O templo nômade: encruzilhadas – Notas in progress do processo momo: Para Gilda com Ardor

Por Ricardo Nolasco

Meu corpo gordo e nu vigiado no centro de uma cidade
Alarmes, sirenes, luzes, câmeras perfuram sem dó
Meu corpo gordo e nu é ação nessa cidade
Emergência: Meu corpo gordo nu vigiado perfurado e em chamas
Um corpo xamã e em exercício. Uma córpa em decomposição
Dança violência nessa cidade

Eu estou agora parado aqui, como uma rocha ou um monumento na sala da minha casa.   Deitado no sofá faço uma pose para a fotografia. Tem água por todos os lados. Um cano estourou e tenho um trabalho árduo para ser feito. Vejo meu reflexo no espelho d’água. Tenho quase 30 anos, a idade com que as pessoas que mais me inspiram já haviam morrido, planejavam seus suicídios ou estavam internadas em clínicas psiquiátricas. É Deus o manicômio. A cidade vive em baixo dos meus pés: fiações, encanamentos, esgoto, cabos telefônicos brotando por todos os vãos, todas as frestas. Meu corpo é cidade cheia de vias, veias, estrias, perebas, micoses, crateras, interdições, viadutos, torres. Eu convido que me percorra. Que nade comigo, mas saiba que toda transformação é dolorida. Vamos derrubar essa cidade e dos restos construir uma nova.

Orlandx [é uma palavra de terror, um grito de conquista, palavra chave, maldição bárbara, abre portais. Os corpos se fundem e se organizam de uma terceira forma, não passam por caminhos já percorridos, Orlandx encaixa e desencaixa-se, deita na relva, dança no caos, desorganiza um olhar: sumo aos olhos do voyeur, esfumaço o espaço. Truque de magia barata, sou um mágico de rodoviária. Dança cósmica de beberronas vulgares. Meu hálito te toca, te envolvo em minhas brumas, fundo toda a matéria. Uma das partes sumiu, escorreu pelas minhas mãos, diluiu-se no pó da criação. Cravo minha bandeira no flanco da terra. Pés ao alto serpenteando um play ground declaram: A cidade foi o presente que um amante milionário me deu! Serpentes dormem na beira dos rios, sob pedras].

Faço percursos pela cidade, jogos de cartas, associações místicas, psicomagias. Busco por mim mesmo desde que me perdi. Com meus pés sei que posso fazer que os fios se cruzem de outra forma. Mudo nome de praças, de ruas, estou a serviço do acaso na flanagem em que duas mitologias me acompanham: Rei Momo e Gilda. Na busca por eles, busco por mim. Na busca por mim, busco por eles. São mitologias com as quais danço. Saiamos dos teatros. O Deus que inventou o teatro foi expulso de todos os teatros.

 

TRAJETOS (anotações brutas de um caderno de artista)

 

AMANDA

Iniciei uma investigação na Alfaiataria (espaço cultural localizado na Rua Riachuelo que foi por muitos anos uma tradicional loja de produtos militares), o espaço ainda era muito frequentado pelos clientes tradicionais o que criava um movimento bastante híbrido. Criei um programa performativo chamado Expediente, onde permaneci por três dias das 09 ás 18 horas realizando uma série de ações que iniciava sempre com a lavagem da fachada e concluía com um jogo de tarot. Amanda surge no último dia dessa performance. Se identifica como travesti e exibe um longo cabelo sintético. Chegou no início da última ação, um jogo de Tarot que iria definir os próximos passos da investigação. Nesse momento estou vestido como Gilda: vestido preto e batom bastante borrado. Ela diz que eu deveria fazer a barba, usar uma roupa mais bonita e ser mais feminina. Olha as cartas e diz que é babado. Amanda sempre aparece nos percursos, é como uma nova Gilda, Gilda Agora. Sempre diz que pode fazer leituras de cartas a 10 reais. Encontrei ela hoje, saindo de traz do teatro Guaíra, empurrava um carrinho de bebê.

 

O APRENDIZ

Recebi uma carta, nela estava escrito que eu deveria convidar um artista 10 anos mais novo que eu para me acompanhar em um ato psicomágico. Chamei Leo Bardo e ainda convidei Felipe Augusto (Shakira) para nos acompanhar e filmar o trajeto. Nos encontramos 10 e 10 em frente à Catedral. Eu carregava uma sacola com 5 tomates e deveria colocar um em frente de cada teatro onde apresentamos a primeira peça do Grupo de Investigação Cênica Heliogábalus, Scarroll – da trilogia da duquesa à queda da rainha. Os teatros eram: TUC, Casa Vermelha e Casa Hoffmann. Ao colocar o terceiro tomate apareceu um menino, iremos chamá-lo aqui de Aleph.

 

BURACO

Aleph nos abordou porque pensou que estávamos filmando ele, dissemos que não, ele age com violência, inspirado pela temática da minha primeira peça começo a agir com ele com a lógica dos personagens de Lewis Carroll. Ele me chama de Gordo Viado, respondo dizendo que ele não tem 10 cm. Levamos a discussão a um lugar inesperado que conclui com ele pegando duas pedras de um terreno baldio em frente ao memorial de Curitiba (esse terreno é justamente o qual realizamos a primeira performance do núcleo O Estábulo de Luxo: Ç; que marca a minha primeira reaproximação com a Dani Passarinho, depois de alguns anos afastados, e o ínicio de uma parceria com Amany Rocco. Também participaram dessa Límerson Morales e Cali Ossani). Voltando a narrativa ele nos ameaça, joga a pedra.

 

FIM DO BURACO

Subo com o aprendiz até o relógio das flores. Onde leio um trecho de Alice No País das Maravilhas em que a protagonista se afoga em suas próprias lágrimas e depois, como sugerido na carta, repito uma cena do espetáculo Scarroll- da trilogia da duquesa à queda da rainha onde por três vezes ascendo uma vela e o aprendiz a apaga. Entrego um tomate para Leo Bardo. Voltamos pra minha casa e com o último tomate devo preparar um suco e beber esse enquanto ouvimos Amy Whinhouse. O aprendiz repete por três vezes: Sou um príncipe astuto muito mais jovem que você. Concluímos a psicomagia postando um vídeo com a última ação. Assim que fazemos isso recebemos uma mensagem dizendo que estávamos na televisão sendo agredidos por um menino de rua. Demoramos um tempo para entender o que tinha acontecido. Haviam câmeras do Cidade Alerta posicionadas que filmaram tudo e se não tivessem feito isso jamais veríamos o ocorrido como parte do ato psicomágico. No minuto 15 e 31 desse vídeo você pode ver  a matéria do Cidade Alerta (veja aqui)

 

PEQUENO/ALEPH

Escrevo para o Cidade Alerta pedindo o direito de resposta já que utilizaram nossas imagens sem autorização. Eles marcam para o dia seguinte pela manhã. Nós devemos dar a entrevista, segundo recomendações da Dani Passarinho, evocando as personas do mestre e do aprendiz. Devemos nos referir ao menino como Aleph. Até o momento não tivemos acesso a matéria, mas sabemos que ela saiu devido a uma ligação do Junior Pires. No dia seguinte (véspera do meu aniversário de 30 anos) Dani Passarinho preparou um encontro psicomágico. Assim que sento para iniciar o encontro desejo ascender um incenso que trouxe de casa. Peço a um menino que diz não ter mas aponta para outro, esse outro é Pequeno ou Aleph. Começamos discutindo e acabamos nos entendendo, ele acompanha toda a psicomagia onde Dani lixou e pintou as unhas dos meus pés enquanto eu lia Aleph do Jorge Luís Borges e escuto uma versão de O Corvo do Edgar Allan Poe. Depois disso apenas com um balde iniciamos a lavagem da escadaria do TUC e conseguimos mais água, suficientemente para lavar toda a escada. Depois disso voltamos a conversar com Pequeno que enquanto dá uma bola numa latinha com craque parece se interessar em participar de um espetáculo.

 

PAPISAS

Agora já tenho trinta anos. Construí três presentes, também eles psicomágicos. Pensando no arcano pensei em fazer um presente que tivesse uma materialidade, tivesse uma relação com o arcano, fosse único para cada um mas que fizessem parte de uma série, tivessem uma relação/conexão entre eles, e tivesse uma instrução de uso (essa contida na carta). Pesquisei sobre patuás- sortilégios feitos de produtos combinados amarrados dentro de um saco. Podendo ser ervas, objetos, orações. Patuás perdem o seu poder se abertos, traz o seu encantamento no segredo que guarda em seu útero. Gosto também por ser feito de pano e fio, objetos relacionados a mitologias femininas. O tapete que Penélope costura eternamente, a roupa preparada por Medea para a rival, as normas ou moiras que tecem o destino nas mitologias nórdicas e gregas em um trabalho místico. Sacerdotisas, bruxas, macumbeiras, yabás, Marias Bueno, Virgem Maria, Didi e a Lourdes do Brechó. Papisas.

Comprei elementos que pudessem ser misturados de formas distintas, fazendo uma alquimia única em cada patuá. Ingredientes: Casca de romã (a fruta possui ovários e cortado na posição certa apresenta uma estrela), arruda (proteção e feitiçaria) e anis (também em formato de estrela). Queimei junto a esse preparado algumas páginas do meu caderno com um poema inconcluso, as primeiras anotações desse processo e alguns elementos encontrados de peças antigas como as bobinas utilizadas em Pinheiros e Precipícios. Uma alquimia para ser envolvida em um útero ovo. Juntei pequenos objetos: 2 cálices e 1 moeda. Fiz três preparados distintos com a combinação desses elementos. Coloquei dentro de tecidos e amarrei com fio dourado. Três papisas.

Escrevi as cartas em locais distintos da cidade. Saí de minha casa em direção ao passeio público e na porta de entrada do Passeio Público um estêncil na parede me chamou atenção. Logo reconheci Edgar Allan Poe (autor do poema O Corvo que já apareceu em outra psicomagia e do conto que inspirou o filme do Fellini que vi ontem com a Dani Passarinho). Estava a imagem dele e o seguinte texto:

Úh, seu úrubu Filho da Puta

Parei para anotar, quando terminei minha caneta caiu no chão. Exatamente quando fui juntar passava um casal atrás de mim, ele abriu os braços e bateu com o relógio em um carro. Caiu uma peça pequena do farol. Recolhi. Entrei no Passeio Público. Tudo parecia orquestrado. Atenção dirigida? Talvez. Caminhei até a gaiola da Penelope Pileata e fiquei um tempo contemplando, me comunicando com o Límerson. Depois fui até o carramanchão com mesas de xadrez. Onde se encontram pessoas para jogar cartas. Dia ensolarado, artistas e moradores de rua estão acampados em frente, evangélicos recolhem equipamentos utilizados em uma oração e um senhor sentado em uma mesa escreve num pedaço de papelão. Me cumprimenta, cumprimento também. Começo a tirar os objetos dentro da bolsa: cigarro, caixa de fósforo. Ele me pede um cigarro e digo pra ele pra fumarmos juntos. Ele escreve com a caneta alguma coisa no cigarro, pergunto o que é, ele diz que é pra viver cem anos. Aponta para os evangélicos e diz que tem uma cruz invisível em frente a sua cabeça. Conversamos um pouco olho o que ele escreve no papelão, vejo a palavra deus e algumas letras que não entendo. Escrevo no meu cigarro II-papisa. Fumo e termino de retirar as coisas da minha bolsa. Livros, a carta da papisa e uma caixa onde estão juntos os três patuás. Escrevo a carta e percebo que o senhor ri muito. Momo. Em determinado momento ele levanta e se despede, diz que se chama Roberto e que mora no toldo verde da farmácia visconde. Continuo escrevendo. Descubro números e letras no farol caído do carro, começo na carta um cálculo desses códigos. Crio um código de leitura. E9 (dentro de um círculo) 01.6944. (E) equivale ao número cinco de eminência- o papa. 5+9+1+69+44. 5 +9+1+15+8. 5+9+1+6+8. 14+15. 5+6=11. 1+1=2. Papisa. Concluo a carta do Límerson. Depois descubro haver mais um 5 escondido separado da sequência numérica, é o número 5. Número do Papa, reflito sobre a presença de figuras masculinas em um experimento sobre as papisas.

Penso no que vivi nesse lugar, decido escrever ali a carta da Amabilis. Escrevo em um outro cigarro II- Papisa e início. Estou na terceira ou quarta linha quando começa a chover, tento continuar escrevendo com a chuva, mas está molhando o papel devido a furos na estrutura do carramanchão. Seco e guarda na minha bolsa novamente todos os materiais e apenas espero a chuva passar pra sair dali. Desejo terminar de escrever na companhia da minha vó. Ali onde estou vira abrigo e prisão. Muitas pessoas se abrigam, mas estamos ilhados…rodeados por água. Cai um pedaço do telhado em uma menina devido a força da água. Nesse instante um senhor um tanto mais novo que o primeiro se aproxima. Não parece ser morador de rua. Se aproxima e fala pra mim: olha o que encontrei ali no orelhão e me mostra um crucifixo. Seria esse o crucifixo invisível do Roberto? Continuamos a conversa até parar a chuva. Esse senhor me acompanha até a porta da casa da minha vó e vai embora. Não sei o seu nome.

Almoço com a família e concluo ali a minha carta. Na presença delicada e pesada dela. Um grande feminino silencioso e tradicional. Depois vou ao Guadalupe escrever a carta da Cali. Experiência muito forte depois de tudo que tinha acontecido. Escrevi a carta tomando um café. Poucas interações.

Em relação a proposta da Dani Passarinho fiz uma leve alteração. Não pedi a benção da papisa, mas pedi resposta. Entendendo essa resposta como a benção que pode ser negada. O Silêncio também é uma resposta para a papisa.

Primeira resposta à carta recebida hoje, no dia 09 de março de 2017, ano de Nosso Senhor jesus Cristo:

Penso agora, à noite, no Momo na Momo, na Papa. Alguma coisa quase me escapa.

Relendo a carta da Dani Passarinho me chama atenção a morte em parto da papisa em Roma ou o assassinato dela e da criança na outra versão. Não importa se “miráculo” ou o entendimento da fraude. Nas duas versões fala de uma rua pequena próxima ao Coliseu. Penso em Andrea, um amante italiano que amei intensamente por algumas horas sob a lua cheia de Roma e depois dessa noite o encanto acabou. Pra ele escrevi um verso que estava no poema incompleto do poema queimado: “sexo selvagem nos fundos da capela sistina”. Assistir Mama Roma do Pasolini.

 

RESPOSTAS

Uma torre recebendo um raio celeste é partida. Uma cidade, um universo, uma proteção, uma estabilidade.  Uma prisão para loucos, a bastilha, a torre de babel. Uma cidade em ruínas. Como já disse devemos derrubar a cidade para construir uma nova. Romper, quebrar ciclos e de dentro sairá luz. Fechar a macumba, o rito. Quebrar o cárcere.

Construo um templo nômade na forma como me movo pela cidade. Cada lugar é terreiro psicomágico, o tarot o oráculo a se consultar por seu próprio valor arquetípico e iconográfico. Não falo aqui de uma mão oculta que embaralha as cartas, falo de nossa própria mão. Nossa própria materialidade. A magia está naquilo que é mais visível. Na relação com a matéria mais bruta. Na criação de ficções. Em apresentarmos outras possibilidades para o mundo. O espetáculo é uma torre a ser roída.

Ontem o Leo Bardo propôs que apresente hoje uma performance com ele como um rito final desse ciclo que vivemos intensamente desde então. Penso que é hora de construir um espetáculo, uma peça, uma performance e essas experiências não devem ser apenas experiências minhas. Hoje de manhã li uma primeira resposta da Amabilis de Jesus para a carta às papisas:

“Para almas é morte tornar-se água e, para água é morte tornar-se terra, e de terra nasce água, e de água alma” – Heráclito de Éfeso.

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