Teatro para crianças estranhas

Esse texto é o registro de uma fala, proferida por Francisco Mallmann, no dia 03 de maio de 2017, no Teatro do Colégio Marista Santa Maria, onde estudou a vida toda. O convite, feito por Maíra Godoy, foi para integrar uma mesa sobre “A importância do ensino de teatro em escolas”, da qual também participaram Marina Machado, Fátima Ortiz, Cristóvão de Oliveira, Jully Mar Koesler e Silvia Serbena. 

Obra de Carl Köhler, intitulada Theatre Bodies, de 1990

Falo sobre a importância do ensino do teatro em escolas, a partir de um lugar extremamente pessoal, talvez até um pouco egoísta, porque sei que ele pode não refletir e nem contemplar a mais ninguém que não eu. Falo sobre a minha experiência acreditando que, talvez, não devesse falar só de mim.

Talvez eu devesse falar sobre a importância do teatro a partir de outra perspectiva, especialmente agora, no momento em que há um desmonte generalizado ocorrendo no Brasil, no que diz respeito a educação e a escolarização das próximas gerações. Eu deveria falar sobre a arte, e, portanto, também sobre o teatro, como a possibilidade de manutenção de um futuro possível quando as nossas disciplinas, arte, filosofia e afins, correm o risco de ser uma velha lembrança que vai deixar de fazer sentido em um horizonte técnico, burocrático e desinteressado nas relações criativas e artísticas que podem surgir entre nós. Vivemos em um momento e em um contexto em que somos obrigados a sempre lembrar porque a educação e a arte importam. E isso é muito problemático, que precisemos explicar porque alguém deve ter direito a educação e, com isso, também a um pensamento artístico/criativo. É um forte indício de que não estamos fazendo as coisas muito bem, quando precisamos explicar porque nós temos direito a ter uma subjetividade esperançosa e imaginativa, e o porque de querermos ser emancipados intelectualmente. 

Eu deveria falar sobre como o teatro surge enquanto a possibilidade de vislumbrar outras formas de vida e da importância que isso tem, quando se está insatisfeito com o que acontece ao redor. Eu talvez devesse lembrar aqui a importância do teatro em momentos históricos decisivos para a continuidade do que temos chamado humanidade, sobre a responsabilidade que o teatro tem de criticar quem quer que seja, independente dos lados, posições e/ou inclinações. Talvez eu devesse falar sobre ditadura militar, sobre golpes, sobre genocídios, sobre o fim da aposentadoria, sobre a corrupção sistêmica, ou sobre os índios que agora, exatamente agora, continuam sendo mortos no país que chamamos de nosso. Talvez eu devesse falar sobre o teatro a partir da sensibilidade humana, do modo como transformando nosso olhar ele se torna potencialmente uma ótima ferramenta para mudar o mundo, em pequenas proporções, que seja. A importância do teatro é contra o embrutecimento da nossa sensibilidade e a favor de um terreno que restaure sempre a dinâmica democrática em todas as instâncias das nossas interações.

Mas é outro o meu discurso, agora, hoje.  Falo sobre a importância do ensino do teatro em escolas, aqui nesse lugar que foi onde estudei a minha vida inteira, e que foi, ao mesmo tempo, extremamente bom e ruim para mim. Acho que eu falo, no fim das contas, sobre o modo como o teatro salvou a minha vida, efetivamente, durante todos os anos em que vida significava vida escolar.

Antes de falar sobre o teatro na escola, eu acho importante que falemos sobre a escola, que para realidades parecidas com a minha, significa o lugar em que a criança ou o jovem passa muito tempo até entrar na Universidade. É quase uma segunda casa. Nesse sentido, eu gostaria de levantar um ponto específico: o modo como a escola trata e vem tratando o estranho, o desajustado, o que foge à regra, aquela criança que por algum motivo, foge à norma – que, aliás, é muito restrita. E são muitas as formas em que é possível fugir à norma, nós sabemos, e também sabemos, ou acho que sabemos, que fugir a norma não significa ser ruim, ser problemático, ser um peso. Significa ser diferente, habitar, transitar, vivenciar o espaço de outros jeitos – e é sobre essas diferenças que precisamos falar.    

Eu sempre me pergunto como um colégio tal qual esse, enorme, com estruturas gigantescas, lida com as crianças ditas estranhas. Não sei como é hoje, mas eu lembro como lidou com a criança estranha que eu fui. E nem sempre foi muito bom.

Acho que hoje existem nomes específicos para quando se reprime, oprime, ofende e se machuca emocional, física e psicologicamente uma criança e depois um jovem. Eu me preocupo especialmente com essas crianças e jovens, é nelas que eu mais penso, é especialmente para elas que eu falo agora. 

Porque pensando nelas eu acredito pensar em um ambiente saudável de desenvolvimento garantido para todas. Eu penso em como permitir com que a criatividade humana seja plenamente exercitada desde a mais tenra idade, bastante lúcido sobre o quão privilegiado pode soar esse discurso. De que modo educar e formar crianças e jovens sensíveis para um mundo tão indiferente?, eu pergunto.  Eu começaria respondendo com a arte, o teatro – é aqui, é claro, que tudo se complexifica em mil outros assuntos, que passam pelo acesso, pela oportunidade, por classe, cor, etc. 

Isso porque, preciso dizer,  me refugiei nesse teatro, fiz dele um lugar seguro. Eu vinha para cá quando eu descobria que crianças podem sim ser extremamente violentas umas com as outras, que crianças reproduzem violências que elas não aprendem sozinhas, que há um sistema muito labiríntico, que não sabe lidar nem com a criança que se torna violenta e nem com a criança que é, por alguma razão, constrangida. Aqui, nesse lugar, vendo e fazendo arte, teatro, música, dança, eu entendi que precisamos operar, urgentemente, de modos muito mais amplos e abrangentes do que a polaridade existente em ser bom/ruim, bonito/feio, menino/menina, pai/mãe, etc. Existem muitas possibilidades e jeitos de se viver, alheios à normatividades, e isso foi o teatro, e só ele, quem me ensinou.  

Hoje eu penso em como esse colégio, a arte que eu fiz aqui e algumas pessoas que aqui estavam na época, influenciaram todas as coisas que eu fiz depois de sair daqui: eu viajei para muito longe, eu me formei em jornalismo, eu me formei em artes cênicas, eu me especializei em antropologia, e atualmente eu sou mestrando em filosofia, eu escrevo peças e poesias, eu integro um espaço artístico independente, eu faço críticas de teatro, eu sou artista, aprendi a me entender como um.

E é quase um risco se dizer artista – e bem por isso tenho achado importante. Ano passado mesmo, os artistas estavam na mira de uma sociedade raivosa e de um aparelho sofisticado, perigoso e multimidiático que os estava pintando como preguiçosos e desonestos, vocês devem ter acompanhado, as discussões envolvendo a Lei Rouanet e a quase-extinsão do Ministério da Cultura. E isso é e era mentira. Porque ser artista, e ser artista de teatro no Brasil é muito mais do que ser de uma trupe de enlouquecidos ou ser artista da teledramaturgia. Ser artista de teatro no Brasil é fazer arte com mil pretensões-outras, tantas pretensões quanto possível. Do lugar da onde eu vejo, ser artista no Brasil é querer viver em outro país-Brasil, apostando muito no que poderíamos ser, é acreditar profundamente nas pessoas. É extremamente utópico ser artista de teatro por aqui, as coisas são precárias, e ser artista de teatro no Brasil, para mim, é sobre querer instaurar o respeito, a gentileza e a atenção em todas as relações possíveis, é uma grande manifestação contra o egoísmo, o individualismo e a solidão. É a possibilidade de se vislumbrar um mundo ético e me parece que é também esse o papel da educação e da escola. Formar para a vida, como era ou é uma das missões desse Colégio.

A importância do ensino do teatro em escolas ,que é o tema dessa mesa e o tema no qual eu deveria ter me concentrado, é sobre a importância da sustentação do humano em escolas e fora delas (pode ser muito estranho usar o termo “humano”, é verdade, mas penso-o muito próximo de uma ideia, talvez gasta, de “compreensão”). É sobre encontros que podemos ter, para além das nossas bolhas, das nossas grades e prisões, que são muitas. E é também sobre simplicidade, sobre se permitir se colocar em frente a outra pessoa, sem ambições e expectativas. Ensinar teatro em escolas, para mim, é nadar contra a corrente em um momento em que estamos acompanhando o bombardeio literal de notícias não tão boas. Ensinar teatro em escolas é fazer com que as pessoas possam se deparar com versões melhores delas mesmas, é ao mesmo tempo, fortalecer e também criar aberturas. Ensinar teatro é também ensinar a se comunicar, falar e ser ouvido, conversar. E atualmente isso me parece cada vez mais raro, poder falar, poder ouvir, poder ser ouvido, com calma.  

Ainda que o teatro assuma contornos lúdicos, sobre fantasia e entretenimento, é sempre sobre as possibilidades do que podemos vir a ser, do coletivo, da cidade, do país, do mundo que podemos vir a integrar. Fazer com que nos encontremos em atividade/experiência teatral é, para mim, instaurar a justiça entre nós, uma justiça que existe não porque existem leis, policiais e políticos que nos reprovam e não nos representam – mas porque nós existimos por nós, em relação de interdependência, uns para os outros e, me parece, precisamos e precisaremos continuar a dar conta disso. De algum jeito. O meu é o teatro.

Compartilhe:

Francisco Mallmann

Ver posts de Francisco Mallmann
Francisco Mallmann é dramaturgo, performer, crítico e pesquisador.