O Maravilhoso Cabaré nos diz: é hora de draguear !

 

Juana Profunda e Dalvinha Brandão Foto: Day Luiza

Misturando a arte do transformismo com muito humor, números musicais e críticas ácidas O maravilhoso cabaré, idealizado e comandado pelas drags Juana Profunda e Dalvinha Brandão já é um marco na vida artística e cultural da cidade, um evento frenesi mais que necessário para essa fria e claustrofóbica republiqueta. Eu diria até que o cabaré é mesmo um antídoto contra a desolação e o mau humor. Rir de nossos algozes é mesmo poderoso!

A última edição realizada no Espaço Fantástico das Artes, sob o tema família tradicional brasileira reuniu além das idealizadoras, as drags Rita Lina, Jeruza Miller (uma exímia pianista!), Tinna Simpson, Déborah Black, Carmen Von Blue, Lourdes, a artista burlesca Miss G e uma entrevista marcante com Rafaelly Wiest, atual diretora de Gestão da Informação do Grupo Dignidade, ex-presidenta do Transgrupo Marcela Prado e dentre muitas outras atuações importantes, a primeira mulher transexual a compor o Conselho Estadual dos Direitos da Mulher no Paraná.

No centro da imagem Rafaelly Wiest. Foto: Day Luiza

Numa noite regada a dublagens, paródias musicais, dentre elas Garota do Batel de Rita Lina e Jeruza Miller, uma versão elite-curitibana-calçada de mármore em referência a Garota de Ipanema, falas irônicas a partir dos pronunciamentos mais conservadores vistos e ouvidos nesse BrasilZão de meu Deus, a leitura do manifesto Hablo por mi diferencia emergiu como uma tamancada, evocando uma postura mesmo revolucionária do que pode ser uma bicha latino-americana num continente saqueado e sob um autoritarismo violento. Juana Profunda, com ascendência chilena assim como Pedro Lemebel*, autor do manifesto, evoca um discurso que nos lembra de uma resistência localizada em nossos corpos e em nossas existências que têm cicatrizes de risadas nas costas**, e que vai além de um partido político ou de uma denominação ideológica.

Seria redutor dizer que O maravilhoso cabaré é apenas um encontro com a cena drag queen que acontece na cidade de Curitiba, para além do cabaré em si, há uma série de ações sendo articuladas e nutridas intensamente e que têm feito a diferença no contexto local e promovido uma efetiva popularização e disseminação da arte do transformismo de maneira mais ampla.

Vale lembrar que há mais de dez anos Dalvinha Brandão se dedica a cultura drag e é considera por muitas na cidade como uma grande mãezona. Antes do boom estimulado principalmente pelo RuPaul´s Drag Race Dalvinha promovia festas como a OVER, a Crossdresserdiscodiva, o Natal Infernal e a oficina Entravecando com Dalvinha Brandão que já rodou várias cidades do país.

É fato também que Juana Profunda, em parceria com a Dalvinha e o Selo Ruído CWB, tem sido uma das artistas-produtoras mais ativas e incansáveis da cena LGBTQI em Curitiba. Envolvida em muitas outras produções para citar apenas algumas relacionadas mais diretamente ao cabaré: Combo Drag Week, semana de oficinas para Drag Queens e Drag Kings, Bloco Brasilidades, Marcha das 1000 drags, PsicoDrags espetáculo apresentado no Festival Psicodália em 2018. Tudo isso articulando uma série de pessoas que colaboram e trabalham de maneira direta e indireta na realização de todos esses eventos: Rubia Romani, Leo Fressato, Carol Winter, Brigitte Beaulieu, Cindy Napoli…

O cabaré promove assim a possibilidade de nos relacionarmos diretamente com as pessoas que fazem e constroem a história de luta do movimento e da comunidade LGBTQI na cidade, nestes tempos em que nossas subjetividades são constantemente atacadas por esferas do poder que em realidade teriam por dever garantir nosso bem-estar, movimentos como os que esta cena artística-cultural promovem são momentos de amparo e de fortalecimento de nossas existências. Nos fortalecemos como comunidade e olhamos para nossa própria história. Sim, temos uma história! Temos muitas histórias! A exemplo disso, destaco a importância de ser testemunha da entrevista com Rafaelly Wiest, realizada na última edição do cabaré, e que vem à tona para mostrar a nós LGBTQI a urgência em nos documentarmos, em narrarmos publicamente nossas trajetórias que envolvem também a história da cidade e de como sobrevivemos até aqui e sobreviveremos.

Viva Juana Produnda!

Viva Dalvinha Brandão!

Viva Rafaelly Wiest!

Viva cada corpo sobrevivente que atravessou e atravessa o palco neste cabaré ! Se há quem fale em guerrear, nós falamos e falaremos em draguear. Draguear é também guerrear, então, bora draguear !

Rita Lina e Jeruza Miller. Foto: Day Luiza
Lourdes e Dalvinha Brandão. Foto: Day Luiza
Lourdes e Miss G. Foto Day Luiza
Elenco da última edição. Foto: Day Luiza

* Pedro Lemebel (1952-2015) foi um importante escritor chileno, artista da performance, cronista e romancista. Em1987, junto ao artista Francisco Casas criou Las Yeguas del Apocalipsis.
** Manifesto Hablo por mi diferencia de Pedro Lemebel. Disponível em  http://lemebel.blogspot.com/2005/11/manifiesto-hablo-por-mi-diferencia.html

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Luana Navarro

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Luana Navarro é artista visual, formada em Jornalismo pela PUC-PR e com mestrado em Processos Artísticos Contemporâneos pela UDESC.