Para Além do Feminismo: O Que Vamos Fazer?

por Clarissa Oliveira
imagem coletivo feminista p.nitas* 

 

Faz alguns anos que me pergunto: onde está a produção artística feminina? Onde estão as mulheres que estão produzindo arte na nossa cidade/estado/país? O que se pensa quando se fala sobre arte produzida por mulheres?

Foi em 2010 que tive meu primeiro contato com o feminismo. Na época, ainda tateando algumas teorias, explorando esse universo novo que se abria, lendo algumas literaturas, fui compreendendo as diversas nuances do ser mulher enquanto ser social, para além do só estar no mundo (o que, por si só, já é um ato político). Comecei com a Simone de Beauvoir, flertei com Beatriz Preciado, compreendi alguns lugares do queer com a Judith Butler, e assim fui desenvolvendo meus estudos pessoais. Em 2013 publiquei a monografia de conclusão do meu curso de especialização com o título “A Intersecção de Poderes: O Corpo Grotesco Feminino Como Ferramenta Artística” e foi nessa pesquisa que meu interesse foi despertado. Comecei a estudar o conceito de beleza não só através da ótica dos homens estudiosos da mesma, como é o caso do Umberto Eco, cujas obras “História da Feiúra” e “História da Beleza” são essenciais para essa análise, mas fui atrás de mulheres que analisavam a beleza a partir da ótica feminista. Encontrei Naomi Wolf e ela me apresentou pontos de vista dos quais nunca tinha realmente parado pra pensar sobre. Quer dizer, não que eu não tenha de fato pensado sobre, porque incômodos sobre nossos corpos e lugares no mundo nos permeiam desde que começamos a ter noção da nossa existência, mas a análise teórica e estatística sobre questões envolvendo a figura da mulher e hipóteses palpáveis de porquê os sistemas de trabalho são da forma como são, tão ligados à figura da beleza, a isso foi a primeira vez que tive de fato contato. E dentre as várias análises sobre a beleza que Naomi me apresentou em seu livro “O Mito da Beleza”, uma das questões que mais me chamou a atenção foi os seus apontamentos sobre o lugar da mulher, da beleza feminina, nos diversos ambientes de trabalho. Wolf problematiza: “À medida que as mulheres iam exigindo acesso ao poder, a estrutura do poder recorreu ao mito da beleza para prejudicar, sob o aspecto material, o progresso das mulheres.” É com essa estrutura de pensamento que Naomi apresenta  essa prerrogativa, da beleza usada como arma contra a ascensão profissional e social das mulheres.

A manipulação da nossa imagem, a distorção do que é viável, palpável, aprazível aos olhos, essa figura impecável é restrita às mulheres. O conceito do “se cuidar” atrelado à ideia do físico é restrito às mulheres. E nós sempre soubemos que isso vem de uma estrutura de poder muito estabelecida e vertical, onde o homem exerce sua potência social e política e nós nos mantemos no lugar de submissão, se não direta e explícita, através de ferramentas muito subjetivas, como os altos padrões de beleza estabelecidos. Num universo muito patriarcal como é o ambiente de trabalho – e por mais que as mulheres tenham conquistado espaço em todas as áreas, na medida que vai se subindo hierarquicamente em qualquer área as relações vão se estabelecendo cada vez mais patriarcais – é muito difícil conseguir se impor só através de suas potências pessoais, inteligência ou conhecimento. Imagem é usada como ferramenta de poder. Poder esse ilusório, porque no fim das contas é tudo sobre como dominar e tirar o foco da verdadeira atenção. Com menos carga social em cima do homem – sem precisar se preocupar com que roupa usar, tamanho do decote, peso, maquiagem, jóias, dentre outras obrigações sociais, ele acaba tendo sua carga emocional muito mais direcionada. Isso sem entrar no mérito da sobrecarga do trabalho em casa, mas se eu entrar nessa discussão esse texto vai ter algo em torno de 50 páginas. O que quero dizer é que nossa presença é fragilizada. Com tantos empecilhos à figura feminina de se colocar como autoridade em um assunto, com tantas dificuldades em aceitar uma opinião limpa e sem juízo de valor vinda de uma mulher, esses entraves em lidar com a figura intelectual dela antes da aparência, conquistar espaços de valorização real e profissional é uma batalha diária e árdua.

E como isso reverbera nas nossas criações artísticas?

Tenho pensado muito sobre os lugares que ocupamos na nossa área. Quando se pensa em grandes nomes da dramaturgia, por exemplo, a lista é majoritariamente ocupada por homens. Nessa edição do Festival de Teatro de Curitiba de 2018, a curadoria (composta por homens) selecionou 29 espetáculos para compor a programação da Mostra Oficial. Desses, apenas 5 espetáculos (A Ira de Narciso, de Yara de Novaes; Se o Título Fosse um Desenho Seria um Quadrado Em Rotação, de Eleonora Fabião; Salomé, de Carolina Meinerz; Denise Stoklos em Extinção, de Denise Stocklos e Grande Sertão: Veredas, de Bia Lessa) eram dirigidos por mulheres. Em porcentagem, 17,24%. E adivinhem quantas dessas eram negras? Zero. Em 2017, carregando como eixo temático “Mulheres e Identidade”, essa mesma curadoria selecionou 32 espetáculos. Dessa vez, os números são mais felizes: 13 espetáculos dirigidos ou concebidos por mulheres (Nelson Rodrigues Por ele mesmo, concebido e dirigido pela própria Fernandona; Mart’nalia e banda, pela própria; 7 Conto, de Ingrid Guimarães; E Se Elas Fossem Para Moscou?, de Christiane Jatahy; Involuntários da Pátria, de Sonia Sobral e Fernanda Silva; Macumba: Uma Gira Sobre Poder, de Fernanda Julia; Mata Teu Pai, de Inez Viana; Nossa Senhora da Luz, de Raquel Castro; Olympia e o Que Podemos Dizer de Pierre, de Vera Mantero; Palavras Gestuais, de Denise Stocklos; Para que o Céu Não Caia, de Lia Rodrigues; Quando Se Calam os Anjos, de Nicole Vanoni; Roque Santeiro, de Debora Dubois). E mesmo falando de uma seleção focada em mulheres, não temos nem 50% dos espetáculos selecionados dirigidos por mulheres. Mais especificamente, 40,63% dos espetáculos. Esse pensamento é sintomático e real. Mulheres precisam conquistar espaços a duras penas, em situações que são muito mais fáceis e acessíveis à homens. E quais são as soluções?

O mercado de trabalho para atrizes é muito cruel. Para mulheres, não se exige apenas talento. É preciso ter talento, beleza, corpo dentro dos padrões estéticos. Não nego que existe sim um padrão que se espera dos homens também, mas aí voltamos na questão referente às prisões estéticas. Com perdão à interrupção do fluxo lógico, aproveito pra fazer mais uma citação à Naomi:

Durante a última década, as mulheres abriram uma brecha na estrutura do poder. Enquanto isso, cresceram em ritmo acelerado os distúrbios relacionados à alimentação, e a cirurgia plástica de natureza estética veio a se tornar uma das maiores especialidades médicas. Nos últimos cinco anos, as despesas com o consumo duplicaram, a pornografia se tornou o gênero de maior expressão, à frente dos discos e filmes convencionais somados, e trinta e três mil mulheres americanas afirmaram a pesquisadores que preferiam perder de cinco a sete quilos a alcançar qualquer outro objetivo. Um maior número de mulheres dispõe de mais dinheiro, poder, maior campo de ação e reconhecimento legal do que antes. No entanto, em termos de como nos sentimos do ponto de vista físico, podemos realmente estar em pior situação do que nossas avós não liberadas. (WOLF, Naomi, O Mito da Beleza)

É inevitável não pensar em como isso reverbera nas artes. Quando uma mulher não cumpre com os pré requisitos normativos estéticos (principalmente se atriz), ela perde oportunidades de trabalho. Com isso, sua autoconfiança e autoestima também são abaladas, por consequência sua força de vontade de continuar. Tenho uma amiga atriz que tem uma teoria interessante sobre a desenvoltura corporal e espontaneidade de interpretação dos atores homens em relação à atrizes. De acordo com a teoria dela, uma vez que homens sempre tiveram seus corpos mais libertos e suas questões pessoais de gênero mais bem-resolvidas, isso faz com que eles sejam muito mais seguros e por consequência, “melhores atores” (entre aspas, porque bem sabemos do quanto isso é relativo). Pra mim, essa lógica tem muito sentido. Se seu corpo não é tolhido desde a mais tenra infância, é lógico que sua disponibilidade corporal vai ser maior. E por consequência, as possibilidades se abrem mais facilmente. Mas claro, é só uma teoria, sem nenhuma base científica.

Corpos que fogem do altíssimo padrão estético recorrente são corpos dissidentes. E para corpos dissidentes, os espaços que há são os de questionamento e militância. Maravilha, queremos mesmo questionar e militar, certo? A questão é que o corpo padrão é na verdade a exceção à regra. E demanda esforços dos mais variados. O corpo dissidente feminino não é uma raridade, mas sim a estrutura da maioria dos nossos corpos, do manequim 44 ao 60+. Estamos falando de um universo muito amplo, que inclui muitas mulheres, ou melhor, que as exclui pra um lugar de margem, quando na verdade essa margem está lotada. E por que isso acontece?

Mas para além do estético, esse lugar de exclusão também está nos espaços que, essencialmente, a aparência não faz diferença. E aí falamos não de determinado padrão de mulher em detrimento à outro, mas na predileção óbvia por figuras masculinas em relação às femininas. O quão cruel é pensar que levamos isso, muitas vezes subjetivamente, para nossos espaços de trabalho e criação? Faço um desafio a todos nós, colegas artistas. Vamos pegar as fichas técnicas de nossos trabalhos nos últimos anos. Nossos e dos nossos colegas. Qual a porcentagem de mulheres nessas fichas? Quantas fichas técnicas levam mulheres nas funções de iluminação, sonoplastia, dramaturgia? E mais: dessas, quantas são negras? A verdade é que o problema não está lá longe, nos meios televisivos ou no eixo Rio-São Paulo. Começa aqui, no quintal de casa, na nossa própria obra.

Essa dificuldade em agregar mulheres e pensar nelas como primeira opção para qualquer função ainda é reflexo de uma estrutura patriarcal muito bem desenvolvida, que coloca a mulher, no senso comum, como uma figura de desequilíbrio emocional e de pouca força física. Quantas vezes não ouvimos o argumento de que “deve estar na TPM” quando uma mulher se posiciona? Quantas vezes uma mulher é chamada de histérica quando perde a paciência? Quantas vezes escutamos até mesmo de outras mulheres que é muito mais fácil trabalhar com homens? E o mito de que mulheres não podem ser verdadeiramente amigas, mas sim sempre rivais? Por mais conscientes que sejamos do absurdo dessas afirmações, elas povoam nossa existência desde muito cedo. E estão aí, o tempo todo.

Na minha opinião, existem duas soluções possíveis: 1) contratemos mais mulheres, valorizemos mais o trabalho feminino, enxerguemos a necessidade de valorização do trabalho e talento de todas as mulheres incríveis que estão ao nosso redor. E 2) criação de espaços. Há um tempo já tenho estabelecido para mim a importância de trabalhar e empoderar mulheres, em todas as áreas. É imprescindível que tenhamos espaços de segurança, onde nossas criações e potências sejam valorizadas entre nós. Sem o medo e o receio de passar pelo aval de um homem ou de ter seu espaço tolhido pela presença masculina. Precisamos criar nossos espaços para nos ouvirmos e termos voz. É preciso pensar numa arte que questione, que introduza e que movimente o assunto e o fluxo da mulheridade. Para além do feminismo enquanto pauta política (será? Tudo que fazemos é política afinal de contas), estimular a criação artística feminina é movimentar um espaço dominado por homens. Enquanto curadores, debatedores, críticos e programadores continuarem sendo majoritariamente homens, é óbvio que todas as programações serão dominadas por homens. Por quanto tempo mais teremos que lutar para ter nosso trabalho reconhecido?

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Clarissa Oliveira é atriz, produtora cultural, feminista, vegetariana, Áries com ascendente em Áries. Formada em Bacharelado em Artes Cenicas pela Faculdade de Artes do Paraná e especialista em História da Arte Moderna e Contemporânea pela EMBAP. Gosta de música, toca violino, atabaque, um pouquinho de baixo, ganhou um Gralha Azul por Melhor Composição Musical pelo espetáculo Macumba: Uma Gira Sobre Poder. Atualmente é sócia do Projeto Z junto com Nina Rosa Sá, mas antes disso foi sócia da Companhia Transitória com Thiago Inacio e Erick Alessandro. Também já foi artista Selvática e antes disso fez parte do Grupo de Investigação Cênica Heliogábalus. Acredita no feminismo como ferramenta de luta, arte e vida. Não sabe se gosta mais de atuar ou produzir, mas sabe que seu negócio é o teatro.

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