Tão delicada quanto a faca que penetra a carne do peito

Foto: Elenize Dezgeniski

 

Pego o ônibus no Terminal Guadalupe. A tarifa, uma das mais caras do Brasil: R$4,50. Trinta minutos depois, chego no centro de São José dos Pinhais, cidade da região metropolitana de Curitiba, ex-cidade dormitório cada vez maior e mais movimentada, com sua própria catedral, seu shopping, seus deputados federais e, não por isso, o seu próprio teatro. Vou até o Teatro Sesi, parceria entre o SESI e a Secretaria Municipal da Cultura do município. A noite inspira nostalgias: entre 2004 e 2007, trabalhei durante três anos naquela Secretaria e no Teatro de Bolso Iguaçu, que, após ser reformado, em 2013, deu origem ao Teatro Sesi. Aquelas ruas, aquele calçadão, aquele cemitério vizinho, aquele pátio, aquelas paredes completamente transformadas, tudo tem um ar de familiaridade distante, de pertencimento desatualizado, de rotina abandonada.

Mas agora, é hora de conhecer o teatro já não tão novo: um espaço bonito, aconchegante, não muito grande, com suas poltronas confortáveis e seu teto de madeira. O palco, tradicional em sua disposição fixa e frontal, é pequeno mas funcional, bem equipado e com manutenção cuidadosa. No hall de entrada, uma fila de espectadores (com seus ingressos retirados gratuitamente em mãos) demonstra que há público para teatro apresentado fora do centro da capital, fora dos limites estreitos do circuito cultural oficial(esco) curitibano – limites que muitos artistas ainda não se esforçam em ultrapassar. No entanto, as cerca de quarenta pessoas presentes não são suficientes para lotar os cento e poucos lugares da plateia e, ao mesmo tempo em que fazem valer a pena qualquer iniciativa de programação cultural, também deixam aquela velha pergunta no ar: por que apenas 40 pessoas se dispuseram a ir ao teatro em uma sexta-feira à noite, com entrada gratuita? O que falta para que a população ocupe e habite consistentemente este (e tantos outros) espaço? Não há resposta fácil. O Teatro Sesi coloca São José dos Pinhais no mapa de produção e circulação artística regional e – sua programação comprova isso – nacional. Água mole em pedra dura, este é mais um espaço, esta é mais uma ação, na tentativa de, a partir da arte, estabelecer diálogos e relações duradouras e dinâmicas entre os cidadãos daqui e além. Mesmo que eventual e numericamente tímidos, porém, os resultados são animadores.

E, em cartaz nesta noite, está justamente um espetáculo que realiza um projeto de circulação por diversas cidades da região metropolitana de Curitiba (São José dos Pinhais, Araucária, Colombo, Pinhais e Piraquara), buscando novos públicos, estabelecendo novas conversas. Trata-se de Delicadas Embalagens, da CiaSenhas de Teatro. Não é de hoje o esforço da CiaSenhas em diversificar seus espaços de apresentação e atuação, em criar ambientes e oportunidades descentrados de comunicação com espectadores, artistas, e comunidades outras. Longas temporadas, circulações locais e nacionais, organização de mostras e outros eventos, atividades formativas, discussões e lutas políticas, ingressos acessíveis, tudo isso (e talvez um pouco mais) faz parte do cotidiano deste que é um dos mais atuantes grupos de teatro de Curitiba. Estreado nos idos de 2008, Delicadas Embalagens faz parte deste conjunto de ações, em sua longa e bem sucedida vida de temporadas e viagens. Um espetáculo que insiste em sobreviver, lúcido e vigoroso, a despeito da precariedade das condições materiais e da efemeridade da própria linguagem teatral.

Rever e, depois, escrever sobre Delicadas Embalagens é também, para mim, motivo de outras nostalgias. Convidado por Sueli Araujo, responsável pela dramaturgia e pela direção da peça, participei do processo de ensaios como colaborador, acompanhando a criação dos personagens e da atuação do elenco, a materialização dos cenários e figurinos, a composição da trilha sonora e das sonorizações do espaço, a orquestração da encenação. Incumbido de ser um “olhar de fora” infiltrado no grupo já coeso, tudo ali era novidade e estranheza: era meu primeiro trabalho fora da Companhia Silenciosa, desde a sua formação, em 2002; primeiro trabalho com outros artistas, outras rotinas, outras formas de organização, outros estímulos e conduções da criação. Alegre e animado, no início dos encontros, eu imaginava que iria contribuir com ideias pertinentes e provocações afetuosas, construindo junto o espetáculo. Contudo, o que se consolidou ao longo dos ensaios foi um profundo e angustiado silêncio. Uma mudez maiúscula, robusta e intransponível se fez presente em minha boca e em meu corpo. A mudez frente ao estranho, a mudez frente ao outro, a mudez frente a si mesmo enquanto estrangeiro. Jamais havia ficado mudo em um processo de criação, e, provavelmente, jamais fiquei novamente. E a perplexidade gerada pela inesperada mudez só fazia ainda mais eloquente aquele silêncio. Lembro de dizer para Sueli, após alguns ensaios, que eu não sabia o que fazer, o que dizer. A resposta: eu também não. De certa maneira, a mudez e o não-saber nos unia. A mudez e o não-saber do processo artístico, o pavor brilhante do salto no vazio (que nunca é, de fato, vazio), o pânico perfumado da desterritorialização. Creio que consegui, durante os meses de criação da peça, dar uma ou outra sugestão, tecer um ou outro comentário. Na maior parte do tempo, entretanto, eu era (eu me sentia) uma enigmática e silenciosa presença. Olhar aquele palco, depois de tantos anos, com aquela grama sintética sempre verde e aqueles adereços coloridos, olhar aquele elenco delicioso e ouvir aquele texto sagaz, me jogam novamente nesse estado inexplicável de mudez, de maravilhamento. Permito-me emudecer, e então, agora, garimpo algumas palavras possíveis.

 

Foto: Elenize Dezgeniski

 

Delicadas Embalagens possui uma leveza, uma doçura, uma fofura, uma singeleza que, ironicamente, carregam e expõem as mais pesadas, amargas, ríspidas e complexas situações. Logo de início, a advertência, spoiler impiedoso e metalinguístico que não dá chance de ser evitado: temos uma família formada por pessoas muito jovens, presa em um jardim de grama sintética (100% polietileno); a mãe está morta, suicidou-se na hora do almoço. É a própria dramaturga-encenadora (um pouco tímida, é verdade, quase desconfortável), sentada em uma banqueta na lateral do palco, microfone no pedestal, que fala e interdita qualquer possibilidade de surpresa ingênua, de alienação alucinatória que possa acometer o espectador – seja em relação ao espaço cênico e à estrutura épica do texto, seja em relação à fabula que será contada. O recado está dado, como se dissesse: “Tudo aqui é artificial, tudo aqui é cena inevitável. A historinha é esta. O final é este. E agora, caro espectador, lide com isso!”. Os personagens são apresentados ao público, explicitando suas funções dramatúrgicas, com direito a comentários por parte dos atores (“eu não queria ser o pai”; “eu gosto de ser a mãe”…). O espectador pode não saber, mas esses comentários já estavam presentes desde o início no texto escrito por Sueli. Quem comenta, então, naquele momento? Seria o ator Luiz Bertazzo? Ou seria Bertazzo interpretando um ator que comenta seu personagem? Ou seria Luiz interpretando o ator Bertazzo interpretando um ator que comenta seu personagem? Ou seria Sueli incitando Luiz a interpretar o ator Bertazzo interpretando um ator que comenta seu personagem? Ou seriam todos eles, ao mesmo tempo, em um palimpsesto ficcional?

A ironia hipercolorida-pseudofofa do cenário, dos adereços, do figurino, da sonoplastia e da atuação do elenco serve como isca para convidar e prender o espectador, e também como lastro de segurança que permite que uma história triste e chocante seja contada, e que temas difíceis, delicados (delicadamente embalados) e controversos sejam abordados e compartilhados com todos ali presentes. Dois adolescentes que engravidam aos 15 e aos 16 anos de idade e, obrigados pelas famílias a casar, se vêem diante de obrigações, rotinas e responsabilidades que ultrapassam sua pequena experiência de vida. Duas crianças que mal deixaram de ser crianças, que agora tem que criar outras duas crianças. Não há adultos em cena. E o importante: tal ficção é a realidade de um sem-número de lares e não-lares contemporâneos; a família protagonista da peça não é uma família de exceção. Para além da família-estatística do IBGE, essa família é a minha família, é a família do meu irmão, é a família do meu vizinho, é a família da minha amiga, é a família da conhecida do primo da minha colega de trabalho, é a família que está lá longe, é a família que está aqui perto.

Nesse contexto, testemunhar a ação inesperada e inexplicável de uma mãe suicida é a corolário de toda uma sequência (não linear, sublinhe-se) de fatos inescapáveis, relações enviesadas, expectativas frustradas, desejos silenciados, ímpetos adormecidos, afetos crispados, corpos e sensibilidades amadurecidos à força. Uma mãe suicida é o fracasso da família nuclear heteronormativa perfeita. Uma mãe suicida é o fenecimento daquela ideia de uma mãe-Ave-Maria, de uma mãe-mulher pura e imaculada, que renuncia a si própria para se dedicar ao marido e aos filhos. Uma mãe suicida é um cuspe na cara daqueles que esperam que uma mulher que pariu seja não mais um ser humano, mas um ser-anjo-imortal. Uma mãe suicida diz que, antes de qualquer coisa, aquela mulher é um ser humano, um ser desejante que é capaz de desejar (das mais inumeráveis formas que um desejo pode se mostrar) a própria morte, mesmo que esse desejo (como boa parte dos desejos) não tenha explicação plausível. Uma mãe suicida renuncia à própria vida, mas renuncia também àquele papel mãe-maternal-cuidadora que lhe atribuíam. Uma mãe suicida (se) pergunta: por que não? Uma mãe suicida é, mesmo que não o queira, um curto-circuito irreversível na mente e no coração e no corpo de qualquer filho. Ser filho de uma mãe suicida (mesmo daquelas que nunca se suicidaram, de fato) é uma das experiências mais contundentes e fortes que um filho pode ter. Perceber que você, filhinho querido, não é coisinha-fofa mais importante na vida dela: que o mais importante da vida dela é ela mesma, em seu desejo de vida e/ou de morte. Falo isso por, digamos, experiência própria (e que me perdoem a psicologia barata). Ver o sangue vermelho da mãe jorrar em forma de açucaradas balas de morango jogadas ao alto, é ver o que pode haver de doce na morte. Um doce enjoativo, diabético, triglicerídeo, mas ainda assim doce, sedutor. Um sangue doce embalado em papel vermelho com pintinhas, saído de um baleiro giratório cheio de outros doces que não é nada mais do que o corpo e a realidade edulcorada e vertiginosa daquela mulher e, por extensão, daquele homem e daquelas meninas. Uma mãe suicida é doce? Ou será ácida? É doce.

 

Foto: Elenize Dezgeniski

 

A dramaturgia, a encenação e o trabalho dos atores caminham de mãos dadas, evitando certas linearidades, aceitando o redemoinho semi-repetitivo que o espetáculo exige. Os objetos de plásticos coloridos, as roupas de tecidos em tons pasteis, as músicas brasileiras pop e as microfonações se juntam numa intrincada trama de pequenos acontecimentos, vistos e revistos sob diferentes perspectivas – sob as perspectivas de cada personagem. O espetáculo nasce e vive nessa trama. Luiz Bertazzo é o pai (“Eu não queria ser o pai, porque ele vai se ferrar. Eu tenho dó. Sou muito sentimental.”), com sua voz retumbante, seus cabelos jovens e ligeiramente calvos, sua técnica precisa, visível em todos os seus trabalhos dentro e fora da CiaSenhas. Anne Celli é a filha mais velha (“Eu farei a primogênita do casal. Filha nem criança nem jovem. Linda.”), vívida e auto-confiante, emprestando à personagem uma impáfia misturada com uma timidez quase-pueril que só quem não é mais criança pode ter. Greice Barros é a caçula (“É chato encontrar a própria mãe morta dentro de casa, participar de uma gincana por telefone, tudo isso ao mesmo tempo e no final não dar em nada.”), com seu desprendimento calculado, seus olhos vibrantes e sua voz ágil e convidativa – como de costume, Greice é um dos pontos altos do elenco da CiaSenhas, inteira, presente, e brincalhona: ver a Greice-caçula do espetáculo é como ver a Greice-mãe reverberando em si e para nós a Mainu-filha, numa delicada relação entre afetos tão ficcionais quanto reais. Ciliane Vendruscolo é a mãe (“Eu gosto de ser a mãe mas preferiria começar a história viva.”), espivetada e consciente de si, manejando os elementos e a cena com a tranquilidade de uma atriz sem pudores, Cleyde Yáconis dos pinheirais, de Concórdia para o mundo. Ciliane entrou no elenco de Delicadas Embalagens tardiamente, em 2012, por ocasião da temporada realizada na Mostra de Repertório da CiaSenhas, através de edital da Funarte. Antes disso, e desde a estreia, a dionisíaca Patrícia Saravy era a mãe, conferindo outras matizes à personagem – características que deixaram marcas no espetáculo, principalmente nas relações construídas entre o elenco. Interessante é pensar como uma artista pode entrar em um espetáculo já criado, já arquitetado, já testado e aprovado: a função que poderia ser simples (pegar um personagem já existente e reproduzi-lo) mostra-se perigosa e complexa. Como criar o já criado? Como atuar o já atuado? Como apresentar o já apresentado? Como viver o já vivido? Para Ciliane, cinco anos depois, tal desafio parece não ter sido um problema, mas um estímulo a mais para o trabalho.

Ao final do espetáculo, bater palmas e levantar-se para ovacionar os artistas não é tarefa fácil. Nenhuma reação teatral protocolar é imediata depois da suspensão respiratória suscitada pela obra, em seu rodopio ao redor do corpo da mãe morta. Como no pico de uma montanha ou na janela de um prédio muito alto, onde a beleza da paisagem contrasta com o perigo da queda. Mesmo o final já tradicional e previsível para certas peças contemporâneas não lineares – a volta e a repetição do começo, marcando o tempo multicíclico da encenação – é capaz de amenizar essa falta de ar. A faca que corta os bifes para o almoço não adentra apenas o peito da mãe: ela desliza e perfura também o peito da plateia. Não há respiração que resista ao fio doce de uma faca curiosa.

Com uma montagem relativamente antiga (e lá se vão quase nove anos de estrada), a CiaSenhas reafirma sua vitalidade, sua pertinência. Conectada com o seu contexto e viva como ele, a obra do grupo sediado na emblemática e indomável rua São Francisco é uma obra que sobrevive e permanece, envelhecendo junto com sua plateia, amadurecendo junto com seus criadores. Delicadas Embalagens é uma das muitas ações da companhia, compondo uma rede de atuação artístico-política que ultrapassa as paredes e as poltronas de qualquer auditório. A efemeridade do teatro se pontencializa na dinamicidade de artistas que não se contentam com o óbvio e o dado, e que lutam e resistem. A região metropolitana de Curitiba tem, agora, a oportunidade e o prazer de participar dessa pequena resistência, contribuindo com suas próprias respostas e indagações. A resistência pode estar e estará em toda parte. E, muito provavelmente, não será televisionada. Para isso temos – dentre outras coisas tão efêmeras quanto – o teatro.

 

Foto: Elenize Dezgeniski

 

Ficha técnica do espetáculo.

Texto e direção: Sueli Araujo
Atores: Anne Celli, Ciliane Vendruscolo, Greice Barros, Luiz Bertazzo, Sueli Araujo
Direção de Movimento e Preparação Corporal: Cinthia Kunifas
Composição Musical e Sonoplastia: Ary Giordani, Luiz Otávio
Cenário: Alfredo Gomes
Figurino: Amabilis de Jesus
Iluminação: Wagner Corrêa
Oficinas (Formação de Plateia): Rafael di Lari
Direção de Produção e Maquiagem: Marcia Moraes
Produção Executiva: Edran Mariano
Assistente de Produção: Mariana Freitas
Designer Gráfica: Adriana Alegria
Assessoria de Imprensa: Fernando de Proença
Divulgação (material gráfico): Tia Cica e Tia Dida
Redes Sociais: Felipe Gollnick
Fotografia: Elenize Dezgeniski
Assessoria Financeira: Pier Arte e Cultura
Realização: CiaSenhas de Teatro

Sobre a CiaSenhas de Teatro

Sobre o Teatro Sesi #01

Sobre o Teatro Sesi #02

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Henrique Saidel

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Henrique Saidel é diretor de teatro, performer, produtor, curador, pesquisador e colecionador de brinquedos.