Novas histórias, novos problemas

Por Thalita Sejanes

27 de setembro de 2017

QUEM CRIA O PADRÃO? POR QUE NÃO TEM PAQUITA PRETA?

Estamos atravessando um momento muito sério, que exige a nossa ação.

Para você que está pensando que o mundo está virado, não entende essa questão das minorias, reivindicação dxs negrxs, da comunidade LGBTTTT. Eu tenho uma coisa a dizer: esse sempre foi o mundo. A questão é qualquer coisa que saiu do padrão vigente foi silenciada da História, a internet e as redes sociais que uso para fazer este relato tem muito a ver com a impossibilidade do silenciamento continuar.

A professora doutora Megg Rayara Gomes de Oliveira, a primeira travesti negra a conquistar um título de doutora na UFPR (aqui uma longa salva de palmas como aconteceu ontem quando citado este fato) nos deu uma aula baseada na sua pesquisa de uma consistência fantástica sobre representação e presença de corpo trans na história, sobre o apagamento. Com humor e com amor a Megg se distancia completamente do esteriótipo da academia, da arrogância e chatice que é o comum, pelo contrário, sua explanação é divertida, envolve e tem muito conteúdo para ensinar. É a pesquisa que começa no corpo.

Michelle Sá, Simone Magalhães e Cacau de Sá trouxeram o corpo da artista negra, o corpo que transformou toda a agressão, a injustiça, todo silenciamento, em vontade, em potência. Teve poesia, teve uma fala que vem do corpo. Teve arte na sua mais linda possibilidade, a da emancipação do olhar, do sentir, do pensar. Arte que nasce da necessidade de se manter viva!

Todas falaram em educação, pois é, para quem a educação e a arte foram instrumento de emancipação, de mudança de lugar social, promover isso para outrxs é uma premissa básica! Isso é o único caminho que enxergo de possibilidade para a gente sair do lugar terrível que estamos politicamente!

Quando você descobre que não precisa atender o padrão vigente, você se emancipa. Quando você descobre que o que é diferente de você, não é ruim, não te anula, apenas existe, você se emancipa. Quando você garante que o diferente de você exista com dignidade, você se emancipa!

Tem espaço para todxxxs, o mundo é muito grande e precisamos cuidar dele e de nós, viver bem!
 Eu digo hoje com mais certeza que ontem: lute como uma mulher! Por que diferente daquela votação tenebrosa na Câmara dos Deputados do dia 17/04/2016 onde se consolidou a interrupção da democracia que estamos vivendo e sentindo a cada dia. Diferente daquelas pessoas que falavam voto sim pela minha família, pelo meu Deus, por mim. Diferente disso, essas mulheres não pensam para si, para seus amigos, mas sim para todas, para todos!

Luxo é enxergar a outra! o outro!

foto Elenize Dezgeniski

28/09/2017

NOVAS HISTÓRIAS, NOVOS PROBLEMAS
Da censura, da diferença

O texto que eu publiquei ontem me gerou muitos ecos, e este daqui é o seu outro lado. Eu fiz um relato e eu não me citei, eu estava tão emocionada com a presença das outras em mim, com a radicalidade que seu corpos carregam que eu não queria falar da minha participação.

O que a gente faz no facebook é publicidade, seja do nosso trabalho, eventos e etc… da nossa ideia, de causas, do nosso estado de espírito, da nossa vida TOP, do nosso corpo TOP, das coisas interessantes (a palavra publicidade aqui não tem o cunho pejorativo), mas sim de publicizar, tornar público. Eu queria publicizar a alegria daquele encontro, eu queria multiplicar as longas palmas ao Doutorado da Megg por que ele me emociona. Ele é nosso quando nos lembra que estamos caminhando, ainda que a passos de tartaruga, para um mundo que caibam todxxxs, um mundo sem exclusão!

O meu relato tinha o olhar do narrador, e cadê eu ali? está eu na última assinatura “A dureza e a delicadeza extrema de ser mulher!”. Isso eu tenho certeza que sou! Que posso falar.

Existe eu também no modo como escrevi o relato, o modo como usei as palavras foi para chegar nas pessoas do meu lugar social, do bairro em São Paulo, lá, até os 17 anos tinha para mim só a indústria cultural, ai eu pude fazer um Curso, fui para a Arte, e estou aqui em Curitiba, hoje eu moro no centro, eu migrei de lugar social, não venho de uma família de graduados. Existe a excessão de uma mulher que fez direito por um advogado não dar atenção a ela por seu lugar social.

Quando eu digo que você que não tá entendendo as reivindicações de qualquer minoria, eu falo com as pessoas do meu lugar social, não que não exista todo tipo de preconceito nos outros lugares sociais, mas no meu lugar social eu consigo perceber que eu tive que criar um corpo, amadurecer para poder, hoje, responder no ato, e tento ser do modo mais didática possível, entendo completamente a agressividade, dada a radicalidade das inúmeras agressões que todas as exclusões produziram em nós. Na minha frente eu vou responder sobre qualquer preconceito de qualquer minoria. Me ofende completamente!

Eu tento ser o mais didática possível porque assim como minhas colegas do encontro, eu penso em educação, eu sou artista-educadora, se tem alguma coisa que o Golpe me deu, foi me dar ciência disso com força. Isso não é regra, aliás, nada nesse texto é regra, é só um olhar singular, uma proposta de conversa.

Eu tenho repetidas vezes, tido a confirmação no meu corpo que uma grande parcela das pessoas está falando coisas que não correspondem ao seu coração, elas foram ensinadas a pensar assim. O registro de mundo mudou, as possibilidades de comunicação possibilitam uma visibilidade para o que sempre esteve ali, silenciado e apagado. Este registro novo deixa as pessoas com medo e a situação toda abre espaços para os oportunistas (como o MBL), e principalmente, esse novo registro, exige uma capacidade de leitura.

Os racistas, fascistas, homofóbicos e todxs que tem tanto problema com toda diferença, aprenderam a pensar assim. Nossa escola, nossa formação branca e eurocêntrica privou todxs de aprender a ler a diferença. Fomos todxs educadxs a negar a diferença – à força como resultado de uma educação normalizadora, tecnicista. Não aprendemos a nos transformar com o que vem de fora, o que difere da gente, perdemos todas e todos essa oportunidade de ter um olhar diverso, para a outra, a outro, e também para um olhar mais inventivo, mais criativo, menos normalizador e culpabilizador para a gente mesmo.

Aí eu vejo a gente que ama a liberdade de ser, a diferença nesse sentido, ama a Arte e a educação, tem pela frente a tarefa de alfabetizar pessoas a uma nova maneira de ler o mundo, nova para elas, e eu sei que tem que ter alguma didática (no sentido de recurso criativo, não de modelo) para ensinar alguém a ler. A internet e as redes contribuíram para a transparência destes e de outros tantos temas. E não existe nenhuma possibilidade de retorno. Isso mudou o registro do mundo e vamos ter que nos entender, nos educar.

Desta perspectiva respeito muito a palavra empoderamento, o que ela representa inclusive para mim, mas eu ando preferindo a palavra emancipação porque no empoderamento a palavra poder se mantém, e eu quero desinvestir de todo poder.

A força, o respeito e a suavidade que permeou as falas naquele encontro incrível (quem foi sabe o que eu tô falando), me permitiram fazer essa reflexão e me permitiram resolver uma questão que andava me angustiando.

Não aconteceu nesse convite, mas com esta escrita de uma nova história que contemple o que foi apagado, está se tornando uma constante a pergunta se me considero uma artista negra e de saída já vejo que se a pessoa me perguntou é por que enxerga algo negro em mim, isso me orgulha muito. Por isso me assusta negar.

Eu sou quase a única da minha cor na minha família, e sou a única com meu cabelo. Criança, tenho a memória de ouvir quando derrubei o suco, “- tinha que ser a preta!”. Se eu lembro disso das tantas vezes que ouvi, isso me marcou! E ali me desenvolveu uma fala interna Sou mesmo! Já me perguntaram se eu era baba, empregada doméstica. Mas isso não me feriu, o que me distancia mesmo de uma babá é um status social que as profissões ligadas a intelectualidade tem em relação a outros tipos de trabalho. Do estudo que eu consegui com muito suor e ajuda de muitxs, mas todas as funções são importantes, eu respeito e não tenho problema nenhum em ser confundida com qualquer profissão. Geralmente quem confunde é que fica constrangidx porque visualiza algum demérito e uma vergonha. Eu não!

Com o corpo da fala minhas colegas eu pude perceber, que o tom da minha pele me deixa num lugar muito protegido, por que sim eu tenho alguma herança, mas ouvindo eu vi que eu não passei na minha pele por agressões mais profundas. Eu nunca participei de cotas por essa educação branca que tive, defendo completamente as cotas como educadora!

Tirei uma foto para um projeto sobre a presença negra em Curitiba de uma artista negra e conversamos sobre colorismo, fiquei sabendo que muita gente questionou a minha presença no projeto, existe o colorismo, existe somar na luta.

Mas estar na mesa ao lado dessas mulheres e pensar que eu deveria ser breve na minha fala para ouvir as colegas, não por obrigação de dar o lugar de fala, por que a obrigação é da educação na base da força. Eu não sou dessa linha. Mas ser breve e dar o espaço de fala para as minhas colegas artistas negras por que eu mereço ouvi-las, quanta sabedoria a resistência delas tem a ensinar. No contexto urbano, elas são as que sofrem mais, precisamos e merecemos ouvi-las muito!

Se eu sou uma artista negra?
 Não infelizmente eu não posso afirmar que engrosso o caldo poderoso de Elza Soares, Clementina de jesus, Nina Simone, Carolina de Jesus, Simone Magalhães, Michelle Sá, Cacau de Sá e tantas outras.

Acesso essa história na transversalidade com a minha cor e meu cabelo que eu levei mais de 20 anos para soltar deixar crescer e ser! Não alisar para mim é político, mas não é uma regra, nada pode ser regra quando a gente busca um mundo que caiba a diferença, que tenha espaço para todas e todos e todxxxs serem o que desejarem.

Nesse sentido eu não posso falar como artista negra. Dentro dessa nova necessidade de leitura de mundo, eu sou uma questão, um problema gerado por essa necessidade de uma nova história, ou melhor, novas histórias e todas as vezes que alguém me convidar a uma participação eu posso somar com esta questão.

Adoro a palavra diferença, mas é necessário salientar que só existe o/a/x diferente de você, de teu umbigo e do que tu sentiu na pele, a partir de ouvir as minhas colegas eu vi que é um corpo, uma pele que eu não tenho. E de uma beleza e respeito quis escrever o relato que escrevi para que aquela conversa ecoasse.

O convite do ruído não me perguntou se eu me considerava ser uma artista negra, mas me permitiu responder/dinamizar essa questão que tava precisando, que me angustiava, pelo respeito que eu carrego por esta questão. Apenas respeito não basta, estamos atravessando a revisão completa da linguagem, das piadas, de como falar de qualquer outrx que não seja a gente, que não reafirme a gente. De qualquer pele que não seja a nossa.

O respeito a diferença não pode ser seletivo. E eu tenho notado que mesmo nós (as) (xxs) (os) progressistas muitas vezes invibilizamos moradorxs de rua com incomodada indiferença, mas tenho tido a certeza de que enquanto nós não garantirmos juntxs que todas as pessoas tenham um teto, enquanto isso não acontecer, quando estou na rua, estou na casa da população de rua e devo respeito.

A nossa conversa suave, que eu somei porque penso muito no tema MULHER, ARTE, MARGEM, teve a minha fala de artista mulher, educadora que acredita numa nova educação, da vontade de levar a emancipação que poder estudar Arte me deu para outrxs pessoas. Das angústias destes acontecimentos que temos assistidido a cada dia.

A partir das questões levantadas com os episódios de censura que vem acontecendo, o encerramento de uma exposição por homofobia, ainda que isso não seja o assunto do meu trabalho de Arte, até hoje, é importante dizer que meu corpo estava no encontro e percebe a diferença como mulher lésbica, mulher sapatão (é importante que os termos sejam falados e positivados como aqui). Quando eu pude me aceitar plenamente, meu lugar no mundo mudou, ele não recebe meu amor tão facilmente. Isso é radical, não eu. Mas ainda é muito menos radical comigo pela minha cor, pelo estudo que pude ter que me desenha um lugar social de privilégio, por como isso fica camuflado pela minha identificação com o gênero feminino.

Eu existo! Eu traballho e muito! E não só para mim!

Dada a radicalidade de todo o empreendimento para acabar com a possibilidade de diversidade sexual, nos colocarmos é essencial, é educativo. Para que a respeitabilidade que eu conquistei com meu estudo, meu trabalho, seja vinculada a ser uma mulher gay em contraposição a todos os preconceitos que o silenciamento produziu. Eu tenho o direito de poder falar do meu lugar de olhar, aprender o que a vida me ensinou sendo assim.

Faço isso principalmente como alguém que quer construir um mundo melhor para todas e todos, por que viver a diferença no corpo, sentir na pele a política do segredo, o medo imposto pela regra, atravessar essa fronteira e resistir é o pleno exercício constante da emancipação. Da recriação de si.

Toda margem, ou melhor, todas as margens dos inúmeros padrões que o sistema capitalista nos impõe tem para nos ensinar a perceber que outras sensibilidades existem, que existe uma urgência além da nossa, e isso quebra a lógica normalizadora que opera e adoece sobre todas, todos e todxxxs nós.

Me identifiquei boa parte da vida como heterossexual e fui feliz, isso me dá um olhar transversal também, mas eu sei que foi criança já que eu me percebi e que eu me regulei. Isso é radical! Não eu. Eu aprendi a me silenciar. Eu levei muito tempo.

Com todo meu amor às crianças, que adoro trabalhar e que elas me adoram, que tenho um olhar de cuidado sempre que estou perto e amo estar, que me abaixo para conversar sempre que estou atenta e me interesso de verdade pelo universo.

A partir da Arte, do desenho eu e as crianças temos muitos interesses em comum. Sei que as crianças que não precisam ser protegidas de mim jamais. Elas também são algum tipo de margem num mundo feito para adultos, onde a energia delas, a inventividade delas é tolhida constantemente. Eu não, eu enxergo e escuto as crianças no mesmo exercício de lidar com a diferença escrito acima, eu crio maneiras para que elas lidem com a própria criatividade, elas desenvolvam sua autonomia.

O debate da classificação indicativa é de fundamental importância, o debate qualificado, não baseado na pureza (a mesma que foi base conceitual para o nazismo), mas sim um debate amplo e necessário.

As crianças não precisam ser protegidas nem de mim, nem do mundo que é diverso, as crianças precisam ser protegidas do consumismo, do fanatismo, da ansiedade capitalista, dos pedófilos, toda essa gente que também precisamos olhar com mais sensibilidade e solução, que nada tem a ver com a minha comunidade gay, que é emancipada e potente como qualquer pessoa que consegue se aceitar plenamente. A gente tem isso para ensinar, não há nenhuma possibilidade de doutrinação de nínguem, eu promovo a liberdade de ser, a convivência da diferença.

Não há o que Temer, é apenas uma nova sensibilidade de leitura e de linguagem. É importante a gente falar disso e já está se falando até na novela, é só aprofundar mais um pouquinho!

Os moralistas geram as doenças da sexualidade, eles são a polícia da sexualidade, a gente não! A gente cria, produz conhecimento ser LGBTT não é uma escolha, a gente tem sempre que lembrar! Não se influencia, não é doença, quanto mais contagiosa.

Os problemas que o moralismo trouxe a sexualidade, de todas e todos que não conseguiram se emancipar e perceber a diversidade como eu faço aqui, adoeceram seus corações e suas sexualidades e se perdem completamente, investem na regulação. Eu acredito que no dia que pudermos ser quem a gente é sem vergonha de nada, das maiores às menores, das que a gente guarda no fundo do baú conviver por aqui será muito melhor. Um dia que a gente não exercer mais poder sobre a diferença e não se regular a si mesmo.

Dada a radicalidade da nossa situação não vejo como me esquivar! Eu não penso só em mim, isso não basta!

A gente tem que frear essa onda que nos faz pensar mal, nos tornou consumidor em tudo, tenho certeza que é isso que a educação deve combater. Viramos consumidores no amor, no aprender, no trabalhar, em tudo a gente quer ter vantagem, ter mais para nós, a gente tem que frear o trem louco do capitalismo e lembrar de ser humanxxx. Isso é importante a gente se ocupar.

A gente não pode estar na pele de outra pessoa, mas a gente pode tocar a pele de outra pessoa, se emocionar e aprender com a outra pessoa. Se encontrar com a outra pessoa na diferença.

No dia que aprendermos a conviver com a plena diferença, o luxo que é não ser escravo dos padrões, saber que o diferente não te anula, mas existe, apenas, o luxo que é garantir que o diferente de nós exista com dignidade, você se emancipa!

O relato do que eu participo como artista aqui em Curitiba é uma boa forma de eu não deixar de conversar com aqueles que estão na minha rede que estão fora do universo da Arte, estamos em um momento seríssimo de reaprender coisas, eu cheguei na conversa pensando em falar algo sobre a homofobia fechar uma exposição de Arte e eu cheguei lá e fiquei com vontade de falar o essencial e ouvir as mulheres enormes que estavam na conversa, de uma forma, de uma presença, alegria e malemolência incríveis, a minha fala veio para cá.

Para mim é uma fala sobre educação de uma nova sensibilidade que todas, todos e todxyz. O padrão estabiliza o consumo, apenas isso.

Zona Ruidosa: ARTE, MULHER, MARGEM Quais discursos? Quais espaços?, dia 26/09/2017 no Festival Internacional Ruído Encena. Este texto tem ecos de Suely Rolnik, Félix Guattari e Gilles Deleuze, Nina Simone, Paul Preciado, Fernand Deligny, e encontros com pessoas singulares, cada um de um jeito, sem padrão.

 

Thalita Sejanes é licenciada em Artes Visuais pela Faculdade de Artes do Paraná em 2009. Desenvolve sua pesquisa multilinguagem desde 2008, onde o desenho é recorrente ponto de tensão. Entre as principais exposições destaca-se Tupi or not tupi no Museu Oscar Niemeyer (Curitiba, 2014) e Véspera (Curitiba, 2012) resultado do Edital Bolsa Produção para Artes Visuais V, concedido pela Fundação Cultural de Curitiba. Vive e trabalha em Curitiba.

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