Uma carta Pirata para Victor Hugo, Samara e Mariana.

Curitiba, 22 de fevereiro de 2019. 
 
Vitinho,
 
Que desafio escrever a partir de teu solo “Pirataria”¹. Não quero escrever sobre. Essa preposição me assusta. Não quero estar por cima. Quero estar a partir.
Partida.
Que essa carta seja um parto, um roubo, uma falha, uma dublagem, uma pirataria.
 
Eu li certa vez, num texto da Cristine Greiner, que quando olhamos para um quadro, pouco importa o tema, o que buscamos numa obra é um corpo.
Poderia falar aqui do que transborda tematicamente do teu trabalho, mas o que meus olhos viram foi seu corpo rodeando esse espaço chamado teatro.
Teu corpo dubla violências, destroça poses, cai e quica. Teu corpo não pede licença, não finge presença. É corpo viado, coxa dura, bunda gostosa, é preto e glitter.
Teu corpo são corpos, alguns mortos, corpo que fala por tantas que foram assassinadas. Teu corpo se vinga?
Vitinho, eu também quebraria as quartas paredes do teatro contigo. Como fazemos?
 
  
Bicha, roubaram a tua bolsa no meio da cena. Não fui eu, embora pudesse fazê-lo. Apenas quem esteve ali presente, com você, pode entender, que algo ali foi roubado.
Bicha, você está em um outro tempo.
Você fala de um futuro, e parece que de onde você vem só tem sapatão².youtube.com/watch
 
 
Olhei para teus pés, ali caídos no chão de linólio e tuas unhas, essa estrutura feita de queratina, presente em grande parte dos animais vertebrados, estava rosa – choque.
 
 
Voltando para minha casa, comecei a pensar sobre a função de nossas unhas, essa extensão de pele que serve para agarrar alimentos, cavar buracos, absorver impactos ou como simples defesa.
As suas unhas rosa choque dançam vogue.
Dança criada pelas gays pretas nos EUA e que você reinventa no seu corpo, na nossa década, no nosso país.
 
 
Você diz em cena; ” Eu senti medo por muito tempo. A sua estratégia é velha! Eu não caio mais nessa. Eu quero usar os meus privilégios com sabedoria. Onde vamos investir nossas forças e energias? Eu volto a minha energia para a raiva. Nossa guerra não termina aqui”
 
 
O Supremo Tribunal de Justiça Brasileira enquadra como crime o ato de praticar pirataria (venda de cd’s e dvd’s falsificados). Esse crime deve ser enquadrado em violação de direito autoral e está previsto no artigo 184, parágrafo segundo do Código Penal Brasileiro.
Hoje, enquanto escrevo esse texto, atos de transfobia e homofobia NÃO SÃO AINDA CONSIDERADOS E JULGADOS COMO CRIMES.
 
 
Podemos matar bichas, travestis e sapatões. Podemos filmá-las sendo espancadas, sendo arrastadas. Podemos criar filmes com esse material audiovisual, mas de jeito nenhum podemos vendê-los  sem que seus direitos autorais sejam devidamente pagos.
 
 
Vitinho, você tem medo do que?
 
 
(e essa foi tua resposta por whatsapp às 16h20)
 
 
“Amiga, eu realmente fui hackeada e tive uma sextape vazada no começo de 2017. Tive medo de falar sobre isso, medo de falar sobre o colorismo, de me assumir como uma identidade negra”
 
 
Você fala sobre não sair do país. Sobre sair do país. Você vai sair do país?
Para quem você fala?
Não. não quero sair do país agora. Não é sobre não poder.
É sobre desejo.
É sobre nossa libido.
É sobre o controle de nossos corpos.
 
 
Numa entrevista, Foucault comenta que o que assusta “eles” não é tanto o fato dos gays serem sodomizados, o que os incomoda realmente é a alegria dos corpos gays e a possibilidade de um amor entre dois homens.
 
Mas não falemos sobre “eles”.
 
 
Falemos e pensemos no corpo de Samara, que tem 14 anos se estivesse viva, mas que morreu aos 13. Do corpo da Mariana, que sumiu sem deixar vestígios. Do corpo da Maria, minha aluna transexual, professora de inglês do ensino público, que é insultada todo dia em sala de aula.
A gargalhada da Maria é estrondosa.
É um trovão-raio-Iansã.
Que sua gargalhada nos proteja!
 
 
Ou como você nos diz:
 
 
“Eu não posso e não tenho o privilégio de sentir medo.
Precisamos garantir a nossa sustentabilidade.
Eles querem que tenhamos medo,
A cultura do medo não nos ajuda em nada.
É uma questão de estratégia.
Onde vamos investir nossas forças e energias?
Nossa guerra não termina aqui.
A luta não começou agora.
Começou antes de mim, é uma luta ancestral.”
 
 foto Elenize Dezgeniski
 
 
 
¹ Pirataria foi apresentado no Teatro José Maria Santos em Curitiba-PR, dentro do projeto Habitat 5 solos/estudos sobre o corpo como casa da Súbita Companhia de Teatro.
 
² Em referência à música/composição das Horrorosas Desprezíveis, composta por Amira Massabki, Jo Mistinguett e Patricia Cipriano.
 
 
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Ronie Rodrigues

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Ronie Rodrigues é artista da dança e transita (promiscuamente) por diversas linguagens e lugares.