Projeto Macumba – Para além das poéticas cênicas, concepções estéticas, linguagem e do troféu Gralha Azul

Por Thiago Inácio

 

O dever de um artista pelo menos com a minha preocupação é o de refletir os tempos.
Eu acho que é verdade para pintores, escultores, poetas, músicos, no que me diz respeito,
é a escolha deles, mas eu escolhi refletir os tempos e as situações nas quais eu me encontro,
pra mim é o meu dever e nesse tempo crucial em nossas vidas, quando tudo
é tão desesperador, quando todo dia é uma questão de sobrevivência,
eu acho que é impossível você não se envolver […]
como você pode ser um artista e não refletir os tempos?
(Nina Simone)

 

A quem se presta a arte? Qual é o papel do artista? A Companhia Transitória, desde sua fundação, se prestou a mesclar e a transitar entre discussões e inquietações artísticas provocativas que pudessem de alguma forma refletir sobre nossos tempos. De lá para cá, nos aventuramos em questões de gênero, sobre violência e assassinatos, fizemos um ensaio fotográfico sobre a invisibilização do ser humano transformado em números, passando por relações familiares, pelo vazio existencial, até chegarmos nas questões ligadas à negritude.

Encontrar um caminho possível de linguagem, poéticas cênicas, concepção estética vem sendo uma busca dentro das proposições artísticas do grupo. O princípio de trabalho é a procura de parcerias com profissionais da área para a troca de experiências, ideias, conceitos e práticas relacionadas ao fazer teatral. A companhia subverte a lógica tradicional, onde a figura do diretor convida os artistas para sua criação, e realiza o caminho inverso, onde convida o diretor e os artistas que se encaixam com a proposta dos seus projetos artísticos de acordo com a temática pesquisada.

Outro foco de pesquisa do grupo é o estudo, a exploração e a ocupação do espaço cênico, levando em conta as relações entre espaço/ator/espectador. O grupo trabalha a partir de processos colaborativos, nos quais articula uma horizontalidade das funções dos profissionais envolvidos sem, com isso, eliminar as especificidades da área de cada um. A pesquisa se estende também para a relação com o espaço (mundo) interno e externo; o alerta máximo para a compreensão da ação; a valorização do corpo como ferramenta tão importante quanto o espaço na aventura do intérprete; e, por fim, a importância do não saber para criar, do caos para organizar e a importância da atitude permanente de jogo, sendo esses alguns dos temas perseguidos por todos num clima de mútua provocação.

Como deixar de ensaiar o “teatrinho de escola” e realizar uma proposição artística que comunique, dialogue com o público e de fato contribua para a sociedade com o discurso dessa obra de arte? Foi quando paramos de nos preocupar com o “fazer” artístico em si e nos voltamos para “quem” estávamos fazendo que encontramos nossa identidade.

O espetáculo “Macumba: Uma gira sobre poder”, com direção de Fernanda Júlia, encenadora do NATA – Núcleo AfroBrasileiro de Teatro de Alagoinhas, foi contemplado pelo Bolsa Funarte de Fomento aos Artistas e Produtores Negros 2014, na categoria de Artes Integradas, e também com o 4º Prêmio Expressões Culturais Afro BrasileirasPrêmio Afro 2017, na categoria Artes Cênicas.  A peça estreou em Curitiba, na Sociedade Operária Beneficente 13 de Maio, clube fundado por negros libertos no final do século XIX e de grande contribuição ao movimento de identidade negra em Curitiba, sendo o segundo clube mais antigo do país.

O espetáculo fez temporada de 12 e julho a 04 de agosto de 2016 fora do “métier” habitual do edifício teatral convencional e dos dias tradicionais, realizando apresentações de terça à quinta-feira. Voltado ao público negro e à comunidade periférica e de movimentos sociais, o trabalho teve 80% de sua bilheteria gratuita, fazendo com que a comunidade viesse até o centro para prestigiar a produção. Tamanha a repercussão, o espetáculo foi selecionado pela curadoria de Guilherme Weber (Sutil Cia) e Márcio Abreu (Companhia Brasileira de Teatro) para integrar a programação da Mostra Oficial do Festival de Teatro de Curitiba 2017, demonstrando que as curadorias estão ficando cada vez mais antenadas no que o teatro quer e precisa refletir: os nossos tempos! No entanto, no panorama brasileiro, ainda é nítido que a programação com espetáculos que abordam a temática da negritude ou que contenham artistas negros em suas grades de programação é muito tímida, haja vista a polêmica envolvendo a programação do FIT-BH – Festival Internacional de Teatro, Palco & Rua de Belo Horizonte, em 2016, onde entre as 70 atrações não havia nenhuma que contemplasse o teatro negro. Daí a importância do negro ocupar cada vez mais os espaços midiáticos, em curadorias, crítica, como mediadores de cultura etc..

É difícil produzir arte? E quando falamos de arte negra? Um processo artístico de ação afirmativa, em meio a nossa até então vigente e frágil democracia, é algo de extrema importância que ultrapassa o fazer artístico e entra no campo da representatividade. A dificuldade dos produtores e artistas negros e o escasso protagonismo das negras e negros permeia vários setores da sociedade, e não é diferente dentro das manifestações artísticas. Nesse contexto, a ausência do negro significa também a indiferença e exclusão da cultura negra em meio à majoritária produção artística de pensamento e olhar eurocentrado que é produzida em Curitiba.

A exemplo do Festival de Teatro de Curitiba, outras mostras se demonstram preocupadas em refletir os nossos tempos, abandonando velhos formatos. Um exemplo disso é a Mostra Cenas Breves (2017), que deu conta em sua grade de programação de abranger um leque de opções de representatividade muito contundente com a atual conjuntura. Podemos citar também a Mostra Novos Repertórios (2017), que convidou o espetáculo “Macumba: Uma gira sobre poder” para fazer parte de sua programação após uma revisão da curadoria, 100% branca, sobre a ausência do teatro e artista negro em sua grade.

O trabalho da Companhia Transitória era um dentre outras opções de artistas negros refletindo sobre a negritude, e aqui se faz necessário registrar os nomes da nossa cena, como: Geisa Costa, Isidoro Diniz, Simone Magalhães, Cleo Cavalcantty, Aline Fuá, Bea Gerolin, Carla Torres, Janine Mathias, Pretícia Jerônimo, Pri Pontes, Leonardo Cruz, Brenda Santos, Kátia Drumond, Inês Drumond, Dermeval Silva, Iria Braga, Michele Mara, Marcel Szymanski, Loara Gonçalves, Matheus Moura, Taciane Vieira, Ronald Pinheiro, Gilmar Rodrigues, Cássia Damaceno, Cássia Gomes, Pedro Ramires, Sol do Rosário, Dayane Paixão, Geraldo Magela, Marcyo Luz, Frank Souza, Dekka Santos, Mariane Filomeno, Aline Alexandre, Stênio Soares, Gabriela Reis, Constânia Matos Netto, Tulio Borges, Kariny Martins, Helmann Padilha, André Daniel Guarani-Kaiowá, Washington Silveira, Nelson Sebastião, Waltel Branco, Saul Trumpet, Tiaguera Nunes, Kanêga Santos, Lu Soares, Adriano Carvalhaes, Miriane Figueira. Esses nomes destacam um breve levantamento realizado em post via Facebook, no dia 09 de junho de 2017, buscando um mapeamento mais próximo possível da realidade da cena artística negra da cidade.

A construção do espetáculo “Macumba: Uma gira sobre poder” congregou uma conjunção de acontecimentos. O primeiro deles foi a mudança na trajetória artística da companhia, voltando-se para questões ligadas à negritude ao compreender as dificuldades e situações de invisibilidade da comunidade negra curitibana, o que originou o PROJETO MACUMBA, de 2013 (ano de concepção do projeto) até 2016 (ano da estreia do espetáculo), pesquisando no cenário artístico da cidade ações que visavam fortalecer não só a discussão, mas também a arte negra em Curitiba e estender para além da capital o fortalecimento deste discurso.

O projeto configurou-se como uma ação afirmativa e buscou dar voz e visibilidade aos artistas negros para que ocorresse uma constante troca e se fizesse visível esta capacidade transformadora e de combate incansável contra o racismo e pelo reconhecimento dos valores das culturas negras na sociedade brasileira contemporânea, demonstrando o empoderamento da mulher e do homem negro como pontos positivos. Levar ao público as manifestações dessa cultura em diferentes vertentes artísticas foi e é, para nós, mais do que um interesse, mas uma necessidade, haja vista a pouca visibilidade do teatro negro na cidade – e não por falta de artistas negros, como mencionado anteriormente.

Hoje celebramos este espetáculo como um projeto perene e de importância ímpar para nossa cidade, estado e país. Mas nada disso seria possível sem os artistas e profissionais que deste projeto fizeram e fazem parte. São profissionais que acreditaram e embarcaram sem medo, com o coração aberto, e se entregaram de corpo e de alma a um ideal, a um pensamento, a um discurso, a um posicionamento. A começar pela diretora e dramaturga do espetáculo e o assistente de direção, Fernanda Júlia e Dominique Faislon, que se deslocaram da Bahia para enfrentar um inverno curitibano e realizar esse intercâmbio entre nordeste e sul.

Fernanda Júlia é Yakekerê (mãe pequena) do Ilê Axé Oyá L´adê Inan na cidade de Alagoinhas, bacharel em Direção Teatral da Escola de Teatro da UFBA, mestre em Artes Cênicas pelo Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas – PPGAC – UFBA, com a dissertação “Ancestralidade em cena: Candomblé e Teatro na formação de uma encenadora”. É diretora fundadora do NATA – Núcleo Afro brasileiro de Teatro de Alagoinhas, fundado em 17 de outubro de 1998, na cidade de Alagoinhas (Bahia), e também é dramaturga, educadora e pesquisadora da cultura africana no Brasil com ênfase nas religiões de matriz africana o Candomblé e atualmente doutoranda da UFBA.

Fernanda Júlia foi mais que uma diretora artística e dramaturga neste processo – foi uma mentora, guru, uma divindade ancestral que soube costurar todos os desejos, anseios, medos e inseguranças de um grupo com personalidades tão diferentes, com uma negritude que precisava ser externada artisticamente. E como trabalha a partir do teatro ritual, nos proporcionou todas as técnicas trabalhadas em seu grupo, como os rituais instauradores, ativação do movimento ancestral e o poeirão cênico, ao mesmo tempo em que colocava em prática sua dissertação de mestrado. A vivência dos rituais instauradores do fogo, da terra, do ar e da água foram nosso pedido de permissão às divindades para a construção do espetáculo.

Fernanda soube ouvir o que o trabalho pedia – no caso, o que Exu orientou –, e a resposta estava no que o próprio grupo gostaria de expressar. Ela teve a sensibilidade e compreendeu que essa obra de arte tinha muito mais a dizer para a cidade do que imaginávamos. As discussões de processo sempre nos levavam a entender que a dimensão deste trabalho e a responsabilidade eram muito maiores do que concebíamos em um primeiro momento. Porém, nada disso seria possível sem a comunhão e a entrega das atrizes Flávia Imirene e Tatiana Dias e do ator Gide Ferreira, além deste que vos escreve, Thiago Inácio.

Elenco (da esquerda para a direita): Thiago Inácio, Tatiana Dias, Gide Ferreira e Flávia Imirene – Macumba: Uma gira sobre poder – Questões ligadas a negritude

Trouxemos para o processo questões para além do artístico – éramos artistas com nossas dores e cicatrizes expostas em sala de ensaio, provocados pela direção, o que trouxe um texto que estava entalado em nossos âmagos. Pois o racismo é estrutural e está presente em nossa sociedade, e ser negro é mais do que a melanina em minha pele ou o meu cabelo, é o empoderamento de ambos. É resistência. É um ato político. São todas as marcas ancestrais que habitam em mim. Em todos os preconceitos sofridos. Foi a partir deste espetáculo que resgatei a minha ancestralidade que permeia minha trajetória como artista negro, pai de santo, mestre sala e toda a herança cultural que a mim pertence e faz a história do nosso país.

Ainda no que tange a equipe e a construção do processo, a música permeia todo o trabalho. Uma das características do teatro negro, trazidos por Fernanda Júlia, é que não se desassocia o que é teatro, o que é texto, o que é dança e o que é música. Tudo faz parte de uma coisa só, e para que isso pudesse acontecer os músicos desse projeto foram fundamentais. Em um espetáculo da magnitude do Macumba e a falta de um orçamento ideal, os integrantes deste projeto se desdobraram para além das suas funções – a produtora virou musicista e entrou em cena, o produtor executivo virou diretor musical, e junto ao percussionista se formou o coração que pulsa o espetáculo. Assim foi com os artistas Clarissa Oliveira, Erick Herculano, Matheus Santos e a nossa “Macumba Band” que contou com o respaldo de Dominique para a sua organização e execução. E para que tudo isso pudesse ter uma harmonia que também se transformasse em texto, tivemos algumas alternâncias na composição musical do espetáculo onde três das músicas que compõem o trabalho tiveram composição do ator Gide Ferreira. Essa grande orquestra nos rendeu o Troféu Gralha Azul 2016/2017 de melhor composição musical, além da indicação de melhor espetáculo.

Banda – Macumba: Uma gira sobre poder – Gide Ferreira (flauta); Erick Herculano (guitarra); Matheus Santos (percussão centro) e Clarissa Oliveira (percussão).

Este projeto é um divisor de águas em nossas histórias. É um marco histórico na produção cultural curitibana e brasileira. Este espetáculo é apenas o pontapé inicial para o realce da importância da cultura afro-brasileira dentro do contexto sulista, onde não é tão difundida. Com colonização majoritariamente europeia, a região Sul tem uma grande dívida de reparação no que diz respeito a essa cultura; prova disso é o fato do Dia da Consciência Negra não ser feriado por aqui como acontece em estados como Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo.

Apresentar o espetáculo em Curitiba, litoral e interior do Paraná foi uma forma de contribuir com o histórico cultural do povo negro na região. Entender as primeiras manifestações culturais afro-brasileiras na região sul é a melhor forma de aproximar essa cultura da grande população. De acordo com pesquisas do IBGE, 23% da população de Curitiba é composta por negros, que carregam consigo seu histórico, compondo o panorama cultural da cidade. Assim como os povos de origem europeia celebram e buscam suas bases colonizatórias, o Projeto Macumba tem por intuito a busca da ancestralidade, da afirmação e da representatividade e ocupação de espaços midiáticos relevantes, firmando a importância de visibilidade da negritude na sociedade e na arte  para refletir sobre esses tempos.

Making Of do espetáculo: Macumba Uma gira sobre poder:

Macumba: Uma gira sobre poder – 4º Prêmio Expressões Culturais Afro-Brasileiras – Prêmio Afro:

 

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Thiago Inácio possui formação acadêmica em Bacharelado em Comunicação Social – Jornalismo pelas Faculdades Integradas do Brasil – Unibrasil (2006) e em Artes Cênicas – Bacharelado em Interpretação pela Faculdade de Artes do Paraná – FAP (2010). Realizou o curso de Especialização em Políticas e Gestão Cultural da Universidade de Girona (Espanha) e Itaú Cultural em São Paulo no ano de 2014/2015. É integrante-fundador da Companhia Transitória de Curitiba. Em produção cultural faz parte da equipe do Festival de Teatro de Curitiba desde 2004, sendo responsável pela criação e curadoria da Mostra Coletivo de Pequenos Conteúdos em seis edições (2009 a 2014). Também foi produtor da Mostra Baiana, no Fringe, em 2013 e 2014. Já trabalhou com os diretores teatrais Fernanda Júlia, Amauri Ernani, Ana Paula Frazão, Edson Bueno, Giorgia Conceição, Laércio Rufa, Luciana Schwinden, Márcio Mattana, Nadja Naira, Sueli Araújo, Mariana Zanette, Dimis Jean Sores entre outros. Foi produtor de um dos mais antigos grupos de teatro de Curitiba: o Grupo Delírio de Teatro do diretor Edson Bueno. Prestou serviços a Fundação Teatro Guaíra junto ao setor de produção sob a coordenação do produtor Áldice Lopes. Desenvolve trabalho de gestão de projetos culturais junto a Parnaxx LTDA responsável pelo Festival de Teatro de Curitiba. Pela Caixa Cultural foi produtor local do espetáculo teatral “A Tecelã” do grupo a Caixa do Elefante na Caixa Curitiba em 2012. Foi produtor executivo do projeto de música “Cante com o Peixonauta” em 2013/2014 na circulação da Caixa Cultural etapa Salvador e Fortaleza e diretor de palco do espetáculo de dança “Borbulho” da Chamecki & Lerner Cia de Dança na circulação da Caixa Cultural em 2013 e 2014 nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza. Realizou a produção local da exposição “Brinquedos feitos à mão – Coleção Saluá Chequer” na Caixa Cultural Curitiba em 2014. Foi Delegado Setorial da Área de Teatro nas consultas públicas da implementação do Sistema Municipal de Cultura de Curitiba no processo de adequação ao Sistema Nacional de Cultura e gestor de projetos para a Fundação Cultural de Curitiba – Instituição Pública de Cultura. Em 2015 foi parecerista técnico da área de Artes Cênicas (Teatro – Dança – Ações de capacitação e treinamento de pessoal) para análise de projetos da lei Rouanet do Ministério da Cultura. Produziu em 2016 o show de abertura do Festival de Teatro de Curitiba com a artista Maria Bethânia na apresentação do trabalho “Bethânia e as Palavras” e também os espetáculos da Mostra Oficial no espaço Teatro Ópera de Arame. Em 2017, ainda pela Mostra Oficial de Teatro de Curitiba, foi o produtor do espaço Auditório Salvador de Ferrante – Guairinha. Foi o proponente do Projeto Macumba, projeto de Artes Integradas contemplado com o Bolsa Funarte de Fomento ao Artista e Produtores Negros 2014 que originou o espetáculo “Macumba: Uma gira sobre poder” também contemplado com o 4º Prêmio Expressões Culturais Afro-Brasileiras – Prêmio Afro, prêmio nacional que valoriza a cultura afro brasileira.
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