Mulher inconveniente (um texto trilha sonora)

pode ser uma coisa de cada vez ou tudo junto e ao mesmo tempo como nos acostumamos a fazer

Era uma vez uma diva do teatro.
Era uma vez uma musa do teatro.
Era uma vez uma musa do teatro que não gostava de ser chamada de musa do teatro.
Era uma vez uma mulher forte.
Era uma vez uma mulher sólida e determinada.
Era uma vez uma mulher de teatro que fez novelas, e uma mulher de teatro que fez filmes e seriados.
Era uma vez uma mulher de teatro que fez novelas, filmes, seriados e seguiu sendo uma mulher de teatro.
Era uma vez uma mulher de teatro que gostava do cheiro das cortinas do teatro e do calor dos refletores velhos.
Era uma vez uma mulher de teatro que engasgou com um pigarro.
Era uma vez uma mulher de teatro que esqueceu de buscar a filha na escola e esqueceu o texto, o tapa, a peruca, o sapato, o absorvente e a panela no fogão.

Era uma vez uma mulher de teatro aclamada por atrizes e atores de teatro, por diretores, iluminadores e sonoplastas.

Era uma vez uma mulher de teatro aclamada pelo padeiro, pela dona de casa, pelo banqueiro, pela empresária, pelo ciclista em direção ao trabalho, pela dentista, pelo ginecologista, pela estagiária do jornal impresso e pelo desempregado.

Era uma vez uma mulher de teatro casada com um diretor de teatro dono de uma cia. de teatro e de um espaço de teatro com o seu nome, não o dela, mas o do diretor de teatro, que certa vez recebeu uma música de alguém que ele achou que lhe daria uma chupada no banheiro.

Era uma vez uma mulher de teatro que cada vez que entrava em cena ouvia gritos de maravilhoooooooooosa

diiiiiiiivaaaaaaaaa         E

aplausos.

Muitos aplausos.

Aplausos de pé.

 

Aplausos de pé no início de cada peça.
Aplausos de pé no meio de cada cena.
Aplausos de pé no fim de cada espetáculo.

Era uma vez uma mulher de teatro que passou a gritar para dar o texto.
Era uma vez uma mulher de teatro que de tanto gritar ficou rouca.
Era uma vez uma mulher de teatro rouca.
Era uma vez uma mulher de teatro rouca que ainda tinha plateia, que ainda era aclamada pelo padeiro, pela dona de casa, pelo banqueiro, pela empresária, pelo ciclista em direção ao trabalho, pela dentista, pelo ginecologista, pela estagiária do jornal impresso e pelo desempregado.

Era uma vez uma mulher de teatro que pisou num prego que atravessou seu pé.

Era uma vez uma mulher de teatro que desejava parir uma criança, não com o diretor de teatro, mas sozinha mesmo.

Era uma vez uma mulher de teatro que se encheu de Zulmira, Claudinha e Odete e passou a falar sobre Manuela, Ramona e Luz Marina.

Era uma vez uma mulher de teatro que não tinha poupança, que não seguia o calendário comercial e não reservava feriados.

Era uma vez uma mulher de teatro levantando o braço esquerdo com a mão fechada dentro de um prédio do Estado.

Era uma vez uma mulher de teatro que não queria deixar nada por dizer.

Era uma vez uma mulher de teatro indo a manifestações como uma inconveniente mulher de teatro e que sabia que nunca é suficiente.

Era uma vez uma mulher de teatro que decidiu dizer nãos e que entendia que para pesquisar o erro é necessário tempo.

Era uma vez uma mulher de teatro afim de juntar outras mulheres de teatro afins de colocarem as bucetas suculentas para receberem o calor de refletores mais ou menos ajustados.

Era uma vez uma mulher de teatro que no final da carreira decidiu cantar uma canção e não ler um texto de teatro, escrito por um homem de teatro, sobre mulheres que gostavam de apanhar e prostitutas vocacionais que supostamente não se suicidavam.

Este texto foi escrito a partir de três presenças:
Fernanda Montenegro lendo Nelson Rodrigues por ele mesmo na abertura do Festival de Teatro de Curitiba.
Georgette Fadel atuando em Afinações no Ap da 13 durante o Festival de Teatro de Curitiba.
Nena Inoue atuando em Para não morrer no Teatro José Maria Santos dentro da II Curitiba Mostra.

Mujer inconviniente é uma composição de Liliana Felipe , artista argentina exilada no México a partir do final dos anos 70 e de sua parceira, a atriz mexicana Jesusa Rodríguez. 

Talento é uma composição de Linn da Quebrada, bicha, trans, preta e periférica. Nem ator, nem atriz, atroz. Bailarinx, performer e terrorista de gênero. (https://www.linndaquebrada.com)

Mulher máquina é uma música da banda curitibana Horrorosas Desprezíveis da qual fazem parte Amira Massabki (guitarra), Jo Mistinguett (baixo e percussão) e Patrícia Cipriano (vocal e percussão). Como se auto descrevem “ … somos malditas, boca suja. O cão chupando manga. Usamos calcinha beje e tem dias que ela fica manchada de sangue. Não queremos música higienista! Nosso som é de calcinha suja. Foda-se.” https://www.facebook.com/horrorosasdespreziveis/

Algumas das imagens foram criadas a partir de uma troca de mensagens via WhatsApp com Nena Inoue a partir da questão: o que/como é ser uma mulher de teatro?

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Luana Navarro

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Luana Navarro é artista visual com trânsito por diversas linguagens. Tem interesse pela palavra, a leitura em voz alta, a imagem e o corpo como dispositivo e suporte de criação.