Por que comédia?

por Andrei Moscheto

Olá.

A/O/As/Os Bocas Malditas pediram para que eu falasse sobre meu processo, ou sobre a minha arte, ou sobre algo que eu achasse relevante. Mas sempre acho que as pessoas não me conhecem e, por não saberem quem sou, nem vão querer saber sobre alguma coisa minha. Então, desculpas desde já se este texto tem cheiro de biografia mais-que-autorizada que foi publicada antes mesmo que alguém quisesse conhecer o biografado. Em suma falo de mim, depois falo do assunto.

Quero fazer teatro, sempre quis. Ainda quero. Quero. Repito, pra dar ênfase e deixar você, leitor, ciente de que isso é importante pra mim.

Comecei cedo, aos 8 anos. Lá, na Casa da Cultura (Joinville-SC), sobre a ponta dos pés para espiar por uma janela, vi uma cena de pantomima em que atores desviavam árvores e rios de uma floresta e fiquei assustado de como aquilo era possível. Não tinha nada lá! Mas, quando os atores desviavam, dava pra ver a floresta. Foi próximo a isso que teve um show de talentos na escola e que eu me meti a contar uma história, sozinho. Nem me passava na cabeça que era um “monólogo” ou que eu deveria me preocupar com ter 200 pessoas me olhando ou que eu deveria me preocupar porque eu iria abrir o show. Era só uma coisa muito legal de fazer, mais nada. Fiz. No final, voltando correndo pra coxia, encontro a professora e minha mãe aos prantos. Que coisa legal isso de teatro, né? A gente vê arvores, rios, emoções que nem estão lá no palco, mas estão em quem olha. Gostei!

Nunca mais parei. Entre cursos livres, grupos de estudo com resultado em peças para dentro de sala de aula, participações em produções profissionais desde os 14 anos, sempre fui atrás disso e dizia que isso era o que iria fazer da vida. E fiz. E venho fazendo. E venho usando a preposição “e” no início de três frases seguidas e me preocupando com os gerúndios que se seguem.

Se a infância influenciou para que eu gostasse de teatro, continuar fazendo me levou pra comédia. Porque fazer rir parecia poderoso demais. Estar no palco ou na roda de amigos e fazer todos rirem dava uma resposta imediata se as pessoas entendiam o que você estava fazendo, compartilhavam das suas ideias. Nos cursos livres a preparação era sempre com exercícios de improvisação (bastante focados em variações de jogos da Viola Spolin, Boal e de técnicas de palhaço) que provocavam riso, liberavam ideias espontâneas dos artistas e, depois dessa fase, a evolução era a cena, a dramaturgia, a quebra das regras aristotélicas para que cheguemos a novos patamares com a nossa arte! Então, durante parte da adolescência e do começo da vida adulta, fazer teatro em cursos livres (seja como aluno ou como assistente de professor) era muito mais provocativo e poderoso do que era feito depois, nos palcos.

Todas as vezes que eu assistia aos filmes do Peter Greenaway e me deliciava com eles, ao lado eu acabava descobrindo os talentos histriônicos de Peter Sellers. Se achava que “A Última Tentação de Cristo” tinha viradas de roteiro que deveriam ser levadas como lições para uma vida profissional, “A Vida de Brian” parecia ter o mesmo ou muito mais. As músicas de Chico Buarque me levavam para alguns lados, as músicas do Premê me levavam para outros igualmente mágicos. Entre os atores parecia que todos estavam sempre em busca de risadas, epifanias cômicas, jogos complexos entre amigos. Nas coxias. No palco era melhor elevar o espírito, buscar algo além, atingir o nirvana intelectual e ser aplaudido por ser a luz que eleva o ser humano das trevas da mesmice. Fecha-se as cortinas, volta-se para o anseio da comédia novamente. Parecia, aos meus olhos, quase que uma disfunção psicológica, que observei dentro da classe teatral por diversas vezes: posso fazer uma comédia – que eu digo publicamente o quanto é difícil, mas que (no fundo) considero algo menor, mas quando eu for fazer algo grande-importante-contundente-escalafobético com certeza uma comédia não será.

O preconceito com a comédia, como algo menor, frequentemente apontado como sendo uma culpa do público por querer coisas mais fáceis, bastante incorretamente chamada de de “populares”, começa de dentro, pelos artistas que fazem. Por alguns artistas que fazem.

Meu primeiro convite para dirigir oficialmente algo foi uma comédia. Nunca mais parei. Nunca mais quis parar, sabia que era onde eu encontrava mais sentido. Sempre foi legal trabalhar com o projeto dos outros, mas foi ainda mais legal quando o projeto também partia de mim: surgiu o grupo Antropofocus.

Quando o grupo Antropofocus surgiu, em 2000, ele era formado por alunos da Faculdade de Artes do Paraná que tinham uma reclamação em comum com a academia: estávamos ali há dois anos e nada tinha sido falado sobre comédia. A academia não falava (fala?) sobre este assunto, passava ao largo apenas referenciando sua existência em momentos da história e mais nada, potencializando ainda mais o preconceito com esta forma de arte. As pessoas que fizeram a primeira formação do grupo, todas, tinham algum anseio por fazer comédia, procuraram apoio no ensino superior e não acharam. Todos queriam fazer comédia e achavam que isso não era um universo paralelo ao teatro. Na faculdade, parecia que existia um lugar sujo, estragado, fedorento chamado “mercado” e lá tinha comédia. Só lá.

No Antropofocus nosso objetivo era fazer rir. Só. Os ensejos estéticos estavam conosco, no fundo disso. As referências bibliográficas estavam conosco, o tempo todo. Mas, enquanto objetivo exteriorizado em ensaio, nossa vontade era “simplesmente” fazer rir. Como? A gente não tinha descoberto ainda, a gente só sabia o “como não”:

– A gente não queria usar palavrão: soa puritano, inocente, bobinho, infantiloide. Não é isso. Em comum os integrantes do grupo identificavam que os maus comediantes, aqueles que não tinham técnica, material, ensaio, apelavam para o palavrão como um saca-rolha de risada. Então, pra dificultar a nossa vida e ficar sob o fogo da plateia sem poder usar esse truque, não usávamos (e nem usamos, ainda hoje) palavrão.

– A gente queria que o mote das cenas (e depois dos espetáculos) surgissem do material criado em conjunto em sala de ensaio. Esse desejo que acabou levando o grupo a ficar especializado na técnica da improvisação, especialmente nas ferramentas que fazem os atores poderem apoiar ideias e ajudar a que surjam outras fora do esperado.

Começamos em outubro de 2000 e nunca mais paramos. Desde então estamos nessa estranha carreira de grupo de teatro que pesquisa comédia. O adjetivo “estranho” não qualifica a nossa relação com o público ou a nossa produção teatral (na minha opinião, leitor – caso você já tenha visto nosso trabalho e você queira classificá-lo assim não sou eu quem vai desmerecer suas ideias), mas se classifica onde a gente encaixa entre os outros grupos. Porque, para algumas pessoas que fazem teatro, somos chamados de “grupo de comédia”. Para quem faz comédia somos chamados de “grupo de teatro”. Então, há muito tempo, sabemos: estamos presos aqui, no meio. Entre o Teatro e a Comédia. Vivemos no meio de uma separação entre as duas coisas que os outros veem como distintas. Nós não.

(Bom, leitor, eu não vou usar a primeira pessoa do plural daqui pra frente, e não é porque eu duvido que essa opinião seja compartilhada com os integrantes do grupo. Apenas porque estamos conversando você e eu aqui, então acho que mantemos o papo entre primeira e terceira do singular. Caso você esteja lendo em grupo, perdão. Caso alguém esteja lendo pra você, perdão. Caso você preferisse ser tratado por tu, perdoas este autor que não quis errar – mais ainda – as conjugações dos verbos por aqui.)

Voltando a conversa anterior, estar num grupo de TEATRO que quer fazer COMÉDIA parecia estar carregado de contrassensos que eu não conseguia enxergar. Quando apareciam oportunidades de inscrição em festivais de teatro ou editais culturais eu recebia dicas de canto de boca para dar uma escondidinha nesse aspecto do grupo.

– Qual aspecto?
– Esse aí. Aí.
– O nome? O nome do grupo?
– Não, aquilo que tá escrito embaixo.
– A parte da pesquisa?
– Um pouco mais pra frente…
– …Comédia?
– Não fala alto! Senão eles não te chamam pra nada!

 

Parece um diálogo de maluco? Ele é. Mas tive com muitas pessoas durante as últimas décadas, em diferentes sotaques, idades, formações. Como se o preconceito velado existisse e ninguém quisesse falar sobre ele. Quando não se fala dos preconceitos eles perduram por muito mais tempo.

Essa diáspora que existe entre teatro e comédia pode ter tantas razões, que a própria razão desconhece, mas nenhuma delas é válida para se perpetuar. Independente de qual seja a fonte do preconceito, ela atrapalha ambos os lados, pois a comédia deixa de se aproximar das novas linguagens teatrais e o teatro deixa de se debruçar nas técnicas cômicas. A aproximação seria uma conquista positiva para todos nós. A percepção de que elas nunca estiveram apartadas pode demorar um pouco mais.

Gosto de estar no meio disso, fazendo teatro e comédia, apontando o rei nu no meu próprio espelho (tente não imaginar isso) e falando pra quem quiser ouvir: comédia também é teatro. Obrigado por emprestar seus olhos a isso aqui, esse texto, e que eles continuem a ver o humor que há no mundo.

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Andrei Moscheto é ator, diretor, improvisador, sonoplasta, dramaturgo (infantil e adulto). Trabalhando profissionalmente no teatro desde 1991, é diretor e fundador do Antropofocus desde 28 de outubro de 2000, companhia de teatro que se dedica a pesquisa do humor em diversas formas. É formado em Bacharelado em Direção Teatral pela Faculdade de Artes do Paraná (FAP) e fez Bacharelado em Interpretação na Unicamp, onde não chegou a se formar. É professor de teatro desde 1998. Foi professor da Faculdade de Artes do Paraná nos anos de 2005 e 2006. Ministra workshops focados na técnica da improvisação, área em que se especializou desde 2010.
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