O Show do Apocalipse não é mais uma novidade para mim

Por Leonarda Glück
Fotos de Elenize Dezgeniski

Essa coisa de falar de processo não pode começar sem antes tentarmos “definir” juntos o que é processo, ou, nesse caso bem específico, o que é para mim um processo de criação artística. É raro eu escrever sobre isso mas vamos lá: para mim um processo é sempre a vazão de uma história que eu já não consigo mais conter, nem sempre com começo ou fim, já iniciada e em andamento, que desemboca em um texto, ou em cima de um palco, ou na rua, ou em produção imagética, impressa ou videográfica, ou demais localidades, físicas ou virtuais, onde ela possa ser apreciada por outrem. É um troço íntimo e ao mesmo tempo público, aberto, dividido, mas que muitas vezes é sozinha que me recolho com ele e que o levo para o meu travesseiro. Como eu gosto muito da palavra escrita, geralmente é por ela que inicio a maior parte dos meus processos, e isso se dá geralmente lendo, relendo e até mesmo escrevendo, mas nem sempre. Os insights surgem nos momentos mais inusitados, sem ordem ou organização qualquer, no meio do café da tarde, vagando pelas ruas, no banho, andando de bicicleta ou entrando no tribunal eleitoral. Para mim palavra e corpo, embora pertencentes a esferas relativamente distintas de expressão, são a mesmíssima coisa. Sempre considero um coração demasiado enganador aquele que tenta separá-los. Porque quando eu leio algo que me toca, é no corpo que se dá a reação, imediata, irrecorrível. O corpo não consegue escapar a uma reação assim tão sensorial como é para mim a palavra. Essa palavra para mim tão intramuscular, a um só tempo rapsódica e anárquica, erótica e mortífera, é meu campo maior de batalha semântica. Esse corpo para mim tão díspar, que dança sexo, desespero e guerra, é atração e repulsa em sua máxima potência em todo o meu exercício de escrita. É munida de ambos que eu caminho, é mergulhada até o último fio de cabelo nesse papinho de linguagem e de organismo vivo que eu sigo em frente. Às vezes a palavra é o movimento no vídeo também, e o corpo performance tangível. Em outras o corpo é música e a palavra imagem plasmada. Pois bem, foi o que me aconteceu com o Copi, esse dramaturgo argentino tão tomado de dialética e luta linguística, que me atraiu com esse texto que eu vi encenado pela primeira vez há dez anos atrás, em Curitiba, a primeira vez que o autor foi apresentado no Brasil. Ali eu pensei: “quero fazer esse texto!” e saindo dali eu fui atrás de tudo que dissesse respeito ao cara e sua obra. Comprei seu livro, descobri que era uma bichona louca maravilhosa, que desenhava além de escrever, que tinha dado um pé na América Latina e ido morar em Paris, e que por isso sua obra havia se tornado mais e mais intrincada. E que havia morrido de aids. Loretta Strong comeu o meu cérebro desde os primeiros instantes: quem diabos era essa mulher perdida no espaço tentando estabelecer diálogos insólitos com buracos negros existenciais enquanto era estuprada por ratos preocupados com a continuação de uma espécie tão malandra e torta? E como não fui eu mesma que escrevi isso?!! Fiquei fascinada e, após alguns anos falando sobre o assunto, ele voltou à tona. Foi em uma das reuniões na Casa Selvática que eu soltei que tinha interesse em montar esse texto, do jeito que fosse, com as condições que fossem, e que quem quisesse entrar comigo nessa estava convidado. Era, me parece claro agora, também uma maneira de homenagear a atriz Claudete Pereira Jorge, que todos amávamos muito e que faleceu há um ano atrás, nos deixando órfãos da magnífica voz que dez anos antes batizara de luz e cena o texto do autor no país. Uma vez mais era meu assunto predileto sendo levado à cena: uma mulher presa, oprimida, possivelmente manipulada, obrigada a fazer coisas que não deseja verdadeiramente, arrastada num redemoinho insano de visões de mundo que os outros se lhe interpõem. É a desgraça de cada dia da mulher, brasileira, latino-americana e universal, espetacularizada em sua própria existência sufocada no seio de uma sociedade doentia e sádica, mais interessada em explorá-la comercialmente do que em sua libertação. O que era para ser um monólogo, ou solo — como os artistas da dança preferem chamar — logo é interrompido por uma ideia que se abateu sobre mim quando eu voltava para casa um dia, altas horas da noite, dentro de um uber. O dia lotado de compromissos, fotos tanto para a próxima semana como para o próximo mês, tudo bem, vamos lá, decore as duas páginas e meia do texto que foi você mesma quem editou, tem também aquele teste para o filme daquele cara que está atrás de atrizes trans, o livro esgotou em alguns lugares mas as pessoas não param de pedir por ele, você não teria um aí para vender, por acaso? Escreva o release, veja se o maiô te serve, alguém te ligou para você se manifestar na tevê sobre artistas LGBTQIA atuais — militante compulsória em que o mundo te transformou — engula qualquer coisinha e lembre-se que, além de não ser preciso esperar o carnaval para ser vadia, o sexo está na cabeça e não necessariamente nos genitais, especifique as necessidades técnicas, para mim uma peruca só não adianta, tem que ser umas quatro logo duma vez, formando um bolo em cima da cabeça, os cabos dos teus três microfones vão precisar de mais de vinte metros cada um, como sempre, que horas teu voo sai, tem mensagem nova de jornalista (ou estudante de jornalismo, não sei o que é pior) nas tuas redes sociais a cada meia hora, todos querem uma entrevista contigo, que medo se a aeronave não conseguir frear na pistinha minúscula de Congonhas, tem mais duas mesas nos próximos meses, uma mais acadêmica e outra mais informal (que bom não precisar citar Foucault e Butler ao menos uma vez), uma amiga me disse que é possível que o mundo se acabe em print, parte da comunidade transexual já te enxerga como figura pública, querem saber a tua opinião sobre a Rússia, como não me tornar uma burocrata e ainda manter intumescido e úmido de vida meu grandioso grelo de arte? E aí, conseguiu decorar o texto?? Se tudo se acabar em print mesmo, será que no apocalipse irão passar as nossas mensagens inbox num telão? Na minha mente ligeira passam as imagens de todos os meus nudes sendo projetados, é a antecipação do inferno. Ah, agora tem essa entrada espetaculosa com a música da Nina Hagen, o clima vai ser bem drag boateira dos anos noventa, você vai ter um corpo de baile dançando com você e você tem que aprender a dublar em alemão. Tudo bem, você tira de letra, né? Claro que eu tiro, digo eu, nada mais fácil que o alemão, como sempre me fazendo de valentona. Não posso reclamar. E se tivesse também, no meio disso tudo, uma equipe jornalística de vídeo para entrevistar a Loretta depois que ela falar todas as loucuradas surrealistas dela? A cara do diretor é de dó, de novo a Léo com essas ideias, olhem o brilho insano nos olhos dela. Será que ela comeu? Talvez seja fome. Mas aí já não vai mais ser um monólogo, Léo. E qual o problema? No próprio texto do Copi as vozes são tantas que é possível que aquilo seja mais uma polifonia esquizofrênica do que um monólogo propriamente dito. E isso também está ótimo para você se você já fez a Valsa Nº6, do Nelson Rodrigues, não é mesmo? Na valsa ela também era esquizofrênica e nem viva estava. Nota mental: escrever o texto para a repórter da TV Rato falar, a televisão fictícia que irá entrevistar Loretta Strong, a única sobrevivente humana do apocalipse. É uma crítica à mídia? Vocês estão falando da espetacularização do fim? Sim, nós estamos transmitindo o Show do Apocalipse ao vivo e nele estaremos vestindo os nossos melhores estilistas. A verdade mesmo é que eu fiquei sozinha com os ratos: essa metáfora textual se aplica tão perfeitamente aos dias do Brasil de hoje que até me pergunto se Copi não era um pouco profeta. Se eu fosse a única mulher a sobreviver ao apocalipse e avistasse o Eduardo Cunha ao longe, sobrevivente também, como o belo exemplar de rato que ele é, será que eu teria coragem de deixá-lo me fecundar?!? É claro que seria uma completa nojeira, é claro que seria uma dramaturgia imunda. Então é claro também que algumas pessoas nesse mundo tenham interesse em pesquisar e criar sobre dramaturgias imundas e de transgressão, como é o caso do Copi e como é o meu próprio caso, pois cada vez mais eu sinto que estou escrevendo, versando e performando sobre a nojeira. A Hilda Hilst, de quem eu sou fã, em muitos de seus escritos, se referia a Deus como “O Grande Cara de Nojo” e eu acho isso muito significativo. Talvez toda a chamada Criação Divina, da qual nós todos somos parte (eu, você, o Copi e a Loretta), se refira mesmo ao nojo e à porcariada — a imundície como verdade lixosa — como um grande intestino explodido e espalhado. Quem iria duvidar? Resulta que, como o texto do Copi não foi utilizado na íntegra e também como nós enxertamos (eu sou a rainha do enxerto) outras coisas no contexto da Loretta, intitulamos a cena de “Betelgeuse”, que é o nome da estrela maior da constelação de Orion e que ao que tudo indica foi onde o satélite dela enroscou. Em inglês é também o nome do filme do Tim Burton de 1988, um dos ícones maiores da minha infância, que permeou todo esse processo de criação. Não está virando uma comédia rasgada demais? É um pastelão, um stand up caricato conceitual! Léo, você é a Dercy Gonçalves do futuro, me diz um amigo. Sim, meu querido, eu serei a grande vedete que abrirá as pernas para o futuro tecnológico. Contudo, tentarei sempre fugir da distopia, é bom que se diga. Também precisamos rir da desgraceira, sambar na catacumba das emoções, não podemos embarcar na nave plurissexual se não for pra dar risada também. O humor na cena é como um shot do melhor ecstasy no organismo: é gostoso e viciante, dá um prazer físico inenarrável. Tem vezes em que é melhor até do que chocolate ou sexo anal. Mas a gente tem que cuidar para não virar uma esculhambação xuxanística, tudo tem sua hora e vez. Eu quero muito que “Betelgeuse” vire peça, que entre cartaz, que faça o povo rir e que rode o país e o mundo. Vou comprar a alma de todos os meus parceiros de trabalho para isso. Talvez nem precise. A equipe gosta tanto de fazer o negócio que é possível sentirmos no ar essa alegria. A Casa Selvática, para mim misto da Factory do Warhol (numa versão tupiniquim subtropical) com os Dzi Croquettes da nova era, é um lugar bom para coisas assim florescerem, nós somos uma pequena multidão queer de figurinistas, roteiristas, diretores, produtores, cinegrafistas, modelos, professores, iluminadores, maquiadores, oficineiros, mães, escritores, pintores, atores, dançarinos, performers, cantores, guitarristas, sonoplastas, caracterizadores, tecladistas, artistas de dentro e de fora da cena, nós gostamos de criar para fazer parar, nem que seja por instantes, a dor do mundo. Às vezes nós a fazemos aumentar sem querer também, mas é como as coisas são. Não se pode ter tudo nessa vida. Eu sempre costumo dizer que o que eu estou fazendo nessa vida é apenas uma grande peça separada por capítulos, aqui e acolá. Amor, sexo, violência e poder serão sempre os meus temas do coração. A ascensão da mulher e a transexualidade são questões contemporâneas que vieram para se juntar a eles naquilo que eu tenho de mais essencial em mim, que é o desejo de produzir arte. Pesquisar sempre e observar sempre para criar sempre. Agora eu estou com uma ideia surgindo na minha cabecinha, com todo esse papo sobre fecundação que a Loretta Strong me deixou, que é de escrever um novo texto teatral para tratar da questão das crianças queer, quem as defende? Quem defende a criança viada?? Quem defenderá a criança travesti?!? Também o texto do Preciado sobre esse assunto me botou essa célula em funcionamento e eu não estou conseguindo me livrar dela. Junto com isso me chegam informações de países como a Finlândia e a Noruega, que tem desenvolvido políticas efetivas, além de comportamentais, para lidar com crianças que mostram desde muito cedo um descontentamento enorme com o sexo designado no momento do nascimento. Quero falar sobre isso agora. Está mexendo comigo. Penso que deve ser um monólogo novamente, mas a gente nunca sabe quando vai entrar um corpo de baile em cena, né? Acho que irá chamar-se “Baby Eva”, porque também tem a ver com o livro “A Paixão da Nova Eva”, da Angela Carter, em que um professor de inglês é transmutado em mulher por uma espécie de deusa da fertilidade, misto de mulher negra e máquina. Quem viver verá!

 

 

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