Notas e processos de criação

por Vivaldo Vieira Neto

“Não há solução porque não há problema.”

Marcel Duchamp

 

Este texto procura apontar algumas questões referentes ao processo que venho vasculhando há algum tempo referente à concepção e criação em estética. Não é de forma alguma um texto que se pretende ser exato, muito longe disso, são algumas pequenas notas, exemplificações ora fenomenológica, ora empírica. São anotações que vamos deixando pelo caminho, notas que vão se acumulando pelos cantos e que nos fazem pensar nesse processo criativo, de como enxergamos o mundo, nos processos de transformação de problemas de ordem objetiva em questões subjetivas. Para exemplificar certas questões, no presente texto, muitas vezes temos que recorrer há pobreza das metáforas, é inevitável essa fuga para podermos materializar certas ideias e pensamentos. Não vejo outro caminho senão recorrer à estética e nas suas inter-relações política e social.

Criar é se perder. É se permitir ao fracasso e às vezes ao êxito. Para Deleuze o ato de criação não se dá pelo prazer, mas pela necessidade. Necessidade de subjetivação do mundo, de expressão, de materialização de pensamentos em estética. E de onde surge essa necessidade? Talvez pela inquietação e observação, o olhar atento ao que nos circunda, quando certas questões nos parecem insólitas, desconexas, quando o mundo se torna insuportável; criamos. É a tomada de uma consciência, consciência está aprisionada a um corpo, atravessado por um mundo, corpo este moldado por uma sociedade e pela cultura, um corpo que se torna uma película entre minha consciência e o mundo. Corpo nômade que sempre deve ser questionado e por vezes superado, é através dessa inter-relação consciência-corpo-mundo onde a subjetivação se dá, por esses espaços vazios entre a observação e o pensamento, são fagulhas, insights, onde a busca por algo, quase nunca sabemos o que é, se faz necessário.

A produção em arte é um exercício da liberdade, tanto como a liberdade de pensamento como uma postura diante da sociedade, é se permitir a experimentação, principalmente das linguagens. E como construir esse processo criativo dentro dessas linguagens? Pensando nesses processos de criação, de como sair de uma ordem objetiva para uma abstração da ideia cheguei a um processo de criação, não é de forma alguma um método e nem uma regra, mas uma forma de como visualizo, imagino.

A primeira imagem que me ocorreu foi uma ideia de embaçamento; uma forma de deslocar o objeto, de não ter muita certeza do que está sendo visto, certa dúvida com relação ao que está sendo colocado, algo um pouco distante onde os contornos se diluem. Mas essa ideia de embaçamento ainda estava muito ligada apenas à visão, ainda não dava conta de todo o processo. A segunda imagem foi uma ideia de escurecimento; como se noite tomasse conta do mundo, onde o objeto é apenas um vulto, são necessários outros sentidos pra nos localizarmos diante do pensamento, a distância entre o observador e o objeto se constrói de outra forma, é preciso mais cuidado ao se deslocar para não esbarrarmos, a visão é um mero acaso, outros sentidos são necessários, nos perdemos no espaço, tudo se torna inseguro, insólito. Mas ainda não era isso, o processo de criação é ainda mais abrangente; foi quando me venho uma terceira ideia, a ideia de afundamento.

É como se pulássemos de um penhasco em direção ao mar, nos afundássemos nesse meio aquoso, saíssemos de nosso habitat natural. Quando o corpo é envolto por esse líquido, a visão se torna turva, o som é algo distante, a pele experimenta em toda sua extensão o meio onde está inserida, o chão é uma utopia, é preciso se movimentar para sobreviver, o gosto se torna amargo e o ar um privilégio. É preciso voltar à superfície para respirar, o ato criador seria esse limiar entre a sobrevivência e o afundamento, a tomada da consciência por um instante no meio desse caos, em busca de uma ilha mais próxima e o esforço para alcança-la, como as linguagens é preciso conhecê-las, explora-las, chegar até suas bordas para que seja possível visualizar outras ilhas/linguagens e se jogar ao mar novamente, fazer a travessia, num processo constante de luta, resistência. Segundo Malraux; a arte é a única coisa que resiste à morte. Trazendo essas ideias para o campo da estética; seria como se tirássemos o objeto de seu contexto original, um exercício de deslocamento, como se trouxéssemos a superfície novos significados e leituras possíveis, o título dado como uma forma de dúvida com relação ao que está sendo exposto, um constante questionamento, uma mão dupla, algo que vem e vai incessantemente criando um atrito entre o objeto e o público, é desses atritos que o pensamento se desloca para outras formas de como vemos as coisas. É nesse processo constante de conhecimento e exploração que tomamos o arquipélago, é estarmos isolados nessas ilhas, mas almejando o continente.

Independência ou sorte _ 2017

Pintura sobre tela sobre prédio em fase de restruturação_ Alfaiataria

A fabulosa rádio Tramontina_2017

Trabalho em parceria com Elenize Dezgeniski _ Alfaiataria

Adestramento _ 2014

 

Irmãos Siameses _ 2015

 

Campanha eleitoral _ 2016

Registro: Tuca Kawai

 

Fase de crescimento _ 2015

Check up _ 2003

 

Apropriação indébita _ 2014

Este vídeo é o registro de uma performance, a partir da apropriação da ideia do vídeo “Eat” de Andy Warhol. Sendo que está lata de sopa Campbell’s fora furtada por mim na Rede de Supermercados Mercadorama, por isto o título: Apropriação Indébita. O vídeo é o resultado final desse conjunto operacional: apropriação/furto + preformance + vídeo. Gostaria de aproveitar este espaço para agradecer, desde já, a Rede de Supermercados Mercadorama por este “patrocínio” e pelo “apoio as artes”.

Aulas de inglês _ 2015

 

Cinema de utilidade pública _ 2015

Site specific _ SESI Arte Contemporânea

Série: Queima de estoque _ 2017

 

 

Fila de espera _ 2016

 

Terapia de casal _ 2017

Sites:

https://vivaldovieiraneto.wordpress.com/

https://spamdirecionado.wordpress.com/

https://radiotramontina.wordpress.com/

Vivaldo Vieira Neto

Formado em escultura pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Com interesse no estudo das linguagens,  nas suas inter-relações e hibridismos.  Sua pesquisa atual “O corpo mediado por coisas e outras meios” busca investigar o lugar da performance e nas suas relações com o meio e espaço através de fotografias, instalações,  vídeos e ações performativas.

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