retrrrrópica

Por Brenda Sodré

 

 

Foto: Cayo Vieira.

 

 

sono, 17 de setembro, domingo, 20h, casa hoffmann, retrópica. saí do churrasco onde estava levemente entorpecida para assistir uma peça porque precisava assistir para fazer uma crítica. peguei uma carona com juliana fenker. era eu, a travesti agnes que eu namoro, juliana motorista e no local encontramos bruna, a iaé. então fui comprar o ingresso e putz não trouxe o comprovante de estudante ah você é da fap? sim ah ok então pode pagar meia.

no hall, várias pessoas famosíssimas como a noite de paris. antes de decidir publicar esse texto, eu citava os nomes das pessoas famosíssimas, agora eu tenho medo.

o fato é que há uma escadaria que se sobe e se aperta juntinho no mezanino. e lá está ela.

uma mulher gigante veste preto e glitter. mas há corpo à mostra. seios. colo quente, respiração, olho-água, corpo-fogo, ventre vivo. suas mãos seguram ovos e fazem magia.

eu pisco os olhos e ela se desmancha, ela se desmancha ao som de palavras que ecoam mantras ao fundo que dizem a vagina é uma ferida tropical; o mar latino, fossa aberta da humanidade; nós amamos o algoz, nosso gozo vem com surra; o imigrante é o sonho canibal; onde a mesa é branca, a esperança e magia só podem ser negras; a unicidade da rebeldia terá pulso de mulher. num dia negra, no outro travesti.

agora uma mulher dourada quebra ovos. rebola. bate o pé. bate o pé. bate o pé. recusa ficar parada, então bate o pé, barulha. grita. ri. vem bem perto. bate o pé ao lado do pé do outro. ao lado do meu pé. ao lado do pé das pessoas famosíssimas. é um pé que bate agora e depois. um pé que não sabe fazer outra coisa senão bater e bater é dançar.

esse é o momento em que eu digo que pensei em começar a crítica dizendo que a mari paula é uma estrela que brilha brilha brilha, só que eu não comecei assim. ou comecei. e a crítica só começa agora. você decide. o fato é que mari paula vem de longe, facão na mão, zoiuda, pra matar os mal/mau (nesse caso serve os dois) do mundo. mulher que corta vestida de fagulhas. as mãos mornas que manuseiam delicados ovos é a mesma que segura a lâmina da bruta faca. facão na mão, pé no chão. corta batatas. meudeusdocéuvocêvaicortarodedomeninacuidadocomissoaí! as batatas se juntam aos ovos quebrados no início, e aos temperos que caem em chuva lá do alto da mão morna da estrela mari paula que brilha e manuseia ovos e facões. não sei ao certo, mas acho que isso se chama tortilha, minha vó faz.

uma mulher de pernas abertas mastiga batatas e ovos com a boca cheia. algumas batatas e ovos grudam no canto da boca. outras batatas e ovos caem ao chão, não sem antes tocar o corpo vivo da mulher que está de pernas abertas mastigando batatas e ovos enquanto balbucia algo em espanhol que a minha falta de conhecimento não permite reconhecer. eu escuto antropofagia. eu escuto canibalismo. eu escuto narcotráfico. disso eu deduzo coisas, várias coisas bem deduzidas. nada muito diferente que as provas de idiomas que fiz na vida, entendo 3 palavras e tento inventar uma história pra elas.

 

Foto: Marcos Guiraud.

 

uma mulher troca de roupa. transita entre brasil e espanha, brasil e espanha. colônia, colonizador, colônia, colonizador. que? há um corpo que dança, um corpo que troca de roupa, que corta, que brilha, que presentifica. penso em algumas coisas enquanto a mulher gira-cai-insiste-levanta. há diferença no corpo-espanha e no corpo-brasil? a diferença está apenas nas vestimentas? a vestimenta é corpo? roupa é pele? há diferença no corpo de um povo colonizado e no corpo de um povo colonizador? se quer demarcar essas diferenças? o que é a américa latina? a antropofagia, o que é?

por várias vezes desaprendi a respirar. recupero o fôlego e ela está lá. ela gira, gira, gira, gira. troca de roupa novamente. ela está na espanha? troca de roupa. ainda está lá com outro look? quase nua. está no brasil? não sei muitas coisas, as linhas se borram todas. a isso se dá o nome antropofagia? esse borrão de subjetividades? essas subjetividades que se borram?

uma mulher cai. levanta e gira. cai. levanta e gira. cai, mete os cornos na mesa. a faca estava lá meudeusdocéumeninacuidadocomessafaca! cai, levanta e corta. grita. ri. brilha. gira ao redor das roupas e cai no meio das roupas, as roupas ou seriam peles? deslizam, andam. sujar é também um ato político, me disse uma vez biagio pecorelli. uma mulher-facão-na-bota sai.

e volta. facão também é microfone, ampliador de voz que mesmo sem emitir som diz coisas bem pensadas. aqui se dublam músicas que já não posso recordar. segurando o facão pela lâmina. mari paula é afiada, não teme o corte. ela é a própria vagina ferida tropical. fratura exposta, funda. rasgo.

estou digerindo. outra mulher está digerindo.

 

 

 

Foto: Cayo Vieira.

 

 

 

brenda sodré é áries com ascendente em sagitário, nasceu de cabelo vermelho e com uma hemorragia na cabeça. sua antepassada é a bomba, o projétil, o estilhaço. não sabe outro idioma senão o do fogo e do estalo. está se formando em artes cênicas na faculdade de artes do paraná. é atroz e performer, sua pesquisa atravessa questões de gênero, feminismo e tecnologia.

 

 

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