Que a minha risada nervosa não faça parte de uma cumplicidade triste

(escrita inacabada sobre Process Inacabad 1  )

Process Inacabad, performance de Greice Barros e Anne Celli apresentada no 20MINUTOS.MOV . Foto: Lidia Ueta

 

/ um poema // uma descrição inventada /// um sonho

/

Rir de
um tropeço
um peido
um pau grosso demais
uma fala absurda
um assalto
um copo quebrado
um guarda-chuva que entorta
no meio da tempestade

Rir para
esconder
conquistar
extravasar
não surtar
suportar
dissimular
não matar
não ser morta
não ser estuprada

Rir em
manifestação
velório
pronto socorro
peça de teatro ruim

Rir
sozinha
junto
fora de hora
com

Rir
daquilo que aprendi ser objeto de risada
Tentar não rir

uma mulher elegante ri de maneira contida
uma mulher elegante ri sem abrir demais a boca
sem mostrar os dentes
sem fazer xixi na calça
sem expelir ranho pelo nariz

uma mulher elegante não curva o corpo
não vira o salto
não fica vermelha
não deixa o sutiã em casa
não faz freada na calcinha
não solta pum durante a trepada

uma mulher elegante não dá gargalhada

//

As atrizes Greice Barros e Anne Celli entram na sala e colocam-se de maneira frontal ao público. Vestem preto. As caras limpas. Olham, nos fitam, um leve sorriso começa a se esboçar em cada uma delas e é sorriso na cara, no calcanhar, no joelho, na panturrilha, nas costas, nos cabelos. Elas se olham e voltam a olhar para o público. Está feito o pacto. O sorriso continua lá e ao que parece perdurará por muito tempo. Elas sorriem sem som. Na plateia alguém já ri alto, um outro cutuca a amiga sentada ao lado. O sorriso artificial sustenta pequenos momentos de um silêncio constrangedor, promissor de algo que ainda não sabemos.

A performance passa a ser uma espécie de negociação. Num jogo que se estabelece entre as duas inicia-se uma sequencia de risadas e gargalhadas que incluem o público. Rir em som alto ou permanecer em silêncio é tomar parte na ação ali proposta. Ninguém está imune neste jogo. Jogamos todos. Eu dou gargalhadas, faço barulho de porco no fundo da plateia. Negociamos o ritmo da risada, de cada pausa, silêncio esperado e rompido pelo ar que escapa de alguma boca angustiada, ou nervosa, ou alienada, ou feliz, ou embaraçada querendo entrar no fluxo. As gargalhadas se desatinam esquentando o espaço. Os olhos de Greice beiram o desespero, mas os dentes estão ali à mostra, há qualquer coisa de contradição nisso que é o espaço da face.

A trajetória da performance é escancarada, durante 20 minutos elas esgarçam a boca, projetam dentes, sons, esbugalham os olhos. Anne fica vermelha, sem ar, se contorce, aquilo tudo quase vira choro, eu oscilo, do riso quase passo também ao choro.

Quando rimos é a nossa voz que está ali. Rimos em voz alta? Que voz é essa da pessoa ao meu lado, meio muda, quase insegura vibrando forte, sacudindo os ombros e subitamente emitindo um som animalesco? Me reconheço no barulho também de porco vindo de alguém lá da frente. Anne continua vermelha, Greice segue contorcida e rindo em desalento.

Existe cumplicidade que nos acolha nesse espaço da risada compartilhada? Estamos rindo de que, afinal?

Eliane Brum, em texto escrito sobre a inesquecível fala da secundarista Ana Júlia na assembleia legislativa do Paraná, escreveu que o Brasil é um país em que as palavras deixaram de dizer2. A crise da palavra no espaço político está também na arte, por excesso ou escassez, os tantos “fora” não se fazem energia em lugar algum, o riso pode ter então por instantes a potência de uma palavra bomba? O que nos resta é a risada? E penso não a risada alienada dos stand up preconceituosos e conservadores, mas a risada absurda, a risada que revela em algum lugar que um passo ainda é possível e que de algum modo partilhamos uma sintonia trágica. Seguimos acompanhados.

E se fizéssemos uma marcha sem bandeiras, sem carro de som, sem adesivos, sem megafones, emitindo apenas risadas? Um ataque de riso, explosivo, fora de controle, seríamos 30, 50, 100 mil, gargalhadas arranhando a garganta, secando a boca, som de porco, de foca, ranho saindo do nariz, xixi encharcando as calças, gritos pra puxar o ar, corpos curvados, corpos rolando pelo chão e não seríamos cadáveres de guerra. Uma manifestação. Uma crise de riso. Uma crise nervosa de riso. Uma crise nervosa descontrolada de riso. Uma crise nervosa descontrolada de riso chegando a Brasília.

Continuamos na sala, as atrizes retiram das respectivas bolsas imagens impressas de alguns de nossos políticos, aos quais não me refirirei pelos nomes, eles não merecem. É deles que ríamos? Ríamos de nós? Rimos durante vinte minutos para podermos chorar? Pelo riso também entendemos o lado em que estamos.

///

Quem inventou o título de cidade sorriso para o lugar em que estamos agora?

A velha do 301 continua entrando no elevador sem dizer bom dia, sem dizer oi, sem dizer hoje chove, sem dizer tudo bem?, sem dizer tchau, sem dizer espero que amanhã faça sol.

Um sorriso é uma meia boca aberta que esconde.

Parada em um ponto de ônibus começo a rir de algo que acontece à minha frente. O riso vai crescendo e vira uma gargalhada, com som, muito som, minha boca começa a abrir para além dos limites antes alcançados, o canto da boca começa a rasgar, meu corpo curva para trás e a gargalhada rompe minha cara e toma tudo.

Sou uma gargalhada incontrolável no meio da rua.

Eu gostaria de poder dizer, citando Paco Urondo, a poesia, assim como a risada, dói nesses filhos da puta3. Mas, será? Mas será.

Se as putas fossem de fato as mães, tudo estaria bem,

 

tudo estaria bem

 

 

1 Process Inacabad é uma performance de Anne Celi e Greice Barros apresentada como resultado a partir da residência realizada pelas artistas no 20MINUTOS.MOV em abril deste ano. O 20MINUTOS.MOV aconteceu no espaço LaBamba e desde a primeira edição em 2010, já acolheu as pesquisas de 16 artistas atuantes em dança, artes visuais, música, literatura e teatro, desenvolvendo-se como uma plataforma de múltiplas configurações, que procura sempre provocar diálogos entre diferentes áreas artísticas. https://www.youtube.com/watch?v=fW0iR72OuTk
2 Instruções para esquivar o mau tempo de Paco Urondo (1930-1976), poeta, militante político e guerrilheiro argentino.
3 Ana Júlia e a palavra encarnada de Eliane Brum está disponível em : http://brasil.elpais.com/brasil/2016/10/31/opinion/1477922328_080168.html

 

Compartilhe:

Luana Navarro

Ver posts de Luana Navarro
Luana Navarro é artista visual com trânsito por diversas linguagens. Tem interesse pela palavra, a leitura em voz alta, a imagem e o corpo como dispositivo e suporte de criação.