aqui não se paga ingresso, temos estacionamento, poltronas confortáveis, produtos culturais premiados. Então foi uma questão de marketing para trazer as pessoas, afinal se você tiver um espaço que tenha boas condições técnicas, bons produtos culturais, em qualquer lugar de Curitiba vai ter público. E aqui ainda tem algo bem bacana é a própria cultura dos moradores, a senhorinha se arruma para ir à igreja, ao mercado e agora ela também se arruma para ir ao teatro. Isso deu uma levantada na estima da região.

Peça “Teimosinho e Mandão – Dois Idiotas Sentados Cada Qual no Seu Barril”. Foto: Stay Flow.

Sabemos que você costumava dar aula para crianças em escolas, como educador. Como o contato desde cedo com a arte pode acrescentar na vida de uma criança?

MárcioHoje em dia as coisas mudaram, a arte é muito mais importante do que nós imaginamos. As crianças hoje têm menos espaço físico. A minha infância foi neste bairro, com menos violência, mais quilômetros para correr. Nós brincávamos na rua, tinha campos de futebol e as crianças interagiam, a liberdade era grande. O corpo precisa brincar, é uma necessidade da natureza humana, as pessoas precisam brincar! Principalmente as crianças, é assim que elas se desenvolvem.

A arte é uma brincadeira para criança, elas visualizam o mundo através da parte lúdica, da poesia. Apresentamos a ela a literatura e a estética, nós pensamos em tudo isso. Não pensamos que a criança vai ser uma atriz ou um ator profissional, não vendemos essa ideia, e sim que elas vão poder brincar dentro do mundo artístico. Hoje o trabalho de arte educação é necessário para movimentar o corpo e o cérebro da criança de uma maneira menos ditatorial. O adulto fica em cima da criança e há um desespero do adulto de querer que os filhos já sejam bem-sucedidos profissionalmente. E isso é implantado na infância, existe uma pressão em cima delas. Elas não têm espaço, então, quando estão fazendo arte elas têm um cano de escape, o pensamento delas não precisa ser rotulado.

Espetáculo “Romeu e Julieta Para Crianças”, montagem dos alunos do segundo estágio de teatro no Centro Cultural Boqueirão. Foto: Julia Emilly.

O Boqueirão é o quarto bairro mais populoso de Curitiba e o sétimo no ranking com a maior criminalidade. Nós pesquisamos que existem apenas 4 centros de cultura para os 73.000 habitantes do bairro. Qual a relação entre essas estatísticas e o que pode ser feito?

Márcio Se lançarmos esse olhar pra cidade de Curitiba, vamos ver que muitos bairros não têm nenhum centro cultural. Então, o boqueirão está de parabéns por ter quatro! A demanda aqui é maior sim. Se tivessem mais seria ótimo, quanto mais arte melhor. Eu acho que o problema não está em construir centros culturais e sim em entender a cultura como algo fundamental na formação humana. Nós poderiamos ter escolas, igrejas, famílias mais culturais, porque existem muitos produtos culturais sendo produzidos aqui que recebem pouco público. Falta um programa de descentralização da arte em Curitiba, um programa de fato, não só uma ação ou edital. Acho que as ruas da cidadania deviam ser melhor aproveitadas, poderiam ter auditórios melhores e equipados técnicamente, mais oficinas e atividades abertas para o público. Não acho justo uma cidade que tem mais de 7 milhões de arrecadação por ano, segundo o site do g1.[8] Você vai em uma regional, e se tiver um curso de teatro tem que pagar para participar. A prefeitura tem que fazer os centros culturais acontecerem, de maneira responsável, e com mais investimento nas regionais.

Por último, como você imagina o futuro do Centro Cultural Boqueirão para os próximos ano?

Márcio – O Centro Cultural Boqueirão é um projeto de resistência cultural e vai continuar sendo! Totalmente…já era pra ter fechado, se fosse pela administração pública, pelo fato de ter capital de giro, enfim, já tinha fechado. A gente mantém esse espaço entrando na lei de incentivo, aprovamos um projeto, eu pego metade do meu cachê de diretor, o Henrique[9] e o Marlom[10] pegam o deles de produção e, então, a gente doa para o CCB. Nós somos um projeto de resistência comunitária, nós temos bingo, bazares, fazemos o possível para manter o centro. Esse espaço pertence à igreja[11], faz 12 anos que eles cedem para nós sem cobrança de aluguel. Um fato curioso: enquanto esse espaço era da igreja não tinha cobrança de IPTU, quando passou a ser um centro cultura, que atende a comunidade de graça, paga mais de R$4.000,00 por ano.

Então eu digo a vocês, se depender de nós que trabalhamos aqui, o CCB continuará, porque ele mostra resultados que são impagáveis na formação humana! Nós temos uma programação que recebe um público grande, acho que em número chega próximo a 10 mil pessoas por ano.Nossa programação conta com a produção de espetáculos próprios. Temos um festival  que está na sexta edição, que é o EnCena Boqueirão, onde nos reunimos, neste palco as pricipais companhias de teatro do Paraná, em 15/20 dias de uma festa do teatro.

Nós temos oficinas de teatro, dança e música para as crianças. Nós temos o projeto “turismo cultural”[12], que é maravilhoso, nós conseguimos um ônibus para levar as crianças, ai circulamos com este onibus pelos bairros ao redor do Boqueirão para visitar os pontos culturais de outros bairros e assim ter uma troca com o CCB, assim como nós visitamos museus, teatro, exposições e afins nós os convidamos para conhecer o CCB. Com este projeto de circulação pelos bairros acriança que não tinha acesso aos espaços culturais da cidade passam a ter. Nós vamos ao cinema, teatro, museu e criamos um vínculo com a cidade, afinal, é o direito de todo mundo.

Atores e equipe ao final do espetáculo “O Meu Pé de Laranja Lima”, no Centro Cultural Boqueirão. No canto direito da foto, Márcio Roberto. Foto: Chico Noqueira.

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[1]Entrevista feita com intuito de realizar o trabalho final de disciplina História do Teatro Brasileiro, ministrada pela professora Stela Fischer, no curso de Bacharelado em Artes Cênicas, Universidade Estadual do Paraná – UNESPAR/FAP, realizada no ano de 2018.

[2]Teimosinho e Mandão – dois idiotas sentados cada qual em seu barril, é uma obra literária de Ruth Rocha. A montagem teatral tem texto e direção de Edson Bueno e completou dez anos em cartaz no Teatro Guaíra em 2018.

[3]A Arca de Noé, texto de Vinícius de Moraes e espetáculo teatral com texto adaptado e direção de Edson Bueno (2016).

[4]Premiação de peças de teatro realizada pelo Centro Cultural Teatro Guaíra em coprodução com o Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões no Estado do Paraná (SATED/PR).

[5]Ruth Machado Lousada Rocha (São Paulo, 1931) é escritora brasileira de livros infantis. Membro da Academia Paulista de Letras desde 25 de outubro de 2007, ocupando a cadeira 38.

[6]Ziraldo Alves Pinto (Caratinga,1932) é um cartunista, chargista, pintor, dramaturgo, caricaturista, escritor, cronista, desenhista, humorista, colunista e jornalista brasileiro. É o criador de personagens famosos como o Menino Maluquinho, e é um dos mais conhecidos e aclamados escritores infantis do Brasil.

[7]Nelson Falcão Rodrigues (Recife, 1912 / Rio de Janeiro,1980) foi um teatrólogo, jornalista, romancista, folhetista e cronista de costumes e de futebol brasileiro. É tido como o mais influente dramaturgo do Brasil.

[8] Disponível em:https://www.google.com/amp/s/g1.globo.com/google/amp/pr/parana/noticia/em-seis-meses-prefeitura-de-curitiba-arrecada-quase-r-7-milhoes-com-taxa-de-aplicativos-de-transporte.ghtml. Acesso em junho de 2019.

[9] Luiz Henrique é assistente de produção do Centro Cultural Boqueirão, participou de montagens de “Teimosinho e Mandão” como operador de luz.

[10] Marlom Marques é assistente de produção do Centro Cultural Boqueirão.

[11] Esse espaço era para ser um espaço recreativo da igreja, que fica do outro lado da rua mas como nunca era utilizado Marcio fez um acordo com a igreja de utilizá-lo.

[12] Turismo Cultural é um projeto que leva as crianças do CCB (Centro Cultural do Boqueirão) para conhecerem outros espaços culturais.

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