No que estamos pensando quando abrimos as bocas ou (In)Definição de lugares ou O que quer dizer uma crítica bocas malditas

Por Francisco Mallmann e Henrique Saidel 

Foto: Lidia Ueta
(No que estamos pensando quando abrimos as bocas foi uma ação-lançamento do site Bocas Malditas, dentro da programação da II Curitiba Mostra, no Festival de Curitiba 2017. Realizada no dia 08 de abril de 2017, 17h, no Teatro José Maria Santos. O texto foi escrito e lido por Francisco Mallmann e Henrique Saidel. Leitura performática + conversa com o público + brinde com espumante e taças de plástico.)

 

Artes cênicas e exercício de mundo. Diálogos e alternativas. Reflexão e prática. Experimentação e formatos. Investigação e lugares de fala. Crítica e tudo isso. Crítica e nada disso. Crítica e outras coisas.

 

Bocas Malditas. Bocas Malditas porque aqui. Bocas Malditas porque plural. Bocas porque falantes. Malditas porque insistentes. Bocas porque interessadas. Malditas porque independentes. Bocas porque abertas. Malditas porque presentes. Bocas porque fome. Malditas porque insaciáveis. Bocas porque sussurro. Malditas porque feitiço. Bocas porque discurso. Malditas porque diálogo. Bocas porque dentes língua. Malditas porque mordida lambida. Bocas porque beijo. Malditas porque Gilda.

 

Uma crítica. Uma crítica amiga. Uma crítica bicha. Uma crítica que conversa no fim. Uma crítica jovem. Uma crítica não tão jovem assim. Uma crítica que fuma. Uma crítica que fuma e traga. Uma crítica bebendo cachaça. Uma crítica bebendo cachaça, cerveja, vinho, gin tônica, café, suco de laranja e o que mais aparecer. Uma crítica que flerta. Uma crítica que dança. Uma crítica que goza. Uma crítica que vai ao banheiro durante. Uma crítica que beija. Uma crítica que perde o começo. Uma crítica com endereço. Uma crítica com passaporte vencido. Uma crítica local. Uma crítica irônica. Uma crítica que provoca e se provoca. Uma crítica com enxaqueca. Uma crítica com ataques de ansiedade e insegurança. Uma crítica maconheira. Uma crítica que caminha distraída olhando para o topo dos prédios. Uma crítica que faz piquenique. Uma crítica que flana. Uma crítica poética. Uma crítica sensível. Uma crítica intuitiva. Uma crítica louca (do tarô, da Turma da Mônica). Uma crítica libriana. Uma crítica sagitariana, com ascendente em leão e lua em áries. Uma crítica maldita. Uma crítica atriz. Uma crítica performer. Uma crítica artista. Uma crítica esquecida. Uma crítica híbrida. Uma crítica artesanal. Uma crítica sem telefone celular. Uma crítica feita no google docs. Uma crítica metalinguística. Uma crítica preta. Uma crítica americanizada. Uma crítica europeizada. Uma crítica latino-americana. Uma crítica universitária. Uma crítica novelística. Uma crítica que dorme cedo. Uma crítica que fica até fechar o bar. Uma crítica feia. Uma crítica que erra. Uma crítica sem lençóis. Uma crítica impaciente. Uma crítica acadêmica. Uma crítica cool. Uma crítica transeunte. Uma crítica feminista. Uma crítica que se abotoa inteira. Uma crítica gentil. Uma crítica com princípios e critérios. Uma crítica de brinquedo, comprada no 1,99. Uma crítica de sexshop. Uma crítica que se deixa tocar. Uma crítica bêbada, de repente. Uma crítica tombada. Uma crítica em casa. Uma crítica dos espaços e dos corações abertos. Uma crítica muito bem feita. Uma crítica épica. Uma crítica dadá. Uma crítica surrealista. Uma crítica abstrata. Uma crítica pós-estruturalista. Uma crítica filosófica. Uma crítica grotesca. Uma crítica polifônica. Uma crítica queer. Uma crítica que veio porque quis. Uma crítica que se quiser sair, que saia. Uma crítica de saia. Uma crítica com respaldo teórico. Uma crítica militante. Uma crítica histórica. Uma crítica demasiado sociológica. Uma crítica formalistíssima. Uma crítica precária. Uma crítica míope. Uma crítica gorda. Uma crítica em Curitiba. Uma crítica amiga de todas essas pessoas. Uma crítica apaixonada por essas pessoas. Uma crítica trans. Uma crítica desequilibrada. Uma crítica que xinga e se xinga. Uma crítica que nem é, exatamente, crítica. Uma crítica de redes sociais. Uma crítica de revistas especializadas. Uma crítica pichação. Uma crítica oral. Uma crítica fenomenal e fenomenológica. Uma crítica carnavalista. Uma crítica antropofágica. Uma crítica erótica. Uma crítica na boate. Uma crítica em um bote. Uma crítica em um avião. Uma crítica e a gente achando que é Uma. Umas críticas.

 

Artes Cênicas. Várias perguntas, algumas crises, e nenhuma certeza. Artes cênicas? Teatro-Dança-Performance-Musical-Circo-Mágica-etc. Visualidades-Sonoridades-Corporalidades-Espacialidades-Temporalidades-Sociabilidades-Politicidades-etc. Esboços propositadamente incompletos, em processo, em devir. Devir-cena. Não há receita de bolo; embora gostemos (e muito) de bolo.

 

Escrever sobre. Escrever sobre é necessitar apoio, repousar os papéis em tábuas de madeira. Empilhar vários livros e escrever sobre eles. Escrever sobre é sentar com as pernas cruzadas e manter seu computador equilibrado no próprio corpo. Escrever sobre tem relação com seu café favorito, com a cama do seu amor, com o chão, do qual nada supostamente passa e também com paredes antigas de prédios abandonados. Escrever sobre interfere no modo como andamos e beijamos e circulamos. Escrever sobre não surge, não aparece, não vem, despretensiosamente. Não é leve, escrever sobre – pode até ser, em algum momento, mas não será sempre. Escrever sobre requer doses desequilibradas de paixão, insistência e desconfiança. E isso significa dizer, talvez, que nunca haverá superfície ideal.

 

Pensar sobre. Pensar sobre é estar permanentemente em trânsito.

 

Convidar. Convidar é dizer “vamos juntxs”.

 

Memória. Criar e editar memórias como se cria e edita uma obra de arte, como se cria e edita a própria vida. Registrar e documentar como quem registra e documenta um abraço, ou um tapa. Ou os dois.

 

Falar. Falar e deixar falar. Falar e desejar que falem. Falar e ouvir. Falar para ouvir. Não falar. Conjugar os verbos e os estados e os contextos em primeira pessoa, do singular, do plural. E em segunda e terceira pessoa. E perceber que não há conjugações nem pessoas suficientes.

 

Resistir. Resistimos porque vivemos, porque somos, porque estamos, porque amamos, desejamos, odiamos, pensamos, questionamos, criamos, assistimos, trabalhamos, convivemos, brigamos, hesitamos, excitamos, transamos, dialogamos, lutamos, erramos, porque somos atacados e enganados, porque mudamos, porque ocupamos. Resistimos porque é necessário, porque é urgente, porque gostamos, e porque não são boas as outras opções. E porque somos prolixos.

 

Produzir na Internet. A produção na Internet, entendida como uma nova mídia, um novo meio de comunicação, faz com que dois pontos sejam colocados em discussão. O primeiro é o potencial de gerar, transportar, sugerir e disseminar a informação, de uma maneira democrática e distante da manipulação dos outros veículos de comunicação de massa, ainda que seja importante a discussão sobre o acesso à Internet; e a segunda ocorre do ponto de vista pessoal, transformando a relação homem x máquina, em uma interatividade quase humana e quase máquina. O ciberespaço suporta tecnologias intelectuais que amplificam, exteriorizam e modificam numerosas funções cognitivas humanas, tais como memória, imaginação, percepção e raciocínios. Conceber e produzir a crítica de artes cênicas na Internet é, portanto, articulá-la democraticamente e alheia e processos hegemônicos de produção e consumo dos escritos sobre arte.

 

Gênero. Textual. Formato, hibridismo, mistura, combinação, mescla, composto, complexo, conjunto, misto, amálgama, fusão, liga, cruzamento de coisas diferentes, hibridação, cruza, caldeamento, miscigenação, hibridização, agrupamento de coisas diferentes, confusão, promiscuidade, mixórdia, miscelânea, baralhada, salsada, misturada, salgalhada.

 

Me foi sugerido nunca estar perto o bastante. É perigoso, disseram, te influenciaria. Me indicaram que não assumisse parcerias, que não me misturasse, que não me confundisse. Falaram sobre distanciamento, imparcialidade, separação. Seria até bom indicar certo tom de indiferença, ser um tanto agressivo. Ao mesmo tempo, seria bom ser neutro. Seria importante não soar próximo ou gentil demais. Seria importante não ser artista, nem de longe lembrar um. Seria necessário revelar as diferenças e os afastamentos – seria muito bom se, além de revelar, eu reiterasse, sempre que pudesse, ou então as criasse, feito ficção. Seria profissional aumentar as desproporções. Seria bom ser profissional. Seria fundamental produzir classificação, categoria, escala, nível, ordem. Tudo isso, me faria ser(/parecer) um crítico. E nada disso me interessa. É outra a via de acesso. É outro o modo de pensarfazer crítica. Eu, agora, estou pensando como diminuir as distâncias entre aquilo que é crítica, dramaturgia e poesia. Estou pensando como produzir em trânsito, em registrar palavras para depois descobrir onde, supostamente, elas poderiam caber.

 

Escrita Especializada, Crítica Especializada. O que é? Como fazer? Onde vivem os que fazem? Do que se alimentam? Como se reproduzem? Como se sustentam?

 

Autonomia talvez signifique: não pedir permissão.

 

Crítica Não É (Necessariamente) Sugestão

 

Crítica Não É (Primordialmente) Indicação

 

Crítica Não Precisa Dar Estrelas Mensurar Genialidades Exaltar Talentos

 

Crítica Não Tem o Poder de Lotar Teatro Sozinha

 

Crítica Não é Aula

 

Crítica Não Está Sempre Certa Porque Não Está Sempre Errada

 

Crítica Não É Selo de Qualidade, Nem Tribunal de Pequenas Causas

 

Crítica Não É Agenda Cultural

 

Crítica Não É Jornalismo Cultural

 

Crítica É Um Olhar Sobre

 

Crítica É Um Registro Transitório de Ideias

 

Crítica É Uma Mobilização de Sensações

 

Crítica É Uma Proposição de Pensamentos

 

Crítica É Uma Reunião de Questões

 

Crítica É Um Registro Provisório de Perguntas sem Respostas

 

Crítica É Uma Tentativa de Continuidade

 

Crítica É Um Exercício de Interlocução

 

Crítica É Uma Fricção

 

Crítica É Um Ensaio, Um Posicionamento Movediço

 

Crítica É Uma Criação

 

Crítica É Uma Réplica em busca de uma Tréplica

 

Crítica É Um Documento, Uma Tentativa de Permanecer Sem Fixar-se

 

Ocupar a Crítica, Ocupar os Espaços, Criar os Espaços e Ocupar os Espaços   

 

Questões:

 

O que é/ O que pode ser Uma Crítica de Artista / Feita Por Umx Artista?

 

O que quer dizer “Escrita Performativa”?

 

Por que escrever Crítica? Por que ler Crítica?

 

Por que Chamar/Nomear Crítica?

 

Um artista pode criticar a si mesmo?

 

Crítica é um Lugar de Poder? Crítica é um lugar de DesPoder?

 

Como embaralhar lugares, saberes, poderes?

 

(Agora, o microfone está aberto para respostas… Ou não.)

 

 

Foto: Lidia Ueta

 

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Henrique Saidel

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Henrique Saidel é diretor de teatro, performer, produtor, curador, pesquisador e colecionador de brinquedos.